Inovação e excelência

Dad Squarisi (*)

Estudante 1A fila anda. Com ela, a sociedade muda. O que era deixou de ser. Deu lugar a transformações na cultura nacional. Uma das mais importantes: a certeza de que o Estado não dá conta das obrigações. Seja por incompetência, seja por falta de compromisso, o grande pai falhou. A escola não ensina. A saúde não cura. A segurança assusta. O transporte abandona passageiros no caminho.

Desde Pedro Álvares Cabral, os pobres pagam a conta do descaso. O cobrador bate à porta de favelas e moradores de bairros distantes. Com a rápida e bagunçada urbanização, os excluídos exigiram inclusão. Sem planejamento, o país fez o que sempre faz: deu um jeitinho. A resposta ao improviso foi a piora de tudo – a degradação do equipamento urbano e a manutenção de bolsões de esquecidos de Deus e dos homens.

Estudante 2E daí? Na certeza de que quem espera nunca alcança, ONGs e empresas conscientes da responsabilidade social decidiram fazer sua parte. Apoiam ou patrocinam projetos aptos a responder a urgências sociais. É o caso da C&A, da Natura, da Telefónica, do Grupo Votorantim, do Correio Braziliense & cia do bem. A tecnologia, claro, figura entre os principais fatores de mudanças.

Semana passada, seminário internacional reuniu em Florianópolis especialistas de diferentes grupos que discutiram o papel da tecnologia para a transformação social. Um ponto chamou a atenção: embora seja um dos países mais conectados do mundo, o Brasil figura na rabeira da inovação. A tecnologia pouco impacta escolas de todos os níveis de ensino.

ExameNão por acaso, lideram o ranking os primeirões do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) – Cingapura, China, Japão, Finlândia. Significa que colhe os frutos da inovação quem tem ensino de qualidade. Não é o nosso caso. Ainda marcamos passo em leitura, matemática e ciências. Obrigamos os estudantes a olhar para trás em vez de desafiá-los a buscar respostas para os desafios da contemporaneidade.

Educação de excelência, que pressupõe professores, currículo, material e instalações físicas de ponta, figura em discursos políticos. Palavras bonitas soam bem, mas são incapazes de, sozinhas, se transformarem em ação. Precisam da mobilização social. O cidadão tem de exigir um futuro moderno para filhos e netos. Escolas do século 19, professores do século 20 e alunos do século 21 não falam a mesma língua.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Interligne 18bObs. deste blogueiro
PISA é acrônimo da expressão inglesa Program for International Student Assessment. A fim de conservar a sigla, os espertos franceses torceram a língua e traduziram: Programme International pour le Suivi des Acquis. Em português – ao pé da letra – fica meio esquisito: Programa Internacional para Seguimento do Adquirido.

O coqueiro e a ladeira

José Horta Manzano

A distinta e fiel leitora Michèle fez um comentário muito pertinente no post Falam de nós – 1, publicado em 3 nov°. Achei que a resposta podia interessar outros leitores, eis por que ela está aqui a seguir.

Interligne vertical 16 3KbCompreendo seu desconcerto, Michèle, que é o de tanta gente. Também eu me sinto desarmado. Mas deixe estar, que tudo o que sobe acaba descendo um dia. E, como todos sabem, mais alto é o coqueiro, maior é o tombo.

Coqueiro 1Há duas maneiras de afastar esse cálice amargo de nossa boca e de arredar do andar de cima essa gente que nunca deveria ter lá entrado. Uma das soluções é mais demorada; a outra, bem mais rápida.

O caminho demorado é dar instrução ao povo. É radical, só que, pra chegar lá, precisa primeiro investir e, em seguida, esperar uns vinte anos. Nossa elite governante não tem tempo nem vontade de se dedicar a civilizar os mais carentes. Portanto, essa ruela é sem saída.

Sobra a solução rápida. E ela já está a caminho. Se estivéssemos no século XIX, diríamos que ela «vem a cavalo». Nos anos cinquenta, a expressão era «vem vindo a jacto». Sabe o que é, Michèle? Pois é a economia.

A dor mais doída que se pode impor a um povo é a dor de bolso. Você, que é muito jovem, não conheceu os tempos da hiperinflação. Era um terror. Os preços dobravam a cada mês. Ninguém mais tinha ideia do valor de objeto nenhum. Se lhe cobrassem 10, 15, 20 ou 25 por um produto qualquer, dava no mesmo. A gente sequer sabia qual seria o salário no fim do mês – os reajustes eram mensais. Não dava pra fazer conta, nem previsão. Loucura maior seria comprar a prestação. Era desespero total.

Se o Collor foi despachado de volta pras Alagoas, 20 anos atrás, foi em grande parte por causa do vendaval econômico que varria o País. Somente a estabilidade permitiu que um FHC e um Luiz Inácio governassem com relativa tranquilidade. Para os mais jovens, parece que é ponto pacífico, que sempre foi assim. Não foi, acredite. O Plano Real foi uma conquista histórica e trouxe um bem-estar com que nós, os mais antigos, nem sonhávamos. Esse foi, sim, o grande salto em direção ao Primeiro Mundo.

Crédito: Baixaki

Crédito: Baixaki

Hoje, pelo andar da carruagem, estamos descendo a ladeira, veja só. A inflação de volta, preços subindo, indústrias fechando. A China – nosso principal mercado(!) – andando em marcha reduzida. A Argentina às portas da falência e a Venezuela em perdição. No governo, a roubalheira corroendo o que resta. A dívida pública engordando. A marca Brasil perdendo prestígio e caindo em descrédito perante o resto do mundo. Todos os indicadores estão no vermelho e apontam para baixo.

Não vai demorar muito. O fruto vai cair de podre. Como? Não sei, que não tenho bola de cristal. Aliás, acho que ninguém sabe direito como vai ser. Mas a coisa não pode – e não vai – continuar assim mais muito tempo. A má gestão, quando ataca a economia, afeta a todos, ricos, pobres e remediados.

Abraço a você. E obrigado pela fidelidade.

Interligne 18c

Já ensinava o velho Lucius Annæus Seneca, filósofo e estadista romano, em suas Epístolas Morais a Lucílio:

«Multos fortuna liberat pœna, metu neminem»
«A sorte livra muitos do castigo, mas não do medo»

Diplomacia chinfrim

José Horta Manzano

A economia brasileira e a importância do País no tabuleiro internacional vêm-se deteriorando ano após ano. Analistas concordam. O distinto público, no entanto, nem sempre se dá conta do peso que nossa diplomacia representa nesse processo. Pelas escolhas que fez de seguir certos caminhos e esquivar-se de outros.

Aquarela do artista inglês William Smyth Porto do Rio de Janeiro visto de um navio - 1832

Aquarela do artista inglês William Smyth
Porto do Rio de Janeiro visto de um navio – 1832

O caráter fechado da economia brasileira já vem de tempos coloniais. Durante os trezentos anos seguintes ao descobrimento, navios estrangeiros estavam proibidos de atracar em portos brasileiros. Só receberam autorização depois da chegada de D. João VI, em 1808. E olhe lá: os portos só foram abertos porque a corte, que tinha vindo a contragosto fugindo das tropas de Napoleão, sentia falta de bens e mercadorias que não encontravam na carente colônia.

O governo Collor ensaiou tímida abertura. Os dez anos que se seguiram foram promissores. Parecia que nosso País, finalmente, despertava, pronto a ingressar no bazar mundial. E olhe que o momento era favorável, pouco antes do crescimento exponencial da China, quando ainda havia nichos de mercado por conquistar.

by Ernani Diniz Lucas, desenhista mineiro

by Ernani Diniz Lucas, desenhista mineiro

Isso foi até 2003, 2004. Já em meados do primeiro ano de governo do Lula, nosso País deu mostra de desinteresse por trocas internacionais. Inventou uma bobagem chamada Sul-Sul, uma espécie de clube dos pobres – que ideia insana… A formulação da política comercial externa apoiou-se no conceito dos «gigantes nacionais», deu corda (e dinheiro) aos eikes da vida e descansou. Deu no que deu.

E pensar que o governo companheiro tinha certeza de que, gigante por natureza, essepaiz seria forçosamente reconhecido como líder natural da região e, por consequência, como potência planetária. Assim, por inércia, sem mais nem menos, como se evidente fosse, à força de propaganda. Imaginaram que pudéssemos chegar lá por obra e graça do divino, não obstante tremenda desigualdade social, falta de poderio militar, PIB per capita subdesenvolvido e população semiletrada e inculta.

Sob a influência nefasta de um certo senhor Garcia, há doze anos eminência parda de nossa política externa, renegamos a imagem que havíamos levado séculos para forjar. O país cordial, acolhedor, pacífico, tolerante, simpático e esperançoso escorreu pelo ralo. Em seu lugar, surgir um Brasil esquisito, defensor de ditaduras sanguinárias, simpático a revoluções protagonizadas por narcotraficantes, amigo de regimes que apedrejam mulheres, deferente a sistemas autoritários – um Brasil que acolhe condenados pela justiça e repele perseguidos políticos.

É frustrante constatar que, em consequência de opções ideológicas empacadas num mundo que já acabou, nosso País se tenha apequenado. Nossa economia avassalou-se à China e atrelou-se às diretivas de Pequim. O Mercosul, criado para ser o motor de nossa inserção no circuito comercial planetário, tornou-se tribuna política onde tiranetes e postulantes se reúnem para maldizer os loiros de olhos azuis. Uma tristeza. A gente se pergunta como é possível ser tão dogmático e tão primitivo.

Dilma e Garcia 2O Estadão de 17 out° publicou uma comparação interessante entre duas visões da diplomacia política e comercial brasileira. O diplomata de carreira Rubens Barbosa e o «assessor» Garcia revelam suas convicções. O senhor Barbosa foi embaixador em Londres (1994-1999) e em Washington (1999-2004), o topo da carreira, sonho de todo diplomata brasileiro. O senhor Garcia, como já mencionei, é a eminência parda por detrás do desastre diplomático brasileiro destes últimos doze anos.

Se tiver curiosidade de ler o artigo do Estadão, clique aqui. Se você tiver mais o que fazer, tem problema não. Basta saber que Barbosa é artífice do projeto de Aécio Neves para o Itamaraty. E que Garcia está há 12 anos por detrás das decisões diplomáticas do Brasil e tudo indica que continuará lá em caso de vitória de dona Dilma.

Você escolhe.

Mercosul imprescindível

José Horta Manzano

A editoria de arte da Folha de São Paulo produziu um diagrama sobre as importações que a Argentina tem feito, nos últimos dez anos, de produtos brasileiros e de produtos chineses.

Mercosul 3Salta aos olhos o declínio ― a degringolada! ― da importância dada pelos importadores argentinos ao produto brasileiro. No ritmo atual, bastarão poucos anos para que a China ultrapasse o Brasil como maior fornecedor do país hermano.

Cupula Mercosul

Fica mais uma vez escancarada a evidência. Uma nação não tem amigos, tem parceiros. A China tem sabido lidar com a Argentina, sem afagos, sem tapinha nas costas, sem subserviência.

Talvez fosse uma boa ideia o Itamaraty mandar estagiários a Pequim para aprender como funciona a diplomacia comercial laica, sem amarras ideológicas.

Uma outra ideia, talvez ainda mais coerente, seria convidar a China para ser membro do Mercosul. Aí, a coisa ia.

Para redourar a imagem

José Horta Manzano

Precisa ser muito caradura. Um correspondente do Estadão nos informa que o Brasil está para apresentar, ao plenário da ONU, proposta de combate à impunidade de crimes contra a imprensa e contra a liberdade de expressão.

Anúncio 1Logo o Brasil, quem diria! E pensar que, em assuntos de reprimir a livre expressão de ideias, nosso País poderia dar aulas a qualquer principiante.

Quem não se lembra do caso do jornalista americano Larry Rohter? Em 2004, era correspondente no Brasil do New York Times. Foi ameaçado de expulsão do País por ter ousado pôr no papel o que todos já sabiam: que o Lula, então presidente da República, era forte apreciador de uma branquinha.

Quem já se esqueceu da Operação Boi Barrica? Era investigação sobre os ‘malfeitos’ do filho de José Sarney, suspeito de ter sacado ― sabe-se lá de onde ― 2 milhões de reais em dinheiro vivo para financiar a campanha da irmã Roseana. Uma decisão judicial cassou ao jornal Estadão o direito de publicar uma linha sequer sobre o assunto. Faz mais de cinco anos que a mordaça continua atada.

E aquele banco que, pressionado pelo Planalto, teve recentemente de demitir uma penca de analistas financeiros que haviam recomendado cautela a seus clientes, diante das perspectivas econômicas nacionais? Se isso não for cerceamento da liberdade de opinião, o que será?

Jornal 1Quem se lembra de ter passado alguns dias, nem que fosse uma semaninha só, sem ouvir declaração de um sempre furibundo Lula acusando a imprensa de todos os males? Para ele e para seus áulicos ― incluindo a atual presidente da República ―, imprensa boa é aquela que proclama o lado bom do governo e cala sobre o que não convém publicar. Mídia que conta as coisas como são é golpista e preconceituosa.

Depois de passar 12 anos pressionando a mídia, vem agora o governo brasileiro propor ao mundo a proteção da liberdade de expressão? É como se a China propusesse a proibição do ‘dumping’. Ou se a Argentina patrocinasse a publicação de estatísticas transparentes. Ou se Cuba lutasse pela adoção planetária do princípio da livre circulação dos indivíduos.

Francamente, tem gente que não teme o ridículo.

A China e o macaco gaúcho

José Horta Manzano

Justiça

Justiça

Na China, a família do condenado à pena capital tem de pagar ao governo pela bala utilizada na execução. Era assim, não sei se a prática continua. Talvez estejam cobrando com desconto ― na «potência oriental» tudo se costuma negociar.

Quis mencionar esse estranho costume para embasar o que vem a seguir. A aplicação da pena capital é resquício de barbárie que perdura em certas regiões. Além de ser punição de arrepiar qualquer cristão, tem um defeito: é irreparável. Seu risco maior é o de servir de ponto final a um erro judiciário. Uma vez executada a sentença, não há volta possível. A descoberta tardia de que o culpado não era bem aquele só pode render um inócuo pedido de desculpa. Nada trará o defunto de volta.

Se a pena capital já causa horror, a cobrança feita à família do condenado chinês ultrapassa os limites do suportável. Pelo menos, em nossa maneira de enxergar o mundo. Com efeito, um dos princípios basilares de nosso Direito é a individualidade da culpa. Não se pode exigir de ninguém que pague pelo crime de um outro. Cada um é responsável por seus próprios atos.

Macaco 1Já comentei neste espaço, faz alguns dias, o caso daquela moça que chamou de macaco um jogador do time adversário, insulto que se transformou em comoção nacional. Levada à Justiça, a causa teve desdobramentos rápidos e pesados.

Começo por aplaudir a rapidez da decisão judicial. Habituados que estamos a ver processos se arrastando por anos, resta-nos saudar a diligência do Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Isso dito, a decisão, em si, me deixa pensativo. Mais que isso, preocupado.

Enquanto a xingadora foi banida de estádio por dois anos ― pena relativamente leve ― a mão da justiça foi particularmente pesada para com os outros atores da cena. Árbitro e bandeirinhas ficaram proibidos de atuar por várias semanas e ainda terão de pagar multa. E o clube da moça impudente ― o Grêmio, do Rio Grande ― levou a bofetada maior: foi excluído do campeonato em que atua, a Copa do Brasil. O castigo é encorpado.

Que a moça seja castigada, estou plenamente de acordo. Infringido o regulamento e apanhado o culpado, não tem jeito, tem de responder pelo delito. Já a extensão da punição ao clube é, a meu ver, discutível. A agremiação não tem como exercer controle sobre seus aficionados. Na medida que são maiores e vacinados, os torcedores são os únicos responsáveis por suas ações.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Esse tipo de punição em que Benedito pode ser condenado pelo crime de Sebastião exala um desagradável perfume de justiça chinesa.

Pior que isso, abre a porta para malandragem grossa. Indivíduos mal-intencionados podem perfeitamente se infiltrar na torcida do time adverso para provocar, por meio de baderna, apupo ou ofensa, o rebaixamento da equipe rival. Ou não?

Não me esqueçam!

José Horta Manzano

O senhor Julian Assange, nome meio esquecido ultimamente, está mofando há dois anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres.

by Patricia Storms, desenhista canadense

by Patricia Storms, desenhista canadense

Sabe-se lá por que razão, o gajo decidiu um dia subir ao telhado e gritar ao mundo o que o mundo já sabia. Contou que agências americanas bisbilhotavam a vida e a obra de gente importante e de empresas relevantes. Por malícia ou por ignorância, nada disse sobre agências de outros países.

O primeiro caso de espionagem se deu quando um agrupamento de neandertais sofreu a primeira cisão, indo cada subgrupo morar em caverna própria. A partir do dia seguinte, cada grupo designou emissário para, discretamente, inteirar-se do que estava acontecendo na caverna rival.

E assim continua até hoje. Todos espionam todos. Marido e mulher, pais e filhos, chefes e subordinados, bandoleiros, seitas religiosas, partidos políticos. E, com maior razão, países. Democráticos, comunistas, fascistas, autoritários, liberais, republicanos, monárquicos ― todos os países se espionam entre si. Na medida dos interesses de cada um e, é claro, de suas possibilidades.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

É altamente improvável que agências americanas sejam as únicas interessadas em abelhudar altas esferas brasileiras. Não precisa ser formado em contraespionagem para imaginar que russos, chineses, argentinos, britânicos, alemães, franceses também tentem colher informações sobre o que se passa em Tupiniquínia.

Bom, eu disse tudo isso para reafirmar que, ao dar com a língua nos dentes, o senhor Assange não disse nada de extraordinário. Todos fizeram cara de espanto e ar de melindre, mas era ― ou deveria ter sido… ― só pra inglês ver.

Depois de dois anos sem botar o nariz fora do imóvel onde se encontra, é compreensível que Assange esteja à beira de um ataque de nervos. Como bom súdito da Coroa, ele sabe que as autoridades britânicas não costumam largar o osso. Uma vez que decidiram negar-lhe salvo-conduto e vigiar a saída da embaixada 24 horas por dia, irão até o fim.

Outro dia, o refugiado bateu um papo telefônico com um jornalista do Estadão. Percebendo que, no Brasil, alguns ainda se lembram dele, decidiu requentar o prato já servido dois anos atrás.

Para botar medo nas autoridades brasileiras ― e tentar, quem sabe, cavar uma oferta de asilo ―, ressaltou o fato de que «os EUA são capazes de cortar o Brasil do resto do mundo em qualquer momento que queiram». É grande o risco de sua advertência cair em ouvidos de mercador.

EspiãoEm primeiro lugar, porque é de conhecimento geral que o grosso das telecomunicações planetárias transita pelos Estados Unidos. Assim é e assim continuará a ser. Não faz sentido instalar centenas de cabos submarinos para ligar o Brasil diretamente a cada país.

Em segundo lugar, porque o refugiado agita espantalho na hora errada. Período eleitoral não é momento adequado para esse tipo de polêmica.

Em terceiro lugar, vem a razão mais importante. O Brasil não precisa de interferência dos EUA para desligar-se do mundo. Nosso governo federal, com a inestimável ajuda dos aspones que cuidam de nossa diplomacia, já está cuidando, faz anos, de apequenar nossa importância na cena planetária. Mais alguns anos, conseguirão.

Thank you anyway, Mr. Assange. Valeu!

Frase do dia — 167

«Com os EUA desinteressados e demonizados e o Brasil envolto em seus próprios dilemas, a Argentina é cada vez mais atraída ao campo gravitacional chinês.»

Marcos Troyjo, economista, em sua coluna da Folha de São Paulo, 8 ago 2014.

Ser grandão tem suas vantagens

José Horta Manzano

Dizem que o Brasil não é para principiantes. É verdade, mas não é o único país nessa categoria. Outros lugares do planeta também são bastante complicados. Quando se espatifou, a URSS deixou despojos. São terreno minado.

Durante os 70 anos que durou a União Soviética, as quinze repúblicas que a constituíam eram pouco mais que mera formalidade. Com o esfacelamento do império, fronteiras internas tornaram-se fronteiras internacionais. Isso trouxe tensões.

Localizado no Casaquistão, o centro russo de lançamento espacial de Baikonur se encontrou, da noite para o dia, em território estrangeiro. Mas o Casaquistão, país pobre e encravado no centro da Ásia, é totalmente dependente da Rússia. Um acordo entre Moscou e Astana foi logo encontrado.

Povoada por esmagadora maioria de russofalantes, a Crimeia tinha sido atribuída em 1954, por razões burocráticas, à Ucrânia. Na época, a cessão territorial se resumira a simples canetada. Boa parte da frota de guerra russa está baseada ali, mas, enquanto faziam todos parte da URSS, isso não incomodava ninguém.

O esfacelamento do império russo fez que a marinha de guerra se encontrasse ancorada em país estrangeiro. Um problemão. Os ucranianos do oeste, em maioria de língua materna ucraniana, adorariam unir-se à União Europeia e desligar-se definitivamente da tutela de Moscou. Já os ucranianos do leste, russofalantes, ficariam felizes se pudessem reintegrar a pátria mãe e tornar-se independentes de Kiev.

A Crimeia era importante demais para Moscou. Quando as ambições de Kiev começaram a se tornar muito nítidas, os russos organizaram um plebiscito e, em três tempos, se apossaram da península. Com toda a frota, naturalmente. E não se fala mais nisso. Já no leste russofalante da Ucrânia, a briga é mais complexa. O território é vasto. E a maioria de origem russa não é tão esmagadora quanto na Crimeia ― boa parte da população é constituída de ucranianos.

Crédito: Cosmovisions.com

Crédito: Cosmovisions.com

O resultado é o que vemos atualmente. Tanques de guerra, bandeiras arriadas e substituídas por outras, guerrilha urbana, ataque a avião civil. As democracias tradicionais (Europa, América do Norte, antigas colônias britânicas) impuseram sanções comerciais à Rússia. Dizem que é para castigá-la por estar fornecendo armas aos rebeldes ucranianos. Em represália, Moscou anunciou que está estudando proibir o sobrevoo de seu território a aviões matriculados em países que estiverem aplicando as sanções. Parece bobagem, mas, se a ameaça for levada a efeito, vai causar um senhor problema.

Praticamente todos os aviões que saem da Europa em direção ao Extremo Oriente sobrevoam território russo. Muitos dos voos que seguem da América do Norte à China ou ao Extremo Oriente utilizam rota que corta caminho pelo espaço aéreo russo.

Não acredito que Moscou ponha em prática essa proibição. Se o fizer, vai criar um enorme quebra-cabeça para viajantes, companhias aéreas, aeroportos, controladores de voo, horários, conexões. Toda a logística terá de ser revista. Vai ser um pandemônio.

Com seu território superlativo, equivalente ao dobro da superfície do Brasil, a Rússia demonstra que ser grandão tem suas vantagens, sim, senhor.

Como comportar-se em Hong Kong

José Horta Manzano

Você sabia?

Hong Kong ― bondes de dois andares

Hong Kong ― bondes de dois andares

Dia 1° de julho de 1997, quando o território de Hong Kong foi devolvido à China, poucos acreditavam que a mãe-pátria levaria realmente a sério o acordo firmado com o Reino Unido.

Fazia 155 anos que aquele pedaço de chão estava sob domínio britânico ― desde o Tratado de Nanquim, de 1842. Nos anos negros em que a China continental sofria faminta os horrores do regime de Mao e de sua Revolução Cultural, Hong Kong curtia tranquila seu mormaço, protegida de todo mal pelo guarda-chuva do Império Britânico.

Hong Kong ― a bandeira

Hong Kong ― a bandeira

Pelo que ficou acertado entre Londres e Pequim nos anos 1990, o governo chinês se comprometia a manter, pelo menos durante 50 anos após a retrocessão, a relativa autonomia do território, sua moeda própria, seu bilinguismo, seu arcabouço legal, seu sistema político. Até suas próprias regras de tráfego.

Atemorizados, os hongkongueses mais abastados despacharam a tempo sua fortuna para recantos mais acolhedores. Alguns, mais assustados, optaram por solução radical: foram-se de mala e cuia.

Cheguei a perguntar a alguns hongkongueses conhecidos meus se não estavam amedrontados com a perspectiva de a cidade ser encampada pelo gigante chinês. Invariavelmente respondiam todos que, como não eram endinheirados, nada tinham a temer.

Tinham razão os que não se assustaram. A pátria-mãe cumpriu o prometido. Hoje, passados 17 anos, Hong Kong leva vidinha tranquila de região especial administrativa. Enquadra-se na filosofia «um país, dois sistemas», uma especificidade chinesa.

Nada mudou ou quase. A região especial manteve sua administração própria, suas leis, sua moeda, sua bandeira. Até a organização do tráfego foi mantida: em Hong Kong circula-se pela esquerda, à moda inglesa.

Hong Kong ― bairro de escritórios

Hong Kong ― bairro de escritórios

A única alteração visível é um acréscimo bem-vindo. A língua chinesa padrão, aquela que se fala em Pequim, é agora ensinada desde a escola elementar, coisa que não ocorria no tempo dos britânicos. Com isso, os pequerruchos navegam entre três falares: o cantonês (língua local), o mandarim (chinês padrão) e o inglês. Uma riqueza.

Hong Kong ― comércio popular

Hong Kong ― comércio popular

A fronteira entre o minúsculo território e a China continental continua lá, mais bem guardada que nunca. Se assim não fosse, a pequena língua de terra perigava afundar sob o peso de milhões de migrantes.

Estes últimos anos, a subida do nível financeiro tem despertado em muitos chineses a curiosidade de conhecer o antigo território britânico. Lá não se entra assim, sem mais nem menos: precisam de um visto. Os que podem comprovar ter certa folga financeira não têm problema, que a porta está sempre aberta.

Hong Kong ― vista aérea

Hong Kong ― vista aérea

Para quem, como nós, vive do outro lado do globo, pode parecer exagero. Mas é verdade: uma barreira civilizacional separa os chineses dos hongkongueses. Para os que atravessam a fronteira pela primeira vez, o choque cultural é garantido. Os da China continental são vistos em Hong Kong como primitivos, incultos, broncos. Isso é fonte de mal-entendidos e de tensões.

Para baixar a voltagem, a mui oficial agência de notícias Nova China publicou uma lista de conselhos destinada aos cidadãos que tencionam visitar Hong Kong. Eis algumas das dicas:

HK ― regras de comportamento

HK ― regras de comportamento

Fale baixo
Evite chocar-se com as pessoas ou empurrá-las
Não converse aos gritos com pessoas distantes
Trate o pessoal de serviço com polidez
Evite pechinchar exageradamente
Não coma nem beba no metrô
Não atire lixo ao chão e não cuspa na rua
Só viaje na primeira classe se tiver comprado o bilhete

Espera-se que todos sigam as sugestões afastando, assim, todo risco de guerra civil.

Transporte urbano

José Horta Manzano

Você sabia?

Dizem que a China é país muito corrupto ― pode ser. Dizem que o sistema de governo é extremamente autoritário ― parece que é. Dizem que grandes desigualdades sociais subsistem ― é certeza.

O que não se diz tão frequentemente é que o salto dado pelo país em vinte anos não ocorreu por obra e graça do Divino. Foi fruto de planejamento, de aplicação, de trabalho.

Um governo errático como o nosso, com critérios efêmeros e mudanças diárias, jamais chegará ao ponto a que chegaram os chineses. O modus operandi do governo brasileiro é paradigma de ineficiência.

Muitos problemas subsistem na China, mas é indisfarçável que o governo central daquele país tem investido na preparação do futuro. Trabalham duro no sentido de garantir aprovisionamento em matérias primas e desenvolvimento tecnológico.

Pequim tem-se mostrado menos preocupada com futebol e mais com o desenvolvimento da capacidade técnica e intelectual do povo. Quem planta, colhe.

Entre outros pontos, o governo cuidou de dotar suas metrópoles de atributos que facilitam a vida moderna. Como o transporte, por exemplo. Em janeiro passado, foram inauguradas as mais recentes linhas de metrô de Xangai. Com as linhas 12 e 16, a rede de transporte metropolitano da maior metrópole chinesa atinge a extensão de 567 quilômetros ― recorde mundial.

O programa de construção do metrô de Xangai prevê acrescentar, nos próximos anos, outros 230 quilômetros ― mais que a extensão total do metropolitano parisiense.

Metrô do Rio e de Xangai: evolução nos últimos 20 anos

Metrô do Rio e de Xangai: evolução nos últimos 20 anos

Para efeito de comparação, aqui vai a extensão atual de alguns metrôs:

Interligne vertical 11Xangai:           567km
Londres:          402km
Nova York:        373km
Moscou:           325km
Madrid:           293km
Cidade do México: 227km
Santiago:         103km
Istambul:          82km
São Paulo:         74km
Rio de Janeiro:    41km

Na China, não se organizam passeatas pedindo melhora na mobilidade urbana. Primeiro, porque é proibido. Segundo, porque não precisa.

Interligne 18bObs: Com informações do ReporterGazeta.com.br

Os óculos do Monsieur

José Horta Manzano

Os menos jovens certamente se lembrarão das gravatas Hermès do senhor Collor, aquele que ― é até difícil acreditar ― um dia foi presidente de nosso país. Afortunado desde o berço, o referido cavalheiro não dispensava adereços de luxo, do colarinho ao bico do sapato. A imprensa e o povo achavam graça. Afinal, se ele paga com dinheiro do seu próprio bolso, que mal há?

Por outros motivos, que não convém aqui esmiuçar, o presidente foi impedido de prosseguir no cargo em 1992. Voltou pras Alagoas. Mas o exemplo ficou guardado na gaveta. Seus sucessores imediatos, o deselegante Itamar e o pão-duro FHC, não se interessaram pelo legado do antecessor. Não sobressaíram pelo esmero no vestir. Mais tarde, no entanto, com a chegada ao Planalto do presidente-operário, os costumes “Ancien Régime” foram devidamente restabelecidos.

É notório que nosso guia não regateou na hora de escolher seus impecáveis trajes. Importados, de preferência, tinham de ter caimento perfeito. O corpo não ajudando muito, o bom corte compensava. A imprensa e o povo acharam graça, e ficou tudo por isso mesmo.

François Hollande Foto Kenzo Tribouillard, AFP

François Hollande
Foto Kenzo Tribouillard, AFP

No Brasil, a agonia das pequenas indústrias é encarada com indiferença pelo governo central. O que conta mesmo são os grandes números gerados por aquela meia dúzia de grandes exportadores de matéria-prima. São os que melhoram as estatísticas. São os que têm capacidade de despejar no partido doações generosas. O resto é o resto. Que cada um cuide de si.

Exatamente como o Brasil, a França está em processo acelerado de desindustrialização. Badulaques são sistematicamente importados da China. Artigos menos chinfrins vêm de países de mão de obra barata ― Europa Oriental, Marrocos, Tailândia.

Abandonados pelas autoridades, o pequeno e o médio empresário brasileiro têm motivos para inquietação e tristeza. Já na França, o governo central empreende ações para encorajar os cidadãos a darem preferência a produto nacional, ainda que tenham de desembolsar um pouco mais. Até um ministério foi criado especialmente para tentar “endireitar” a situação. «Dê preferência ao made in France» é a palavra de ordem.

Dia destes, o presidente da República, Monsieur Hollande, foi fotografado de óculos novos. Até aí, morreu o Neves. O problema é que um fabricante francês de armação, especialista no assunto, percebeu que os óculos presidenciais não eram franceses, mas dinamarqueses.

Sacrilégio! Em tempos de penúria industrial, um descuido presidencial dessa magnitude é imperdoável. O fabricante nacional dirigiu carta aberta ao presidente, missiva que saiu na mídia do país. Além da carta, o esperto empresário mandou de presente a Monsieur Hollande uma armação legítima, das boas, garantidamente made in France. Argumentou que, na qualidade de vetor da imagem do país no exterior, não ficava bem ao presidente estampar, bem no meio do rosto, um objeto fabricado em terra estrangeira.

As próximas fotos de François Hollande confirmarão se ele assimilou a lição. Ou não.

O banco do Brics

José Ronaldo Saad (*)

A propósito da recente criação do banco CRA, banco do Brics, faço um comentário.

Por mero cálculo aritmético, verifica-se que o rateio do investimento dos cinco países se baseou na média de três índices: população, PIB, renda per capita. O aporte de cada um foi (em bilhões de dólares): China: 41, Índia: 18, Brasil: 18, Rússia: 18, África do Sul: 5.

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe. by Paresh Nath, desenhista indiano

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Ocorre que o terceiro índice (renda per capita) teria de ser descartado por dissimular uma falácia. Como ele é a relação entre PIB e população ― já devidamente computados nos dois primeiros critérios ― sua consideração é redundância equivalente ao notório expediente de “dar com uma mão para tirar com a outra”.

Ou seja, neste último indicador a população entra como denominador de uma fração, diminuindo sensivelmente o correto aporte dos países mais populosos ― a China e a Índia ―, justamente os gigantescos países asiáticos que mais precisam da infraestrutura para a qual o fundo foi específicamente criado. Hermanos vizinhos!

A média legítima seria obtida se se levassem em conta unicamente população e PIB. O rateio deveria ficar assim (em bilhões de dólares): China: 52.4, Índia: 26.3, Brasil: 10.3, Rússia: 9.0, África do Sul: 2.0.

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar. by Paresh Nath, desenhista indiano

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Como ficou, a China e a Índia deixaram de aportar 11,4 e 8,3 bilhões (22% e 32% de vantagem). Brasil, Rússia e África do Sul, investiram a maior 8, 9 e 3 bilhões respectivamente, chegando a 75%, 100% e 150% de desvantagem.

Não é à toa que os indianos são os maiores matemáticos do planeta. E adivinhem quem será o primeiro presidente?

Mais uma copa perdida?

in Tribuna da Imprensa, 16 jul° 2014.

China em polvo… rosa

José Horta Manzano

Você sabia?

O fenômeno de urbanização acelerada, típico de países tradicionalmente agrícolas, teve início, no Brasil, lá pelos anos 1940, 1950. As décadas de 60 e de 70 conheceram o auge do movimento.

Foi quando campos se esvaziaram e cidades incharam. Pouco resta do Brasil rural de nossos avós. O rancho fundo e a choça do jeca-tatu perdem-se na bruma do passado. A passagem para a urbanização ainda continua, mas hoje dança-se em ritmo mais maneiro.

Dalian, norte da China

Dalian, norte da China

Já na China, a urbanização está ocorrendo a toque de caixa, em velocidade vertiginosa. É como se os carros de boi de 1920 cedessem lugar a um batalhão de milhões de automobilistas ― todos despejados na paisagem ao mesmo tempo.

A gestão dessas mudanças nem sempre é sem percalços. Os atores às vezes trocam os pés pelas mãos. Quando postas em prática, iniciativas cheias de boa intenção podem revelar-se um desastre. É o que acaba de ocorrer em Dalian, metrópole de quase 7 milhões de habitantes situada a menos de 500 km a leste de Pequim.

Como toda aglomeração chinesa que se preze, Dalian tem seus imensos centros comerciais (em bom português: shopping centers). Elevadores de vidro, o infalível Starbucks, McDonald’s e seus inescapáveis sucedâneos, franquias de marcas internacionais, tudo está ali presente para confirmar que nada se parece mais com um centro comercial do que outro centro comercial. Em qualquer lugar do mundo. Não falta nem o fundo musical emburrecente.

Um detalhe, no entanto, faz a particularidade dessa catedral do consumo. Os administradores do centro julgaram de bom-tom criar espaços de estacionamento especialmente dedicados às mulheres, devidamente assinalados com ideogramas cor-de-rosa. Particularidade? Ora, isso não é novo! ― dirão meus atentos leitores. Já faz tempo que, em muitos outros centros, as mulheres contam com setor reservado.

É verdade. O que distingue o shopping center de Dalian é a razão pela qual certas vagas são reservadas ao sexo feminino. Em outras partes do mundo, a intenção é garantir maior segurança às senhoras, protegendo-as contra agressões. Não é o caso de Dalian.

"Respeitosamente reservada às mulheres" Dalian, China

“Respeitosamente reservado para mulheres”
Dalian, China

Na China, agressões, roubos, arrastões & assemelhados (ainda) não fazem parte da paisagem habitual. As vagas de estacionamento do centro comercial em questão são simplesmente… 30 cm mais largas do que as vagas comuns. A intenção dos idealizadores da novidade foi facilitar a manobra das motoristas.

Assim que a notícia se espalhou, o país sofreu tempestade midiática. Multidões de cidadãos ― especialmente de cidadãs ― expressaram sua indignação, principalmente por meio das redes sociais. Sem que os autores da ideia se dessem conta, ficou escancarado o proconceito de que mulheres ao volante são menos hábeis que homens.

A discussão continua, apaixonada. Há quem aprecie a iniciativa, há quem abomine a discriminação. Só o tempo dirá se as vagas serão suprimidas ou não. Se eu ficar sabendo, conto.

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A palavra polvorosa descende do castelhano polvo (=pó, poeira). Entra-se em polvorosa quando algum acontecimento levanta poeira.

O gato e a lebre

José Horta Manzano

Não sou analista financeiro nem tenho lastro suficiente para me aprofundar na matéria. Assim mesmo, os anos e as experiências vividas não deixaram de me apurar o bom senso. Entre tantos incômodos, os anos maduros trazem, pelo menos, o consolo de enxergar com menos paixão.

Banco 2Fiz esse preâmbulo antes de falar da criação do Banco do Brics, assunto que me chamou a atenção estes últimos dias. Longe de ser banco de pobre, como alguns apressados poderiam deduzir, tem sócios de peso. Basta dizer que conta com a segunda potência comercial do planeta entre seus membros. É interessante notar que cada um dos sócios tem sua própria motivação para aderir ao empreendimento.

A Rússia, por exemplo, anda meio de birra com o resto do mundo por causa do conflito com a Ucrânia. Desde que anexou a Crimeia, vem sofrendo sanções econômicas da União Europeia e dos EUA. As punições são inócuas, é só questão de marcar um desacordo. Assim mesmo, a Rússia procura mostrar que está dando de ombros para o castigo. Nessa óptica, uma associação com outras economias poderosas é sempre bem-vinda.

Diferentemente de nossa hermana Cristina, o Brasil não precisa do socorro financeiro de bancos internacionais. Já temos apoio suficiente. Se dona Dilma achou tão importante a criação desse estabelecimento é por razões de imagem interna. Transmite ao povo a sensação de que nosso país tem dinheiro pra dar, emprestar e vender. E, mais que isso, dá a prova cabal de que, finalmente, não dependemos mais dos abominados capitalistas ocidentais. A artimanha funciona, tem muita gente que acredita.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Quanto à África do Sul, cujo PIB equivale à quarta parte do nosso, não se entende bem o que está fazendo nesse clube. Faria mais sentido incluir a Turquia e a Indonésia.

O PIB (PPP) brasileiro, pelas contas do FMI, equivale ao da Rússia. Já a China, com produção anual bruta quase seis vezes superior à nossa, precisa menos ainda de ajuda de bancos internacionais. Seu interesse é diferente do nosso e do da Rússia.

Banco 1Com dinheiro a escapar pelo ladrão, o Estado chinês tem vista de longo alcance. Por seu peso econômico, terá de facto a última palavra nas decisões da nova empresa. Para ser concedido, todo empréstimo terá de contar com o beneplácito de Pequim.

A China, sedenta de matérias-primas necessárias para sua afirmação, tenderá, naturalmente, a apoiar projetos de seu próprio interesse. Projetos visando a favorecer produção de soja no Brasil ou de gás na Sibéria serão aplaudidos em Pequim. Seu financiamento está garantido.

Se os estrategistas do Planalto imaginavam, com a criação do banco de fomento do Brics, alforriar-se da dependência dos investidores tradicionais, perigam decepcionar-se. Livram-se da suserania ocidental para enfeudar-se aos tecnocratas de Pequim.

Quem viver, verá. Posso me enganar, mas tenho a impressão de que estão comprando gato por lebre.

Não justifica

José Horta Manzano

Aporrinhado por uma hecatombe de acontecimentos ruins ― derrota doída no gramado, vaias e apupos recorrentes, inflação em alta e outros males crônicos ― o Planalto se vê na urgente e ingrata obrigação de encontrar notícias boas.

Já faz fários anos, o ministro Mercadante, fiel escudeiro da Casa Civil, disse uma vez que havia tomado a decisão irrevogável de retirar-se do governo. Não só não saiu, como até hoje está lá. A firmeza e a exatidão de suas palavras têm, desde então, o valor que cada um queira lhes atribuir.

Turismo 3Pois bem, o senhor Mercadante acaba de apresentar balanço turístico do período da «Copa das copas». Afirmou, com indisfarçado orgulho, que mais de um milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil.

Um número isolado, sem referencial, é pouco significativo. Para ser avaliado, falta saber quantos turistas costumam visitar o País a cada ano. Melhor ainda, é bom verificar como se situa nosso país-continente na escala internacional da movimentação turística.

Dados do Ministério do Turismo garantem que 5,7 milhões de turistas estrangeiros aportaram no Brasil em 2012. Grosso modo, ano sim, outro também, dá meio milhão de pessoas por mês. Portanto, do milhão de indivíduos assinalados pelo senhor Mercadante durante o mês do mundial, há que subtrair o meio milhão que viria de qualquer maneira. No frigir dos ovos, o campeonato atraiu apenas 500 mil visitantes extras.

Agora, convenhamos. Considerando que a Copa exigiu investimento de 25 bilhões, o resultado é pífio. Com muitíssimo menos, o Ministério do Turismo deveria poder atrair turistas ― afinal, é para isso que ele serve. Se não tem conseguido alçar o número de visitantes, é por incompetência.

Torneios de futebol, embora sejam eventos de repercussão planetária, têm duração muito curta. Efêmeros, seus efeitos não se prolongam no tempo. Senão, vejamos: alguém se sente impelido a visitar a África do Sul na esteira da Copa que ali se realizou quatro anos atrás?

Reproduzo aqui dados da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, relativos ao movimento turístico global:

Número de turistas estrangeiros recebidos
em cada país – Dados de 2012
———————————-———————————-——————————————-
 1. França         84,0 milhões
 2. EUA            63,3 milhões
 3. Espanha        58,7 milhões
 4. China          58,6 milhões
 5. Itália         46,1 milhões
 6. Turquia        36,7 milhões
 7. Reino Unido    29,2 milhões
 8. Alemanha       28,4 milhões
 9. Malásia        24,1 milhões
10. México         23,4 milhões
11. Áustria        23,0 milhões
12. Rússia         22,6 milhões
13. Hong Kong      22,3 milhões
14. Ucrânia        21,4 milhões
15. Tailândia      19,0 milhões
16. Canadá         18,2 milhões
17. Saudi-Arábia   17,6 milhões
18. Grécia         14,4 milhões
19. Polônia        13,3 milhões
20. Macau          12,9 milhões
21. Holanda        11,3 milhões
22. Singapura      10,3 milhões
23. Hungria        10,2 milhões
24. Croácia         9,9 milhões
25. Coreia do Sul   9,7 milhões
26. Egito           9,4 milhões
27. Marrocos        9,3 milhões
28. Dinamarca       8,7 milhões
29. Rep.Tcheca      8,7 milhões
30. Suiça           8,5 milhões
——————————-
… Brasil          5,7 milhões

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Receitas trazidas pelo turismo internacional
a cada país – Dados de 2012 (em dólares)
—————————————–—————————————–—————————-
 1. EUA          126,2 bilhões
 2. Espanha       55,9 bilhões
 3. França        53,7 bilhões
 4. China         50,0 bilhões
 5. Macau         43,7 bilhões
 6. Itália        41,2 bilhões
 7. Alemanha      38,1 bilhões
 8. Reino Unido   36,4 bilhões
 9. Hong Kong     32,1 bilhões
10. Austrália     31,5 bilhões
——————————–
… Brasil         6,6 bilhões

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Verificamos que cada estrangeiro em visita ao Brasil gasta em média 1160 dólares. Portanto, os turistas suplementares que a “Copa das copas” nos trouxe hão de ter gasto menos de 600 milhões no total.

É muito pouco para justificar os bilhões investidos. É urgente procurar outro legado.

Negócio da China

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem gosta, gosta. Assim como deve haver brasileiros apaixonados por críquete (eu não conheço nenhum, mas nunca se deve duvidar), há chineses tarados por futebol. Vocês me dirão que, no meio de zilhões de habitantes, se encontra de tudo. É verdade.

Problemas, enquanto não nos atingem, não despertam nossa atenção. Em linguagem mais chã: pimenta no olho do outro é colírio. Vamos aos fatos.

Crédito imagem: dramafever.com

Crédito imagem: dramafever.com

Nosso planeta ― como nos ensinou uma vez nosso guia em aula memorável ― é redondo e gira. Isso faz que diferentes regiões vivam sob diferentes fusos horários. Os jogos do atual campeonato mundial foram programados para favorecer, na medida do possível, espectadores do continente americano, da Europa e da África. É por isso que se joga um pouco mais cedo no Brasil ― justamente para que não caia no meio da madrugada na Europa.

Mas não dá para satisfazer a todos. Sempre haverá os que ficam a ver navios. Desta vez, foram os espectadores do Extremo Oriente. Pela hora chinesa, os jogos caem de madrugada ou de manhã cedo. Para quem tem de trabalhar no dia seguinte, a coisa se complica um bocado. Frise-se que Pequim não decretou que os dias de jogo sejam feriados.

E como é que o chinês fanático por futebol se vira pra não perder transmissões ao vivo? Ora, dá-se um jeitinho. Por lá também, burlar a lei faz parte da cultura nacional. O inglês Telegraph informa ― e o americano Fox 31 repercute ― que a Copa das copas está deixando muita gente doente na China.

Crédito foto: Associated Press

Crédito foto: Associated Press

Doente entre aspas, naturalmente. Depois de perder uma noite de sono, é difícil trabalhar. O mais prático é pedir um atestado médico e justificar a falta ao serviço. Num site chinês chamado TaoBao, qualquer um pode conseguir um talão de atestados por 16 centavos de dólar ― um negócio da China!

Mas a manha, amplamente difundida, é pra lá de conhecida, manjada demais. Mais vale conseguir um documento de qualidade superior. Um atestado com cara de verdadeiro, em papel timbrado de hospital com assinatura de médico, chega a custar pelos 50 dólares. É caro, mas… para um apaixonado, todo sacrifício é pouco.

O governo anda de olho. Assim mesmo, para um torcedor de verdade ― de corneta, boné e bandeirinha ― o risco compensa.

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Nota:
A magnífica aula de geografia ministrada por nosso guia, faz alguns anos, está devidamente imortalizada no youtube. Se você quiser recordar, clique aqui. São 59 segundos inesquecíveis.

Tchau, mãe! ― 2

José Horta Manzano

A fraca disseminação, por todo o território nacional, de uma cena cultural diversificada faz muita falta ao brasileiro. Em nosso País, fora das grandes metrópoles, viceja um deserto cultural. Em terras mais civilizadas, qualquer aglomeração de parcos milhares de almas oferece a seus habitantes um leque de opções pra ministro nenhum botar defeito.

Televisor com imagem adequada

Na cidadezinha onde vivo, cuja população vai pouco além de 12 mil pessoas, temos um teatro de verdade, com quase 400 lugares. Até artistas estrangeiros vêm representar aqui. Temos concertos, recitais, peças de teatro, one-man shows, espetáculos infantis.

Em diversos pontos do município organizam-se, ao longo do ano, exposições, sessões de cinema ao ar livre, festas musicais, reuniões para jovens, encontros de idosos, bailes populares, festa de Natal para solitários, palestras, jantares de confraternização, feiras de artesanato, festivais de canto coral, brechós, jogos de futebol e de outros esportes, quermesses.

Tem pra todos os gostos. Na maior parte das manifestações, a entrada é grátis. Em outras, paga-se um preço accessível. Só não vai quem não quer.

Tevê: não me identifico

No Brasil, as prioridades são outras. Na hora de decidir o destino a ser dado ao dinheiro que sobra nos cofres públicos ― depois do sangramento provocado pela corrupção ―, preferência é dada a gastos que possam garantir votos. Autoridades gastam de olho nas próximas eleições. Se, por acaso, algum benefício real chegar realmente à população, terá sido mero efeito colateral.

O resultado dessas práticas deturpadas é que, no Brasil, um único braço da mídia esmaga todos os outros: a televisão. Na falta de outro caminho, a tevê é passagem obrigatória para políticos, autoridades, artistas, cientistas, esportistas, aventureiros. Se a tevê não mostrar, ninguém vai ficar sabendo. Para os brasileiros, essa prática passa batida, como se normal fosse. Não é. É uma baita limitação.

Na falta de espaço adequado para fazê-lo, todos anseiam por aparecer na telinha. Desde as autoridades maiores da República até o cidadão mais humilde. Quando digo todos, não estou exagerando. Figurões cujas funções exigem discrição, recato e comportamento apagado fazem o que podem para aparecer na tevê. Juízes de variadas instâncias e até ministros do STF dão pronunciamentos, opiniões, entrevistas. Fazem revelações. Exprimem-se sobre processos em andamento. Um espanto.

Televisão ― o começo

Quem fala muito acaba dizendo o que não deve. Todo excesso cobra sua conta. O Estadão nos informa que as autoridades judiciárias suíças, exasperadas pelo vazamento de informações de processos em andamento, decidiram bloquear a cooperação com o Brasil. Até segunda ordem. Só voltarão a colaborar caso recebam explicações convincentes para as fugas de informação que, na Suíça, são consideradas fato gravíssimo.

À Justiça, basta ser justa. Resquícios da medieval Justiça-espetáculo apenas vigoram em bolsões incivilizados ― Irã, Afeganistão, China. No Brasil, não cai bem.

De camisa florida

José Horta Manzano

Você sabia?

Palmeira 1Se eu lhes perguntar qual é o país mais visitado do mundo, que é que me responderão? Pois eu lhes conto: em números absolutos, a França, com 83 milhões de visitantes, ganha de longe.

Mas há uma outra resposta. Se considerarmos a quantidade de turistas como porcentagem da população residente, o panorama é mais nuançado. Com magros 800 habitantes, o minúsculo Estado do Vaticano ganha disparado, milhas à frente do segundo classificado. Cinco milhões e meio de estrangeiros passam por lá a cada ano, o que dá 6500 visitas por habitante. Uma enormidade.

Há que conceder que mini- e microestados falseiam as estatísticas. São ponto fora da curva ― expressão em voga atualmente. Melhor observar o que se passa em países de tamanho habitual.

Pelo critério de visitantes como porcentagem da população, os países europeus são campeões. Em primeiro, aparece a Áustria que, com população de 8 milhões e meio, acolhe 24 milhões de visitantes a cada ano. Dá quase três turistas por habitante! Logo atrás, vem a Croácia, destino apreciado para as férias de verão. No total, uns dez estados europeus recebem turistas em número superior ao de sua própria população.

Turismo no mundo Fonte: The Telegraph, UK

Turismo no mundo
Fonte: The Telegraph, UK

E como é que ficam as Américas? Ao norte, o Canadá se sai bem: os visitantes representam 46% da população. Os EUA, onde os forasteiros de passagem equivalem a 21% da população também não podem reclamar. As Antilhas são constituídas por microestados, fato que perturba o resultado estatístico.

Vamos falar da América do Sul. Quem seria o campeão? Difícil adivinhar, não é? Pois é nosso vizinho Uruguai. Visitantes representam 80% da população do país. Atrás dele, está o Suriname (45%). A Guiana (22%), o Chile (20%) e a Argentina (14%) seguem mais descolados.

E nosso país, como é que anda? Pois saibam que fica na rabeira da classificação continental, em penúltimo lugar. Os 5 milhões e meio de pessoas que visitam o Brasil perfazem apenas 2,86% da população local. Pior que nós, só a Venezuela.

Turismo 2E por que um afluxo de turistas tão diminuto em nossas terras? A lógica ensina que, quanto maiores forem os atrativos turísticos, mais visitantes virão. O Brasil tem beleza natural de sobra, cachoeiras, praias, pantanais, sol, calor. O que é que atravanca a vinda de mais gente?

A distância não há de ser: China, Nova Zelândia, Chile ― todos longe dos grandes centros emissores ― recebem proporcionalmente mais turistas que nós. Até Paraguai e Bolívia nos ultrapassam.

Não tenho respostas, infelizmente. Tenho apenas conjecturas ― e elas não são nada risonhas.

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Obs 1: Os dados vêm da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, e se referem ao ano de 2012.

Obs 2: Vale a pena examinar de perto o resultado de cada país. Clique no mapa para ter acesso ao site do jornal inglês The Telegraph. Em seguida, uma clicada em cada país vai-lhe dar a população, o número de visitantes e a porcentagem.

Orient Express

José Horta Manzano

Você sabia?

SMT = Shanghai Maglev Train (trem de levitação magnética)

SMT = Shanghai Maglev Train
(trem de levitação magnética)

O mui oficial jornal Beijing Times, controlado pelo Estado chinês, anunciou um projeto pra lá de ousado. Trata-se da construção de uma linha de trem de alta velocidade (trem-bala) entre a China e os Estados Unidos.

Prevê-se que a extensão seja de 13 mil quilômetros. Para efeito de comparação, note-se que a distância entre o extremo leste e o extremo oeste do Brasil é de 4300 quilômetros. A linha deverá sair do nordeste da China e cruzar boa parte do território russo.

Para passar da Ásia à América, é preciso vencer o Estreito de Bering. A escavação de um túnel submarino de 200 km deverá resolver o problema. Para dar-lhe ideia da complexidade da obra, tenha presente que, atualmente, o túnel ferroviário entre a França e a Grã-Bretanha é o que tem o trecho submerso mais longo do mundo: 37 km.

No Novo Mundo, o Alasca e o Canadá inteiros ainda terão de ser atravessados antes da chegada ao terminal em Nova York. Numa hipótese optimista, um trem lançado a uma velocidade média de 350 km/h levará dois dias e uma noite para fazer o percurso. Sem contar as paradas.

O não menos oficial China Daily, outro braço do Estado chinês, confirma a existência do projeto e vai mais longe. Afirma que a tecnologia para construir a gigantesca obra já está disponível.

Nenhum dos periódicos informou se já combinaram com os russos ― no sentido literal. Com os russos, com os canadenses e com os americanos, naturalmente.

Esquema da linha ferroviária projetada

Esboço do percurso projetado

Aqui no meu cantinho, fico cismado. Não vejo a lógica que possa levar viajantes a preferir passar 48 horas confinados num trem para cumprir um trajeto que, de avião, demanda 12 horas.

Pessoalmente, já cheguei a fazer, décadas atrás, uma viagem de 48 horas de trem. A razão foi uma só: falta de dinheiro para usar meio de transporte mais rápido. Posso confirmar que é duro ficar sentado naquela poltrona durante dois dias e duas noites. Dormir sentado, comer farofa de casa ou gororoba de trem, aguentar ronco de vizinho podem ser atividades excitantes para os muito jovens. Para os que já não têm mais 20 anos, é menos entusiasmante.

O projeto é delirante. Como não me consta que a China dê ponto sem nó, uma razão há de haver por detrás desse anúncio. Poderia perfeitamente ser uma jogada de marketing. Para um país que pretende vender trens de alta velocidade ao estrangeiro, toda propaganda é bem-vinda.

É como propaganda eleitoral gratuita: não custa nada e pode render muito.(*)

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(*) Propaganda eleitoral gratuita não custa nada? É relativo. Todos sabem que não há almoço grátis ― alguém terá sempre de pagar a conta. No caso da propaganda eleitoral, se o dinheiro não sair do bolso do candidato, da mídia é que não sairá. Quem paga então? Ora, caro leitor, ao fim e ao cabo, sai do seu, do nosso bolso.