O preço da imprudência

José Horta Manzano

Velho ditado herdado dos lusos ensina que o segredo é a alma do negócio. Para mim, continua válido. No entanto, nestes tempos bizarros, parece que menos e menos gente leva essa evidência a sério.

Todo o mundo faz besteira de vez em quando, que ninguém é santo. Quando éramos adolescentes e fazíamos algo reprovável, a reação primeira era guardar segredo. Alguns, não aguentando a tensão e o peso de reter a informação, confiavam-se ao melhor amigo, àquele que oferecia certa garantia de não espalhar a notícia. Já outros, mais prudentes ainda, preferiam confiar o escorregão ao diário.

diario-1Aos mais jovens, explico que diário era um caderno pessoal, geralmente de capa dura, muitas vezes trancado com um cadeadozinho, onde o proprietário deitava por escrito as peripécias de cada dia. Alegrias, tristezas, esperanças e confissões se misturavam. Dado que faz anos que não ouço falar nesse tipo de confessionário, imagino que tenha desaparecido junto com a máquina de escrever e o óleo de fígado de bacalhau.

A popularização de ‘redes sociais’ tornou menos nítidos os limites entre o pessoal e o coletivo. Adolescentes ‒ e adultos também ‒ parecem não se dar conta de que, ao confessar «façanhas» a um círculo que imaginam fechado e confiável, estão divulgando informações que lhes podem ser prejudiciais.

Chamada do Estadão, São Paulo

Chamada do Estadão, São Paulo

Dia sim, outro também, a gente acaba ficando a par da besteira alheia. Tem aquela servidora ‒ Coordenadora do Programa de Saúde Bucal do Ministério da Saúde! ‒ que pediu licença médica para tratamento de saúde e se mandou para Madri, numa escapada de lazer. Imprudente, fez circular na internet a prova da transgressão. Com foto e tudo. Não deu outra: a história foi parar no Estadão e a moça perdeu o emprego.

Tem também aquela funcionária da Receita argentina que, alegando doença traumatológica, tirou licença. Na verdade, veio curtir o sol e «tomar uns tragos» nas praias de Florianópolis. Também ela fez questão de difundir a prova documental do delito. Tudo foi parar no Clarín, jornal argentino de grande circulação.

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Fico aqui a me perguntar o que leva essa gente a relatar suas infrações ao grande público. Será inconsciência? Vaidade exacerbada? Burrice mesmo? Ou, talvez, uma combinação de todas essas fraquezas?

Freud deve poder explicar. Enquanto a explicação não vem, astros e atrizes destes novos tempos pagam seu efêmero momento de estrelato com a perda do emprego. E assim vai o mundo. Imperfeições e desvios, que antes eram guardados debaixo de chave, vão-se tornando motivo de orgulho. Vá entender, distinto leitor!

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Só para finalizar
E o que acontece com médico que dá atestado a paciente em perfeita saúde? Fica por isso mesmo?

Negócio da China

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem gosta, gosta. Assim como deve haver brasileiros apaixonados por críquete (eu não conheço nenhum, mas nunca se deve duvidar), há chineses tarados por futebol. Vocês me dirão que, no meio de zilhões de habitantes, se encontra de tudo. É verdade.

Problemas, enquanto não nos atingem, não despertam nossa atenção. Em linguagem mais chã: pimenta no olho do outro é colírio. Vamos aos fatos.

Crédito imagem: dramafever.com

Crédito imagem: dramafever.com

Nosso planeta ― como nos ensinou uma vez nosso guia em aula memorável ― é redondo e gira. Isso faz que diferentes regiões vivam sob diferentes fusos horários. Os jogos do atual campeonato mundial foram programados para favorecer, na medida do possível, espectadores do continente americano, da Europa e da África. É por isso que se joga um pouco mais cedo no Brasil ― justamente para que não caia no meio da madrugada na Europa.

Mas não dá para satisfazer a todos. Sempre haverá os que ficam a ver navios. Desta vez, foram os espectadores do Extremo Oriente. Pela hora chinesa, os jogos caem de madrugada ou de manhã cedo. Para quem tem de trabalhar no dia seguinte, a coisa se complica um bocado. Frise-se que Pequim não decretou que os dias de jogo sejam feriados.

E como é que o chinês fanático por futebol se vira pra não perder transmissões ao vivo? Ora, dá-se um jeitinho. Por lá também, burlar a lei faz parte da cultura nacional. O inglês Telegraph informa ― e o americano Fox 31 repercute ― que a Copa das copas está deixando muita gente doente na China.

Crédito foto: Associated Press

Crédito foto: Associated Press

Doente entre aspas, naturalmente. Depois de perder uma noite de sono, é difícil trabalhar. O mais prático é pedir um atestado médico e justificar a falta ao serviço. Num site chinês chamado TaoBao, qualquer um pode conseguir um talão de atestados por 16 centavos de dólar ― um negócio da China!

Mas a manha, amplamente difundida, é pra lá de conhecida, manjada demais. Mais vale conseguir um documento de qualidade superior. Um atestado com cara de verdadeiro, em papel timbrado de hospital com assinatura de médico, chega a custar pelos 50 dólares. É caro, mas… para um apaixonado, todo sacrifício é pouco.

O governo anda de olho. Assim mesmo, para um torcedor de verdade ― de corneta, boné e bandeirinha ― o risco compensa.

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Nota:
A magnífica aula de geografia ministrada por nosso guia, faz alguns anos, está devidamente imortalizada no youtube. Se você quiser recordar, clique aqui. São 59 segundos inesquecíveis.