Cadeira cativa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 out° 2015

Onu 3Ano sim outro também, o ritual se repete: terminadas as férias de verão do Hemisfério Norte, abre-se mais um ano de trabalho na ONU. E lá vai nosso presidente, a quem cabe discursar em primeiro lugar. Segue-se uma cachoeira de alocuções em línguas sortidas. O espetáculo se desenrola sobre fundo de granito verde-imperial muito chique – pedra que, aliás, é bem capaz de ter sido extraída de nosso solo.

Este ano, à guisa de aperitivo à liturgia, fomos mimoseados com um conciliábulo apelidado G4, que reuniu quatro mandatários. Observe-se, en passant, que o costume atual de atribuir número a reunião de medalhões (G4, G7, G20) é sintomático. Realça o fato de os objetivos dos participantes não serem necessariamente concordantes. Foi-se o tempo em que alianças tinham propósito bem estruturado e compartilhado, donde a atribuição de nome próprio como Entente Cordiale ou Pacto de Varsóvia. A acertos efêmeros, números bastam.

Brasil, Alemanha, Índia e Japão irmanaram-se, por um instante, na reivindicação de uma reforma da ONU que lhes conceda assento permanente no Conselho de Segurança. Cada qual desses países é movido por um conjunto de interesses que lhe dizem respeito. O traço comum, sem hesitação, é a busca do prestígio perdido. Ou nunca havido.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Alemanha e Japão, gigantes industriais e econômicos, procuram recuperar a aura que a derrota na última guerra lhes tolheu. A Índia, país populoso, em franca ascensão e – ponto não desprezível – dotado de armamento nuclear, também aspira a sentar-se à mesa dos grandes. Quanto ao Brasil, a justificativa é menos nítida. No frigir dos ovos, o olhar que o mundo lança sobre nosso país não é muito diferente do de setenta anos atrás, quando a Organização das Nações Unidas foi fundada. Senão, vejamos.

Já naquela época, o Brasil era visto como país de futuro promissor, mas de modesta importância militar, industrial, econômica e diplomática. Se as últimas décadas renderam progresso a nosso país, não há que perder de vista que as demais nações, longe de terem parado no tempo, também se desenvolveram e avançaram. Ao fim e ao cabo, o posicionamento relativo do Brasil no conjunto dos Estados não está lá tão distante do que era em 1945.

ONU - Conselho de Segurança

ONU – Conselho de Segurança

Ilude-se, portanto, quem faz abstração das mudanças alheias e só leva em consideração as transformações pelas quais passamos nós outros. A população de alguns países cresceu mais que a nossa. Alguns deles se aplicaram e conseguiram industrializar-se mais rapidamente que nós. Um ou outro optou por dotar-se da arma nuclear. Diligências diplomáticas constantes fizeram que certos países, por se terem mostrado mais atuantes, nos superem hoje em relevância.

Cadeira permanente no Conselho de Segurança é assunto pra lá de delicado. Titular nenhum abre mão da que lhe cabe. Qualquer país que pretenda entrar para o clube pode até ser bem-visto por uns, mas desagradará a outros. Basta que uma das cinco potências com direito a veto bote empecilho, e pronto: o candidato não passa da soleira. Reforma do sistema? Nem pensar, que não serve ao interesse dos atuais membros permanentes. Por que a fariam?

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Com tantos problemas por resolver, mais graves e mais urgentes, o Brasil deveria economizar energia e evitar arriscar-se num pleito cujas chances de dar certo são próximas de zero. No dia em que uma reforma for anunciada – o que está longe de acontecer – aí, sim, terá chegado o momento de reivindicar vaga. Por enquanto, é perda de tempo. Essa atitude de pedinte é humilhante e constrangedora.

Asilo 4Nossa industrialização vem encolhendo há vários anos, o que não nos torna mais poderosos no conjunto das nações. Nossa participação proporcional nas trocas comerciais globais não progride há décadas. Seria útil começar por assumir postura diplomática séria e coerente. Milhões de sírios deslocados pela guerra civil estão imersos na precariedade. O Brasil mostraria grandeza se, por exemplo, fizesse o necessário para acolher uma parcela desses infelizes. Que, pelo menos, nos apliquemos a promover uma diplomacia digna de nação adulta e consciente.

Que não nos contentemos em ser um Brasil grande, mas que nos esforcemos para nos tornar um grande Brasil. Não custa caro e está ao alcance de nossas possibilidades. A persistir em deixar como está pra ver como fica, continuaremos pagando, à prestação, nosso bilhete de volta ao Terceiro Mundo. E olhe que faltam poucas folhas para chegar ao fim do carnê.

Suíço pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno fazia tempo que não aparecia. Veio hoje com aquele ar deslumbrado de quem acaba de inventar a roda.

Banco 2– Olá! Não acredito em coincidências. Nessa história de dinheiro escondido na Suíça, tem coisa fora do lugar.

– Bons dias, Sigismeno! Tem razão você. Dá realmente vontade de trucidar esse pessoal que andou enfiando a mão em nosso bolso pra enriquecer.

– Não estou falando da paisagem geral. Estou-me referindo ao caso especial do senhor Cunha, aquele que preside a Câmara.

– Especial por que, Sigismeno? Pelo que diz a mídia, andou se servindo do nosso dinheiro igualzinho a dezenas de outros. Ou não?

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

– Assim foi, mas parece que escolheu o banco errado pra encafuar seus milhões.

– Banco errado? Mas foi na Suíça, Sigismeno! Parece que o pessoal de lá entende do ramo. Errado por quê?

– Raciocine comigo. Por tradição, banco suíço é discreto. Faz parte do jogo. A cada vez que o MP do Brasil precisou obter dados de outros larápios foi um custo. Qualquer retalhozinho de informação só sai com saca-rolhas. Informação costuma vir a conta-gotas. Já no caso desse senhor Cunha, foi diferente.

– Diferente como, Sigismeno?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Pois você não viu? Diz aqui no jornal que o Cunha foi denunciado pelo próprio banco. Coisa do outro mundo, amigo! Terá sido a primeira vez que banco suíço denuncia cliente sem ser compelido pela justiça.

– Tem razão, Sigismeno, parece fora de esquadro. E qual é sua teoria, você que sempre encontra explicação pra tudo?

– Antes de dar minha conclusão, quero voltar a um acontecimento ocorrido faz pouco mais de um mês. Certamente você se lembra daquele caso da conta suíça do Romário.

– Aquela que a Veja denunciou?

– Essa mesmo. A revista obteve, sabe-se lá como, extrato bancário do senador, com papel timbrado, número de conta, montante, tudo nos conformes. Era perfeito demais pra ser verdadeiro, mas a revista caiu no logro e publicou.

– Mas, Sigismeno, além do fato de serem cariocas, o que tem o Romário a ver com o Cunha?

Banco 4– Olhe, meu amigo, é cristalino como água de mina. Por um lado, o pessoal lá do andar de cima tem bronca da revista Veja, não tem?

– Todo o mundo sabe disso.

– Por outro, eles têm interesse em tirar o senhor Cunha do caminho, não têm?

– Ô, se têm. Afinal, a chave do processo de destituição da presidente está nas mãos do homem.

– Pois é, embora seja raro no andar de cima, alguma cabeça pensante pensou, veja você. E arquitetaram um jeito malandro de dar uma cutucada feia na Veja e no Cunha.

– Nos dois?

Chamada d'O Globo, 1° out° 2015

Chamada d’O Globo, 1° out° 2015

– Nos dois, amigo. Valeram-se do fato de Cunha ter milhões de dólares escondidos no BSI, um banco suíço. Já Romário não tem conta nesse banco.

– Agora está ficando difícil seguir seu raciocínio, Sigismeno. Qual é o ponto comum entre esse três personagens, o Romário, a Veja e o Cunha?

– Não seja impaciente. Continuo. O Romário, a meu ver, foi inocente útil na história. Seu nome foi usado. Podiam ter usado qualquer figura pública. Escolheram o senador.

– Usado? Para quê?

– Para quê? Ora, é evidente: pra atingir a revista Veja, deixá-la numa saia justa e levar a cabo a vingança. Forjaram um extrato bancário do ex-jogador e deram um jeito de fazê-lo chegar à revista como se verdadeiro fosse. Imaginando que era legítimo, os editores, felizes com o ‘achado’, publicaram imediatamente. Daí deu aquela confusão toda: o Romário viajou até Genebra, a revista se retratou e pediu desculpa, um forrobodó dos diabos. Foi um vexame. Os que urdiram o plano devem ter gargalhado.

– Então você acha mesmo que os dois foram ludibriados, Sigismeno? O Romário e a Veja?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Acho. A Veja era o alvo, enquanto o senador foi o inocente útil.

– E onde é que o Cunha entra nessa história?

– O senhor Cunha não foi ludibriado. Foi traído. Traído pelo banco suíço onde tinha enfurnado seus milhõezinhos. Jamais se tinha visto banco suíço denunciando cliente. Foi a primeira vez. Um despautério!

– Que coisa mais extraordinária, Sigismeno. E por que, diabos, esse banco teria agido assim?

– Olhe, agora estamos pisando no terreno das suposições. Dou-lhe uma dica que pode ser a chave do mistério: o tradicional banco suíço BSI, nascido 150 anos atrás, foi comprado no ano passado por um banco brasileiro.

– Hã?

BSI 3– Sim, senhor. Faz um ano que o conceituado BSI pertence ao Banco BTG Pactual, cujo dono é um bilionário brasileiro. Agora, não me pergunte se há relação entre a ‘brasilidade’ do banco suíço e o Planalto. Não saberia responder. Mas ficam no ar as perguntas. Como é possível um falso extrato do Romário ter sido impresso em papel timbrado do banco, direitinho como manda o figurino? Como é possível que, pela primeira vez na história, banco suíço denuncie um correntista, assim, gratuita e espontaneamente?

– Ih, Sigismeno, acho bom você parar por aqui. Por minha parte, já entendi, mas, se alguém nos ouvir, ainda vamos ter problemas. Só vou dizer-lhe uma coisa: se um dia eu tirar a sorte grande na loteria, vou pensar duas vezes antes de botar meu dinheirinho naquele banco.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Outras máximas ― 21

LA HONTE N’EST PAS TOUJOURS LA CONSCIENCE DU MAL QUE NOUS FAISONS, ELLE EST SOUVENT LA CONSCIENCE DU MAL QU’ON NOUS FAIT.

A vergonha nem sempre é a consciência do mal que fizemos, mas do mal que nos fizeram.

Paul Morand (1888-1976), escritor francês

Mexida no tabuleiro

José Horta Manzano

Xadrez 1Nossa Constituição é clara. No artigo 84, logo depois de estipular que compete ao presidente da República nomear e exonerar ministros de Estado, deixa claro que o mandatário deverá «exercer, com o auxílio dos ministros de Estado, a direção superior da administração federal».

Portanto, embora o presidente da República tenha liberdade de escolher seus ministros, não tem autorização para governar sozinho. Escolhidos os auxiliares, a administração deverá ser exercida com o auxílio deles.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

Isso posto, o mínimo que se espera do presidente é que mantenha frequentes reuniões de trabalho com os ministros. O mais prático é instituir rotina de encontros regulares. Na França, por exemplo, presidente e todos os ministros se reúnem pontualmente cada quarta-feira às 9h da manhã.

A cada reunião, como numa empresa, o presidente cobra de cada ministro a situação dos assuntos em andamento. É excelente ocasião que o presidente tem de reafirmar, diante de todos, sua autoridade. A ocasião é boa também para estimular competição entre ministros – ninguém gosta de ser repreendido na frente de todos os colegas. Para coroar, reuniões gerais servem para deixar todos a par das ações do governo, o que evita declarações desastradas à imprensa.

Xadrez 2É evidente que certos assuntos deverão ser tratados reservadamente. Em casos assim, reuniões restritas serão convocadas. Mas isso não impede que encontros de todos os auxiliares continuem a ser mantidos.

Sabe-se que nossa presidente nunca – eu disse nunca(!) – concedeu audiência a alguns de seus ministros. É assombroso. Dizem as más línguas que dona Dilma não conhece sequer o nome de todos os ocupantes das quase 40 pastas. Pode até ser verdade.

Vêm, então, perguntas inevitáveis. Quem dita a linha mestra da orientação de cada ministério? Cada ministro faz o que lhe dá na telha, sem consultar o presidente? Ou as decisões ficam nas mãos de integrantes de escalões inferiores? Se assim for, pra que serve o ministro?

Reuniao trabalho 1A mídia noticiou que o ministro da Saúde foi ontem demitido… por telefone. Não é o ministro do Combate à Saúva, minha gente, é o ministro da Saúde! A desculpa? «Preciso do seu cargo» – disse a presidente segundo os jornais.

Se faltasse uma prova de que as altas esferas de Brasília são meros balcões de negócios, já não falta mais. Ministros são como peças de um jogo de xadrez. Não se movem por vontade própria. São mexidos daqui pra ali e de lá pra acolá, conforme os humores da presidente. Como num tabuleiro, podem ser banidos a qualquer momento, independentemente de seu desempenho.

Está aí uma das explicações – entre muitas – da ineficácia das instituições nessepaiz.

Novidades que incomodam

José Horta Manzano

radio 1A sociedade evolui, é fato. Novidades surgem todos os dias. Certas invenções têm vida longa – o rádio é uma delas. Começou a ser explorado comercialmente faz um século e está aí até hoje. O estilo das emissões se modificou e se adaptou ao gosto de cada época, mas, no fundo, o princípio é sempre o mesmo.

Cinquenta anos atrás, quando a televisão começou a se popularizar, muitos acreditaram no fim do rádio. Não foi o que aconteceu. Os dois passaram a compartilhar horário: rádio de dia, no carro, no banheiro, no café da manhã; e tevê à noite, na hora da poltrona.

KodakOutras novidades foram agressivas a ponto de destronar ramos inteiros da indústria ou até costumes arraigados. A foto digital está entre elas. Quem tem mais de 35, 40 anos há de se lembrar do tempo em que a gente comprava o filme (caro!), tirava os retratos, enrolava a bobina, levava até a loja de revelação, encomendava as cópias e, se tudo desse certo, três dias depois podia ir buscar as fotos. O processo se manteve firme e forte durante um século – de 1890 a 1990.

De repente… difundiu-se a foto digital. Kodak, o conglomerado que dominava o setor, desmilinguiu, capotou e foi à falência. Toda a cadeia de processamento tradicional de fotografia, perturbada, acabou desaparecendo. Que fazer? É a vida. Ninguém segura o progresso.

Internet ainda está engatinhando. Assim mesmo, novidades têm aparecido a cada dia, benéficas para uns, catastróficas para outros. Os aplicativos de comparação de preços de hotel e de passagens aéreas estão acabando com as agências de viagem. Operações bancárias se fazem mais e mais via internet, resultando em fechamento de agências físicas. Correspondência comercial e privada, antes encaminhada pelos Correios, deslocou-se para a internet, causando rebuliço na estatal.

UberEstes últimos tempos, tem-se falado muito na aplicação Uber, que põe em contacto motoristas não profissionais com eventuais clientes. À vista da ameaça frontal, a corporação dos taxistas entrou em pânico. Cada país – para não dizer cada cidade – vem reagindo às carreiras, na base do susto e do improviso.

Na França, por exemplo, a aplicação foi proibida. Está simplesmente fora da lei, decisão já homologada pelo Conseil Constitutionnel, equiparável a nosso STF. Sabe o distinto leitor quanto custa uma licença para operar táxi no município de Paris? Sai por ‘módicos’ 200 mil euros – algo próximo de 900 mil reais! Um patrimônio. Compreende-se que os profissionais tenham se rebelado contra a concorrência desbalanceada. O sujeito paga essa fortuna para poder praticar a profissão; de repente, aparece um gaiato para surrupiar-lhe a clientela? Foi um deus nos acuda. A Justiça, impelida a dar a palavra final, proibiu os não profissionais.

E agora, como é que fica? Bola de cristal, não tenho. Assim mesmo, é previsível que, dentro em breve, essa novidade venha a ser digerida como já foram tantas outras.

Taxi 2Os mil dólares que eu tinha investido, nos anos 80, para comprar uma linha telefônica fixa viraram pó nos anos 90, quando a telefonia se expandiu e telefone deixou de ter valor comercial. Trinta anos atrás, mil dólares eram uma fortuna. A quem, como eu, perdeu dinheiro, sobrou a solução de ir reclamar com o bispo. Acho que ninguém foi.

Assim será com o Uber e com outras novidades que estorvam alguma categoria. As novidades vão acabar entrando no dia a dia de todos nós, não há como escapar. Um sábio ditado nordestino ensina que «é no tranco da carroça que as abóboras se ajeitam». E a carroça segue.

Estalos de Vieira

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Padre VieiraNão sei se todos sabem a que me refiro. Aos mais jovens, explico: há muitos anos, usávamos por aqui uma expressão que traduz com perfeição a palavra inglesa “insight”. Sabe aquela luzinha que se acende no cérebro quando subitamente você se dá conta de algo? Pois então, dizíamos que se tratava de um “estalo do Padre Vieira”, presumivelmente um de meus ancestrais. Conta a lenda que, enredado em dificuldades para aprender as lições do seminário, ele teria invocado auxílio divino e, numa fração de segundo, sua cabeça teria se aberto num clarão. É o equivalente à expressão contemporânea “cair a ficha”.

Pois eu acabo de ter dois estalos de Vieira. O primeiro, mais prosaico, é que, tão logo coloquei o ponto final no parágrafo acima, percebi que nossa língua deixou de fazer menção a um contexto religioso de iluminação para tratar desse fenômeno de forma bem mais profana, associando-o às máquinas caça-níqueis. Santo Deus, a que ponto chegamos!

Lampada 1Seja como for, o segundo estalo que tive parece render mais frutos para a compreensão da alma brasileira. Refletia eu sobre as agruras do clima tropical. Há menos de quatro dias, encerrava-se nosso esquizofrênico inverno tropical com temperaturas batendo na casa dos 36 graus em São Paulo e 42 no Rio de Janeiro. Meras 24 horas depois de entrada a primavera, os paulistas tiveram de enfrentar uma forte tempestade que provocou uma estonteante queda de 10 graus na temperatura e a passagem de uma umidade relativa do ar semelhante à do deserto do Atacama, o mais árido do mundo, para civilizados 56%.

Hoje de manhã, ao me vestir para sair, hesitei ponderando que tipo de roupa deveria usar. O dia amanheceu chuvoso e um vento frio me fazia pensar que o melhor seria colocar uma camisa de mangas longas. Por outro lado, temia fazer papel de idiota e sair às ruas vestida como esquimó na praia de Copacabana, já que a previsão deixava claro que iria esquentar até os 27 graus.

Foi então que me ocorreu que, nem mesmo sob o prisma da meteorologia, o Brasil é um país para amadores. Quem quer que se aventure a fazer seu ninho por estas plagas será instado a se transformar em perito especializado na arte da flexibilidade em todas as situações do cotidiano. Não importa o que os órgãos dos sentidos informem, não importa o que a lógica primária sugira, não importa o que a intuição sopre, o “non-sense” da realidade nacional acabará por se impor e forçará a pobre criatura a desenvolver capacidade de adaptação.

Calor 1Sob essa ótica, consegui em pouco tempo estabelecer múltiplos nexos causais entre nossa convivência forçada com um clima errático e o caráter do povo brasileiro. É provável, deduzi, que toda a instabilidade e volatilidade das tendências climáticas se tenha transferido para nosso código comportamental.

Avalie comigo alguns traços de alma que nos distinguem como povo: a lógica nunca foi nosso forte; não vemos qualquer problema na coexistência entre atitudes liberais radicais e um tradicionalismo empedernido: só valorizamos as conquistas obtidas contra todas as adversidades. Somos bipolares assumidos diante da autoridade: ora nos curvamos servilmente aos ditames dos que detêm o poder, por mais absurdos que nos pareçam, ora saímos às ruas dançando e cantando a plenos pulmões que o rei está nu. O mundialmente famoso “jeitinho” brasileiro parece ilustrar com perfeição a necessidade desesperada que sentimos de lidar minimamente bem com a irracionalidade dos fenômenos naturais e sociais que nos afligem.

Rei nuOutro exemplo gritante é o de nossa secular incapacidade de planejamento. Não nos sentimos confiantes para elaborar quaisquer projetos de futuro, uma vez que sabemos que as regras do jogo podem ser alteradas segundos depois de dada a ordem de partida. Nossos planos individuais e coletivos literalmente derretem e se dissolvem no ar tão logo a temperatura começa a subir. Em seu lugar, colocamos então nossa crença no deus-dará. A tendência nacional à procrastinação já nos rendeu até o epíteto de “país das revoluções sem sangue”.

É fato sabido que a geografia e o clima influenciam pesadamente o estado de ânimo das pessoas. Povos de países de clima frio tendem a ser reservados, taciturnos e autodefendidos, valendo-se muitas vezes da bebida para jogar fora suas frustrações e exorcizar seu isolamento emocional. Habitantes de países montanhosos mostram-se, no mais das vezes, laboriosos e determinados, enquanto os que habitam planícies desérticas tendem a adotar uma postura mais filosófica diante da vida – se seus olhos não têm onde pousar, o pensamento pode voar para longe e criar novas realidades.

Carnaval 1Já nós, oriundos de países de clima tropical, somos seres quentes em todos os sentidos. Tendemos a ser mais sociáveis e festeiros, demonstrando apreço pelo congraçamento que a arte, a dança e a música propiciam. Elevamos à máxima potência o culto ao corpo, a liberalidade dos costumes e o desejo de transgressão das normas vigentes, assim como a informalidade no trato social. Nós, brasileiros, por estarmos acostumados com a abundância de recursos naturais de que dispomos, somos marcados ainda pela identificação com a cultura do desperdício e por uma autocondescendência que convive sem traumas com todo tipo de preconceito.

Talvez em função do gigantismo de nosso território e da consequente diversidade de climas regionais, possuímos finalmente outra característica curiosa: por mais que superficialmente pareçamos desorganizados, imprevisíveis e desconectados da preocupação com o bem comum, podemos nos tornar em segundos um exército de seres fraternos e compassivos devastadoramente eficiente. O rastilho que detona essa transformação? Simplesmente o exercício do prazer e da liberdade individual. Quem duvidar, experimente formar e controlar a evolução de uma nova escola de samba com mais de 3.000 figurantes que precisa desfilar numa passarela em exíguos 60 minutos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Inadequação vocabular – 6

José Horta Manzano

Não sei se o distinto leitor terá reparado que certas palavras entram na moda. E vêm com tal força que empurram todos os sinônimos para o bueiro.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Tenho notado o uso cada dia mais sistemático do verbo defender no sentido de aconselhar, preconizar.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Andei observando a edição online de sábado 26 set° dos três maiores jornais nacionais: Estadão, Folha de São Paulo e O Globo. Não foi preciso ir além da primeira página. Encontrei oito chamadas nas quais defender poderia – com vantagem – ser substituído por verbo mais expressivo.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Há dezenas de possibilidades. Como nem todo sinônimo é perfeito, cabe ao escrivinhador decidir-se por este ou por aqueloutro na hora de compor o texto.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Entendo que o frenesi desta era de informação instantânea não deixe o tempo de refletir sobre o melhor termo.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Assim mesmo, convenhamos, quando a escolha é tão vasta, fica no ar a desagradável impressão de que o conhecimento do vocabulário continua encolhendo. Não estamos longe da indigência total.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Em alguns casos, o título chega a ser nebuloso, destinado a ser entendido apenas por iniciados. Quando se lê que “Janot defende depoimento de Lula”, o recado que chega é que o Lula já depôs, e que suas palavras – atacadas sabe-se lá por quem – estão sendo defendidas por um certo senhor Janot. Qualquer distraído periga entender assim.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Caso algum distinto leitor conheça um fazedor de manchetes, solicito-lhe a fineza de fazer chegar ao profissional esta lista – não exaustiva – de verbos que dão recado igual ou até mais nítido que o cansativo defender.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Aqui estão eles:
Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

São 26. Há mais.

Cantoria parlamentar

José Horta Manzano

Como no Brasil, o parlamento suíço é bicameral – formado por duas câmaras. O Conselho dos Estados funciona como nosso senado: representa os cantões. A cada cantão, independentemente do número de habitantes, correspondem dois senadores.

Palácio federal, Berna, Suíça

Palácio federal, Berna, Suíça

O Conselho Nacional, análogo a nossa câmara, representa o povo. É composto por 200 deputados. Cada cantão elege um número de deputados proporcional a sua população.

A última sessão de setembro marca o fim da legislatura. É quando as duas câmaras se reúnem sob o mesmo teto. Dado que este ano – agora em outubro – há eleições para renovação das câmaras, a derradeira sessão foi particularmente emocionante.

Coral 1Os eleitos que não vão se recandidatar sentiam já saudades do ambiente do qual sabem que não mais farão parte. Já os que pleiteiam novo mandato se perguntavam, ansiosos, se estariam de volta na próxima legislatura ou se aquela sessão seria a última.

De repente, para surpresa geral de todos os eleitos, estalou um flash mob. Para os não iniciados, a melhor explicação do neologismo é um outro neologismo. Image o distinto leitor um rolezinho civilizado, bem organizado, bem-comportado e bem-intencionado.

Sem que nenhum dos parlamentares tivesse sido informado, um grupo coral tinha sido convidado para atuar no recinto. Os cantores vieram disfarçados. Alguns usavam farda de funcionário, outros portavam crachá de jornalista, havia ainda os que carregavam câmeras, como se cinegrafistas fossem. Outros cantores estavam também disseminados nas galerias.

Num determinado momento, para estupor geral, o grupo se põe a entoar, a cappella(*), um suave canto que, passado o espanto, trouxe o encanto. Surpresos e deslumbrados, os parlamentares se entreolhavam, fotografavam, filmavam, mandavam tuítes e esseemeesses.

Parlamento suiço, Berna

Parlamento suiço, Berna

Para não desconsiderar ninguém, o grupo entoou cantos populares nas três línguas oficiais do país, donde a apresentação ter durado mais de seis minutos. Ao final, o comentário espirituoso de um dos deputados foi o seguinte: «Na última sessão do ano, costumamos ter muitas moções. Desta vez, tivemos muitas emoções.»

Quem sabe os netos de nossos netos ainda não verão um dia, em Brasília, algo semelhante. Ânimo, cidadãos, nada é impossível!

Está no youtube. Aos interessados basta clicar aqui.

Interligne 18h

(*) Diz-se a cappella de um canto que não é acompanhado por instrumentos.

Os “malfeitos” da Volkswagen – Parte 2

José Horta Manzano

Carro 10A desventura da maior montadora de automóveis do planeta, a Volkswagen, não se resumem ao baita arranhão que sua imagem levou com a fraude que andaram cometendo (veja post de ontem, logo aqui abaixo). As dores de cabeça tampouco se encerram com a multa bilionária que terá de ser paga a autoridades americanas.

Há mais. Jornais brasileiros pouca importância deram à notícia, mas na Europa falou-se no assunto. A Volkswagen do Brasil anunciou, semana passada, ter aberto inquérito interno para apurar acusações que lhe são feitas de ter colaborado ativamente com a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Carro 11Antigos funcionários da firma revelaram fatos escabrosos à Comissão Nacional da Verdade que, por sua vez, formalizou acusação contra a montadora. Os queixosos alegam ter documentos devastadores provando que a empresa havia montado um verdadeiro Estado policial em suas dependências para deter, interrogar e até torturar suspeitos de subversão ao regime então vigente.

Carro 9Os lesados – ou seus herdeiros – exigem reparação financeira. É possível que um acordo financeiro possa evitar longo litígio por danos morais e materiais.

Como eu dizia ontem, desgraça pouca é bobagem. Não será a Volkswagen que me contradirá.

A notícia saiu na mídia alemã. Repercutiu na imprensa francesa. No Brasil, poucos veículos fizeram eco. O Jornal do Brasil foi um dos poucos a dar a notícia, assim mesmo citando a imprensa alemã.

Frase do dia — 262

«Um dos segredos do sucesso de Lula: a falta de princípios.

Poderia repetir a sério o que o comediante norte-americano Groucho Marx afirmou fazendo graça: “Esses são meus princípios. Mas se você não gosta deles, tenho outros”.

Lula por ele: “Sou uma metamorfose ambulante”.

Lula por Hélio Bicudo, fundador do PT: “Ele só está em busca de vantagem para ele e para sua família”.»

Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 21 set° 2015.

Os “malfeitos” da Volkswagen

José Horta Manzano

Carro 5A coisa anda preta pros lados da Volkswagen. Para os que acham que desgraça pouca é bobagem, taí a confirmação dos fatos. A maior montadora de automóveis do planeta – pelo critério de número de carros produzidos – está numa sinuca de bico.

Já contei ontem o lado mais folclórico da tempestade que despenca sobre a companhia. O Wolfsburg Futebol Clube, cuja história se confunde com a da Volkswagen, tomou uma lavada do Bayern Munique por cinco a um. Com cinco gols marcados em apenas nove minutos pelo surpreendente Lewandowski. O deles, não o nosso.

Carro 6Fosse só isso, não daria uma crônica. O problema é bem maior e pra lá de grave. A mídia brasileira, preocupada com problemas internos, tem dado pouco espaço à catástrofe que se abate sobre a montadora alemã. Na Europa, já faz vários dias que jornais, rádio e tevê trazem, em manchete, a evolução da tragédia.

Apanhada com a boca na botija por autoridades de vigilância dos EUA, a VW foi obrigada a reconhecer ter instalado em 11 milhões(!) de carros movidos a diesel um dispositivo eletrônico secreto para fraudar controles antipoluição.

A coisa funcionava de modo sorrateiro. No momento em que o carro era submetido aos controles periódicos obrigatórios, a engenhoca emitia dados falsos que faziam crer que a emissão de poluentes estava dentro das normas americanas. Na verdade, os gases estavam muitíssimo acima da tolerância.

Carro 7O escândalo está assumindo proporções globais. O presidente do grupo, mesmo alegando ignorar a falcatrua, foi forçado a demitir-se – o que me parece consequência lógica. Se o homem sabia, é mau dirigente e tem de sair. Se não sabia, é mau dirigente e tem de sair. (Toda semelhança com situação ocorrida no Planalto terá sido coincidência fortuita e involuntária.)

O valor da ação da VW perdeu 35% em três dias. A companhia periga ser contemplada pelo fisco americano com multa bilionária: fala-se em 18 bilhões de dólares, quantia equivalente ao lucro total do grupo em 2014.

Como efeito colateral, a imagem de seriedade de toda a indústria alemã levou um arranhão. Outro efeito secundário é a confiança do consumidor na honestidade de todas as demais montadoras, alemãs ou não. Estão todos com um pé atrás. A pergunta que se faz estes dias é: «Na hora de compra seu novo carro, você compraria um Volkswagen?»

Carro 8Está aí um típico caso em que os «malfeitos» de um abalam outros que nada têm a ver com o peixe. Vale repetir que toda semelhança com acontecimentos brasileiros terá sido coincidência fortuita e involuntária.

Tem mais desgraça se despejando sobre a companhia alemã. Amanhã continuo.

The big Lewandowski

José Horta Manzano

Entre as manchetes internacionais de hoje, uma chama a atenção. É esta aqui:

Chamada do jornal alemão Die Zeit, 23 set° 2015

Chamada do jornal alemão Die Zeit, 23 set° 2015

«The big Lewandowski» – o grande Lewandowski! Pois é. Deu no Die Zeit, importante jornal alemão. Se saiu, deve ser verdade. Só que…

Robert Lewandowski

Robert Lewandowski

… Só que o rapaz não é exatamente aquele em quem você está pensando. O «big Lewandowski» de que trata o artigo não é o nosso ministro do STF, mas um jogador de futebol atuando no Bayern de Munique.

É que na partida de ontem contra o Wolfsburg, outro clube alemão, Robert Lewandowski ousou marcar 5 gols em 9 minutos! Tirando campeonato de várzea, poucas vezes se viu tal façanha. Naturalmente, o profissional foi devidamente aplaudido de pé pelo distinto público alemão.

Já o distinto público brasileiro está desfiando novena, trezena e ladainha. Estamos todos ansiosos à espera do dia em as decisões do nosso Lewandowski, ministro do STF, nos farão levantar da cadeira para aplaudir de pé. Oxalá chegue logo.

Carta aberta ao Lula

José Horta Manzano

by Eduardo Baptistão desenhista paulista

by Eduardo Baptistão
desenhista paulista

O advogado Antonio Tito Costa, hoje com 92 anos, foi prefeito de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, entre 1977 e 1983. Eram anos difíceis. A ditadura militar estava nos estertores mas mantinha a mão de ferro. A inflação crescia e a marmita dos movimentos sindicais ameaçava explodir.

Tito Costa tinha sido eleito pelo MDB, o partido que se contrapunha à ditadura. Nessa qualidade, estava próximo de oposicionistas, entre os quais Luiz Inácio da Silva, o Lula. Caminharam juntos por aqueles tempos pesados. Passada a tempestade, cada um seguiu seu destino.

Em carta aberta dirigida ao Lula e publicada na Folha de São Paulo de 20 set°, o antigo prefeito relembra aqueles anos e escancara a alma. Com sinceridade comovente, expõe sua visão dos caminhos tortuosos pelos quais enveredou o antigo metalúrgico.

Vale a pena ler. Quem estiver interessado deve clicar aqui ou aqui.

Que ninguém durma

José Horta Manzano

Num país onde cultura – convenhamos – não é a preocupação central, acontecem lances de pasmar. Não sei quem será o responsável pelo nome atribuído a cada operação da Polícia Federal. Seja(m) ele(s) quem for(em), tiro o chapéu.

Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano

Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano

Quando, em 1957, surgiu a chanchada Tem boi na linha, o velho Felipe Jorge, meu professor de Português, escandalizou-se: «Como é que ousaram lançar filme com erro gramatical no título?» – exclamava. Para o venerando mestre, o fim do mundo devia estar se aproximando.

Turandot 2Apesar da apreensão do lente, o mundo não acabou. Sessenta anos depois, o filme Que horas ela volta?(sic) prova que o boi continua na linha. Decididamente, o zelo pela linguagem correta ainda não entrou no rol das preocupações de quem dá título a filmes.

Já a PF mostra um surpreendente esmero nesse aspecto. Confesso que tive de pesquisar pra saber que diabo significava Satiagraha. A vistosa operação atual, que uns escrevem Lava Jato, outros Lava-jato, mas que pessoalmente prefiro grafar Lava a Jato, é outro exemplo de presença de espírito. Faz alusão à lavagem de sujeira oculta debaixo do tapete e avisa que não será feita com vassoura de piaçaba, mas com jateamento dos bons.

Boi Barrica, My Way são outros títulos sugestivos. Mas, com este novo que saiu ontem – Nessun dorma –, chegamos a um patamar músico-poético-simbólico nunca antes atingido.

Turandot 1Nessun dorma é a grande ária do personagem Calaf, cantada no terceiro ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. Fazendo eco à ordem dada pela princesa Turandot, Calaf repete que ninguém deve dormir aquela noite em Pequim.

Na ópera, o objetivo da vigília é descobrir o nome do príncipe, custe o que custar, antes do romper da aurora. No Brasil, o propósito da PF é relembrar aos que tiverem cometido «malfeitos» que ainda há tapetes por levantar e que o jateamento está longe de terminar.

Interligne 18h

Há uma excelente gravação da ária Nessun dorma, feita ao vivo em 1994 em Los Angeles, quando do encontro dos três grandes tenores da época: Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti com orquestra dirigida por Zubin Mehta. Foi justamente a peça que encerrou o concerto. Clique aqui quem quiser recordar.

Finesse diplomática

José Horta Manzano

Não é segredo para ninguém que sutileza diplomática não combina com a espessura de nossa presidente. Quando se trata de relações exteriores, o comportamento pesadão de dona Dilma costuma provocar desastre.

Dilma 13Para piorar o quadro, nossa presidência conta, desde os tempos do velho Lula, com os inestimáveis serviços de um certo senhor «top-top» Garcia, ‘assessor especial’ para assuntos estrangeiros. Falo daquele personagem que insiste em manter os pés mergulhados e cimentados em ideologias que faleceram décadas atrás.

O Lula era presa fácil para quem soubesse atiçar-lhe a vaidade. Mal aconselhado por seu entourage em matéria de relações exteriores, deu passos fora de esquadro e causou vexames memoráveis. Dona Dilma, desinteressada pelo assunto e mais preocupada em segurar-se firme pra não cair do trono, é presa mais fácil ainda.

Quando se nomeia novo representante diplomático junto a um país estrangeiro, o embaixador tem de receber a acreditação do Estado no qual vai exercer. Seu nome tem de ser aceite – homologado, se preferirem.

A prudência manda que ambos os governos se ponham de acordo antes de anunciar o novo nome. Mas nem sempre se procede assim. Muitas vezes, o Estado emissor dá a público o nome do escolhido, dando sua acreditação por favas contadas.

Barão do Rio Branco by José Geraldo Fajardo, artista carioca

Barão do Rio Branco
by José Geraldo Fajardo, artista carioca

Já por duas vezes, o governo de dona Dilma envergonha o Estado brasileiro nesse campo. A primeira foi quando a presidente humilhou publicamente o novo embaixador da Indonésia. Ocorreu na época em que um brasileiro, condenado por tráfico de droga, acabava de ser executado naquele país. Enganando o representante estrangeiro, nossa mandatária mandou convocá-lo a palácio como quem lhe fosse conceder a acreditação. Na hora agá, negou-se a aceitar suas credenciais e despachou o homem para casa sob a vista de pequena multidão de autoridades. Uma afronta.

Estes dias, dona Dilma reincidiu. Israel, mais prudente que a Indonésia, comunicou o nome do diplomata que tencionava nomear ao posto de embaixador em Brasília. É bem possível que dona Dilma nunca tenha ouvido falar nesse senhor. Seu entourage, contudo, o conhece de outros carnavais. Sabem que o personagem é ferrenho defensor da política de implantação de colônias em território palestino.

NeandertalA nomeação caiu mal em Brasília. Posso até compreender que o governo brasileiro se sinta incomodado em homologar representante estrangeiro cujas ideias sejam frontalmente divergentes da visão do Planalto.

Qual é o procedimento diplomaticamente correto em casos assim? Faz-se chegar ao conhecimento do Estado emissor, discretamente e por canais diplomáticos, que o novo embaixador é inaceitável. É um direito reconhecido internacionalmente. Ninguém fica sabendo, ninguém passa vergonha. Indica-se outro embaixador. Assunto encerrado.

E o que é que fez o Planalto? Num procedimento raro e fora dos padrões, dona Dilma fez saber – pessoal e publicamente – que o homem não seria bem-vindo. O mundo inteiro ficou a par da rejeição, o que pegou pra lá de mal. O governo israelense ficou embaraçado e o Planalto deu mais uma mostra de sua diplomacia neandertaliana.

Ah, pobre barão do Rio Branco…

O cara

José Horta Manzano

Que saudades do tempo em que, ao abrir o jornal, a gente dava de cara com notícias boas. E olhe que não faz tanto tempo assim. Lembram-se quando, numa cúpula realizada seis anos atrás, Obama se referiu ao Lula com palavras elogiosas?

Pois é, parece que faz muito tempo. Momentos de magia costumam ser varridos pelo tempo. Desaparecem na impiedosa névoa do passado, aquela que apaga ilusões momentâneas e escancara realidades menos charmosas.

Estive lendo dia destes um relato daquele acontecimento, feito na hora, a quente. O artigo continua atual, não ganhou uma ruga. Que julguem meus distintos leitores.

Interligne 18h

Obama é brother de Lula

Tiago Luchini (*)

Livro 1É o comentário do momento! Todo mundo está falando sobre isso e a mídia, como sempre, adora. Numa reunião do G20, as lentes da BBC captaram uma interação entre Obama e Lula. Resultado? A mídia reporta “Barack Obama afirmou que Lula é o ‘político mais popular da Terra’. Além disso, Obama também disse que adora Lula e que o brasileiro tem ‘boa pinta’.”

Vale assistir ao vídeo e ponderar:

1) Obama começa dizendo: “This is my man!” que traduziram como “Este é o cara”. Na prática é uma expressão em inglês usada quando você não tem muito que dizer quando encontra alguém e quer ser camarada, simpático. É algo bem comum e, até certo ponto, bem breguinha. Eu traduziria como “Este aqui é meu chapa!” ou “meu brother!”, dependendo da escolha. Só estou mudando a gíria de década.

2) Obama continua querendo ser simpático. O cara é carismático. Aí ele solta um genérico “amo este cara… ele é o mais popular da Terra”. Uma sacada de humor bem feita. Você desloca uma caraterística contundente sua para um terceiro. É agradável e arranca um sorriso das pessoas. Kevin Rudd, primeiro-ministro da Austrália, percebe a piadinha e completa: “O político mais popular de longo mandato”. Rudd não foi tão bom quanto Obama, mas valeu pelo embalo. E o cara é australiano, tinha de soltar uma piadinha. Em tese, eles são bons nisso.

Lula e Obama3) O Lula, como sempre, não sabe de nada. É de dar dó a sensação de perdido dele. É verdade, não gosto do governo do Lula, mas ele parece um cachorrinho perdido no meio de ferozes pit-bulls. É inevitável não pensar como tratamos os estagiários e novatos nas nossas empresas. Lula é o típico estagiário sem-noção.

English 14) A puxadinha que Lula dá em Obama para chamá-lo para mais perto é… triste. Que líder nacional esse que temos que não tem uma mínima noção de comportamento multicultural? Ah, sim, ele nem fala inglês. Mas que vá ler um livro a respeito. Tenho um de cabeça para indicar mas… o cara nunca leu nenhum! Sim, é nosso presidente!

Se eu fosse o Lula, cortaria direto no “This is my man!” – tudo dependendo do meu humor (está aí um dos motivos pelos quais eu nunca serei presidente – o futuro de uma nação não pode estar nas mãos de alguém com humor tão instável quanto o meu). Mas o diálogo iria provavelmente assim:

Obama: “This is my man!”

Lula doutor 2Luchini: “You know what? You are my man too! That’s the beauty of being part of the same big, black family!” (“Quer saber? Você é meu chapa também! Taí a beleza de fazer parte da mesma grande família negra!”)

Retornaria com a mesma moeda, com o mesmo humor e seria simpático da mesma maneira, provocando sorriso nos outros. Até o coitado do Rudd ficaria mal numa saída bonita dessas. Que fazer? Temos aquilo que merecemos.

Interligne 18h

(*) Tiago Luchini é diplomado em Administração de Empresas pela Universidade MacKenzie de São Paulo. É também titular de MBA pela London Business School (UK) e pela Universidade de Columbia (EUA). Vive em Nova York. O texto citado foi escrito em abril 2009.