O elixir que salva?

José Horta Manzano

O presidente de Madagascar convocou ministros, embaixadores e jornalistas para assistirem a anúncio importante. Subiu ao palco, tomou o microfone e informou que tinha sido encontrado remédio local contra a covid-19, elaborado com plantas da ilha.

Com a garrafa na mão, acrescentou, entre dois goles tirados direto do gargalo, que o elixir faz efeito em 7 dias. A bebida já tem até nome: chama-se Covid-Organics, marca afinada com o zeitgeist (= espírito do tempo). Andry Rajoelina – esse é o nome do presidente – disse ainda que o remédio já tinha sido testado e aprovado por cientistas locais.

Andry Rajoelina, presidente de Madagascar
apresentação do Covid-Organics

Ficou no ar um certo desconforto. Jornalistas, que queriam ter acesso ao detalhe dos testes clínicos, voltaram de mãos abanando e consideraram que tudo aquilo estava opaco demais. Embaixadores, que examinam o mundo com a régua de medir vantagens para o próprio país, saíram desconfiados de que não passava de marketing barato; de fato, se o planeta passar a se interessar pela bebida, o crescimento das exportações malgaxes será exponencial. A OMS, por seu lado, pôs o “remédio” entre aspas e advertiu que sua eficácia está longe de ser comprovada.

Ocupado em combater inimigos imaginários, doutor Bolsonaro deve ter perdido a informação. Ainda bem, senão haveria o risco de ele também se tornar garoto-propaganda do elixir que salva.

Bebeu, pagou

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, o sentimento de cidadania é palpável. Desde a infância, todos aprendem que pertencem a uma comunidade e que devem seguir as regras indispensáveis para conviver em harmonia. Diferentemente do que ocorre no Brasil, as leis se aplicam a todos os cidadãos, sem exceção nenhuma. Particularidades como cela especial ou foro privilegiado são inconcebíveis para um suíço.

Como em todo o mundo, os jovens às vezes se excedem. Em bares ou festas, especialmente em fins de semana, alguns exageram na bebida e acabam dando trabalho. As delegacias de polícia do país têm uma cela reservada para esse tipo de ocorrência. É chamada «cela para recuperar a sobriedade».

Toda pessoa encaminhada a essa cela permanece lá até voltar ao estado normal. Ao sair, receberá conta cujo valor pode variar conforme o cantão. Em Genebra, são 300 francos suíços (R$ 1100). O cálculo corresponde a uma hora de trabalho de dois policiais. O raciocínio é que o contribuinte não deve arcar com o custo de comportamentos problemáticos. O pagamento da despesa cabe a quem causou o problema ‒ uma lógica aceita por todos.

Em casos extremos, se o comportamento escandaloso daquele que bebeu demais tiver causado incômodo a moradores ou transeuntes, ele receberá multa de 300 francos por perturbação da ordem e da tranquilidade.

Como no Brasil, a polícia faz batidas pra medir a taxa de alcoolemia de motoristas. Costuma parar veículos aleatoriamente e mandar o condutor soprar no bafômetro. Se o teste der negativo, é «merci et au revoir» ‒ obrigado e até logo. Já se der positivo, é apreensão da carteira, imobilização do veículo e multa pesada. Com uma peculiaridade: além da multa, o motorista imprudente terá de pagar a despesa do teste de bafômetro. O preço é 100 francos (R$ 370).

Mais vale pensar duas vezes antes do primeiro trago.

Champagne

José Horta Manzano

Houve um tempo em que viagens intercontinentais eram reservadas a um punhado de abonados que tinham tempo e dinheiro para uma travessia marítima de duas semanas. Naquela época, nosso país estava social e culturalmente assaz distante dos centros mais desenvolvidos.

O distinto leitor pode objetar, dizendo que a situação não mudou muito. Depende. Em quilômetros, realmente, nada mudou. Em matéria cultural, avançamos pouco ‒ a prova é que continuamos a eleger Lulas, Dilmas e Tiriricas. A mudança maior adveio do barateamento dos transportes. Muitos brasileiros têm hoje capacidade financeira pra comer uma fondue na Suíça ou tirar uma selfie defronte à Torre Eiffel.

Queijo Roquefort

Quando as relações entre Brasil e Europa se resumiam à exportação de café e ao parco movimento de meia dúzia de turistas, litígios ligados ao uso indevido de marcas era irrelevante. Já nos anos 1940 e 1950, dadas as dificuldades e o alto custo das importações, industriais brasileiros lançaram no mercado sucedâneos nacionais para produtos europeus tradicionais.

Apareceram iguarias cujo gosto e aspecto se pareciam muito com o de um verdadeiro gorgonzola, com o de um legítimo parmesão, com o de um autêntico conhaque ou com o de um camembert genuíno. Como o mercado brasileiro era modesto ‒ mormente para esse tipo de produto especial ‒, isso não incomodou ninguém.

Vinho do Porto

Na Europa, há centenas de nomes protegidos pela lei. Não estou me referindo a marcas que, por natureza, são propriedade de quem as registrou. Falo de bebidas e alimentos que, para ter o direito de portar o nome da região de origem, têm de responder a rígidos critérios.

Só pode se chamar cognac o destilado de vinho produzido na região que circunda a cidade de Cognac, na França. Destilados de vinho oriundos de outros lugares costumam ser chamados brandy. Só pode se chamar roquefort o queijo de ovelha com fungos produzido nas cercanias do vilarejo homônimo, também na França. Gorgonzola é nome de uma cidadezinha próxima a Milão (Itália). Os queijos cremosos fabricados na região são os únicos a ostentar a marca de origem. Qualquer outro queijo a cuja massa se houver acrescentado fungos é chamado «fromage bleu» ou «blue cheese»queijo azul.

Queijo parmigiano reggiano, o legítimo

O mesmo se aplica ao vinho branco espumante, orgulho da região de Champagne, no norte da França: é o único a poder ser vendido com o nome de champanhe. Vinhos espumantes de outras regiões levam outros nomes. Na Itália, é conhecido o Prosecco. Na Espanha, há o cava. E assim por diante.

Até uns dez anos atrás, um vilarejo suíço chamado Champagne, que produz algumas pipas de vinho branco, estampava nas garrafas o nome do lugar. Ao dar-se conta disso, a União Europeia forçou a mão. De pouco adiantaram os protestos dos pequenos produtores da região. Foram proibidos de anotar «Champagne» na etiqueta. Adotaram a denominação «Champenoux».

Cognac

O mercado brasileiro cresceu, os contactos internacionais se banalizaram e a situação começa a mudar. Em plena negociação de um acordo entre Mercosul e União Europeia, surgiu o problema do uso indevido de denominações regulamentadas. A não ser que o lobby dos produtores europeus de conhaque, parmesão & assemelhados deixe barato, os fabricantes de sucedâneos brasileiros serão obrigados a renunciar às denominações protegidas. A lista de reclamações dos europeus tem mais de 300 itens.

Estalos de Vieira

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Padre VieiraNão sei se todos sabem a que me refiro. Aos mais jovens, explico: há muitos anos, usávamos por aqui uma expressão que traduz com perfeição a palavra inglesa “insight”. Sabe aquela luzinha que se acende no cérebro quando subitamente você se dá conta de algo? Pois então, dizíamos que se tratava de um “estalo do Padre Vieira”, presumivelmente um de meus ancestrais. Conta a lenda que, enredado em dificuldades para aprender as lições do seminário, ele teria invocado auxílio divino e, numa fração de segundo, sua cabeça teria se aberto num clarão. É o equivalente à expressão contemporânea “cair a ficha”.

Pois eu acabo de ter dois estalos de Vieira. O primeiro, mais prosaico, é que, tão logo coloquei o ponto final no parágrafo acima, percebi que nossa língua deixou de fazer menção a um contexto religioso de iluminação para tratar desse fenômeno de forma bem mais profana, associando-o às máquinas caça-níqueis. Santo Deus, a que ponto chegamos!

Lampada 1Seja como for, o segundo estalo que tive parece render mais frutos para a compreensão da alma brasileira. Refletia eu sobre as agruras do clima tropical. Há menos de quatro dias, encerrava-se nosso esquizofrênico inverno tropical com temperaturas batendo na casa dos 36 graus em São Paulo e 42 no Rio de Janeiro. Meras 24 horas depois de entrada a primavera, os paulistas tiveram de enfrentar uma forte tempestade que provocou uma estonteante queda de 10 graus na temperatura e a passagem de uma umidade relativa do ar semelhante à do deserto do Atacama, o mais árido do mundo, para civilizados 56%.

Hoje de manhã, ao me vestir para sair, hesitei ponderando que tipo de roupa deveria usar. O dia amanheceu chuvoso e um vento frio me fazia pensar que o melhor seria colocar uma camisa de mangas longas. Por outro lado, temia fazer papel de idiota e sair às ruas vestida como esquimó na praia de Copacabana, já que a previsão deixava claro que iria esquentar até os 27 graus.

Foi então que me ocorreu que, nem mesmo sob o prisma da meteorologia, o Brasil é um país para amadores. Quem quer que se aventure a fazer seu ninho por estas plagas será instado a se transformar em perito especializado na arte da flexibilidade em todas as situações do cotidiano. Não importa o que os órgãos dos sentidos informem, não importa o que a lógica primária sugira, não importa o que a intuição sopre, o “non-sense” da realidade nacional acabará por se impor e forçará a pobre criatura a desenvolver capacidade de adaptação.

Calor 1Sob essa ótica, consegui em pouco tempo estabelecer múltiplos nexos causais entre nossa convivência forçada com um clima errático e o caráter do povo brasileiro. É provável, deduzi, que toda a instabilidade e volatilidade das tendências climáticas se tenha transferido para nosso código comportamental.

Avalie comigo alguns traços de alma que nos distinguem como povo: a lógica nunca foi nosso forte; não vemos qualquer problema na coexistência entre atitudes liberais radicais e um tradicionalismo empedernido: só valorizamos as conquistas obtidas contra todas as adversidades. Somos bipolares assumidos diante da autoridade: ora nos curvamos servilmente aos ditames dos que detêm o poder, por mais absurdos que nos pareçam, ora saímos às ruas dançando e cantando a plenos pulmões que o rei está nu. O mundialmente famoso “jeitinho” brasileiro parece ilustrar com perfeição a necessidade desesperada que sentimos de lidar minimamente bem com a irracionalidade dos fenômenos naturais e sociais que nos afligem.

Rei nuOutro exemplo gritante é o de nossa secular incapacidade de planejamento. Não nos sentimos confiantes para elaborar quaisquer projetos de futuro, uma vez que sabemos que as regras do jogo podem ser alteradas segundos depois de dada a ordem de partida. Nossos planos individuais e coletivos literalmente derretem e se dissolvem no ar tão logo a temperatura começa a subir. Em seu lugar, colocamos então nossa crença no deus-dará. A tendência nacional à procrastinação já nos rendeu até o epíteto de “país das revoluções sem sangue”.

É fato sabido que a geografia e o clima influenciam pesadamente o estado de ânimo das pessoas. Povos de países de clima frio tendem a ser reservados, taciturnos e autodefendidos, valendo-se muitas vezes da bebida para jogar fora suas frustrações e exorcizar seu isolamento emocional. Habitantes de países montanhosos mostram-se, no mais das vezes, laboriosos e determinados, enquanto os que habitam planícies desérticas tendem a adotar uma postura mais filosófica diante da vida – se seus olhos não têm onde pousar, o pensamento pode voar para longe e criar novas realidades.

Carnaval 1Já nós, oriundos de países de clima tropical, somos seres quentes em todos os sentidos. Tendemos a ser mais sociáveis e festeiros, demonstrando apreço pelo congraçamento que a arte, a dança e a música propiciam. Elevamos à máxima potência o culto ao corpo, a liberalidade dos costumes e o desejo de transgressão das normas vigentes, assim como a informalidade no trato social. Nós, brasileiros, por estarmos acostumados com a abundância de recursos naturais de que dispomos, somos marcados ainda pela identificação com a cultura do desperdício e por uma autocondescendência que convive sem traumas com todo tipo de preconceito.

Talvez em função do gigantismo de nosso território e da consequente diversidade de climas regionais, possuímos finalmente outra característica curiosa: por mais que superficialmente pareçamos desorganizados, imprevisíveis e desconectados da preocupação com o bem comum, podemos nos tornar em segundos um exército de seres fraternos e compassivos devastadoramente eficiente. O rastilho que detona essa transformação? Simplesmente o exercício do prazer e da liberdade individual. Quem duvidar, experimente formar e controlar a evolução de uma nova escola de samba com mais de 3.000 figurantes que precisa desfilar numa passarela em exíguos 60 minutos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.