Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, só havia dois profissionais especializados: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os apetrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais, os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, era tradição que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada estava habitável. E era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição das duas águas.

233 dias

José Horta Manzano

Você sabia?

Entre meus distintos leitores, numerosos são os que moram em região de clima tropical, onde dias de sol e calor são a regra. Nem todos os terráqueos vivem a mesma realidade. A maioria dos humanos conhece outra existência.

Aqui na região em que vivo, os ares não têm a tropicalidade brasileira. Invernos são longos e verões, naturalmente, curtos. Sabe quando foi a última vez que a temperatura ultrapassou 20°? Foi dia 16 de setembro do ano passado. Desde então, nunca mais. Faz 233 dias que não sabemos mais o que é um calorzinho. Praticamente oito meses!

Primavera 2Mas calma lá! Isso não significa que se tenha de usar meia de lã, capote e cachecol dentro de casa. Lareira, hoje em dia, tornou-se objeto decorativo. Na Europa ocidental, a maioria das casas conta com aquecimento. Os sistemas podem variar, mas todos garantem temperatura confortável em todos os cômodos.

Carros, lojas, trens, centros comerciais e outros locais públicos também são aquecidos. O resultado é que, em certos dias do ano, paulistas, paranaenses ou gaúchos podem passar frio dentro de casa, desconforto de que europeus já não se lembram mais.

PrimaveraPara hoje, depois de tantos meses, está previsto que a temperatura externa chegue aos simbólicos vinte graus. Não deve ir além, mas já é bom sinal de que a primavera chegou. Afinal, estamos em maio, mês das flores e das noivas.

Mas não pensem que, de agora até setembro, o termômetro vai subir acima dos vinte graus, regularmente, todos os dias. Em 2015, ano excepcionalmente quente, isso só aconteceu no mês de julho. Vamos ver como será este ano.