Pé-rapado

Ladrão 4José Horta Manzano

Hoje cedinho, deu no rádio. Dois indivíduos foram detidos pela polícia num arrabalde da cidade de São Paulo. Carregando, com esforço, quatro sacolas plásticas, levantaram suspeita. Inspecionadas, as sacolas revelaram estar repletas de moedas de 50 centavos falsificadas.

Os presos admitiram estar implicados na fraude, mas acusaram uma fabriqueta de fundo de quintal ‒ situada em outro subúrbio ‒ de ser o verdadeiro fabricante da mercadoria. A eles, cabia apenas dar acabamento às peças. O trabalho era, tudo indica, feito com esmero. O costume era derramar as moedas falsas no mercado ao preço de 25 centavos cada uma.

No clima de rapina bilionária a que nos acostumaram estes últimos temos, achei que a notícia era digna de nota. É até alvissareira. Mostra que nem toda fraude é necessariamente milionária. Sobrevivem relíquias do que se costumava chamar malandro pé de chinelo.

Interligne 18c

Nota gramatical
A Academia Brasileira de Letras, guardiã da ortografia, ensina que pé-rapado leva hífen, enquanto pé de chinelo dispensa o tracinho. Por quê? Há mistérios ainda mais insondáveis que as razões que levam um cidadão a falsificar moedas de 50 centavos.

4 pensamentos sobre “Pé-rapado

  1. Prezado Sr. Manzano, ainda que sabedor de seu esmerado conhecimento de nossa língua, ouso sugerir uma explicação para sua suposta dúvida levantada no fim do seu texto: “pé de chinelo” não leva hífen porque foi suprimido esse sinal dos substantivos que têm preposição, à exceção dos nomes de espécies botânicas e zoológicas (e outras pouquíssimas, como água-de-colônia e cor-de-rosa).

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    • Caro João,

      Agradeço pela gentil explicação. Devo confessar que eu conhecia a regra. Só quis aqui dar uma piscadela marota.

      Você sabe da birra que tenho contra a arrogância de uma academia que se gaba de descender de Machado de Assis, mas que se arroga o direito de conceder fardão a Sarney, Paulo Coelho e outros de mesmo jaez.

      Em matéria de imposição ortográfica, convenhamos que certos casos estão no limite entre o razoável e o arbitrário. Por que razão ‘água-de-colônia’ ‒ expressão pouco utilizada ‒ entra na parcimoniosa lista de exceções enquanto fica de fora ‘água de cheiro’, popular e corrente em extensas regiões do país?

      Em vez de tentar engessar a grafia, mais procedente teria sido liberá-la em casos mais numerosos, assim como ‒ acertadamente ‒ foi feito com Antônio/António, contacto/contato, quota/cota, quatorze/catorze.

      As três palavrinhas pé de chinelo, assim, sem maiores explicações, precisam de um contexto para dizer a que vêm. Já a sequência pé-de-chinelo, com os devidos tracinhos, dispensa esclarecimentos. Ou não?

      Bato o pé: certas injunções da douta Academia encerram mistérios insondáveis. Um dia, quem sabe, chegaremos lá?

      Forte abraço.

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  2. A minha maior indignação foi a retirada do acento do verbo parar e a manutenção do acento no verbo pôr. Também acho que uma meia dúzia de acadêmicos não pode impor uma forma de grafar comum a brasileiros e portugueses, ignorando a tradição e o sentimento da maioria da população.

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  3. Da até pena dos dois pé de chinelo ou ladrão de galinha, como tb se dizia antigamente, posto que não chegarão a gatunos de colarinho branco.

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