Com claque e sem vaia

José Horta Manzano

Vaia 1Na virada do século 19 para o 20, a ópera andava muito na moda. Antes do disco, da tevê, do rádio e do cinema, espetáculo musical ou teatral tinha de ser assistido ao vivo. Dado que conjugava música com teatro, ópera fazia sucesso e atraía plateias populares.

Para aparentar sucesso de arromba e assegurar artigos elogiosos nos jornais do dia seguinte, cantores costumavam contratar uma claque. Era um grupo de mercenários incumbidos de aplaudir estrepitosamente o desempenho do artista por conta do qual trabalhavam. A um sinal discreto do chefe da tropa, choviam aplausos fenomenais.

Ao final do espetáculo, dirigiam-se os componentes da claque a um lugar discreto onde, em fila, se preparavam para receber o pagamento combinado. Antes de embolsar os cobres, passavam pela inspeção. Suas mãos eram palpadas. Só fariam jus ao soldo se as palmas estivessem quentes, vermelhas, sinal evidente de que haviam aplaudido com vigor. Hoje em dia, espetáculos ao vivo dispensam claque. Fazem sucesso sem estímulos forçados.

Aplauso 1Ontem, no entanto, assistimos a uma emocionante viagem ao passado. Para amenizar a saída inglória ‒ por debaixo da rampa do Planalto, diga-se de passagem ‒, dona Dilma recorreu ao antigo truque. Pequena tropa estava ali, constituída em boa parte de mulheres devidamente paramentadas de vermelho. Palavras de ordem foram regularmente escandidas aos brados. Aplausos e gestos enérgicos não faltaram.

Foi uma comovente volta no tempo, o coroamento apoteótico de uma era de regressão. Esperamos todos que, daqui pra frente, o Brasil volte a funcionar. Esperamos todos que a simbólica ressurreição da claque tenha significado o enterro do retrocesso.

A mídia não registrou a fila da palpação das mãos.

Dilma e o nicho 38

José Horta Manzano

Hoje, amanhã ou daqui a um par de dias, dependendo das surpresas que nos reservem as mambembes sumidades que ainda servem o Planalto, dona Dilma vai-se embora pra casa. E já vai tarde.

Afabilidade nunca foi o ponto forte da «presidenta». Orgulhosa e arrogante, já mandou avisar que não desce a rampa de jeito nenhum. Só cumpre ritos que lhe sejam favoráveis. Esse, naturalmente, não é. Donde recusar-se a segui-lo.

Há antecedentes. Ao terminar o mandato, João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente militar, recusou-se a passar a faixa a José Sarney, seu desafeto. Desatou o nó de maneira pouco cavalheiresca: escafedeu-se pela porta dos fundos.

Tivesse passado a faixa como manda o figurino, todos já se teriam esquecido. Como fez o que fez, deixou marca na história. Entre outros tropeços ‒ e foram muitos ‒, será lembrado por esse também. Para sempre.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Se dona Dilma já não é conhecida por qualidades de estadista, seus dons de visionária são ainda menos evidentes ‒ para não dizer nulos. O guru marqueteiro está fora do ar, atrás das grades. O padrinho, nosso guia, anda sumido, calado, apagado, torcendo pra passar despercebido.

Por tudo isso, é compreensível que dona Dilma tenha decidido sair pela porta dos fundos. Ela parece não ter consciência de estar acrescentando mais uma pincelada negativa ao próprio retrato. Como Figueiredo, será lembrada como «aquela que saiu pela porta da cozinha».

Temerário será acreditar que volte a subir a rampa um dia. Suas chances de voltar ao trono são quase iguais às de bolinha de roleta cair no nicho 38, aquele que não existe. No entanto ‒ nada é impossível ‒ a vida pode dar um boléu. A moça pode até estar de volta daqui a 6 meses.

Caso essa desgraça acontecesse, dá pra imaginar como seria o fim de mandato da petista? Dois anos de agonia interminável, discussões, discórdia, bate-boca, Parlamento paralisado, boicotes, bloqueios, enraizamento da cisão «nós x eles», greves, dólar nas alturas, capitais fugindo, nosso país rebaixado a nível bananeiro, descontentamento generalizado. Verdadeira guerra civil à brasileira.

Misericórdia, Senhor! Melhor nem imaginar. Não há de acontecer.

Chora na rampa

José Horta Manzano

Que notícia boa! O dito «núcleo duro» do governo promete descer a rampa com a presidente. Que os céus permitam e que os anjos digam amém!

Chamada Estadão 5 maio 2016

Chamada Estadão 5 maio 2016

Que desçam todos, que não sobre nenhum, nem do núcleo duro nem da periferia mole. Basta de estrago.

E, mais importante de tudo, que nunca mais subam de volta. O Brasil está farto. O champanhe já está na geladeira, prontinho pra estourar.