Entrou muda e saiu falando

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Este blogue faz questão de utilizar palavreado conveniente. Embora, por vezes, dê até vontade de baixar o nível, a gente evita descambar. É questão de respeito para com o distinto leitor.

Saiu ontem notícia com o título: «Marisa e Lulinha pedem indenização à União». Como é que é? Passado o susto, consegui trocar em miúdos.

Telefone 4Todos se lembram da gravação, difundida por toda a mídia brasileira, de edificante conversa telefônica entre dona Marisa da Silva ‒ aquela senhora de 66 anos que já foi a primeira-dama do Brasil durante oito anos ‒ e um dos filhos. Todos se lembram de que a espontaneidade da conversa banal revela a naturalidade com que mãe e filho se comunicam em linguajar grosseiro.

Pois acho indecente que gente desse tipo pleiteie que a União os indenize por danos morais que a divulgação das gravações lhes pudesse ter causado. Como é que é? Danos morais? A ordem dos fatores está invertida e, neste caso, altera o produto.

Lembremos, nunca é demais, que essa história de «exigir dinheiro da União» é forma chique de dizer «extorquir dinheiro dos brasileiros». As caixas da União são alimentadas com os impostos que todos pagamos, do primeiro ao último cidadão. Portanto, o “dinheiro da União” é nosso dinheiro.

Isso dito, vamos ao que penso. Na minha opinião, dona Marisa é quem devia ser processada por todos os brasileiros que tiveram de passar pelo constrangimento de ouvir palavrão pronunciado por antiga primeira-dama do país, pessoa de quem, no mínimo, se esperava recato.

Telefone 5Começo a compreender por que essa senhora, quando o marido exercia a chefia do Executivo, entrou muda e saiu calada, como se diz. Hão de ter-lhe recomendado que nunca abrisse a boca, de medo que alguma inconveniência pudesse escapar.

Estava eu nessas conjecturas quando apareceu meu amigo Sigismeno. Fazia tempo que não nos encontrávamos. Aproveitei para comentar com ele sobre minha indignação.

‒ Você viu, Sigismeno, esse cinismo de membros do clã de nosso guia reclamarem que paguemos indenização pelo despudor deles mesmos?

Meu amigo, que é menos ingênuo do que parece, tinha resposta pronta.

‒ Ora, mas você não se dá conta do ardil?

‒ Que ardil, Sigismeno?

‒ Mas é evidente, meu caro. Com tantos bilhões que esvoaçam por aí na esteira desses escândalos, não são os míseros trezentos mil reais exigidos que vão fazer diferença.

‒ Ué, mas por que então exigem esse reparo?

‒ É simples. Não passa de mais uma desastrada tentativa de desviar o foco das atenções. Como as notícias de rapinas, roubalheiras e escândalos vários não saem das manchetes, hão de ter imaginado que era boa ideia passar por vítimas. Mesmo sabendo que chocaram a nação com seu palavreado chulo, tentam mostrar-se ofendidos. Mas deu tudo errado. O pedido de indenização não rendeu mais que nota de rodapé. O foco continua, firme e forte, no que interessa: roubalheiras, traições e destituição iminente da presidente. E ainda vão perder o processo, pode ter certeza.

É mesmo. A sagacidade do Sigismeno continua me impressionando.

Meio mistério resolvido

Cadeira 2José Horta Manzano

Ah, essa gente que dá notícia pela metade… Dias atrás, tomei um susto ‒ que compartilhei com meus distintos leitores ‒ quando fiquei sabendo que a empresa de um dos filhos de nosso guia contava com uma cadeira «de alto couro ecológico», avaliada em 15 mil reais. Um patrimônio, coronel!

Na ocasião, pra evitar que alguém pensasse que eu estava delirando, cheguei a reproduzir a imagem do Estadão online. Aproveitei para deixar no ar a pergunta sobre o que viria a ser uma cadeira «de alto couro ecológico».

Alguns distintos leitores fizeram a fineza de dar opinião. Conversa vai, conversa vem, ficou a impressão de que andávamos em círculo sem matar a charada. Não foi possível chegar a um acordo.

do Estadão, 30 abr 2016

do Estadão, 30 abr 2016

Pois neste sábado, 30 abril, o Estadão volta ao assunto com mais detalhes. Até certo ponto, esclarece parte de nossa dúvida. Como se podia já ter desconfiado, o estagiário que deu a primeira notícia havia interpretado mal o despacho da agência de notícias. Agora, a publicação do balanço patrimonial da firma de Lula Júnior desvenda parte do mistério.

Uma leitura atenta da relação de bens ensina que o significado do ítem ‘cadeira enc alto couro ecológ.’ não foi captado pelo estagiário. Na verdade, não é o couro que é alto, mas o encosto. Ah, agora ficou claro! O fato de o objeto valer 17 salários mínimos continua a ser mero detalhe. O que fica claro é que o espaldar é alto e o couro é ecológico.

Meia dúvida foi aclarada, pronto! Não tem mais essa de ‘alto couro’. Sobra, no entanto, o segundo termo da incógnita: que vem a ser ‘couro ecológico’? Até agora, a melhor interpretação supõe ser couro vindo de vacas alimentadas com capim desnatado. SMJ.

Cadeira 1Adendo ecológico
Nossa cadeira não está desacompanhada, largada num canto do escritório. O balanço patrimonial da firma de senhor Lula Júnior informa que, além da indigitada cadeira, há ainda uma poltrona de espaldar médio e uma poltrona cromada. Ambas de ‘couro ecológico’. Naturalmente. Fica evidente a preocupação do clã com a preservação da saúde do planeta.

Adendo etimológico
O vocabulário restrito de quem deu a notícia não lhe permitiu identificar o que se escondia detrás da abreviatura «esp». Especial? Qual nada! Em assuntos de cadeira, «esp» indica o espaldar, a espalda.

E que vem a ser? É o que chamamos, em linguagem caseira, as costas da cadeira. A raiz *spatula, que se desenvolveu no latim medieval, dava nome à parte do corpo situada no alto das costas, na altura da clavícula e da extremidade superior do úmero. Em miúdos, é o que chamamos espádua ou ombro.

ViolinoO espaldar da cadeira é justamente onde encostamos o ombro. Na mesma família há um parente mais utilizado. É o verbo respaldar e seu irmão, o substantivo respaldo, ambos transmitindo a ideia de dar apoio.

Menos comum mas também parente é o termo spalla, palavra italiana para designar o primeiro violino de uma orquestra. É o músico que respalda os demais, que lhes dá apoio.

Futuro mais escuro

José Horta Manzano

Bandeira Brasil ChinaA bolsa de valores é, por natureza, arisca e desconfiada. Um rumor, um boato, um soluço pode desestabilizar mercados. No entanto, embora seja imediata, o mais das vezes a reação não vai além da epiderme. Não desce ao osso.

Os mandachuvas de Pequim, por razões que lhes dizem respeito, desvalorizaram a moeda nacional três vezes semana passada. As bolsas chinesas sentiram o baque e desmoronaram carregando as do resto do mundo.

Pra lá do susto – que já está passando – fica a realidade que, para o Brasil, é pra lá de preocupante. Desde que nosso país passou a ser governado por incapazes, a porção de manufaturados em nossa pauta de exportação tem decrescido.

O empenho em fazer surgir – do nada – campeões em determinadas categorias (cf. Eike Batista, Odebrecht, Lulinha & cia) fez que o resto da indústria nacional, abandonada, fosse aos poucos perdendo terreno para produtos chineses. Em termos crus, o Brasil deu um salto pra trás e voltou a ser exportador de matéria-prima, como acontecia nos anos 50.

Chinês 2Nestas duas últimas décadas em que o crescimento da China deixou o mundo boquiaberto, o processo de sujeição do Brasil à potência extremo-oriental se acelerou. Acreditando que os ventos favoráveis soprariam até o fim dos tempos, nossos imprevidentes mandatários se jogaram de cabeça. Em matéria de comércio internacional, o Brasil avassalou-se e tornou-se mero satélite da China.

Brasil e ChinaAs consequências do enfraquecimento do crescimento chinês nos atingem de maneira direta e duradoura. A China, além de ser grande consumidora de petróleo, tem avidez por alimentos e outros insumos que o Brasil lhe fornece. Com a diminuição da demanda, é inevitável que os preços desabem. A partir do momento em que soja, ferro, carne, suco de laranja passam a ser menos procurados, sua cotação nos mercados internacionais tende a cair.

É péssima notícia para o Brasil atual. À crise generalizada que vivemos, vem-se acrescentar queda na receita das exportações. Não precisávamos de mais esse «efeito colateral» da miopia com que temos sido governados.