Casa onde muitos falam

José Horta Manzano

Casa em que todo o mundo fala
Qualquer palavra apunhala

Nestes tempos de internet e de redes sociais, se já é complicado garantir a integridade da própria imagem, que dirá proteger a da família toda?

Doutor Bolsonaro deixou-se inebriar pelo bom desempenho eleitoral dos rebentos. Também, pudera! Milhares de votos para um, milhões para outro ‒ é pra deixar qualquer pai inchado. Só que o doutor não se deu conta de detalhe importante: se os filhotes estouraram no hit parade eleitoral de modo tão fora de série, devem mais ao sucesso do pai do que ao próprio mérito.

Passando por cima da evidente transferência de votos que garantiu aos filhos, doutor Bolsonaro há de ter sentido muito, mas muito, orgulho. A partir daí, amoleceu. Deixou a porteira aberta para os bolsonarinhos. Pode tudo! E cada um saiu, desembestado, aprontando o diabo.

Hoje é um que, em visita aos EUA, enfia na cabeça um boné marcado «Trump 2020». Amanhã é outro que se faz tratar de pit bull pelo pai embevecido. Em seguida, é mais um que reitera que nossa embaixada vai mesmo pra Jerusalém. Um festival de asneiras infantis, desnecessárias, constrangedoras.

Com essa promiscuidade entre o público e o privado, o que vai ficando no ar é que a palavra dos filhos vale tanto quanto a do pai. Na plateia, o sentimento é de que não elegemos um presidente, mas um clã. Isso pode funcionar em outras partes do mundo, aqui fica esquisito. E pode ser perigoso. Compartilha-se entre os membros tudo o que é bom ‒ e isso é ótimo. Já o mal que atinge qualquer um do clã acaba fatalmente atingindo a imagem do capo.

Foi o que aconteceu estes dias. Veio à tona uma obscura história, ainda mal esclarecida, de dinheiro pra cá e pra lá, girando em círculo restrito, passando por mãos diversas entre as quais as de um dos bolsonarinhos. Não se sabe ainda quem é quem na história, quem fez que papel, se o dinheiro é lícito, se, se, se…

Pouco importa. O que se sabe desde já é que a imagem do doutor foi atingida em cheio. O petardo teria sido menos violento se cada um dos familiares se tivesse contentado com o próprio sucesso. O fato de ter jogado os votos da família numa bacia comum atou o destino de todos num único feixe. Vamos ver como é que desatam esse nó. Não vai ser fácil.

Em casa de muita fala
A discórdia se instala.

Firme pero no mucho

José Horta Manzano

Quando uma afirmação é martelada repetidas vezes, é sinal de que não há grande certeza de ela ser verdadeira. Tomando a coisa pelo avesso: quando a gente tem certeza de algo, não sente necessidade de ficar repetindo o tempo todo.

A Constituição que reinstaurou a democracia plena em nosso país completou 30 anos faz algumas semanas. Os mais jovens nem fazem ideia de como poderia ser um regime não democrático. Parece até que o atual regime faz parte dos direitos adquiridos da população.

No entanto, não se passa um dia sem algum figurão repetir que «nossa democracia está consolidada» ou que «nossas instituições funcionam». É tão frequente ouvir isso, que a gente se pergunta se essa tal democracia está tão consolidada assim. Fica a impressão de que a repetição do mantra faz parte de um exorcismo, um ritual de esconjuro celebrado pra afugentar todo risco de retrocesso.

Felipe VI, rei da Espanha

Esta semana, a Constituição espanhola completou 40 aninhos. Ela marcou o fim de longo período de ditadura franquista. A data foi celebrada como se deve. O rei atual, o rei emérito e todos os primeiros-ministros ainda vivos estiveram no parlamento para a ocasião. Em fala solene, Dom Felipe VI mandou: «Nuestra democracia es firme y consolidada!».

Liguei uma coisa à outra. Entendi que, no país das touradas, também parecem estar esconjurando um retrocesso. Se o próprio rei acha necessário sublinhar que a democracia é um bem adquirido, sólido, seguro e garantido, é justamente porque não tem tanta certeza assim quanto à perenidade da situação.

Dá pra imaginar Theresa May, Donald Trump ou Angela Merkel afirmarem algo parecido com «Nossa democracia é firme e consolidada»?

Executivo de sete cabeças

José Horta Manzano

Visto do exterior, o sistema de governo da Suíça parece surreal. É único no mundo. O chefe de Estado, em vez de ser personificado por uma única pessoa, é representado por um colegiado de sete cidadãos. Repúblicas costumam ter presidente e, às vezes, primeiro-ministro. A Suíça segue outro caminho.

Sete chefes de Estado? Deve sair caro!, pode-se imaginar. É verdade mas, pra compensar, o sistema não prevê ministros, o que barateia o custo final do Executivo. Cada um dos conselheiros federais ‒ como são chamados oficialmente ‒ assume a chefia de um dos sete ministérios.

Diferentemente do que ocorre em outros países, em que cada novo presidente costuma mexer no desenho ministerial, cortando, acrescentando ou desmembrando pastas, o sistema suíço é cristalizado. Pra alterá-lo, a vontade do Executivo não bastaria. Toda reforma teria de ser aprovada pelo Parlamento e referendada pelo povo, longo caminho que desencoraja. A fórmula com sete ministros tem dado certo ao longo dos últimos 170 anos, de modo que tende a permanecer.

Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento por um madato de quatro anos. Pode candidatar-se à reeleição quantas vezes desejar. Em um século e meio, só meia dúzia de conselheiros deixaram de ser reeleitos. É pra lá de raro. A permanência média de cada um deles no topo do Executivo é de dez anos.

O salário anual de um desses ministros suíços ‒ segure-se! ‒ é de cerca de 445 mil francos (1,75 milhão de reais). Além disso, ele recebe um montante fixo de 30 mil francos (118 mil reais) de ajuda de custo para cobrir todos os gastos de moradia e de representação. Assim, não precisa apresentar relatório de despesas. Tem direito ainda a automóvel com motorista e passe livre para viagens ferroviárias no país.

Quando deixa de ocupar o cargo de conselheiro federal, tem direito a aposentadoria vitalícia. O valor do benefício é metade do salário pago aos que estão na ativa, ou seja, 220 mil francos (862 mil reais) por ano. Só receberá esse montante, porém, se tiver exercido o cargo por pelo menos quatro anos. Caso tenha trabalhado menos, receberá proporcionalmente ao tempo de serviço.

Por razões de justiça, a lei prevê que conselheiros federais aposentados não recebam mais do que colegas ainda na ativa. Assim, aposentados que assumirem função remunerada na iniciativa privada devem informar o setor encarregado. O valor do salário vindo de outra fonte será abatido da aposentadoria.

Não se brinca com o dinheiro do contribuinte. Afinal, o serviço público está aí para servir à nação e não pra enriquecer apaniguados. Não é isso?

Fora, todos!

José Horta Manzano

Toda vez que líderes mundiais se reúnem, há quem manifeste desagrado, quiçá enrolado em bandeira e marchando sobre o asfalto aos gritos de «Fora este!» ou «Fora aquele!». É sacrossanto o direito a protestar, não há democrata que o negue. De lá a protestar por protestar, com objetivo nebuloso, só pra armar confusão ‒ já não estamos falando da mesma coisa.

Aconteceu quando doutor Trump estava para se encontrar com aquele excitado líder (dono?) da Coreia do Norte. Reuniram-se, cumprimentaram-se, conversaram. Muita gente ‒ na Coreia do Sul, nos EUA, no Japão ‒ contrária à ideia de os dois se encontrarem, manifestou indignação. Conversaram assim mesmo. Ao final, se o mundo não consertou, pelo menos ficou menos tenso do que antes. Mal não fez, a conversa.

Dias atrás, os grandes do planeta estiveram na reunião do G20 em Buenos Aires ensaiando acertar o passo no tango planetário que nos rege. De Mr. Trump a Frau Merkel, de doutor Temer a Monsieur Macron, estavam todos lá. Não deu outra: avenidas da capital argentina foram tomadas por manifestantes irados que ordenavam, sem sutileza nenhuma: «Fuera FMI!, Fuera G20!, Fuera imperialistas!, Fuera todos!». Edificante.

Fico perplexo com essas manifestações. «É conversando que a gente se entende» ‒ é moto repetido à farta entre nós. Ao observar os que protestam ruidosamente na rua, fico a imaginar que seria lógico proporem outra forma de resolver o problema contra o qual se insurgem. No entanto, nenhuma proposta aparece. Protestam por protestar. Mandam todos embora sem apresentar nem a sombra do esboço de um caminho novo.

Francamente, esses que gritam «Fora!» a todos não têm solução alternativa a propor. Nesse caso, mais vale ignorá-los e perseverar nos encontros e nos diálogos. Post nubila Phoebus. Depois das nuvens, sai o sol. Há de sair.

Júbilo suspeito

José Horta Manzano

Outro dia, o novo presidente mexicano, recém-subido ao trono, anunciou que pretende contratar médicos cubanos, nos mesmos moldes do que fez o programa Mais Médicos no Brasil. Para o observador comum, a notícia é daquelas que não fedem nem cheiram. Cada dirigente organiza seus programas da maneira que lhe parecer mais eficiente. Foi eleito justamente pra isso.

Num gritante ato falho, nossa incendiária parlamentar Gleisi Hoffmann soltou entusiasmados rojões em comemoração à iminente contratação pelo México dos três mil médicos que estão deixando o Brasil.

A (quase ex-) senadora não se mostrou particularmente preocupada com o ganha-pão dos esculápios. Senão, vejamos: caso o presidente mexicano tivesse anunciado estar contratando médicos bielorrussos, vietnamitas ou zimbabuenses, ninguém imagina que ela estivesse festejando, pois não?

Fica claro, portanto, o motivo do júbilo de doutora Hoffmann. Está feliz de saber que os milhões de dólares extorquidos dos infelizes profissionais da saúde cubanos continuarão a irrigar a ditadura dos bondosos irmãos Castro.

A extradição de Battisti

José Horta Manzano

Antes de qualquer outra consideração, quero lembrar ao distinto leitor que, nos últimos cinco anos, mencionei neste blogue o nome de Cesare Battisti em nada menos que 23 artigos. Em todos eles, mostrei-me favorável à devolução do fugitivo a seu país de origem. Parece-me que todo criminoso, desde que tenha sido condenado em processo justo e decorrido em ambiente civilizado, tem de cumprir a pena. Não me parece normal nem aceitável que, por esperteza ou por amparo de poderosos, um condenado possa fugir para conseguir asilo nalgum lugar.

O problema, no caso desse senhor, é que a coisa foi longe demais. Por absoluta incompetência dos que têm ocupado as altas funções neste país estes últimos anos, decisões importantes têm se transformado em ioiô, em ucasses tonitruantes que respondem ao humor do comissário de turno. O veredito de hoje pode diferir do de ontem. E, com certeza, será diverso do despacho de amanhã. Ao fim e ao cabo, nosso sentimento de insegurança jurídica equivale ao que devia atormentar os súditos de Luís XIV, assujeitados aos humores cambiantes do Rei Sol.

Nossa formação escolar tosca tem produzido um povo imprudente. Povo imprudente escolhe dirigentes pé de chinelo. Dirigentes pé de chinelo costumam designar, para o STF, ministros pusilânimes. Pronto, os ingredientes estão sobre a mesa. Há que usá-los. O resultado é a insegurança jurídica. Ninguém está podendo garantir hoje como será a lei amanhã.

«STF se inclina a autorizar extradição de Battisti» ‒ foi a notícia que circulou este fim de semana. Neste 24° artigo em que escrevo sobre esse senhor, tenho duas considerações a fazer. A primeira é de caráter humanitário. Por maiores que tenham sido os crimes praticados por um indivíduo, parece-me desumano infligir-lhe tortura psicológica. Tortura é crime, não é? Pois é o que vem sendo praticado contra esse fugitivo. Desde que foi preso, em 2007, passaram-se mais de onze anos durante os quais ele foi dormir, a cada noite, sem saber quais seriam as disposições a seu respeito no dia seguinte. Seria acolhido? Preso? Expulso? Deportado? Extraditado? Deixado em paz? Não, não se pode submeter ninguém a esse infernal morde-assopra.

A segunda consideração liga-se a outra manchete destes dias: «O STF deve declarar que a decisão de Lula pode ser revista por outros presidentes». Os que não gostaram da decisão do Lula ficam contentes com a notícia. E vice-versa. Mas, pensando bem, a notícia é incongruente. Novo presidente pode extraditar um fugitivo que se encontra asilado ‒ até aí, tudo bem. Mas imaginemos o contrário. Que um presidente tenha mandado embora um estrangeiro. E que seu sucessor queira conceder-lhe o asilo. Como fazer para trazer de volta o indivíduo agora encarcerado em prisão no exterior?

Não faz sentido. Em matéria de concessão de refúgio, decisão de um presidente não deve poder ser revista. Além dos problemas práticos, cai muito mal no contexto internacional. Se o abrigo dado a signor Battisti já foi mal visto pela Itália e pelo resto do mundo, é melhor parar por aqui. Mudança na decisão vai deixar a impressão de que nosso país é republiqueta bananeira, que se verga a pressões vindas de fora. No caso deste terrorista, foi um erro tê-lo acolhido. Mas o mal está feito. Pra não piorar, é melhor deixar como está.

Falsa crase

Dad Squarisi (*)

Aqui são balas perdidas. Nos EUA, rajadas de metralhadora. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a
A crase indica o casamento de dois aa: preposição a + artigo a: Dirigiu-se à piscina.

O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a + a = à.

Tira-teima
Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.

• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.

• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.

• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase
Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a + a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos
Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento:

Matou-o à bala.
Feriram-se à faca.
Está à venda.
Escrever à tinta.
Feito à mão.
Enxotar à pedrada.
Fechar à chave.
Matar o inimigo à fome.
Entrar à força.

O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Entre duas canoas

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, escrevi sobre Monsieur Valls, que já foi primeiro-ministro da França e que hoje, transformado em Señor Valls, tenta a eleição para prefeito de Barcelona (Espanha). Não são comuns esses casos de figura pública transnacional, que brilha num país para depois continuar em outro.

Hoje surge mais uma estrela nesse peculiar firmamento. Trata-se de Madame Salomé Zourabichvili. Até poucos anos atrás, era diplomata francesa, com o grau de embaixadora. Hoje acaba de tornar-se presidente da Geórgia, pequena república do Cáucaso, vizinha da Rússia. Foi eleita no segundo turno com estonteantes 60% dos votos ‒ uma consagração.

A história de muitas famílias georgianas se acelerou faz um século. A Revolução Russa de 1918 chacoalhou a vizinhança. Na Geórgia, aqueles que, implicados na política local, caíram do lado errado da nova ordem, tiveram de arrumar a trouxa e se exilar antes que mal maior adviesse. Foi o que aconteceu com os avós da recém-eleita presidente.

Sua mãe nasceu na Turquia, em plena rota de exílio. Seu pai já nasceu na França. Nascida, ela também, em território francês, cedo sentiu-se atraída pela diplomacia. Entrou para a carreira e chegou ao grau de embaixadora. Não foi senão em 1986, quando já estava perto dos 35 anos de idade, que visitou a Geórgia pela primeira vez.

Salomé Zourabichvili, presidente da Geórgia

Depois da virada do século, sua carreira entrou em fase trepidante. Em 2003, chefiava a embaixada da França em Tbilisi, capital da Georgia. No ano seguinte, já se viu projetada ao cargo de ministra das Relações Exteriores do país de seus antepassados, nomeada pelo recém-empossado presidente. A vida dá voltas.

A partir daí, Madame Zourabichvili teve de se decidir. Não era possível servir, ao mesmo tempo, ao governo de dois países. Optou pela terra dos ancestrais e continuou na política georgiana. Conservou a dupla nacionalidade durante alguns anos. Poucos meses antes da eleição presidencial, renunciou à cidadania francesa e tornou-se 100% georgiana.

Ao depositar o voto na urna, Kalbat’oni Zourabichvili(*) declarou «Minha escolha é uma Geórgia em paz, uma Geórgia unida, uma Geórgia sorridente». São nossos votos também, dona Salomé. Amém para todos nós!

(*) Kalbat’oni é a transcrição de ქალბატონი, bordado georgiano que significa senhora.

Pari sono

José Horta Manzano

Li o artigo que doutor Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores designado, escreveu para o jornal curitibano Gazeta do Povo. Sabe aqueles escritos que deixam uma sensação de desconforto no final? Pois esse é um deles. Uma tijolada.

O doutor atira para todos os lados. Derruba o PT. Mostra desprezo pela ONU ‒ (ele é diplomata!). Cospe em cima dos grandes jornais do mundo. E culmina com nota trágica: desdenha do povo brasileiro ao apresentar-se como uma espécie de Grande Conselheiro, detentor privilegiado da Verdade.

De fato, doutor Araújo bate na tecla surrada que põe no PT a etiqueta de partido marxista. Tenta provar que o marxismo que faleceu um século atrás continua vivo sob forma de captor do intelecto dos viventes. Teria deixado de se interessar pelos meios de produção para apoderar-se da mente dos desavisados.

A mim, não convenceu. Continuo a enxergar no PT tendências bem mais próximas do fascismo que do marxismo. Longe de se preocupar com a confiscação do capital privado, o lulopetismo busca aliar-se aos grandes capitalistas para melhor usufruir as delícias que esse compadrio oferece. A ideologia do Partido dos Trabalhadores centraliza o poder em um só homem. Na base, ficam as corporações dependentes do Estado, do qual recebem as benesses e ao qual se dobram em reverente e incondicional obediência. Essas corporações ‒ ou sindicatos, ou comunidades de base, como queiram ‒ são a ramificação do Estado tentacular e oniatuante. O objetivo é recolher a seiva secretada pela cúpula e com ela irrigar, por capilaridade, todos os segmentos da sociedade. Com isso, garante-se o domínio das massas e impõe-se o pensamento único.

Palácio do Itamaraty, Brasília

A fixação do doutor em combater o marxismo está com prazo de validade vencido. A doutrina comunista se esboroou com a queda da União Soviética. Regimes autoritários, que ele toma equivocadamente por marxistas, pertencem a uma cepa inextinguível. Desde que o homem se organizou em sociedades, já no tempo das cavernas, sempre houve quem tentasse tomar a si o poder absoluto. Ao longo da história, muitos conseguiram.

O discurso de doutor Araújo exala, isso sim, forte arrogância. Desinibidamente, o leitor é acusado de ser ignorante por não se dar conta de que o marxismo sobrevive sob disfarce. O maltratado leitor é ainda tratado de ingênuo por acreditar nos «marxistas culturais» de hoje ‒ seja lá o que queira dizer essa expressão.

Para fechar o artigo, o doutor faz inquietante alusão ao «alarmismo climático». Promete desenvolver o pensamento em outra oportunidade, mas a simples expressão escolhida já deixa entender que vem aí discurso negacionista, de quem não vê urgência em cuidar de assuntos ligados à ecologia.

Ao fim e ao cabo, o artigo de doutor Araújo prenuncia que nossa diplomacia será tocada ao ritmo de rolo compressor. Embora os objetivos sejam diferentes, o método é igual ao seguido pelos petistas. Pari sono ‒ são iguais.

Baixo custo

José Horta Manzano

Na série traduzo-sem-me-deixar-influenciar-pelo-original, temos hoje novo capítulo. Inspirada pelo anúncio de que está chegando nova companhia aérea estrangeira, a midia já sapecou um «Surge companhia aérea de baixo custo».

Em primeiro lugar, parabéns aos que costumam ou pretendem viajar para a Europa. A oferta de bilhetes a menos de 1.500 reais por perna é atraente. Não é de duvidar que as outras empresas vão logo sentir o baque. Pra remediar, terão de oferecer algo que justifique a diferença de preço. Já devem estar pensando nisso, imagino.

Chegamos agora ao qualificativo que se dá a essas empresas. No original inglês, deve-se dizer low cost carrier – transportadora de baixo custo. Não me agrada, essa descrição. Custo é palavra reservada pra contabilizar o montante total que a empresa despende para chegar ao produto final. Ninguém quer saber se os custos da empresa são elevados ou não. Isso pouco interessa ao passageiro.

O que interessa ao cliente é o preço ‒ o valor a pagar para adquirir o bilhete. É esse que tem de ser baixo. Portanto, a qualificação dessas firmas não deveria fazer alusão ao custo, mas ao preço.

Os primeiros a dar essa denominação ‒ low cost ‒ passaram por cima. Sabe-se lá por que razão, preferiram se referir ao custo em vez de lembrar o preço. Há de ter-lhes parecido mais conveniente. Na hora de transpor a expressão para as demais línguas, faltou espírito crítico a alguns tradutores. Boa parte deles se mantiveram fiéis ao original. Estão aqui alguns exemplos:

Português: linha aérea de baixo custo
Francês: compagnie à bas coût
Espanhol: aerolinea de bajo coste
Italiano: compagnia a basso costo

Já outros foram mais espertos. Na hora de traduzir, corrigiram a imperfeição do original:

Alemão: Billigfluggesellschaft (Empresa aérea barata)
Sueco: lågprisflygbolag (Empresa aérea de baixo preço)

Teria ficado mais simpático se tivessem posto «linha aérea econômica». Mas acho que agora é tarde. Fica para a próxima.

Admirável Brasil Novo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Por caminhos insondáveis, fui estimulada a pesquisar na internet as razões da atual crise internacional de representatividade política, a aparente obsolescência dos regimes democráticos e a espetacular guinada à direita no cenário pós-eleitoral brasileiro.

A prevalência entre nós do ideário conservador e das soluções de força, assim como o aprofundamento das exigências de compatibilidade entre o plano de governo e as crenças religiosas fundamentalistas do grupo do entorno do presidente eleito incomodam, inquietam e geram especulações em intelectuais de todos os matizes.

Na base desse quadro funesto, o aspecto mais chocante, ao menos para mim, está na condenação virulenta de toda forma de ideologia humanista, tradicionalmente associada às esquerdas. É como se o fato de propugnar pela desarticulação sumária de valores universais ‒ como respeito aos direitos humanos, ou mesmo de valores locais, como tolerância e convivência harmoniosa entre desiguais ‒, não representasse uma ideologia em si mesma.

Associadas à repulsa pela igualdade de tratamento na concessão de benefícios sociais, fazem sentir sua presença outras bestas apocalípticas: a repulsa à diversidade em todas as suas formas; o desdém pelo discurso politicamente correto em nome de uma pretensa liberdade de expressão; a criação de parâmetros normativos para a educação, para a atuação da imprensa e até dos programas televisivos de entretenimento; o moralismo que se traveste de necessidade de controle social para coibir o empoderamento das minorias e para definir o que é ou não manifestação artística.

Ao mesmo tempo, nossa consciência cidadã, a cada dia mais acabrunhada, termina por se anestesiar de vez diante de tanto furor nacionalista. O brasileiro médio, que já foi um dia o homem cordial, orgulhoso de sua mestiçagem, tranquilamente aconchegado em seu estrato social e plenamente identificado com a ideia de habitar o país da conciliação e das revoluções sem sangue, agora se vê aturdido na defesa a qualquer preço da mãe pátria, a mesma mãe que lhe nega colo, preferindo oferecer suas tetas repletas de leite aos filhos histórica e socialmente mais bem equipados.

Como chegamos a esse estado de coisas? Os mais apressados tendem a oferecer uma resposta pronta: culpa do governo anterior, que estimulou a luta de classes, aparelhou o estado para nele se perpetuar e lucrar mais com o butim dos cofres públicos. Essa é, sem dúvida, uma possibilidade concreta, mas, a meu ver, não esgota de forma alguma o assunto.

Se o temor primeiro da maioria de nossos concidadãos fosse mesmo a implantação de uma ditadura comunista na oitava ou nona maior economia do planeta, em pleno século 21 e em meio ao descrédito do marxismo, por que então tantos se predispõem a aceitar um regime que se anuncia abertamente como totalitário e com forte viés militarista? A única resposta que posso conceber é que já quase ninguém aceita que o proletariado tupiniquim continue (?) a dar as cartas. Se a farinha é pouca, gritam as ruas, que nosso pirão venha primeiro.

Por mais agressiva que seja a constatação, não estamos lutando por mais democracia. Consciente ou inconscientemente, queremos menos gente reivindicando direitos, queremos alguém de pulso firme que possa calar as vozes de quem busca um lugar ao sol neste momento em que as nuvens sombrias da economia toldam nossa visão de progresso.

Foi buscando entender este acúmulo de paradoxos que fui direcionada pelo mecanismo de busca aos escritos de Ignacio Ramonet, jornalista e sociólogo espanhol, doutor em semiologia, professor de teoria da comunicação e diretor do jornal Le Monde Diplomatique. O primeiro artigo dele a que tive acesso intitula-se “A atualidade chocante de Admirável Mundo Novo”. Na sequência, me deliciei com a leitura um outro artigo por ele escrito em 1995, no qual introduziu o conceito de ‘pensamento único’.

Neles, Ramonet tece uma vasta e rica argumentação a respeito da onda de neoliberalismo que varre o mundo, da primazia do fenômeno econômico sobre o político, da supremacia do mercado e avança na abordagem das múltiplas formas contemporâneas de manipulação da mente humana, em especial através da publicidade, das pesquisas de mercado e do marketing.

Como premissa básica das análises de Ramonet, destaca-se o conceito de condicionamento pavloviano. Para quem não o conhece, explico: o cientista russo Pavlov, partindo da tese de que os cães aprendem por associação, teve a ideia de apresentar um pedaço de carne a um cão simultaneamente à detonação de uma campainha para verificar se ele se condicionava a salivar sem o cheiro da carne, apenas ouvindo o som. O sucesso foi estrondoso. Um efeito colateral não-previsto do treinamento botou, no entanto, tudo a perder. Durante as sessões, o cão ficava atado a uma mesa do laboratório, que fora construído no porão de uma casa. Certo dia, uma chuva intensa provocou a inundação do porão. O cão, ao invés de tentar escapar do recinto, pulou então para a mesa e lá permaneceu imobilizado na posição, provavelmente acreditando que dessa forma estaria protegido. Morreu afogado o infeliz.

Tal qual o cão de Pavlov, diz Ramonet, somos pacientemente doutrinados desde o nascimento a conhecer e aceitar nosso lugar no mundo, adotando as crenças e valores de nosso grupo familiar. Mais tarde, a escola se encarrega de aprofundar e alargar nosso condicionamento social. Na sociedade pós-moderna, outras forças – como a televisão, as redes sociais, a publicidade e a globalização – tornaram o quadro mais complexo para a perversa indução de comportamentos desejados por quem está no poder.

Fiquei simplesmente apalermada com a coincidência de tópicos abordados por Ramonet nesses artigos e os que elenquei quando escrevi um livro ao qual dei o título de Guia Básico de Adestramento de Humanos. Quase uma década se passou desde que me dediquei a investigar o tema, mas posso jurar que o mesmo horror me invade ainda hoje quando penso nas armadilhas ideológicas a que estamos expostos diariamente.

Uma delas, a mais preocupante e infame, atrai minha atenção em especial: a proposta da Escola sem Partido. Não sou especialista na área, mas jamais me cansarei de levantar duas objeções indignadas a esse projeto. A primeira diz respeito ao fato de que o cérebro humano só se desenvolve estabelecendo novas conexões entre fenômenos díspares. A segunda refere-se à premissa não-verbalizada de que as crianças não têm como se defender da doutrinação de seus mestres. Ou, mais precisamente, de que a mente infantil é uma tábula rasa na qual se pode imprimir os códigos atitudinais que desejarmos.

Educação é diferente de ensino. A função da escola é ensinar a pensar, não a de criar clones. O pensamento crítico é uma conquista que só se obtém pelo confronto de ideias, teorias e visões de mundo. Faço minhas as palavras de Henri Michaux, um escritor e poeta belga: “A aprendizagem da aranha não é para a mosca”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Espírito de comunidade

José Horta Manzano

O cidadão honesto, que se conforma com levar a vida dentro dos limites, sem ceder à tentação de infringir as normas, sente-se pra lá de desconfortável quando constata que outros trapaceiam e transgridem esses limites. É ainda pior quando o resultado da fraude alheia dói no bolso do honesto cidadão. É insuportável.

Uma das características dos povos mais civilizados é a coesão social e o forte sentido de pertencimento a uma comunidade. Quem quer que atente contra o bem comum será alvo da repulsa da sociedade. Todos concordam com Margaret Thatcher: «Não há dinheiro público, mas dinheiro do contribuinte». Fraude contra o erário é ressentida como ataque pessoal.

Um exemplo atual é dado pela detenção de doutor Carlos Ghosn, empresário líbano-franco-brasileiro, manda-chuva do grupo Renault-Nissan-Mitsubishi. Acusado de ter fraudado o fisco do Japão, está há mais de dez dias atrás das grades, à espera de tornar-se oficialmente réu. A evasão fiscal é ressentida como crime contra o conjunto da população. Todos se sentem assaltados pelo doutor. Imperdoável.

Outro exemplo foi dado ontem pelo povo suíço. O eleitorado foi chamado a votar sobre vários assuntos. Entre eles, estava uma proposta de modificação da lei sobre a seguridade social ‒ em modo especial, o seguro-desemprego e o seguro-invalidez.

Por mais honestos que sejam os cidadãos, sempre há os que querem ser mais espertos e que acabam prejudicando os demais. Há gente que recebe salário do seguro-invalidez sem estar realmente inválido. Este blogueiro conheceu, anos atrás, uma senhora que, pelos 50 anos de idade, conseguiu polpuda aposentadoria por invalidez. Acontece que ela, de inválida, não tinha nada. Além de não sofrer de doença alguma, era capaz de sapatear como Fred Astaire e se estremecer como Michael Jackson. Há um bocado de gente nessas condições.

O resultado do voto suíço não dá margem a discussão: 65% dos cidadãos aprovam o reforço da vigilância dos assegurados suspeitos de fraude. A partir de agora, a vigilância por meio de detetives especializados poderá ser determinada. Como em filme de espionagem, dá pra imaginar proliferação de espias montados em galho de árvore, disfarçados de passarinho e munidos de binóculo a observar supostos paralíticos correndo feito criança ou desempregados que não se levantam do sofá pra procurar emprego.

Tirando o lado cômico, o que se depreende é a preocupação da sociedade em defender o bem comum. No Brasil, até poucos anos atrás, estávamos a anos-luz dessa realidade. A Operação Lava a Jato foi importante para fazer despertar no povo brasileiro a consciência de que roubo de dinheiro «público» é assalto ao bolso de cada um. Há que ser otimistas: aos pouquinhos estamos melhorando.

Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Até onde vai a memória?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 24 novembro 2018.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi o conflito mais mortífero que o mundo tinha conhecido até então. O número exato de vítimas não é sabido. Estimativas giram em redor de 40 milhões, dos quais 15 a 20 milhões de mortos. Neste tempos em que grandes guerras cederam lugar a conflitos regionais, é difícil conceber matança assim, de proporções bíblicas. A participação do Brasil foi acanhada. Limitou-se ao envio de uma equipe médica, que serviu em Paris, longe dos campos de batalha. Afora isso, pequeno grupo de aviadores brasileiros foi incorporado às forças militares britânicas. O obituário dos confrontos não registra nenhuma vítima verde-amarela.

Duas semanas atrás, os países beligerantes comemoraram o centenário da assinatura do armistício firmado em 1918, que suspendeu as operações. Na 11a hora do 11° dia do 11° mês do ano, os sinos de todas as igrejas francesas badalaram em sinal de regozijo, exatamente como tinham feito cem anos antes. Monsieur Macron recebeu dirigentes de mais de 70 países para uma cerimônia em Paris. Vencedores e perdedores da guerra se irmanaram. Estavam lá Trump, Putin, Merkel, Erdoğan, Netanyahu, Felipe VI e outros figurões. Por razões que a razão tem dificuldade de explicar, doutor Temer não se abalou. Não terá julgado importante ir.

Em homenagem ao fim da guerra de 14-18, o dia 11 de novembro é, até hoje, feriado na França. Não faz muito tempo, a cerimônia em Paris contava ainda com a presença de ex-combatentes. Mas a passagem do tempo é implacável. Os antigos soldados foram minguando, chegaram em cadeira de rodas, até que desapareceu o último. Não sobrou mais nenhum. Este ano, a cerimônia foi especial por se tratar do centenário. Mas não é garantido que, dentro de 10 ou 20 anos, o 11 de novembro ainda seja feriado celebrado com banda de música sob o Arco do Triunfo. A propósito, já surgiu uma corrente que preconiza a escolha de um dia do ano para concentrar a comemoração de todos os conflitos. A iniciativa é sensata.

Batalha do Avahy, travada em 11 dez° 1868
by Pedro Americo de Figueiredo e Melo (1843-1905), artista paraibano

Até onde vai a memória? A partir de que momento um fato deixa de ser memória pessoal pra se tornar história? A pergunta é quase filosófica. Eu estaria tentado a dizer que a memória perdura enquanto vivem os que presenciaram o fato ou, alargando o círculo, enquanto vivem os que já estavam em idade de entender, quando o fato ocorreu. Assim, enquanto as celebrações do 11 de novembro ainda contavam com a presença de sobreviventes, estava viva a memória. A partir de agora, passado o centenário e falecidos os que vivenciaram aqueles tempos, a memória tende a se esgarçar. Defuntas as testemunhas, defunto o assunto. A guerra sobreviverá nos manuais de história e será celebrada como celebramos Tiradentes, o Descobrimento ou a Proclamação da República: uma cerimônia petrificada, sem emoção, cujo sentido profundo escapa ao cidadão comum. São datas que valem pelo feriado, nada mais.

A história do Brasil carece de grandes guerras. A mais importante foi a Guerra do Paraguai, a última que se travou em território nacional. Sua lembrança não faz jus a data específica mas sobrevive nas ruas cujo nome lembra alguma batalha: Riachuelo, Cerro Corá, Passo da Pátria, Tuiuti. Em vez de homenagear feitos bélicos, nosso calendário dá preferência à comemoração de fatos políticos. De modo insólito, o 7 de setembro e o 15 de novembro, festas maiores, marcam ambas uma ruptura ilegal e brusca da ordem então vigente, com implantação de novo regime.

No mundo globalizado em que vivemos, a interdependência é regra de sobrevivência e chega a ser anacrônico comemorar uma independência que retrogradou a conceito discutível. Quanto ao regime republicano, levando em conta que já foi abolido e reinstaurado por duas vezes no Brasil, o 15 de novembro já estourou o prazo de validade – comemora a instauração de uma primeira república que, na batata, já não existe.

Para nos esquivar de feriados cujo sentido profundo anda desfocado, seria interessante abrir debate sobre a instauração de um dia de festa maior, em que se celebrasse a memória de todas as glórias: os pais da pátria, as batalhas vencidas, os triunfos, os grandes artífices de nossa história, as conquistas. Afastaríamos, assim, o risco de defasagem entre fato e festa, entre memória e história. Fica plantada a ideia.

A crase e a crise

José Horta Manzano

Doutor Schelb, indicado pelo presidente eleito para chefiar o Ministério da Educação, já estava encomendando o terno para a posse. A bancada evangélica acolhia a nomeação com bons olhos. Faltava um nadinha pra o martelo ser batido. A equipe de doutor Bolsonaro achou que era hora de permitir um vazamento maroto para a imprensa. O nome do futuro ministro passou a circular pela mídia.

Chamada Estadão, 22 nov° 2018

Ah, pra quê… Naquele dia, o estagiário de um grande jornal estava mais sonolento que de costume. Ao costurar a manchete, tropeçou feio: tascou uma crase onde não devia. Onde é que já se viu escrever um à descomplexado bem diante de palavra masculina? E, pior ainda, diante de palavra no plural?

A bancada evangélica não gostou do que viu. Ministro da Educação anunciado com erro gramatical? Nããão! Jogaram o bebê com a água do banho. Assustados, demitiram o figurão antes mesmo de ele ter sido oficializado. Doutor Bolsonaro foi obrigado a escolher outro auxiliar. Na manhã desta sexta-feira, é fato consumado ‒ novo nome já foi dado a público.

Discriminação

José Horta Manzano

O correspondente da tevê relata:
«Logo que foi aberta a sessão na Câmara, foi a vez do pronunciamento da deputada. Ela subiu ao púlpito trajando um elegante conjunto Chanel beige engalanado por discreto colar de pérolas miudinhas. Proferiu um discurso curto mas incisivo sobre o assunto em tela.»

O jornal dá a notícia:
«Homossexual foi assaltado ontem, em pleno dia, na avenida principal. Apesar de ter entregado todos os pertences, os bandidos o agrediram.»

A Wikipédia informa:
«O artista, nascido numa família judia originária da Ucrânia, revelou dotes especiais desde a infância. Já no fim da adolescência, matriculou-se na Escola de Belas Artes.»

O que é que há de comum nessas três citações, aparentemente desconexas? Qual é o traço persistente, que atravessa os três banais fragmentos do quotidiano? Pois é a discriminação, distinto leitor, a discriminação. Senão, observemos com atenção.

No primeiro fragmento, o correspondente em Brasília dá tanta importância à fala da deputada quanto a sua indumentária. Faria o mesmo se fosse um deputado? Daria a cor da gravata? Descreveria a elegância do talhe do terno? Certamente, não. Pois está aí a demonstração de que, por mais que se force a promoção da igualdade entre os sexos, sempre sobra um fundo de discriminação. Por mais que seja realçado o lado profissional da mulher, ela continua sendo vista da maneira tradicional.

No segundo fragmento, é imaginável que a manchete fosse: «Heterossexual foi assaltado»? Não, não passaria pela cabeça de ninguém. E por que é que a vítima é descrita com base na orientação sexual? Pois é pura discriminação.

E no último trecho, fosse o artista nascido numa família cristã, acaso isso seria mencionado? É de duvidar.

Como vemos, apesar do esforço institucional para educar as gentes, a discriminação é como água: se nos escapa entre os dedos, não dá pra conter. Sem nos darmos conta, nós todos discriminamos, o tempo todo. Que fazer? É reflexo natural, comum a todo humano.

No fundo, não é tão mal assim. Não convém que a Polícia dos Costumes tente proibir terminantemente todas as manifestações da discriminação nossa de todos os dias. Se todos se parecessem, fizessem as mesmas coisas e se comportassem exatamente do mesmo modo, o mundo seria muito, mas muito, chato.

Com dedicatória

José Horta Manzano

No campeonato mundial da desigualdade social, o Brasil continua entre os primeiros colocados. A vertiginosa desigualdade não começou na semana passada. Nosso acachapante desempenho na matéria vem de longe e tem sido constante ao longo da história.

Já nos anos 1500, assim que os primeiros colonos se fixaram em estabelecimentos permanentes, a sociedade passou a dividir-se entre cidadãos do andar de cima e os demais. Os de cima eram os brancos, indivíduos livres. Os de baixo eram índios escravizados e privados de todos os direitos.

Nos séculos seguintes, a paisagem não mudou fundamentalmente. Os índios quinhentistas foram substituídos por negros africanos. Na sequência, estes últimos cederam lugar a um dégradé de populações que começa na classe média próspera, passa pelos remediados e vai até um oceano de dependentes (eternos e sem esperança) da bolsa família.

Há que reconhecer que, nos últimos anos, ações oficiais têm sido empreendidas visando a aplainar nosso brutal desnível social. Programas de quotas, bolsas várias, regimes preferenciais são algumas dessas ações. Muitas vezes são canhestras, não se sabe se intencionalmente ou por ignorância.

Mas ainda resta muito terreno a percorrer. A Justiça é um campo em que é flagrante a diferença de tratamento entre o que se dispensa a poderosos e o que se reserva para cidadãos humildes. Antigamente, se dizia, brincando, que “nunca se viu cidadão de gravata na cadeia”. Graças à Operação Lava a Jato, a situação mudou. Mas um pouquinho só, que a resistência do andar de cima é enorme. As alianças e cumplicidades são muitas.

Doutor José Dirceu, que um dia chegou a ser pressentido como futuro presidente da República, foi apanhado com a boca na botija. Condenado a 30 anos de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro, chegou a passar um curto período na prisão. Logo foi solto por simpatizantes instalados no mesmo andar de cima. Hoje cumpre «pena» em casa, livre de movimentos. Está tão bem de saúde e disposição que resolveu escrever uma autobiografia. Chama-se José Dirceu ‒ Memórias.

Se algum leitor gaúcho estiver interessado em adquirir o livro, esta quarta-feira lhe oferece oportunidade única. Doutor José Dirceu ‒ o criminoso condenado a 30 anos ‒ estará, em pessoa, recebendo admiradores e escrevendo dedicatórias numa noite de autógrafos organizada para lançamento de seu livro. Vai ter lugar às 19h, na Fetrafi (Porto Alegre), com direito a palestra e debate. Não percam!

O mundo dá voltas. Aquele que já foi presidente do partido que pretendia aplainar diferenças sociais no país aparece hoje como modelo do tratamento desigual dispensado pela Justiça no Brasil. Um perfeito contraexemplo.