Discriminação

José Horta Manzano

O correspondente da tevê relata:
«Logo que foi aberta a sessão na Câmara, foi a vez do pronunciamento da deputada. Ela subiu ao púlpito trajando um elegante conjunto Chanel beige engalanado por discreto colar de pérolas miudinhas. Proferiu um discurso curto mas incisivo sobre o assunto em tela.»

O jornal dá a notícia:
«Homossexual foi assaltado ontem, em pleno dia, na avenida principal. Apesar de ter entregado todos os pertences, os bandidos o agrediram.»

A Wikipédia informa:
«O artista, nascido numa família judia originária da Ucrânia, revelou dotes especiais desde a infância. Já no fim da adolescência, matriculou-se na Escola de Belas Artes.»

O que é que há de comum nessas três citações, aparentemente desconexas? Qual é o traço persistente, que atravessa os três banais fragmentos do quotidiano? Pois é a discriminação, distinto leitor, a discriminação. Senão, observemos com atenção.

No primeiro fragmento, o correspondente em Brasília dá tanta importância à fala da deputada quanto a sua indumentária. Faria o mesmo se fosse um deputado? Daria a cor da gravata? Descreveria a elegância do talhe do terno? Certamente, não. Pois está aí a demonstração de que, por mais que se force a promoção da igualdade entre os sexos, sempre sobra um fundo de discriminação. Por mais que seja realçado o lado profissional da mulher, ela continua sendo vista da maneira tradicional.

No segundo fragmento, é imaginável que a manchete fosse: «Heterossexual foi assaltado»? Não, não passaria pela cabeça de ninguém. E por que é que a vítima é descrita com base na orientação sexual? Pois é pura discriminação.

E no último trecho, fosse o artista nascido numa família cristã, acaso isso seria mencionado? É de duvidar.

Como vemos, apesar do esforço institucional para educar as gentes, a discriminação é como água: se nos escapa entre os dedos, não dá pra conter. Sem nos darmos conta, nós todos discriminamos, o tempo todo. Que fazer? É reflexo natural, comum a todo humano.

No fundo, não é tão mal assim. Não convém que a Polícia dos Costumes tente proibir terminantemente todas as manifestações da discriminação nossa de todos os dias. Se todos se parecessem, fizessem as mesmas coisas e se comportassem exatamente do mesmo modo, o mundo seria muito, mas muito, chato.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s