Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Novilíngua ‒ 5

José Horta Manzano

Pronúncia cruzada

Diante da palavra captar, a pronúncia mais corriqueira será ca-pi-tar, com um i infiltrado de contrabando depois do p.

Já diante da palavra capital, a pronúncia mais comum será cap-tal, em que o i que segue o p desaparece.

Engraçado esse cruzamento, não?

Eu digo ‘Brasiu’, ele diz ‘Purtugal’

Ruth Manus (*)

Eu pergunto se ele viu minha meia-calça marrom e ele diz que não, não viu meus collants castanhos. Eu pergunto se ele vai de terno, ele me diz que não vai de fato. Eu uso calcinhas, que ele diz que são cuecas, ele usa boxers, que eu digo que são cuecas. Eu digo que é uma camiseta bonita, ele diz que é uma t-shirt gira. Eu digo que a nova camisa do São Paulo está linda, ele diz que a nova camisola do Benfica está brutal.

Eu digo pára de frescura e ele me diz não me venhas com fitas. Eu digo que ele não sabe porra nenhuma, ele diz que eu não sei a ponta de um corno. Eu digo se agasalha direito, ele me diz tapa-te bem. Eu digo muito, ele diz bué.

Eu pergunto se nossos amigos vão trazer as crianças e ele diz que sim, eles trazem os putos. Eu pergunto se elas estão fazendo o álbum da Copa e ele diz que sim, elas estão a fazer a caderneta do Mundial. Eu pergunto se eles têm figurinhas para trocar, ele me diz que eles têm cromos repetidos.

Eu pergunto se vamos de trem, ele diz que vamos de comboio. Eu digo que o encontro em 10 minutos no ponto do ônibus e dez minutos depois ele me diz que já está na paragem do autocarro. Eu digo que o pedágio é carésimo, ele diz que a portagem é um balúrdio. Eu digo que precisamos parar no posto e ele diz que logo ali há uma bomba.

Eu digo que esse goleiro é muito ruim, ele concorda dizendo que é mesmo um guarda-redes muito mau. Eu berro que o atacante estava impedido, ele berra que o avançado estava fora de jogo. Eu digo que o juiz tá de sacanagem, ele diz que o árbitro está a gozar. Eu digo que não foi escanteio, foi tiro de meta, ele concorda que não foi canto, foi pontapé de baliza.

Eu digo que adoro a Whoopi Goldberg em Mudança de Hábito, ele diz que nunca assistiu a Do Cabaré Para o Convento. Eu digo que nunca assisti a O Poderoso Chefão, ele diz que eu preciso assistir a O Padrinho. Eu digo que parei de ver Bastardos Inglórios no meio, ele diz que eu tenho que acabar de ver Sacanas Sem Lei.

Eu digo que TST é Tribunal Superior do Trabalho, ele diz que TST é Transportes do Sul do Tejo. Eu digo que ABL é Academia Brasileira de Letras, ele diz que ABL é Associação de Basquete de Lisboa. Eu digo que Itau é um banco, ele diz que Itau é Instituto Técnico de Alimentação Humana (e eu digo que falta um H nessa sigla).

Eu digo que comprei caquis, ele diz que comprou dióspiros. Eu peço para ele comprar abobrinha e alho poró, ele compra courgette e alho francês. Eu digo que gosto de bolo salgado, ele diz que gosta de bôla. Eu digo que gosto de rocambole, ele diz que gosta de torta. Eu digo que gosto de torta, ele diz que gosta de tarte.

Eu digo que era um bando de estelionatários, ele diz que era uma corja de aldrabões. Eu digo que o cara é um babaca, ele diz que o gajo é um parvalhão. Eu digo que o vestido é cafona, ele diz que o vestido é piroso. Eu digo que a dona do vestido é uma patricinha, ele diz que é uma betinha.

Eu digo que temos um problema de sílaba tônica, ele concorda. Eu digo que quero comer sushÍ, ele diz que também quer comer sÚshi. Eu digo que vou de metrÔ, ele diz que me pega na saída do mÉtro. Eu digo que o hotel se chama TÍvoli, ele diz que se chama TivolÍ. Eu digo que busco a miúda no judÔ, ele diz que ela sai do jÚdo no fim da tarde.

Eu digo carinho, ele diz festinhas. Eu digo beijo tchau, ele diz beijinhos grandes e até logo. Eu digo eu te amo e ele poderia dizer amo-te, mas, no fim das contas, ele acaba dizendo eu tambaim q’rida. Sorte a minha.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Como se pronuncia Odebrecht?

José Horta Manzano

Certas palavras de origem estrangeira são verdadeiro desafio. Algumas delas, constantemente marteladas pela mídia e sempre pronunciadas da mesma maneira, acabam entrando no costume. Já outras, ouvidas com menor frequência, aparecem como pedra no caminho de locutores, narradores e do simples cidadão.

Uma delas é Odebrecht. Até alguns anos atrás, pouca gente tinha ouvido falar da empreiteira que leva o nome dos fundadores. Hoje a coisa mudou. Não se passa dia sem que a gente tenha de ler ou ouvir esse nome, goste ou não goste. Não tem como escapar. Pelo andar da carroça, ainda vamos topar com esse nome por meses, talvez anos. É bom aprender a pronunciá-lo direitinho.

Tradicionalmente, a língua alemã nunca entrou para o currículo da escola no Brasil. Portanto, na incerteza, cada um pronuncia como acha que deve ser. E nem todos estão de acordo.

Há quem pule por cima do ch, aterrissando direto no t. Sai algo como «Odebrét», com um t meio mudo. Parece chique, mas passa longe da pronuncia alemã.

odebrecht-1Outros trocam as letras de lugar. Fazem como se o t estivesse antes to ch formando um tch. Esforçam-se por articular mas sai um estranho «Odebrétch». De orelhada, um alemão não identificaria a palavra.

Já ouvi puristas que, levando em conta que a empresa é baiana, fazem questão de abrir as vogais. Ouve-se um peculiar «Ódebrétch». Tem charme, sem dúvida, mas o caminho não é esse não, meu rei.

Uns poucos tiveram aulas de alemão. Aprenderam que o ch indica pronúncia aspirada, próxima da jota espanhola. Capricham então num ríspido «Odebréxht», que soa como chicotada. Embora doa no ouvido, não corresponde à pronúncia original.

A maioria opta pela lei do minimo esforço. Fazendo pouco caso da inabitual sequência de letras, faz de conta que não viu o t final e solta um «Odebréch». É simples e tem a vantagem de não agredir o ouvido de ninguém. Só que não é assim que se articula.

Conhece o distinto leitor a pronúncia castiça, aquela que sairia da boca de um alemão de boa cultura? Não sabe? Pois vou lhe dizer. «Odebrecht» se pronuncia… exatamente como se escreve.

O alfaiate

José Horta Manzano

Alfaiate 2Muitos anos atrás, meu professor de Inglês contava uma história que, nos garantia ele, era verídica. Um alfaiate português tinha acabado de estabelecer-se em Londres. Máquina de costura, tesourões, moldes, manequins e todos os petrechos comprados, abriu a portinha.

No frontispício, mandou pintar seu próprio nome: «PAIVA Taylor» – Alfaiataria Paiva. O primeiro cliente entrou e já soltou logo um gentil «Good morning, Mister Paiva!». Só que, seguindo hábitos da escrita inglesa, ele pronunciava “Mister Pêiva”. A partir daquele dia, todos os clientes – sem exceção – chamaram seu Paiva de Pêiva.

O alfaiate, cujo conhecimento de inglês ainda era incipiente, ficou sem entender por quê. Ao fim de alguns dias, rendeu-se ao que lhe pareceu evidente: os ingleses preferem assim.

Mandou chamar o letrista e encomendou nova placa. ‘Agora vai sair ao gosto local’, pensou ele. Dias depois, chegou o letreiro «PEIVA Taylor». Feliz, o artesão imaginou ter resolvido o problema.

Alfaiate 1Para decepção de seu Paiva, o primeiro cliente a entrar foi logo cumprimentando: «Good morning, Mister Peiva». Só que, respeitando os códigos da língua inglesa, ele pronunciava “Mister Piva”.

O alfaiate sentiu um nó nos miolos. ‘Ó raios! O gajo há de ser analfabeto‘, pensou. O segundo, depois o terceiro, em seguida o quarto cliente confirmaram a evidência: todos chamavam seu Paiva de Piva.

Alfaiate 3Paciente e preocupado em não decepcionar a crescente clientela, ele se resignou a substituir mais uma vez o letreiro. Não demorou mais que alguns dias para ser pregada a nova placa: «PIVA Taylor». ‘Agora, vai!’ – pensou o artesão.

Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Meia hora depois da afixação da placa, entrou o primeiro cliente. Bem educado, soltou logo um: «Good morning, Mister Piva». Para espanto do artesão, o homem tinha pronunciado Mister Paiva! O alfaiate imaginou ter ouvido mal. Mas tinha ouvido muito bem. A partir daquele dia, todos os que entraram chamaram seu Paiva de Paiva.

Seu Paiva, cujas habilidades linguísticas não são lá essas coisas, continua sem entender até hoje. Devoto de São Sebastião, acredita ter alcançado uma graça.

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PS: Não posso garantir que a história seja verdadeira. No entanto, posso asseverar que o sobrenome do professor de Inglês era… Paiva. Fora de brincadeira.