Falsa crase

Dad Squarisi (*)

Aqui são balas perdidas. Nos EUA, rajadas de metralhadora. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a
A crase indica o casamento de dois aa: preposição a + artigo a: Dirigiu-se à piscina.

O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a + a = à.

Tira-teima
Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.

• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.

• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.

• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase
Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a + a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos
Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento:

Matou-o à bala.
Feriram-se à faca.
Está à venda.
Escrever à tinta.
Feito à mão.
Enxotar à pedrada.
Fechar à chave.
Matar o inimigo à fome.
Entrar à força.

O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

2 pensamentos sobre “Falsa crase

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