Emérito

José Horta Manzano

Você acha que alguns meses de serviço militar é muita coisa? Pois não viu nada! Os guardas pretorianos da Roma antiga tinham de cumprir 16 anos. Para os legionários, então, era mais duro ainda: 20 anos. Depois desse tempo todo ― ufa! ― tinham direito a receber um prêmio.Coroa de louro

Há dúvidas sobre o fato de a língua latina ter sido, em algum momento, a língua vernacular, ou seja, aquela que todos utilizavam no dia a dia. Muitos autores acreditam que o latim, como o português culto, estava distante do falar popular. Era reservado para pessoas de grande erudição. O povão falava diferente.

Meu próprio professor de latim dizia que, se Cícero usasse com seus empregados domésticos o mesmo linguajar erudito que utilizava nas altas esferas, não seria entendido. Acredito que ele tinha razão.

Seja como for, a língua escrita era o latim. As leis e os regulamentos tinham de se valer dele para serem difundidos.

A língua culta usava a palavra meritum, com significado próximo de nosso atual mérito. Era a coisa merecida, o prêmio, a recompensa.

Pretorianos e legionários, uma vez cumprido seu longo serviço à pátria, adquiriam direito ao descanso. Era um prêmio a que faziam jus por mérito. Ex-meritum, dizia-se. De ex-meritum, foi um pulinho chegar a emeritum e, de lá, a emérito.

.:oOo:.

Bento XVI, a partir deste 1° de março, conservará seu título de papa. Mas será papa emérito. E expressão feliz e honrosa. Significa que o papa cumpriu seu serviço e aposentou-se por mérito.

Não sei se é a opinião de todos, mas, no que me tange, minha admiração por Joseph Ratzinger tem crescido a cada dia. É uma figura surpreendente.

Tem a bravura de um ariano aliada ao senso do real de um europeu do norte. Renunciou ao cargo, quebrando assim um tabu que já durava meio milênio. E, para coroar o feito, teve o destemor de declarar, em sua derradeira homilia, que, em certos momentos de seu pontificado, «o Senhor parecia dormir». Não é qualquer um que, na sua posição, ousaria proferir essas palavras.

Que tenha uma aposentadoria longa e tranquila! Esse personagem singular ganhou-a por mérito.

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Caso alguém tenha saltado esse capítulo, o Corriere della Sera traz o relato da última audiência pública de Bento XVI. Se você preferir, o Estadão online também dá a notícia.

Globalização

José Horta Manzano

Com o desvanescimento do comunismo, cuja pedra tombal foi talhada a partir de um flanco do Muro de Berlim desmoronado, nosso antigo Partidão não teve outro jeito senão mudar de nome e de programa.

De suas cinzas, surgiu o Partido Popular Socialista, conhecido como PPS. Como todos os partidos brasileiros, abriga afiliados vindos de horizontes diversos. Essa heterogeneidade não facilita aos brasileiros identificar quem é quem, nem que partido quer o quê.

Essa opacidade não desagrada aos partidos. O que, no fundo, todos querem mesmo é o poder. Ou, pelo menos, um naco dele. Com todas as mordomias que vêm de quebra.

.:oOo:.PPS-Italia

Mas o assunto deste post é outro. Renata Bueno, antiga vereadora da Câmara Municipal de Curitiba (PR), à época filiada ao PPS, acaba de ser eleita para o Parlamento Italiano. Segundo as leis italianas, três são os ungidos para representar os italianos residentes na América do Sul. Renata está entre os três.

A moça tem duas cidadanias. A italiana, naturalmente, mas também a brasileira. O que a faz a primeira cidadã (também) brasileira a conquistar o direito de tomar assento no parlamento daquele país. Nossos melhores votos de sucesso e boa gestão!

Quem quiser ler a notícia em detalhe, que se dirija ao portal do (antigo) Partidão. Aqui.

O fim da escuridão

Você sabia?

José Horta Manzano

Era um meio-dia de janeiro, sol saariano, já faz um bocado de tempo. Eu estava ciceroneando um amigo europeu em sua primeira visita ao Brasil.

De repente, ele se exclama: «― Mas os postes não têm sombra!»(*). Mas é claro, pensei eu, em pleno janeiro, ao meio-dia, não podia ser diferente. O estrangeiro continuava extasiado. Nunca na vida tinha visto aquilo, um objeto exposto ao sol, sem sombra.

Les Neyrolles, França

Les Neyrolles, França

Quem vive entre os dois trópicos, seja no hemisfério norte, seja no sul, está habituado a esse fenômeno. A gente nem repara. Mas pode deixar: para  quem vem de latitudes mais elevadas ― mais afastadas do equador ―é prodígio que não passa despercebido.

Aqueles que ainda trazem alguma lembrança das aulas de Geografia, hão de se lembrar que, devido à inclinação do eixo terrestre, unicamente os habitantes das regiões próximas do equador terrestre podem assistir a esse fenômeno. Quem vive ao norte do Trópico de Câncer ou ao sul do Trópico de Capricórnio nunca verá o sol a pino, bem em cima do cocoruto.

Quanto mais nos afastarmos do equador em direção ao polo ― Polo Norte ou Polo Sul, pouco importa ―, menos alto se avistará o sol do meio-dia. Nas cercanias dos polos, então, a coisa pode ficar preta. No sentido literal. No inverno, durante algumas semanas, o sol não surge no horizonte, é noite o tempo todo. A compensação vem no auge do verão, quando o sol não se põe durante umas boas semanas. É um dia interminável.

Aqui na Europa meridional e central, o fenômeno não chega a esses extremos. Em junho e julho, os dias são bem longos. Se não houver montanhas no horizonte, pode-se admirar o sol até por volta das 22 horas. Ao contrário, no inverno, antes das 17h já é noite negra. Para presenciar o fenômeno de semanas de sol contínuo, precisa viajar para além do Circulo Polar, no extremo norte da Escandinávia.

No entanto, mesmo sem ir tão longe, há lugares curiosos por aqui mesmo. Um exemplo peculiar é um lugarejo chamado Les Neyrolles, um dos mais de 36’000(!) municípios franceses. Fica num vale dos Montes Jura, a uns 50km da fronteira suíça.

O centro da localidade apresenta uma particularidade pouco invejável. De meados de novembro até meados de fevereiro, o sol simplesmente não aparece no céu. Ainda que o tempo esteja claro, céu azul sem nuvens, será impossível contemplar o astro maior. A luminosidade, felizmente, chega, mas o sol permanece abaixo da linha do horizonte.

A razão é uma parede de montanhas plantada bem nas proximidades do burgo, exatamente na direção do sul. No inverno, a mecânica celeste não permite que o sol, fraco e sem força, ultrapasse o cume daqueles montes. O povoado fica muito triste e, principalmente, muito frio. Só vive lá quem não tem outra opção.

Les Neyrolles não é o único lugar habitado a sofrer com essa falta de iluminação direta. Por razões histórico-econômicas ― presença de um rio, passagem de alguma antiga estrada, jazida mineral ―, outros lugarejos se encontram na mesma situação.

Mas alegremo-nos, irmãos! Fevereiro está terminando, os passarinhos já começaram a cantar, e logo o sol voltará a alegrar a natureza de Neyrolles e de outros povoados semelhantes.

Até novembro é garantido. Depois disso, sabe como é…

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(*) Meu amigo se referia à acepção própria de postes: estacas para iluminação pública. Hoje em dia, é verdade, o termo pode prestar a confusão. No Brasil há “postes” sem luz própria.

 

Vamos ajudar a Fifa

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Parece-me uma evidência, de baixo é que não poderia vir. Outro dito popular ― adoro ditados e provérbios ― afirma que quem semeia vento colhe tempestade. Em geral, é o que acontece.

Há corrupção no futebol em vários países! Que surpresa! O correspondente do Estadão deu a inacreditável informação, publicada na edição online de 17 de janeiro. Na mesma linha, seguiram o Globo, Terra e outros sites noticiosos.

Todos relatam que a Fifa, um dos organismos mais endinheirados do planeta, precisa de ajuda para coibir a propagação da corrupção. É mais ou menos como se uma raposa, presa num galinheiro, pedisse ajuda às galinhas para escapar.

Ora, pois. Não é segredo para ninguém que a Fifa, além de ser dona de cofres abarrotados, é composta de elementos altamente suspeitos de corrupção. Não falo de ladrões de galinhas, mas de raposas, de criminosos de alto coturno. Daqueles cujo balcão de negócios faria empalidecer de inveja certos congressistas tupiniquins. Dos mais graduados!Corrupção

Pouca gente arriscaria a pele para assaltar a pobre vendinha de seu Zé. Já onde há dinheiro, a tentação é, evidentemente, maior. Para eliminar ― ou, pelo menos, reduzir ― a corrupção no «esporte das multidões», a retidão tem de começar no topo. O exemplo vem de cima. Uma associação (mais que) suspeita de pesados malfeitos não tem moral para exigir de seus afiliados aquilo que não exige de si própria.

Mas que se aquietem todos, nada de pânico! A corrupção, os árbitros vendidos, as trapaças em todos os escalões do futebol ainda têm dias risonhos à frente. Estamos ainda em plena semeadura de vento. As borrascas de verdade só virão mais tarde.

Falando nisso, ainda não consegui entender por que raios o Catar (ô nome esquisito, prefiro Qatar, mais exótico) foi designado para acolher a Copa do Mundo de 2022. Se o Japão e a Coreia, poucos anos atrás, tiveram de unir forças para abrigar uma evento de tal magnitude, como é possível que alguns quilômetros quadrados de deserto possam montar a tenda, receber o circo e garantir o espetáculo? Tudo indica que, nessa história, os palhaços somos nós.

Onde tem fumaça, tem fogo. Tá ruço.

O homem do saco 2

Você sabia?

José Horta Manzano

«Quando não vai por bem, vai por mal». Desde pequenos, ouvimos essa expressão. Há variantes, entre as quais: «Se não for pelas boas, vai com casca e tudo». Parece lugar-comum dizer isso, mas a sabedoria popular é realmente bem mais profunda do que imaginamos.

Há regras e normas que, por preguiça ou negligência, costumamos ignorar. Todos nós sabemos, por exemplo, que é proibido estacionar um veículo em cima de uma faixa de pedestres. Assim mesmo, não se passa um dia sem que flagremos carros parados bem em cima de faixas protegidas. Por que acontece isso? Será por deficiência visual do motorista? Não acredito. É negligência, fruto da quase certeza da impunidade.

Saco oficial

Saco oficial

Por aqui, faz anos que se incita o povo a triar o lixo doméstico. Nossa sociedade produz montanhas de detritos que precisam, de um modo ou de outro, ser tratados. Que se os incinere, enterre, recicle, algum fim tem de ser dado a todo esse descarte. No passado, já cheguei a ver famílias com vários recipientes em casa, cada um etiquetado para um tipo de despejo. Mas não era muita gente a proceder assim, pois a decisão dependia unicamente da boa-vontade e da consciência ecológica de cada um. As autoridades bem que tentaram fazer que os cidadãos entendessem que nem tudo o que se joga fora é lixo inaproveitável. Desde que se faça uma triagem conscienciosa, muita coisa pode ser utilizada para outros fins. Depois que está tudo misturado, a separação fica difícil, se não impossível.

Pelas boas, não foi. Os conselhos não adiantaram muito. Mentalidades não se mudam assim, da noite para o dia, sem mais nem menos, só com um apelo à consciência de cada um. A parte mais sensível do homem, como se sabe, é o bolso. Como não houve outro meio, restou a maneira forte.

Foi o que relatei num artigo postado em 21 de dezembro de 2012, quando lhes relatei sobre a nova taxa que estava para vigorar no município onde vivo. É a «taxa do lixo» também conhecida como «taxa por saco».

Na época, insurgi-me contra a obrigatoriedade do novo regulamento. Cheguei a fazer referência jocosa à história do «homem do saco», aquela figura inventada pelos antigos para domar, pelo terror, crianças desobedientes. Fiz alguns cálculos apressados e concluí que as novas regras poderiam representar uma despesa extra de 550 dólares anuais para uma família, o que me pareceu desproporcional e injusto.

Já vai para dois meses que a nova regra entrou em vigor. Dado que toda a região a adotou ao mesmo tempo, não dá nem mesmo para fazer «turismo do lixo», ou seja, embarcar o saco de entulho no automóvel para jogá-lo num município vizinho.

Todos os habitantes receberam um livreto de instruções da prefeitura municipal, todo bonitinho, com desenhos coloridos, coisa fina. Estão lá descritos todos os objetos que um cidadão costuma descartar. Começa com remédios vencidos, passa por móveis velhos, pilhas gastas, lâmpadas queimadas, papel, metal, plástico, tecidos, e vai até o lixo orgânico.

Ninguém paga de bom grado 2,50 dólares por um saco de plástico para enchê-lo de lixo. Assim mesmo, todos os habitantes fomos obrigados a nos sujeitar ao novo regime. Pois pasmem, caros e fieis leitores! Constato hoje que a mudança de hábitos foi extremamente salutar. No final, ganham todos.

Temos hoje em casa 7 recipientes, um para cada tipo de descarte. O mais volumoso ― eu não imaginava! ―, é o de plástico. É incrível o que se utiliza de matéria plástica, sobretudo para embalagens.

Temos ainda um recipiente para metais, onde vai o que for de ferro, aço ou alumínio. Não serve para pilhas nem para lâmpadas, que essas têm de ser devolvidas à loja que as vendeu.

Uma outra caixa é para papel e papelão. Uma outra ainda fica reservada para PET, aquele polímero usado para água engarrafada. Antes de descartar, tem-se de pisar a garrafa para tirar o ar e atarraxar de novo a tampinha no bocal. Uma quinta caixa serve para objetos de vidro.

O sexto recipiente é especial: serve para o lixo orgânico, ou seja: resto de comida, casca de fruta, escama de peixe, coisas desse tipo. É conveniente que esse recipiente seja pequeno, de modo a caber no congelador. Se não, ai, ai, ai, vai exalar um cheirinho. É conveniente forrá-lo com um saco de material biodegradável, que será aceito como lixo orgânico. Essa matéria, depois de processada, vai se transformar em adubo. Por caminhos tortuosos, voltará a nossos pratos.

Por fim, sobrou… a antiga lixeira, devidamente forrada com seu novo (e caro) saco. Depois da triagem, pouco ou nada sobra para este sétimo recipiente. Talvez algum saco de aspirador, objetos que contenham plástico e metal ao mesmo tempo, fraldas de recém-nascido, coisas assim.

O depósito de lixo municipal tem caçamba para cada tipo de lixo. Cada habitante do município pode levar seus detritos ao depósito e lançá-los no contêiner adequado. Não pagará nada. As crianças adoram jogar garrafas na caçamba apropriada. Não só as crianças. É um dos raros lugares onde se pode quebrar vidro sem sentimento de culpa. Mas atenção, há um requinte: garrafas brancas, verdes ou marrons vão em recipientes diferentes.Poubelles

Para facilitar a vida dos munícipes, evitando que tenham de visitar o depósito municipal a todo momento, pequenos contêineres de cor marrom estão instalados em pontos estratégicos da cidade, disponíveis o tempo todo. São reservados exclusivamente para lixo orgânico, aquele que ninguém quer guardar muito tempo.

Pode parecer complicadíssimo, mas não é. É questão de costume, acreditem. E é sempre reconfortante saber que cada um está fazendo sua parte na preservação do planeta.

Não deu para introduzir a nova prática pelas boas. Foi pelas más.

E a coisa continua!

José Horta Manzano

A finalidade principal deste blogue não é, definitivamente, tratar de assuntos de religião. Especular sobre o resultado da escolha que os cardeais farão no próximo conclave seria como dar palpite em briga alheia.

Mitra 2.Parece que nem todo o mundo pensa como eu. Alguns continuam imaginando que o próximo papa tem de estar sintonizado com a situação declinante do catolicismo no Brasil, que tem de levar em conta nossa situação «emergente», que não pode ignorar o fato de que concentramos o maior número de católicos declarados.

Aos que pensam assim, eu gostaria de dizer que:

1°) Ao assumir seu encargo, o papa ganha automaticamente a nacionalidade vaticana. Não há papa italiano, nem polonês, nem brasileiro, nem tadjique. São todos vaticanos. Ou vaticanenses, como preferirem. Os dicionaristas hesitam.

2°) O chefe supremo de uma Igreja não é escolhido necessariamente em função da comunidade mais numerosa entre as muitas que compõem seu rebanho. Pelo contrário. Se, no Brasil, a alternância e o contraditório tornaram-se noções fora de moda, continuam valendo em outras esferas e em outras partes do mundo.

3°) O papa não é o secretário-geral da Igreja Católica brasileira, mas o chefe supremo do catolicismo planetário. A população (que se diz) católica no Brasil, de 120 milhões de almas, não está muito à frente do número de fiéis americanos, filipinos, mexicanos.

4°) No Brasil, o número de pessoas que se declaram católicas vem decaindo dia após dia. O futuro papa pouco ou nada pode fazer contra essa debandada. Como também tem limitado poder contra a perseguição de cristãos na Índia, no Egito ou no Paquistão. Se os católicos abandonam a Igreja tradicional, não será por razões filosóficas nem teológicas. As causas do sangramento estão fora do alcance do poder papal.

.:oOo:.

Cabe à cúpula da Igreja decidir em que direção quer avançar e, coerentemente, escolher o chefe mais bem sintonizado com o programa.

Podemos até nos considerar «emergentes», visto que latifundiários tupiniquins vendem atualmente muita soja e muito minério de ferro aos chineses. Ainda assim, não chegou a hora de nos atrevermos a pressionar os grandes eleitores de cúpulas religiosas.

Conclave não é reunião de diretoria de ong. Não se está a eleger o síndico de um condomínio.

Segredo é pra quatro paredes

José Horta Manzano

Já faz um tempinho que se fala menos de Julian Assange, aquele que andou bisbilhotando mensagens confidenciais do governo americano e espalhando o resultado da façanha pela internet.

Muita gente aplaudiu. O homem foi, por um breve tempo, elevado à categoria de herói, uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, aquele que rouba segredos dos poderosos para distribui-los aos sem poder. Não é minha visão.

Mala diplomática 1Um bonito samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto que Dalva de Oliveira gravou em 1947 (*) dizia justamente que «segredo é para quatro paredes». Naqueles tempos recuados, as paredes já tinham ouvidos, mas o som não ia muito além do quarto ao lado. O pior que podia acontecer é que algum maldizente espalhasse a fofoca pela vizinhança. Hoje não é mais assim.

A internet e os novos meios de difusão da informação abriram caminhos que nós, pioneiros, estamos ainda longe de conceber aonde vão levar. Hoje em dia, um sussurro emitido em Singapura será ouvido instantaneamente em Sydney, em Helsinque e até em Ushuaia. Quem joga informações na rede deve estar bem consciente dessa nova realidade. E o senhor Assange certamente estava quando decidiu divulgar dados obtidos por meios fraudulentos.

Na primeira metade dos anos sessenta, foi assinada a Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas. É aceita por praticamente todos os países. Até Cuba e a Coreia do Norte são membros do clube. Entre outras determinações, a Convenção de Viena reitera e regulamenta o antigo princípio da mala diplomática.

Tradução portuguesa da expressão valise diplomatique, a mala chegou, realmente, a ser uma espécie de baú. Os países signatários da convenção comprometeram-se a deixá-la passar, sem violá-la e sem controlar seu conteúdo. O nome ficou, mas a mala, nos dias atuais, se desmaterializou.

Mensagens diplomáticas transitam agora por internet. A mudança de meio de transporte, no entanto, não invalidou o princípio da inviolabilidade do conteúdo. Violá-lo continua sendo um crime. Difundir por internet o produto do crime, a informação surrupiada, é duplamente repreensível.

Os tempos do faroeste passaram. As leis são feitas para serem obedecidas. A ninguém ― salvo, naturalmente, a alguns figurões brasileiros «especiais» ― é dado desobedecer a elas. Quem o fizer, terá de prestar conta de seus atos.Mala diplomática 2

O senhor Assange cometeu um ato de pirataria. C’est plus bête que méchant, diriam os franceses, está mais para tolice que para malvadeza. Seja como for, o ato foi leviano e deu pano pra mangas. Agora, para coroar, o pirata mostra que sua coragem só funcionava quando se sentia protegido por um biombo, perdão, por uma tela de computador. Desmascarado, exposto e procurado por polícias do mundo inteiro, amoita-se num cômodo acanhado da embaixada londrina de uma pequena República sulamericana.

Na entrevista que teve a fineza de conceder a um correspondente do Estadão, Assange fez questão de se apresentar fantasiado de jogador de futebol. Uniformizado como se fosse dos nossos. É receita certeira para embevecer muita gente. Veja aqui e aqui.

Plugado e conectado, o hóspede da exígua embaixada deve estar a par da acolhida peculiar que o governo brasileiro costuma dispensar a refugiados. Deve saber que, durante a Segunda Guerra, nossas representações diplomáticas estavam instruídas a negar visto de entrada a judeus. Deve saber também que o último grande bandido internacional extraditado pelo Brasil foi Tommaso Buscetta, um mafioso pentito (arrependido), faz 30 anos. Deve ter estudado tim-tim por tim-tim o caso Battisti.

Em resumo, sabe que não poderá ― nunca mais ― atravessar fronteiras e circular livremente. Se tiver a sorte de se safar da embaixada onde se encontra encurralado, imagino que trocará o apertado Equador(2) por um refúgio no espaçoso Brasil. À beira-mar, se possível.Mala diplomática 3

Nesse particular, não tem muito a temer: muito provavelmente será aceito. Talvez de braços não tão abertos, dado que seu crime não foi de sangue, mas, assim mesmo, lo recibiremos de corazón.

Seus feitos combinam com o clima de malandragem e de traição.

(1) Quem quiser recordar o samba-canção, siga por aqui.

(2) Quem quiser assistir a um pouso no aeroporto de Quito, clique aqui.

Mister Vatican

José Horta Manzano

Aprecio muito o estilo irreverente de Elio Gáspari. Mais que isso, estou, a maior parte do tempo, de acordo com o que ele diz. A prova é que mantenho, neste blogue, um link permanente para sua coluna da Folha de SP.

Mas ninguém é perfeito. Em seu artigo deste 13 de fevereiro ― Vem aí um conclave inesquecível ― Gáspari extrapola. Exprime seu amargor pelo que ressente como eurocentrismo do Vaticano. Reclama que grandes cidades de outros países vêm sendo privilegiadas com nomeação de novos cardeais, em detrimento de megalópoles brasileiras. Especula sobre as chances de este ou aquele país ser premiado com a eventual promoção de um de seus cardeais ao cargo de papa. Não passa longe de propor um sistema de quotas, tantos cardeais para países evoluídos, tantos para os subdesenvolvidos.

MitraNosso caro Elio não é o único a misturar no mesmo tacho uma instituição religiosa com orgulho nacional. Muitos outros jornalistas andam enveredando pelo mesmo caminho. Quem será o próximo? Um africano? A América Latina tem chances? A Europa está sobrerrepresentada no colégio cardinalício! Não se dão conta de que não se está a escolher entre países nem entre raças, mas entre personalidades.

Para mim, essas observações são impertinentes e intempestivas. Não estamos tratando de Copa do Mundo nem de concurso de Miss Universo. Esta não é uma disputa entre países. Não haverá ― ou não deveria haver ― ganhadores nem perdedores. O próximo ocupante do trono de São Pedro não deverá ser louvado ― tampouco estigmatizado ― por sua nacionalidade, pela cor de sua pele, por sua língua materna. Nem por torcer por este ou por aquele time de críquete.

Todos nos apercebemos de que o catolicismo vive uma época difícil. Faz alguns séculos, nos tempos em que a Igreja conjugava o domínio das mentes com o poder temporal, não havia discordância. Nem podia haver, que não era tolerada.

Mas os tempos mudam. Aos poucos, a rachadura que havia entre preceitos religiosos e comportamento civil foi-se alargando até chegar ao fosso que ressentimos hoje. Não há de ser fácil exercer a função de chefe espiritual de um rebanho que, a cada dia, mais se distancia da espiritualidade.

Cada cardeal votará naquele que melhor representar sua visão pessoal da Igreja. Cada um de nós é livre de dar sua opinião ou seu palpite. Mas não me parece que estejamos assistindo a um certame entre países ou entre cores de pele. A personalidade de cada postulante é o que conta.

Seja quem for o eleito, terá um caminho pedregoso pela frente. E será cobrado por suas decisões, isso é certeza.

On ne peut pas plaire à tout le monde, não se pode agradar a gregos e a troianos.

Carnaval na Quaresma

José Horta Manzano

Você sabia?

Para nós, acostumados à tradição brasileira, Carnaval é a festa maior. Suplanta São João, dia das Mães e até o Natal. Mas, como tudo o que é bom ― para quem gosta, naturalmente ―, dura pouco. Na Quarta-feira de Cinzas está tudo acabado. Não sei se ainda se usa fazer uma visita à igreja para «tomar as cinzas», um jeito de pedir perdão pelos excessos cometidos.

Você gostaria de dar uma esticadinha, mas não pode porque já estamos na Quaresma, tempo de penitência. São coisas da vida. Mas… Drummond já havia constatado que o mundo é vasto. Que você se chame Raimundo ou não, e se quiser mesmo, vai sempre encontrar um jeitinho de espichar a folia.

Por razões históricas ou simplesmente por respeito a pactos de não concorrência, nem todas as metrópoles, cidades e vilarejos do vasto mundo festejam o Carnaval ao mesmo tempo. Na Suíça, cada cidade é livre de marcar a data que melhor lhe aprouver.

Quem tiver realmente vontade de encompridar a festa, que tome nota dos carnavais que ainda estão programados para este ano. Pode ir reservando sua passagem. Mas faça rápido, porque já estão para começar.

Vai aqui abaixo um florilégio de carnavais suíços. Não se esqueça de que, em alemão, Carnaval é Fasnacht:Carnaval Basel

Carnaval de Moudon
(Chamado Brandons)
de 28 fevereiro a 3 de março

Carnaval de Payerne
(Chamado Brandons)
de 15 fevereiro a 18 de março

Carnaval de La Chaux de Fonds
dias 13 e 16 de março

Carnaval de Basiléia
Este é considerado o mais importante carnaval suíço
Estende-se por todo o mês de fevereiro, com ponto alto dia 18

Carnaval de Berna
de 14 a 16 de fevereiro

Carnaval de Biel/Bienne
de 13 a 17 de fevereiro

Carnaval de Lucerna
Este é bem esticado. Vai de 18 janeiro a 15 fevereiro

Carnaval de Sainte-Croix
de 15 fevereiro a 17 março

Carnaval de Winterthur
de 14 a 16 de fevereiro

Basler Fasnacht Guggemusiker

Para quem prefere a França ― eta país chique ―, fica aqui a informação sobre o carnaval mais famoso:

Carnaval de Nice
de 15 fevereiro a 6 março

Importante: Seja qual for seu destino, esqueça o fio dental, a manga curta e o umbigo de fora. Nesta época, faz um frio do cão. Agasalhe-se bem!

NOTA: Debaixo de cada nome de cidade, há um link para o site oficial dos respectivos festejos.

Habebimus novum papam! (*)

José Horta Manzano

Clemente IV ― papa francês nascido em Nîmes ― faleceu em 1271. Como de costume, os cardeais se reuniram para escolher um sucessor. As deliberações se eternizavam. Passavam-se as semanas, os meses, e nada de decisão. Os cardeais eleitores continuavam a reunir-se, a discutir, a pelejar, sem conseguir chegar a um acordo.

Depois de 3 anos (três anos!), o segundo escalão da Igreja e também os fiéis já não aguentavam mais. Parecia brincadeira! Alguém teve então a astuciosa ideia de trancar o colegiado de cardeais numa sala e proibi-los de sair enquanto não tivessem chegado a um acordo sobre o sucessor do papa Clemente.

A palavra conclave, que chegou até nossos dias, tem origem exatamente nesse episódio digno do parlamento de certas repúblicas de bananas. A expressão latina cum clave quer dizer, literalmente, com chave. Ficaram Suas Eminências trancados à chave. E alimentados a pão e água.Chave

Foi medida eficaz: em brevíssimo tempo, o italiano Tebaldo Visconti foi eleito por seus pares. Adotou o nome de Gregório X e reinou até falecer, uns 5 anos mais tarde.

Por determinação do próprio Gregório, a tradição foi mantida e permanece até nossos dias: chegada a hora de escolher o novo chefe da Igreja Católica, os cardeais são simbolicamente trancados numa sala do Vaticano. O magro regime de pão e água, por demasiado espartano, foi atenuado. Hoje são servidas refeições normais. Talvez por receio de voltar à antiga dieta, os eleitores nunca mais deixaram que as discussões durassem tanto tempo.

Um novo conclave está para ser convocado, questão de poucas semanas. Vista a idade provecta de muitos dos participantes, o cardápio dificilmente incluirá feijoada, torresmo pururuca ou salada de pepino. Um franguinho ou um peixe grelhado serão provavelmente servidos. Peixe será mais adequado, dado que os debates cairão em plena Quaresma.

Subitamente, muita gente descobriu uma repentina vocação para vaticanista. Cada um vem com sua análise. Uns falam de complô, de conspiração, de golpe de estado. Outros lamentam o que consideram decisão abrupta, repentina e incompreensível do atual ocupante do trono de São Pedro. Há mesmo quem evoque pressões políticas, como se vivêssemos ainda no tempo dos Habsburgos. Li até artigos que especulam sobre intrigas palacianas, como se os Borgias ainda reinassem.

Na minha humilde opinião, a realidade é bem menos complexa. As explicações mais simples são às vezes as mais difíceis de encontrar. Os dois mais recentes papas foram os primeiros não italianos a ocupar o cume da hierarquia no último meio milênio. O mundo havia-se acostumado ao comportamento de personalidades italianas. O arrebatamento e a paixão são componentes essenciais da alma latina. Todo aquele que “chegou lá” pisa até no pescoço da mãe, como se diz maldosamente, para manter seu poder, sua visibilidade e seus privilégios.

O dignitário que antecedeu Bento XVI, embora não fosse italiano, era dono de personalidade pra lá de especial. Não cabe aqui discutir as razões que o terão levado a agarrar-se ao cargo até o último suspiro.

Já nosso simpático Joseph Alois Ratzinger ― sorridente, de olhos vivos e andar saltitante ― é, antes de tudo, um teutônico típico. Alemães, suíços, austríacos, holandeses e outros povos do espaço germânico carregam certos traços comuns. Um dos mais marcantes é a visão realista. Para eles, o ofício que exercem, antes de ser uma missão, é um trabalho, uma obrigação. Não costumam considerar-se insubstituíveis. Encaram a alternância e a sucessão como coisas naturais da vida, bem longe de nossa visão messiânica.

No meu entender, a decisão tomada por Bento XVI se inscreve nessa lógica. A partir do momento em que não me sinto mais à altura de exercer minhas funções, abdico e deixo que alguém em melhores condições tome meu lugar. Sem mágoas.

O papa tomou uma decisão de bom senso. Mostrou desapego. Deu a prova de que não se considera ungido pelo Altíssimo para flutuar acima do bem e do mal.

Pode-se discutir sobre os caminhos que preconizou para seu rebanho. Uns dirão que era retrógrado, conservador, inflexível. Outros replicarão que deu os pequenos passos que podia dar, sem pretender forçar suas ovelhas a uma guinada demasiado brusca.

A verdade é que cumpriu seu mandato. Chegou a um ponto em que a saúde não lhe permite ir além. Na impossibilidade de transmitir suas responsabilidades a um parente, um suplente, um vice ou um irmão ― como sói acontecer em certos lugares que conhecemos bem ― simplesmente apresentou sua demissão e vai-se embora.

Tomara certos dinossauros de nossa maltratada República seguissem seu exemplo.

(*) Teremos novo papa!

São Valentim

José Horta Manzano

Você sabia?

Em muitos lugares do mundo, no dia 14 de fevereiro se festeja São Valentim, o patrono dos namorados. Que caia numa segunda-feira, numa quinta, num domingo, ou em qualquer outro dia da semana, é festa fixa, será comemorada sempre naquele mesmo dia.

Os franceses e outros europeus não apreciam muito que se diga, mas, segundo vários pesquisadores, a festa de São Valentim é de origem inglesa. Poderia ser alemã, russa ou chinesa, mas parece que é britânica mesmo, desde a Idade Média, que é que se há de fazer?

Alguns autores consideram que o «Valentine‘s day» é o que os romanos chamavam Lupercale, festival dedicado a Lupercus, deus da fertilidade. A demonstração cabal não foi feita, mas faz sentido.

Como sabem todos os meus eruditos leitores, a crueza do inverno no hemisfério norte aperta justamente na virada do ano, dezembro, janeiro, fevereiro, por aí. Diferentemente do Brasil, as diferenças de temperatura e de paisagem são muito marcantes por aqui. A partir de novembro, a temperatura começa a cair, o sol se faz raro, amanhece mais tarde e anoitece bem cedo, as árvores perdem as folhas, os pássaros desaparecem, um lençol branco de neve recobre frequentemente a terra.

Hoje em dia ― é coisa recente, de algumas dezenas de anos para cá ― temos casas aquecidas, máquinas para tirar a neve dos caminhos e das estradas, até rampas de saída de garagem com aquecimento no chão para evitar a formação de gelo. Luxos inimagináveis até há bem pouco tempo. Já houve até quem dissesse que a luz elétrica revogou a noite. Um exagero, certamente. Se bem que…Coração

Reza a tradição que, em meados de fevereiro, quando os dias começam a se alongar, os passarinhos nidificam. Antes disso, naturalmente têm de formar pares, que nenhum pássaro constrói ninho individual. Então, começa aquela cantoria, uns piam, alguns gralham, outros cantam melodias surpreendentes. Tudo isso para seduzir uma parceira. É o que chamamos a «estação dos amores», a vida que renasce.

Faz séculos que os ingleses festejam seu Valentine’s day. No princípio, era uma festa do tipo «liberou geral». Ô, mentes sujas, não é necessariamente o que estão pensando! Era um dia em que os rapazes tímidos se sentiam liberados para declarar sua paixão pela amada. Um bilhetinho, um recado, um sorriso, qualquer um desses sinais valia declaração. Só isso.

Até 40 ou 50 anos atrás,  a festa ainda não representava oportunidade comercial na Europa. Foi a partir dos anos 60 ou 70 que os comerciantes começaram a enxergar aí uma excelente ocasião para aumentar seu movimento. Ainda estes dias ouvi uma entrevista gravada em 1962 com uma florista parisiense. O repórter perguntava se seus negócios aumentavam com a aproximação do dia 14. A resposta foi um «não» redondo ― para ela, não mudava nada.

Hoje muda. E muito. Nos dias que antecedem a festa, as vendas de flores, de chocolates, de joias, de tudo o que possa servir aos que querem declarar seu amor aumentam consideravelmente. E tem mais. Se, antigamente, a ocasião era aproveitada unicamente pelos que queriam se declarar, hoje vale também para os que querem confirmar seus sentimentos pela pessoa amada. Jovens, maduros e velhinhos trocam presentinhos. Os comerciantes aplaudem de pé.

Quanto à origem do santo, do Valentim propriamente dito, a controvérsia é inextricável. Há pelo menos sete versões diferentes. Ele teria existido, não teria existido, seria um mártir, teria morrido de morte natural, seria um eremita, seria um camponês beato. No fundo, hoje em dia, poucos estão preocupados em saber quem foi o santo que emprestou seu nome ao dia.

Não é impossível que nunca tenha existido, que seja apenas uma lenda. Valentim é descendente direto do latino valere, que também deu valor, valente e valioso. O renascer primaveril é vigoroso, vem cheio de promessas. Para quem atravessou o inverno ― frio, longo e desnudado ― tem muito valor.

Objetos e decorações em forma de coração podem não ser tão valiosos, mas são onipresentes por esta época. Aos namorados que apreciam a paz, é recomendado que, por nada deste mundo, esqueçam de comprar uma lembrancinha para a amada.

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 2a. parte

José Horta Manzano

Agradeço aos estoicos que se esforçaram em ler o post de ontem. Não é à toa que justamente aqueles que residem fora do País formaram a maioria. Hão de estar menos envolvidos pelo grande evento carnavalesco.

Quero lhes contar como é o Carnaval por aqui, mas hoje não dá tempo. Fica para a próxima.

Para este ‘sábado de folia’, mais algumas pérolas.

Não entendo 2
From a brochure of a car rental firm in Tokyo:
When passenger of foot heave in sight, tootle the horn. Trumpet him melodiously at first, but if he still obstacles your passage then tootle him with vigor.

In an advertisement by a Hong Kong dentist:
Teeth extracted by the latest methodists.

A translated sentence from a Russian chess book:
A lot of water has been passed under the bridge since this variation has been played.

In a Rome laundry:
Ladies, leave your clothes here and spend the afternoon having a good time.

In a Slovakian tourist agency:
Take one of our horse-driven city tours – we guarantee no miscarriages.

Advertisement for donkey rides in Thailand:
Would you like to ride on your own ass?

On the faucet in a Finnish washroom:
To stop the drip, turn cock to right.

In the window of a Swedish furrier:
Fur coats made for ladies from their own skin.

On the box of a clockwork toy made in China:
Guaranteed to work throughout its useful life.

Detour sign in Kyushi, Japan:
STOP. Drive sideways.

In a Swiss mountain inn:
Special today ― No ice cream.

In a Bangkok temple:
It is forbidden to enter a woman even a foreigner if dressed as a man.

In a Tokyo bar:
Special cocktails for the ladies with nuts.

In a Copenhagen airline ticket office:
We take your bags and send them in all directions.

On the door of a Moscow hotel room:
If this is your first visit to this country, you are welcome to it.

In a Norwegian cocktail lounge:
Ladies are requested not to have children in the bar.

At a Budapest zoo:
Please do not feed the animals. If you have any suitable food, give it to the guard on duty.

In the office of a Romanian doctor:
Specialist in women and other diseases.

In an Acapulco hotel:
The manager has personally passed all the water served here.

In a Tokyo shop:
Our nylons cost more than common, but you’ll find they are best in the long run.

From a Japanese information booklet about using a hotel air conditioner:
Cooles and heates: if you want just condition of warm in your room, please control yourself.

Two signs from a Majorcan shop entrance:
English well talking. Here speeching American.

Outside a Paris dress shop:
Dresses for street walking.

At the entrance of a Nairobi building:
Mental health prevention center.

Y se acabó!

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 1a. parte

José Horta Manzano

O Carnaval está aí, minha gente! É hora de esquecer, nem que seja por alguns dias, as agruras da vida real.

Cem anos atrás, quando nossa festa maior ainda se confundia com o entrudo, não havia internet. Mas todo cidadão medianamente escolarizado possuía alguns rudimentos de francês, língua dominante da época. Minha avó sabia até a letra da Marseillaise ― na sua visão muito pessoal, entenda-se.

Hoje em dia, somos quase todos navegantes da rede. O mundo mudou, o francês foi suplantado pelo inglês, e todos os que se aventuram na internet têm de ter, queiram ou não, alguns rudimentos de inglês. Se não, estão perdidos.

Vamos aproveitar estes dias para atenuar a dureza do quotidiano. Vamos observar um pouco como se ajeitam outros povos para se comunicar numa língua que nem sempre lhes é familiar. Diversão garantida.

Quem preferir, pode mudar de canal e torcer por sua escola preferida no desfile da avenida. Ou do sambódromo.Não entendo

Dry cleaners in Bangkok:
Drop your trousers here for best results.

In a Nairobi restaurant:
Customers who find our waitresses rude ought to see the Manager.

On the grounds of a private school:
No trespassing without permission.

On an Arctic River highway:
TAKE NOTICE: When this sign is under water, this road is impassable.

On a sign in Japan:
Do not lean on gate for it occurs you Trouble.

On a poster at Fight Illiteracy:
Are you an adult that cannot read? If so, we can help.

In a City restaurant:
Open seven days a week and weekends.

A sign seen on an automatic restroom hand dryer:
DO NOT ACTIVATE WITH WET HANDS!

On a Japanese hotel’s website:
Beautiful green, seasonal flowers, and carps in the pond are waiting for you.
Is the public bath hot spring?
Tofu is made of soybeans, water, and magnesium chloride.
Here is tasteful Kyoto that you have been thinking of!
The link is free and there is not getting in touch on the occasion of the link in this page, being necessary.
Is there a laundry machine? Yes. It is on the roof top of our hotel.

In a maternity ward:
NO CHILDREN ALLOWED.

In a cemetery:
Persons are prohibited from picking flowers from any but their own graves.

Sign in Japanese public bath:
Foreign guests are requested not to pull cock in tub.

Tokyo hotel’s rules and regulations:
Guests are requested not to smoke or do other disgusting behaviours in bed.

Hotel room notice in Chiang-Mai, Thailand:
Please do not bring solicitors into your room.

Hotel brochure in Italy:
This hotel is renowned for its peace and solitude. In fact, crowds from all over the world flock here to enjoy its solitude.

In a Shanghai Hotel:
Is forbitten to steal hotel towels please.
If you are not person to do such thing is please not to read notis.

In another Chinese hotel room:
Please to bathe inside the tub.

In a Bucharest hotel lobby:
The lift is being fixed for the next day. During that time we regret that you will be unbearable.

In a Leipzig elevator:
Do not enter the lift backwards, and only when lit up.

In a Belgrade hotel elevator:
To move the cabin, push button for wishing floor. If the cabin should enter more persons, each one should press a number of wishing floor. Driving is then going  alphabetically by national order.

In a Paris hotel elevator:
Please leave your values at the front desk.

In a hotel in Athens:
Visitors are expected to complain at the office between the hours of 9 and 11 a.m. daily.

In a Serbian hotel:
The flattening of underwear with pleasure is the job of the chambermaid.

In a Japanese hotel:
You are invited to take advantage of the chambermaid.

In the lobby of a Moscow hotel across from a Russian Orthodox monastery:
You are welcome to visit the cemetery where famous Russian composers, artists, and writers are buried daily except thursday.

In an Austrian hotel catering to skiers:
Not to perambulate the corridors in the hours of repose in the boots of ascension.

On the menu of a Swiss restaurant:
Our wines leave you nothing to hope for.

On the menu of a Polish hotel:
Aalad a firm’s own make; limpid red beet soup with cheesy dumplings in the form of a finger; roasted duck let loose; beef rashers beaten up in the country people’s fashion.

In a Hong Kong supermarket:
For your convenience, we recommend courteous, efficient self-service.

Outside a Hong Kong tailor shop:
Ladies may have a fit upstairs.

In a Rhodes tailor shop:
Order your summers suit. Because is big rush we will execute customers in strict rotation.

From a Russian Weekly:
There will be a Moscow Exhibition of Arts by 15,000 Russian Federation painters and sculptors. These were executed over the past two years.

In an East African newspaper:
A new swimming pool is rapidly taking shape since the contractors have thrown in the bulk of their workers.

In a Vienna hotel:
In case of fire, do your utmost to alarm the hotel porter.

A sign posted in Germany’s Black Forest:
It is strictly forbidden on our Black Forest camping site that people of different sex, for instance, men and women, live together in one tent unless they are married with each other for that purpose.

In a Zurich hotel:
Because of the impropriety of entertaining guests of the opposite sex in the bedroom, it is suggested that the lobby be used for this purpose.

Amanhã tem mais.

Plágio?

José Horta Manzano

Os dicionários informam que plágio é o ato de apresentar, como de sua própria autoria, obra intelectual produzida por outra pessoa. Tanto faz que seja texto, pintura, desenho, música, foto. Há que convir que a definição é ao mesmo tempo precisa e vaga.

Sua precisão está na clareza: apresentar como seu algo que foi feito por outro, não resta dúvida, é apropriação indébita, roubo.radio 1

No entanto, quando nos referimos a obras musicais, entram dois complicadores: a inspiração e o tempo de execução da obra. Não é impossível que dois compositores tenham na mesma época inspiração semelhante e que, em toda honestidade, escrevam peças musicais muito parecidas. Há mais: existem casos em que apenas trechos de uma peça guardam certa semelhança com passagens de obra alheia.

Já houve quem acusasse o grande Tom Jobim de plagiar o não menos grande Cole Porter. De fato, os primeiros compassos do Samba de uma nota só lembram muito o início de Night and day. No entanto, algumas notas mais adiante, as obras seguem caminhos tão diversos que fica afastada a ideia de pura e simples cópia. Por mim, Jobim está absolvido.

Os mais antigos talvez se lembrem de uma canção de autoria de Dolores Duran (1930-1959), composta em 1958. Chamava-se Castigo. O nome é pouco evocador, mas muita gente deve se lembrar da letra: «A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer (…)». Marisa Gata Mansa foi a primeira a gravar. Maysa ― que ainda era Maysa Matarazzo ― fez do samba-canção seu cavalo de batalha.

Fiquei conhecendo, algum tempo atrás, um bolero mexicano composto por Wello Rivas (1913-1990). Ok, ok, a simples menção ao termo bolero, hoje, incomoda. Nossa estética musical se modificou. Mas não vamos perder de vista que a própria Dolores Duran ― que, apesar do nome artístico hispanizante, se chamava Adiléia Silva da Rocha ― iniciou sua carreira cantando… boleros.

A composição a que me refiro se chama Llegaste tarde. Por mais que tenha procurado, não consegui encontrar o ano de lançamento. Quando ouvi pela primeira vez a composição de Rivas, fiquei um bocado surpreso. A primeira parte guarda semelhanças intrigantes com o Castigo de nossa Dolores. Mesma linha melódica, mesma harmonia.

Será coincidência ou plágio? Se for cópia, quem terá copiado quem? Dolores já se foi há mais de meio século. Rivas também já fez sua travessia faz mais de 20 anos. Llegamos demasiado tarde. Não saberemos nunca.radio 3

Para quem quiser conferir, há registros no youtube. O caminho é este aqui:

Gravação de Castigo, por Taiguara

Gravação de Llegaste tarde, por Amparo Montes

Gravação de Castigo, por Roberto Luna

Gravação de Llegaste tarde, por Los Soberanos

Arrastão europeu

José Horta Manzano

Imaginamos todos que arrastão seja exclusividade tupiniquim, coisa nossa, exclusividade nacional. Pois vou mostrar ao distinto leitor e à graciosa leitora que estão enganados.

A antiga arte da pirataria atingiu seu apogeu lá pelos anos 1700. Falo daquela de cinema, de espadachins com tapa-olho preto, daquela que nos inspirava temor, respeito e até ― convenhamos ― uma certa admiração. Essa, feliz ou infelizmente, acabTGV 1ou.

Nos tempos áureos, piratas eram aqueles que agiam por conta própria, empresários autônomos, como diríamos hoje. Já corsários obravam a mando e por conta de terceiros. O mandatário tanto podia ser o rei da Inglaterra, como o da França ou o mandachuva de outro lugar qualquer.

Um ponto comum unia os atacantes: sabiam o que buscavam. Coisa pouca não lhes interessava. Arriscavam pesado, mas, sabiam escolher o alvo. Se conseguissem vencer a batalha, a recompensa era garantida e farta.

Os tempos passaram. Ouro e pedras preciosas já não são transportados por via marítima. Hoje vão por avião e seguem percurso ultraprotegido, com escolta de agentes de óculos escuros e fones de ouvido, tudo vigiado por câmeras e snipers. Piratear avião para roubar-lhe o conteúdo? Podia ficar bem em filmes dos anos 70. Hoje, nem pensar.

Já vão longe os tempos de Ronald Biggs e seu milionário assalto ao trem pagador. Já vão longe? Talvez nem tanto…

Jornais da França informam que, talvez por não contarem com nenhuma Iemanjá a festejar, uns 30 pequenos delinquentes juvenis escolheram o dia 2 de fevereiro para assaltar um trem. Não um trem qualquer, faça-me o favor: um trem-bala. Sim, senhor.

Os membros da quadrilha mirim promoveram uma vaquinha, mas ela não deve ter rendido o suficiente para comprar bilhetes para todos. Tomaram, então, a decisão de não embarcar no trem como passageiros, mas de obrigá-lo a parar nalgum ponto do percurso.Capitão Gancho

Não foi difícil. Conseguiram lanternas vermelhas, do tipo utilizado pelas estradas de ferro francesas para assinalar perigo grave logo à frente. Instalaram as luzes ao longo da linha. Os maquinistas têm instrução categórica de imobilizar a composição à vista dessas lanternas. É sinal de emergência extrema.

Parado o trem, assim que os responsáveis pela segurança se deram conta de que não se tratava de acidente, mas de um assalto, acionaram o dispositivo que tranca imediatamente todas as portas dos vagões de passageiros. Por mais que o bando tenha tentado forçá-las, não tiveram sucesso. A invasão do trem-bala foi assim evitada. A polícia veio em seguida e carregou boa parte dos frustrados atacantes ao distrito.

Quem quiser conferir, leia aqui, aqui ou aqui.

Qualquer semelhança com um arrastão tupiquim não é simples coincidência. As mesmas causas costumam engendrar as mesmas consequências. A população das periferias francesas é frequentemente constituída de gente pouco instruída, de origem estrangeira, rejeitada pelo resto da população. Alguns de seus membros, mais ingênuos ou menos escrupulosos, acreditam que a violência seja o caminho mais rápido para obter o TGV 2dinheiro que lhes falta. E para adquirir os objetos que cobiçam.

Hoje há menos piratas pelo mundo. Mas que não se acanhem os novos capitães gancho, sejam eles franceses ou somalis. Caso um dia, apanhados, consigam escapar, nosso País não costuma negar asilo a fugitivos de Justiça. Se tiverem sido condenados, a acolhida será ainda mais efusiva. E se o crime tiver sido de sangue, terão direito a tapete vermelho e, quem sabe, até a um empreguinho público, uma sinecura qualquer.

Já faz tempo que nossas ‘otoridades’ perderam o senso da honra e do ridículo.

UE e Mercosul

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 janeiro 2013

Marché communCasamento só faz sentido se for completo e consumado. Se não, não passará de aliança, combinação, arreglo, confraria. É a conclusão amarga a que estão chegando os que acreditaram que a União Europeia desembocaria numa união política federal. O navio está fazendo água e, pelo jeito, o casamento não se consumará.

Assim como a extinta URSS deixou pelo caminho levas de viúvas ― algumas das quais até hoje se recusam a deixar cair a ficha ―, a União Europeia já começa a engendrar seus órfãos.

As recentes ameaças proferidas pelo primeiro-ministro britânico não deixam dúvidas: seu povo não vê mais vantagem em continuar amarrando seu destino ao do continente. Mais dia, menos dia, Londres periga anunciar o divórcio.

Mas comecemos pelo começo. As cinzas da Segunda Guerra racharam a Europa em dois campos antagônicos. A URSS acaparou um deles e tratou de amansar seu novo protetorado. A ferro e a fogo. Deixou claro que ordens do Kremlin não eram passíveis de contestação.

O outro campo ficou solto, como nau sem mastro. Faziam parte dele perdedores da guerra (Alemanha, Itália), ganhadores (Reino Unido, França) e países neutros. Para complicar, havia a sombra amiga mas acachapante dos EUA. Esse ecletismo tornava difícil designar um ponto de convergência.

Se objetivo comum havia entre as nações do bloco ocidental, era a firme determinação de enterrar de vez o espectro da guerra. Fora isso, cada um tinha suas necessidades próprias. A Alemanha, derrotada e fragmentada, sonhava com sua reunificação. A Itália, destruída e cansada de guerra, queria crescer e estancar o sangramento que a emigração maciça lhe causava. A França, a Holanda, a Bélgica tinham um projeto comum: docilizar e conter a vizinha Alemanha, que tanto mal lhes havia feito e que tanto temor ainda infundia. O Reino Unido sonhava recobrar o status de potência mundial que tinha usufruído por mais de um século. Espanha e Portugal queriam distância: seus dirigentes ambicionavam tão somente conservar o poder que tinham conquistado.Mercosul 2

Se pessoas se casam, firmas se associam, entidades se fundem, países se unem, será por imposição ou porque algum interesse comum os aproxima. De amor, o casamento europeu certamente não foi. Se foi de razão, as motivações inconfessas de cada membro acabaram por revelar-se incompatíveis.

Por que iludir-se? Como as gentes, as nações só procuram ajuda de outras quando ― e enquanto ― duram suas necessidades. Terminada a precisão, tchau e bença. Juras de amor eterno entre países não valem.

Erros foram cometidos desde que o Tratado de Roma criou o Mercado Comum em 1957. Os dirigentes não conseguiram ― ou não quiseram ― ver que ao redor da mesa se concentravam interesses divergentes e até conflitantes. Enquanto o povo se entreteve a colar os cacos dos vasos que a Segunda Guerra tinha estilhaçado, a convivência foi cordial e até pareceu confluir. A conjuntura também ajudou: até poucos anos atrás, o mundo viveu decênios de inusitado e ininterrupto crescimento econômico.

Hoje os ideais europeus parecem esgarçados. A geração é outra. Nenhum dos atuais dirigentes conheceu a guerra e seu cortejo de misérias. Nenhum viveu infância aterrorizada por passos cadenciados da soldadesca invasora. Não conheceram desemprego. Conflitos armados lhes parecem inimagináveis, coisa de gente pobre.

Eis por que a maioria dos europeus de hoje julga a união política do continente desnecessária. A UE é hoje vista mais como entrave que como solução.Euromercosul

Na crença ingênua de que todos os membros obedeceriam às orientações do Banco Central, 17 países adotaram uma moeda única. Não se preocuparam com centralizar controles e torná-los obrigatórios. Erraram feio. Livres e desimpedidos, cada um deles fez o que bem entendeu. E deu no que deu, com países inteiros à beira da falência, enquanto outros esbanjam saúde financeira. A exasperação das populações é compreensível. Uns carecem desesperadamente de ajuda, enquanto outros, considerando que não lhes toca pagar por erros alheios, torcem o nariz à ideia de levantar o tampo da burra. O balaio de gatos em que se meteram os europeus é de bom tamanho. Cabe a eles agora encontrar a saída.

Quanto a nós, com nosso Mercosul bizarro, estamos alguns passos atrás. Ainda dá para evitar o pior. Vamos torcer para que vaidades individuais de nossos mandachuvas não sobrepujem o interesse das populações. Para não perder a face, que se atenham ao simulacro de mercado comum que temos. E que parem por aí.

União política é assunto sério. Se não deu certo na URSS, nem na Europa, por que teria sucesso entre nós?

Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Faz alguns dias, a França mandou suas tropas para o Mali.

Antes de ir mais adiante, vamos pôr as coisas claras: os habitantes do país lhe dão o nome de Mali (LÍ, com acento tônico na última sílaba). Ouvi dizer que locutores da televisão brasileira andam pronunciado Male, como se a palavra fosse paroxítona. Não me parece correto. Fico com Mali (LÍ). Afinal, quem deu o nome ao país não fomos nós.

Como todos sabem, a França e mais 26 parceiros integram um organismo supranacional chamado União Europeia, união cada vez mais estranha, em que cada um faz o que lhe apraz, no momento em que decide, da maneira que lhe parece mais conveniente, sem se preocupar com os outros sócios.

Desde que Shakespeare pôs na boca de seu Hamlet a celebérrima réplica “to be, or not to be: that’s the question”, a humanidade se deu conta de que não se pode ser e não ser ao mesmo tempo. A gente não se associa somente para as horas do bem-bom, para, em seguida, se fingir de morto quando o negócio azeda. Ultimamente, é assim que tem funcionado esta União. Desde que estourou a crise económica, já faz alguns anos, o clube navega à deriva, sem eira nem beira, tapando um buraco aqui e outro ali.

Na intervenção em terras africanas, o intuito declarado do governo francês é cortar na raiz a ameaça ― concreta ― de que terroristas fanáticos façam da região uma base, um refúgio. É uma opção militar forte, mas não destituída de lógica.

Em matéria de ingerência em países estrangeiros, há precedentes, alguns bem sucedidos, outros não.Marché commun

Nos anos 60, os EUA intervieram no distante Vietnã com o mesmo propósito. Acabou em desastre.

Canhões soviéticos calaram revoluções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968). Conseguiram o que queriam. Tudo viria a desmoronar junto com o Muro de Berlim, anos mais tarde, mas essa já é uma outra história.

Há muitos e muitos outros exemplos de intromissão na casa dos outros. Mas cada caso é um caso, não vamos explorá-los todos neste espaço.

Voltando ao problema do Mali, os 26 parceiros da França ― falo dos demais membros da União Europeia ― já declararam que não enviarão reforço militar. Se Paris tomou essa decisão com desenvoltura e sem consultar os sócios, que siga seu caminho solitário até o fim.

Não discuto sobre a conveniência da decisão francesa. Soberano, seu governo fez o que achava que devia. O que me surpreende é o fato de a União, após mais de 50 anos de convivência, ainda ser incapaz de combinar antes de agir.

Cada dia fica mais claro que este agrupamento de países está perdendo sua razão de ser. Nascido de um consenso, vai aos poucos se esfiapando, como tecido mal alinhavado.

Não faz sentido expor ao resto do planeta uma falta de coesão tão profunda. Tudo isso acaba deixando uma impressão de desordem que não bate com a imagem de civilidade e de civilização que os 27 gostariam de exibir.

Ao fim e ao cabo, não sobra mais que uma confraria de comerciantes. Que fariam seus negócios de qualquer maneira, com tratados ou sem eles.

Arrombada a porta, põe-se a tranca

José Horta Manzano

Nos idos de 1967, eu estava trabalhando na Suécia. Travei conhecimento com uma senhora muito simpática. Poliglota e inteligente, teria ali pelos 40 anos. Tinha nascido no Brasil, mas, casada com um sueco, vivia em Malmö fazia já vários anos. Vamos chamá-la senhora Almgrén, mas não posso garantir que fosse esse o nome. Passou muito tempo e já não tenho certeza.

Uma música francesa, gravada por Sacha Distel (1933-2004), estava nas paradas de sucesso, como se dizia na época. Na crista da onda, muito popular. Era ― como explicar? ― um «samba europeu». Um ritmo um tanto desengonçado que grande parte do povo do Velho Continente acreditava ser música brasileira. Aliás, muitos ainda acreditam, acreditem.

O compasso da canção, divertida e bem animada, hesitava entre cumbia, conga e rumba. Chamava-se «L’incendie à Rio», o incêndio no Rio. Meu conhecimento de francês, precário à época, não me permitia entender a letra.

Comentei com a senhora Almgrén que eu gostava muito daquela música. Maliciosamente, ela me replicou que, se eu entendesse a letra, por certo gostaria menos. Fiquei um tanto perplexo. “Ué” ― pensei ― “e por quê?”

Sacha Distel

Sacha Distel

Indulgente, minha amiga explicou que a letra relatava um incêndio imaginário numa torrefação de café no Rio de Janeiro. E descrevia a atrapalhação dos bombeiros que não encontravam as mangueiras, nem o esguicho, nem a escada. Somente no final da noite, quando todo o quarteirão estava reduzido a cinzas, os petrechos foram encontrados. Assim mesmo, os bombeiros continuavam não podendo sair do quartel porque o caminhão estava enguiçado e ninguém sabia onde estava a manivela para dar partida no motor.

Uma zombaria total, como se vê. Retratava nosso País como era visto pelos europeus, um lugar muito alegre e animado, mas totalmente bagunçado. Quem quiser recordar (ou conhecer) L’incendie à Rio, pode dar uma espiada aqui. Vem com vídeo, música e letra.

O bem informado blogue de Sonia Racy, alojado no Estadão, nos informa neste 30 de janeiro que a Câmara Federal do Brasil não tem brigadistas de incêndio. Pior que isso, a Casa não dispõe sequer de servidores treinados para casos de incêndio(!). Não acredita? Pois confira aqui.

Quando a canção de Sacha Distel fez sucesso, fazia 3 ou 4 anos que se encerrara a «Guerra da Lagosta», um daqueles conflitos sem batalha e sem sangue. Foi nessa época, dizem, que De Gaulle teria pronunciado a célebre frase «o Brasil não é um país sério». Dizem outros que jamais o general teria cometido tal afronta. Ele nunca confirmou. Tampouco desmentiu. Vamos deixar para voltar ao assunto noutra ocasião.

Neste finzinho de janeiro, passados alguns dias do pavoroso drama de Santa Maria, aparecem outros podres, aos borbotões: casas de espetáculo funcionando sem alvará, proteção contra incêndio inexistente, pessoal não treinado. Em resumo: é a ganância de braço dado com a irresponsabilidade. Se nem a Câmara ― a casa dos representantes do povo brasileiro! ― escapa do descaso, imagine o resto. Nossos 513 deputados devem, realmente, estar totalmente ocupados com outros assuntos.

É urgente que os poderosos que mandam no Brasil tomem um banho de integridade e de probidade. Queira o destino que o inconcebível drama gaúcho tenha sido a última tragédia decorrente de desleixo aliado ao descaso e à cupidez. Já está na hora levar as coisas a sério.

Que o clichê sublinhado pelo irreverente Incendie à Rio possa ser atirado à lata de lixo do passado. Para nunca mais voltar.

Os antípodas

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando éramos crianças, qual de nós não ouviu dizer que, se cavássemos um túnel debaixo de nossos pés, bem fundo, bem bem fundo, iríamos sair no Japão? Acho que todos os guris brasileiros aprenderam essa história. Até dicionários vão na onda e citam o País do Sol Nascente como diametralmente oposto ao nosso. O Houaiss e o Aulete fazem isso. Confira o verbete antípoda no Aulete online. Assim, caso você tenha se esquecido do significado desse termo, aproveitará para refrescar a memória. Aqui.

No entanto, sinto dizer-lhes, essa afirmação não corresponde exatamente à realidade. Se conseguissem escavar esse furo interminável e chegar sãos e salvos ao outro lado ― coisa que até hoje ninguém conseguiu ― os brasileirinhos teriam uma grande decepção. Noventa por cento do território brasileiro é antípoda de algum lugar perdido no meio do Oceano Pacífico, pelas bandas do Mar da China.

Globo terrestre com sobreimpressão dos antípodas em verde claro.
crédito: procrastin.fr/blog

Somente alguns poucos habitantes das selvas amazônicas teriam alguma chance de desembocar na ilha de Bornéu, na Indonésia. Quanto aos outros, tchibum! Iriam fazer companhia aos peixes do Pacífico.

O que me inspirou este escrito foi uma competição marítima que se repete a cada 4 anos, na época do verão do Hemisfério Sul, a partir de novembro. Chama-se Vendée Globe, volta ao mundo em barco a vela, com um único marinheiro, sem assistência externa e sem escalas. Começa e termina na localidade francesa chamada Les Sables d’Olonne, na costa Atlântica. A edição deste ano acabou justamente neste 27 de janeiro, com a chegada do vencedor após 78 dias de navegação. É evento muito seguido na Europa, especialmente na França. Lembra vagamente a volta ao mundo em 90 dias imaginada por Júlio Verne.

Quando se fala em volta ao mundo, imaginamos que ela se deva fazer pelo equador da Terra, contornando-se os continentes que estiverem no meio do caminho. Pois a Vendée Globe não faz jus a essa crença. Na verdade, poderia bem chamar-se Volta da Antártida. O que fazem os concorrentes, depois de zarpar da França, é atravessar o Oceano Atlântico de alto a baixo, dar a volta ao continente antártico, «subir» de volta o Atlântico de sul a norte, e retornar ao ponto de partida.

Traçado da corrida Vendée Globe

Traçado da corrida Vendée Globe

Mas, convenhamos, falar em volta ao mundo tem muito mais charme do que falar em contornar a Antártida. Ou não?

Nota: Antípoda é palavra formada por duas raízes gregas. Anti = contra, contrário. Podos = pé. Assim, antípoda é aquele que, teoricamente, pisa um chão diametralmente oposto ao nosso.

Brrrr…

José Horta Manzano

Você sabia?

Cada país tem seus encantos e cada um se defende como pode. Chamar a atenção e atrair turistas é sempre importante.La Brévine 1

A Suíça não tem mar, nem coqueiros, nem riquezas minerais, nem indústria pesada. Até as melancias por aqui são raras, o que faz que poucos tenham a chance de passear por aí com uma delas pendurada no pescoço para causar frisson nos transeuntes.

No Brasil, São Joaquim (SC) e Campos do Jordão (SP) são polos de atração de forasteiros, que vêm unicamente para sentir aquele friozinho ― que nem sempre responde presente quando a gente quer. Pois fiquem sabendo que a Suíça também tem sua pequena Sibéria, ora pois!

É um minúsculo município de forma alongada (2km ou 3km de largura por uns 20km de comprimento), povoado por apenas 650 pessoas. Chama-se La Brévine e fica no Cantão de Neuchâtel, encarapitado nos Montes Jura, no noroeste do país. Das localidades habitadas, é a mais fria do país. A Suíça conta, naturalmente, com picos bem mais elevados e muito mais gelados. Mas, como é compreensível, ninguém mora lá.

Comparada com as alturas de São Joaquim e de Campos do Jordão, a altitude da Brévine até que é modesta: não passa muito de 1000m. O que faz a diferença é que o povoado está localizado numa bacia ― uma região côncava cercada de morros ―, situação que lhe confere um microclima pra lá de especial.La Brévine 2

Recordes de frio são frequentemente registrados ali. Principalmente no inverno, embora aconteçam esporadicamente também no verão. A condição sine qua non para que o fenômeno sobrevenha é que a noite tenha sido clara, sem nuvens e sem vento. Tem um nome que soa familiar aos paulistanos: uma inversão térmica. Sem a poluição, sem os gases de escapamento e sem a massa humana apinhada num espaço reduzido, naturalmente.

São episódios caracterizados por uma camada de ar muito frio que estagna no fundo da bacia, enquanto ar mais quente fica por cima. Algumas dezenas de metros acima do fundo do vale, a temperatura pode perfeitamente estar uns 10 graus mais elevada.

Desde que, no dia 12 de janeiro de 1987, os termômetros marcaram ali 41.8° abaixo de zero(!), o minúsculo município ganhou fama nacional e o apelido de Sibéria Suíça.

Todos os anos, desde então, o vilarejo organiza sua Festa do Frio, num sábado de janeiro. Vem gente de longe só para sentir aquela sensação picante. Este ano foi dia 26 de janeiro. Até que não estava tão frio assim: «somente» 22 graus abaixo de zero. Mas já é friagem de bom tamanho, pra ministro nenhum botar defeito.

Talvez por falta de assuntos mais relevantes, até a televisão noticiou o evento. Quem quiser se refrescar com um minuto e meio siberiano, clique aqui. E quem gostar de emoções fortes e não tiver medo de sentir uns calafrios, pode consultar uma lista de temperaturas historicamente baixas já registradas na Brévine. Aqui.Chica-bon

Vai um Chica-bon aí?