Não deu pra esconder

Beber até cair

José Horta Manzano

As férias de Monsieur Blanquer
Entre o Natal e o ano-novo, estão aqueles dias meio mortos, enforcados, em que umas firmas fecham, outras não, muita gente vai p’ra praia, outros ficam no batente, todos têm vontade de se espichar numa rede, alguns conseguem.

Foi justamente naqueles dias, no domingo 2 de janeiro, que Monsieur Blanquer, ministro da Educação da França, concedeu entrevista por vídeo ao jornal Le Parisien. Detalhou as diretivas bastante severas que teriam de ser seguidas a partir da volta às aulas, assim que terminassem as férias escolares de ano-novo.

A reorganização da vida escolar, planejada às carreiras, não agradou nem a professores nem a alunos. Mas que fazer? São tempos de covid e todos têm de compreender que cada um deve fazer um pequeno sacrifício para o bem comum.

A ilha de Ibiza e sua fama
As Baleares são um arquipélago situado no Mediterrâneo a menos de 200km da costa espanhola. Tem 4 ilhas principais: Maiorca, Minorca, Ibiza e Formenteira. No verão, é visitado por multidões de turistas da Europa inteira, que chegam em abarrotados voos fretados. Maiorca e Minorca recebem principalmente turismo de famílias. Formenteira é pequena e menos frequentada. Já Ibiza tem fama particular: seus visitantes são jovens festeiros, muitos vêm da Inglaterra (mas de outras partes também), todos chegam com a firme intenção de beber até cair em plena rua noite adentro. Noite após noite. É a ilha do carnaval eterno e (muito) alcoolizado.

A hora de glória de Monsieur Macron
Daqui a menos de três meses, os franceses vão às urnas para as eleições parlamentares e presidenciais. Monsieur Macron, ainda que não oficialmente declarado, é candidatíssimo à reeleição. Numa feliz coincidência, neste semestre, é a França que está na presidência rotativa da União Europeia. Para um candidato à reeleição, não há vitrine mais poderosa do que ser, ao mesmo tempo, presidente da França e do Conselho da UE. Macron tinha previsto fazer comemoração solene em 19 de janeiro.

O abelhudo
O jornal francês Médiapart conta com uma equipe de jornalistas investigativos de excelente desempenho. O que esse pessoal descobre não está escrito no jornal – com o perdão do trocadilho infame. Descobriram que, no momento da entrevista por vídeo, Monsieur Blanquer (o ministro da Educação) estava justamente em… Ibiza. E a notícia, naturalmente, saiu no jornal. E os danadinhos não publicaram num dia qualquer: escolheram fazê-lo às vésperas da comemoração solene de Monsieur Macron. Só pra estragar a festa.

O burburinho
A notícia saiu. Os franceses, ranzinzas por natureza, não apreciaram nadinha. Tivessem dito que o ministro da Educação tinha estado de férias em Varsóvia, na Moldávia ou até nalguma localidade do interior do país, o caso teria passado em branco. Mas… em Ibiza?! Foi um escândalo. Embora, nesta época fria do ano, a ilhota espanhola esteja deserta, a simples menção de seu nome desperta no inconsciente coletivo um espetáculo de bebedeira coletiva e de devassidão. A população sentiu-se revoltada. “Enquanto nós temos de fazer sacrifício e nos adaptar a novas regras rigorosas, o ministro se esbalda em Ibiza?”

A contrição
Acuado, o ministro teve de se explicar no Parlamento, diante de todos os deputados. “Se eu soubesse, teria escolhido outro lugar pra passar aqueles três dias” – foi o que disse. Não adiantou muito. O descontentamento popular está estampado nas manchetes até hoje. O assunto continua nas conversas de elevador, de padaria e de salão de barbeiro. Consta que o presidente Macron subiu a serra, de tanta fúria. Não consta que tenha soltado palavrão; ele é recatado e só faz isso escondido no banheiro quando o barulho da descarga abafa o som.

Lembra algo
Toda semelhança com algum episódio ocorrido recentemente nas praias de Santa Catarina e estrelado pelo chefe de nosso Executivo terá sido coincidência fortuita.

De todo modo, tendo em vista a importância do cargo do francês (que é ministro) e do brasileiro (que é presidente), a importância da ocorrência não é de magnitude comparável. O nosso foi beeem pior.

Ditadura “de esquerda” ou “de direita”

José Horta Manzano

Faz tempo que me pergunto como é possível um contingente de cidadãos darem crédito ao capitão e se disporem a votar nele.

Pra não deixar ninguém enciumado, me pergunto também como é possível que tanta gente acredite no Lula e se disponha a votar nele.

Depois dos males que esses dois já causaram no passado, no presente – e da ameaça que representam para o futuro do país –, não há mais o que provar. Não precisa fazer um desenho. Seja qual for dos dois, é desastre anunciado.

Com o antigo presidente, tivemos corrupção explícita e partição do país em categorias de indivíduos classificados conforme a cor da pele. É culpa dele se o Brasil caminha perigosamente para se transformar em república racialista, um tipo de sociedade em que cada habitante tem forçosamente de se encaixar numa etiqueta: ou é branco ou é negro, sem nuance. (Alguém pensou nos extremo-orientais?) Antes da ascensão do lulopetismo, nosso país era colorido; depois da passagem dos ‘barbudinhos’ pelo poder, retrocedemos à era do preto e branco.

Com o atual presidente, temos corrupção disfarçada de “orçamento secreto”, rachadinhas e partição do país em categorias de indivíduos classificados conforme a ideologia ou a religião. Bancadas religiosas no Congresso, presidente que se ajoelha diante de bispo autossagrado, orçamento secreto com bilhões distribuídos aos amigos do rei, presidente considerado persona non grata no mundo civilizado – estão reunidos todos os ingredientes da perfeita republiqueta de bananas.

Um dos dois apoia ditaduras sanguinárias ditas “de esquerda”; o outro apoia ditaduras sanguinárias ditas “de direita”. Se algum arguto leitor souber qual é a diferença entre uma ditadura “de esquerda” e uma “de direita”, que levante a mão. Ou que mande uma cartinha para a Redação.

Este blogueiro considera que qualquer ditadura é regime autoritário e liberticida que opera para transformar os habitantes em autômatos, gente sem criatividade, sem esperanças, sem ânimo, sem iniciativa e sem futuro. Quando se trata de ditadura, “de esquerda” ou “de direita” são etiquetas que não fazem sentido.

Que diferença há, no espectro político, entre um Hitler e um Stalin? O primeiro prometeu o paraíso a seu povo e o obrigou a ser massacrado sob bombas caídas do céu. O segundo prometeu o paraíso a seu povo e o obrigou a ser massacrado por tanques de guerra vindos do Oeste, sendo que os poucos cidadãos que sobraram foram despachados para o desterro na Sibéria.

Entre um Nicolas Maduro (Venezuela) e um Bashar El-Assad (Síria), quem é “de direita” e quem é “de esquerda”? E que diferença faz, se ambos condenam o próprio povo ao extermínio – um pela fome, o outro pelos gases asfixiantes?

Tudo o que o Brasil não precisa é de presidente apoiador de ditadura nem de presidente conivente com esse tipo de regime. Tanto Bolsonaro quanto o Lula propõem que o país continue eternamente mergulhado num passado de atraso.

E ainda tem gente que se dispõe a apoiar um ou outro desses dois. Como é que pode?

Avaliação

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Em numerosos momentos da vida, a gente é obrigado a provar que está apto para ser admitido em determinado círculo ou confraria. Em meu caso pessoal, a lembrança mais antiga que me ocorre é a da primeira comunhão. Antes de subir ao altar para abrir a boca e receber a hóstia, era preciso seguir um cursinho preparatório, que a gente chamava de Catecismo. Sem isso, nada de festa, nada de mesa de doces, nada de foto de fotógrafo e, principalmente, nada de hóstia.

Depois dessa, em muitas outras ocasiões tive, como qualquer cidadão, de demonstrar que estava preparado para a empreitada. Quem quer entrar na faculdade tem de ser aprovado num exame, seja qual for o nome que lhe atribuírem: Enem, vestibular ou outro. No mundo todo é assim. Curso superior não recebe qualquer um. O postulante tem de ser aprovado, seja pelo currículo escolar, seja por um exame de entrada.

Para assumir um emprego, o ritual é o mesmo. Currículo, entrevista, avaliação. Quer o processo se desenrole à antiga, com currículo batido à máquina em papel almaço e entrevistador cara a cara, quer decorra em modo covid, com troca de emails e entrevista por skype, o negócio é o mesmo: todo candidato entra num funil que só vai deixar passar os melhores.

E assim por diante. Candidatos a uma imigração, a um visto consular, a uma naturalização, a uma bolsa de estudos, a uma promoção passam necessariamente por uma seleção em que serão avaliados. Na hora de tirar carteira de motorista, por exemplo, ninguém escapa de passar pelo exame.

Já disse isso em outras ocasiões, mas quero repetir aqui. Digamos que o distinto leitor queira se candidatar a um emprego, seja ele de doutor ou de operário. Nenhum empregador o acolherá assim, de mão beijada, sem verificar sua aptidão para o cargo. Esse ritual não espanta ninguém. Todos nós o encaramos com naturalidade.

A cada quatro anos, é hora de escolher o presidente da República. A lei especifica certas condições para se candidatar. Idade, nacionalidade, filiação partidária estão entre elas. Mas não há nada que lembre, nem de perto nem de longe, um exame básico de avaliação, nem que fosse pra verificar se o indivíduo bate bem da bola.

Assim, quem pretende dirigir um Renault Kwid tem de passar obrigatoriamente por um exame de avaliação que ateste sua aptidão pra não sair por aí dando trombada e ameaçando a vida dos outros. No entanto, aquele que pretende dirigir o Brasil pode se candidatar sem problema, sem exame, sem avaliação. Se eleito (por um povo que não teve como avaliar sua aptidão), estará livre pra sair por aí dando trombada em Deus e o mundo e ameaçando a vida da população.

Esses problemas, que parecem piada, ocorreram na era Bolsonaro. O capitão saiu dando trombada e entrou em colisão com a China, a França, a Alemanha, a Noruega, a Argentina, o Chile, os países árabes. Com seu negacionismo destrambelhado, ainda ameaçou a vida da população brasileira. Aliás, não só ameaçou: executou a ameaça.

Até ontem, a instauração de um exame de avaliação de candidatos à Presidência da República podia parecer ideia de maluco, um atentado contra os costumes da República, uma exigência estapafúrdia e inútil. Agora, depois do furacão bolsonárico, tornou-se necessidade tangível.

Suas Excelências têm a obrigação urgente de completar a legislação. O futuro da nação não pode continuar desprotegido, refém do próximo populista desequilibrado que aparecer na esquina.

Uma prova de aptidão tem de ser exigida de todos os que se candidatarem a dirigir os 212 milhões de brasileiros. Pelo menos uma avaliação de saúde mental levada a cabo por um colégio de doutores qualificados.

Se tivéssemos tido um dispositivo desse tipo, o país não estaria sendo destruído por um destrambelhado. O Brasil não aguenta outro Bolsonaro.

Quer enganar quem?

São Jorge
padroeiro da Inglaterra, da Geórgia, de Veneza, de Barcelona

José Horta Manzano

Os cidadãos que aderem a uma comunidade neopentecostal são bem-intencionados. Costumo compará-los aos cristãos de dois milênios atrás, que, correndo risco de vida, seguiam os apóstolos e os profetas da nova fé.

Os primeiros cristãos não eram iluminados. Eram pessoas desgostosas da devassidão nos usos e costumes da época, que procuravam um caminho puro para a salvação da própria alma.

Essa fuga da depravação tem sido o motor de cisões, tanto no seio do cristianismo como em outras religiões. A Reforma – o grande cisma do cristianismo do século 16 – é bom exemplo.

Voltemos a nossos neopentecostais, mais conhecidos como evangélicos. As insistentes acusações de enriquecimento ilícito feitas a alguns bispos e apóstolos menos escrupulosos não devem ser estendidas aos fiéis. A cupidez de um autossagrado bispo não implica forçosamente a culpabilidade do rebanho. Além disso, tenho certeza de que nem todos os chefes são encharcados de avidez ou de cobiça.

Se os evangélicos aderiram em peso a Bolsonaro em 2018, foi justamente porque ele encarnava o herói puro e disposto a combater o bacanal em que se haviam transformado os altos círculos da República. Era um São Jorge descido dos céus, com lança e cavalo, pronto a aniquilar o mal, restaurar o bem e repor o país de volta nos trilhos. Em peso, votaram no capitão.

Pouco inteligente, o atual presidente acreditou (e, ao que parece, continua a acreditar) que uma imersão no Rio Jordão, uma genuflexão diante de um bispo evangélico e uma visita a um e outro templo bastassem para satisfazer a clientela neopentecostal. Incapaz de lidar com os conceitos de aparência e de realidade, o capitão não se dá conta de que seu comportamento não condiz com a simpatia que diz ter pela fé e pelos ideais do eleitorado evangélico.

Passear de jetski e dançar funk cercado de mulheres em trajes menores enquanto infelizes baianos e mineiros eram castigados por mortíferas enchentes foi atitude escandalosa para os brasileiros. Para o contingente de evangélicos que ainda conservavam um restinho de crença no ‘São Jorge’ caipira, foi ultrajante.

A torrente de palavrões que jorra da boca do presidente a qualquer tempo e em qualquer ocasião é ofensiva para ouvidos comuns. Para ouvidos evangélicos, há de ser nefanda, insuportável, abominável.

Não é surpreendente que cada nova pesquisa mostre a erosão da popularidade do capitão no segmento que um dia aderiu em peso a sua candidatura.

Os neopentecostais não são um bloco de parvos que nada escuta e nada enxerga além da palavra do pastor. Longe de serem extraterrestres, são gente normal, que leva vida normal, que age normalmente. Dormem, acordam, comem, trabalham, conversam, se deslocam, viajam, se informam como todos os demais.

Têm uma visão mais rigorosa do que deve ser o comportamento do homem na sociedade – e é aí que a porca torce o rabo. O comportamento do capitão está a anos-luz da fé que ele diz professar. Uma coisa não bate com a outra; e a dissonância é tão flagrante, que não escapa a ninguém.

A conclusão, não é difícil tirar. Três longos anos de Bolsonaro no topo da República nos ensinaram que o personagem é assim, não mudou até hoje, não mudará nunca. Será sempre boca-suja (muito suja!), mentiroso, não-confiável, vingativo, nepotista, ocioso. São defeitos que batem de frente com a fé evangélica. Fiel nenhum quer ter como dirigente máximo um indivíduo com defeitos de tal maneira contrários à sua doutrina.

A consequência é evidente. O capitão não engana mais ninguém. Para os que apostam na subversão, na violência e na anarquia, ele continua sendo o candidato ideal. Já o apoio dos evangélicos, atualmente em erosão, tende a se liquefazer.

Bolsonaro periga chegar à eleição com um balaio de votos ainda mais magro que hoje.

A solidão de Bolsonaro

José Horta Manzano

Rodeado de áulicos e todo tipo de interesseiros que só sabem aplaudir, o capitão não se dá conta da realidade. Ele se esquece que, no duro mesmo, o que conta é o voto popular. Não adianta subornar militares nem comprar o Congresso pra formar uma coalizão de aparência sólida. Ao fim e ao cabo, quem manda são os eleitores. Se não derem apoio a Bolsonaro nas urnas, assistiremos ao fim da comédia.

Na medida que continuar se enfraquecendo nas pesquisas, o presidente vai assistir à debandada dos que só lá estão por interesse. Ninguém tem vontade de associar o próprio nome ao de um perdedor.

Não sei se o capitão está a par de que, no exterior, seus melhores amigos – mais espertos que ele – estão trilhando outras veredas. Enquanto ele continua a dar murro em ponta de faca com seu negacionismo vacinal, dois de seus raros apoios estrangeiros já viraram a casaca.

Nas vésperas do Natal, o governo de Israel anunciou que passaria a propor uma quarta dose de vacina aos maiores de 60 anos, assim como ao pessoal médico e paramédico, que são os mais expostos ao contágio.

Aliás (não sei se o distinto leitor tem a mesma impressão), me parece que a profusão de bandeiras israelenses que os bolsonaristas arvoravam nas manifestações andam meio sumidas, não? Talvez aquilo explique isto, ou seja, o não-negacionismo explícito do governo israelense entra em colisão com o negacionismo primitivo de nossos aprendizes de extrema-direita.

Portanto, a amizade tipo unha e carne que parecia ter se cristalizado entre Brasília e Tel-Aviv virou fumaça. De fato, não dá pra conciliar o intenso programa vacinal israelense com a indignação de um Bolsonaro que chegou a dizer “Não entendo essa gana por vacina”. Ah, tem tanta coisa que ele não entende…

Outro amigo de infância que se distanciou do capitão foi Donald Trump. Esse, então, deu uma cambalhota. Faz uns dias, perto da virada do ano, no momento em que a onda de ômicron começava a se alastrar pelos EUA, o ex-presidente bilionário ressurgiu como defensor da vacinação, um inesperado arauto na luta contra a desinformação sanitária (!).

Algumas semanas atrás, num comício no Alabama – um dos estados com índice de vacinação mais baixo –, Trump foi claro: “Recomendo a vocês que se vacinem. Eu me vacinei. É bom. Vacinem-se!”. Algumas vaias se alevantaram, e o astuto orador mudou de assunto. Mas não desdisse o que havia dito.

Mais adiante, em 19 de dezembro, o antigo presidente reincidiu. Chegou a desestabilizar apoiadores e analistas ao defender a vacinação em diversas ocasiões, de modo aberto e inequívoco. Em Dallas (Texas), diante de uma multidão de simpatizantes, voltou a bater na mesma tecla. Aproveitou para se vangloriar de que as vacinas tinham sido desenvolvidas durante sua gestão. Asseverou que a vacinação vem salvando dezenas de milhões de vidas no mundo, e que é uma terapêutica fantástica. Levou vaias de novo.

Incansável, retomou o fio numa entrevista na tevê, dias mais tarde, quando dialogava com Candace Owens, apresentadora e porta-bandeira dos antivax. Bastou a moça insinuar que as vacinas não têm nenhum interesse, para Trump cortar-lhe a palavra, brusco: “É uma das grandes conquistas da humanidade. A vacina funciona.” E concluiu o raciocínio dizendo que “as pessoas não morrem [de covid] quando estão vacinadas”. Mais claro, impossível.

Os grandes apoios internacionais de Bolsonaro se dissolvem a olhos vistos. Minguando nessa velocidade, tanto interna quanto externamente, o que é que sobrará do capitão em outubro?

Pra derrubar Bolsonaro

José Horta Manzano


Embora não passe de devaneio, está aqui a fórmula certeira pra derrubar Bolsonaro e, ao mesmo tempo, evitar que o Lula volte à Presidência


Do jeito que a coisa vai, só pode piorar. Enquanto o capitão estiver no trono, não há esperança. Corrupção, compra de parlamentares, destruição da natureza, inflação, vergonha internacional – o cardápio é indigesto.

O Lula tem boas chances de vencer Bolsonaro. Só que “ter boas chances” não é certeza de vitória. Se um cadidato de terceira via sobressair nos próximos meses – Moro, Doria, Tebet, Pacheco ou outro – crescerá a possibilidade de termos um segundo turno entre esse candidato e o Lula. Se isso acontecer, o Lula estará em situação de fragilidade eleitoral. O quadro vai se complicar para ele.

Há uma fórmula com potencial de derrubar Bolsonaro na certeza, com vitória já em primeiro turno.

Outro dia, o Lula e Alckmin jantaram juntos e trocaram juras de amor eterno. Garantiram que a amizade inabalável que os une vem do tempo em que jogavam bafo e trocavam figurinhas no parque infantil.

Pois que levem adiante esse reencontro. Que formem uma chapa para as eleições presidenciais. Mas não aquela em que todos estão pensando (Lula para presidente e Alckmin de estepe). Este é um daqueles casos em que a ordem dos produtos altera o resultado.

Uma chapa com Alckmin para presidente e Lula para vice seria im-ba-tí-vel. Contentaria a gregos e troianos, e garantiria vitória no primeiro turno.

Lulopetistas, ainda que se sentissem um pouco desapontados de não ver seu herói na cabeça, não deixariam de apoiar a chapa. Votariam.

Antibolsonaristas, esperançosos de derrubar Bolsonaro e aliviados de o cabeça de chapa não ser o Lula, votariam.

E até os nem-nem (nem Bolsonaro, nem Lula), tranquilizados pelo fato de não ver nenhum dos estropícios na cabeça da dobradinha, votariam.

É, mas aqui esbarramos num muro resistente. Alguém imagina o orgulhoso Lula, aquele que um dia ousou dizer “a opinião pública somos nós”, se contentar com a vice-presidência? Certo que não.

É uma pena porque, rearrumada na ordem que proponho, a dupla faria sucesso. Venceriam na certa, ainda que o capitão dobrasse o valor da bolsa família e jurasse nunca mais falar palavrão.

Brasil vai virar comunista?

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, dizia-se que comunistas eram perigosos porque devoravam criancinhas. Não se espante, distinto leitor, muitos acreditavam nisso. Na verdade, ninguém tinha ideia exata de como era a vida nos países de regime comunista. Pouquíssima informação escapava da URSS de Stalin e da China de Mao. E dos satélites deles, naturalmente.

Em 1989, a queda do Muro de Berlim não só eliminou o muro, mas levantou o véu que encobria os podres do império soviético. Por detrás dos escombros, o mundo pôde constatar o estado de indigência em que viviam os povos castigados pelo comunismo durante 70 anos.

Com isso, na Europa e nas Américas, virou-se a página desse sistema de organização do Estado. Partidos comunistas, que ainda eram fortes na Europa, murcharam. Ficou claro que não havia meio de aquilo dar certo.

A China, contida pela mão pesada do partido único, mantém um comunismo apenas de fachada; na realidade, o nome do jogo é ditadura ultra-autoritária, onde “comunismo” não passa de firula semântica.

Já Cuba é uma excrescência, uma fábrica de pobreza que ainda sobrevive com os euros trazidos pelas hordas de turistas europeus que passam uma semana bronzeando baratinho em Varadero all inclusive. Sem conversar com nenhum nativo, a não ser com os ultravigiados serviçais do “resort”. O regime, mais dia menos dia, desmorona.

Em meados de dezembro passado, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa detalhada. Entre outras questões, quis tomar a temperatura da população e saber que percepção tinham de uma certa “ameaça comunista” constantemente denunciada pelos bolsonaristas.

A pergunta era se o entrevistado concordava ou não com a afirmação de que havia risco de o Brasil se tornar comunista na próxima eleição. Espantosamente, 44% dos eleitores declararam ter esse receio. Do outro lado do espectro, 50% consideram que não há perigo. Sobram 6% que não têm a menor ideia. Considerando que quem cala consente, os que não se pronunciaram podem ser acrescentados aos receosos.

Logo – é espantoso! – metade dos eleitores brasileiros têm algum receio (pouco ou muito, dependendo do grau de adesão às ideias do capitão) de que o país se torne comunista na próxima eleição. Supõe-se que estejam entrevendo a eleição do Lula.

Acho inacreditável que metade dos brasileiros ainda vivam nos anos da Guerra Fria, com os mesmos temores. Esse deve ser o contingente que teme uma invasão da Amazônia com bombas, aeroplanos e tanques de guerra. Decerto os terraplanistas fazem parte da turma. Coisa de louco!

Não é possível que Bolsonaro, apesar de se esforçar durante três anos de diabruras, tenha incutido essas caraminholas na cabeça do povo. Isso tem nome certeiro, uma praga bem anterior à chegada do capitão: é desinformação. O que falta a essa gente é desempoeirar as ideias, abrir-se para o mundo, aprender o que vem acontecendo no planeta no último meio século.

Fica claro que passar o dia grudado no telefone a se divertir com memes, videozinhos, conversas de zap e fake news não dá camisa a ninguém. A raiz do mal está no mesmo lugar de sempre: falta de instrução.

História triste de fim de ano

by Caio Gómez, Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 janeiro 2022

É verdade que, em época de fim de ano, é costume falar de presentes, de peru e de farofa. Só que, ao lado do sonho, está sempre a vida real, uma danadinha que tem o desagradável hábito de nos puxar de volta ao chão. Assim, apesar da vontade de escrever uma fábula com guirlandas e fogos de artifício, cedo ao dever de manter pés na terra. Deixo pra passear de jet ski outra hora.

Alguns apontam La Niña como responsável; outros atribuem a tragédia a um pesado carma que o país carregaria. Pouco importa. O fato é que, desde novembro, o estado da Bahia vem sendo castigado por verdadeiro dilúvio. Chove tudo o que Deus mandou, e mais ainda.

Enxurradas, enchentes, desabamento de habitações, desmoronamento de morros, queda de pontes, colapso de estradas – nenhuma desgraça terá sido poupada à população. O governador do estado não economizou palavras. Segundo ele, estamos assistindo ao “maior desastre natural da história da Bahia”.

Na Europa, onde bem poucos seriam capazes de apontar a Bahia num atlas, a notícia tem saído no jornal, no rádio e na tevê, ao vivo e em cores. Comovidos, governadores de pelo menos dez estados brasileiros já se movimentaram para enviar ajuda humana e material para mitigar o apuro dos sinistrados.

Segundo a contagem publicada no momento em que escrevo, o desastre já atingiu mais de 100 municípios, pelo menos 25 mortos, cerca de 360 feridos e pra lá de 30 mil desabrigados. Para dar uma ideia de grandeza, é como se, de repente, a população inteira de Dracena (SP), de Diamantina (MG), de Soledade (RS) ou de Gameleira (PE) perdesse o teto. Incluindo homens, mulheres, crianças, gestantes e anciãos. Todos na rua. Sem contar os mortos e os feridos.

Decerto cutucado por algum assessor para que fizesse algum pronunciamento, o presidente Bolsonaro veio a público e pareceu condoído da sorte dos feridos e desabrigados. Disse que “agora, no início do ano que vem” tinha intenção de editar medida provisória liberando crédito de 200 milhões “para atender o pessoal”. Disse isso no dia 27 de dezembro. Até “o início do ano que vem”, com boa vontade, faltava pelo menos uma semana. Pra quem tem teto e vive abrigado em palácio, cercado de seguranças e com aluguel pago pela Viúva, ‘estar sem teto’ não passa de figura de linguagem. Na vida real, é outra coisa.

Mas o doutor seguiu para o segundo capítulo de suas férias. Depois da dança do funk no litoral paulista, foi gozar as delícias da costa catarinense, bem longe da Bahia, das enchentes, dos desmoronamentos e dos pobres. Partiu com o espírito leve dos que nada devem.

Assessores mais conscientes hão de ter considerado que, para quem perdeu tudo e vive ao relento, ter de esperar até “o início do ano que vem” era muito. Logo na terça-feira 28 saiu a medida provisória com o crédito extraordiário. Mas a nota da Secretaria-Geral da Presidência adverte aos baianos que não venham com muita sede ao pote. O dinheiro não é só para eles, não. Terão de compartilhar com Amazonas, Minas Gerais, São Paulo e Pará.

Pois é, enganou-se quem imaginava que o auxílio de emergência fosse para os desabrigados reconstruírem as casas. De olho na recuperação do tráfego rodoviário, ora bloqueado por causa dos estragos provocados pela chuva, o governo deixou bem claro que esse dinheiro se destina a recuperar as estradas. Quem perdeu a casa? Que se vire. Deus é grande e há de ajudar, não é mesmo?

Pela enésima vez fica escancarada a absoluta falta de empatia do capitão, sua rematada indiferença com os problemas alheios. Fosse ele um cidadão comum, essa bizarria não iria além do círculo familiar. No entanto, sua posição de chefe do Estado brasileiro faz que a distorção de caráter respingue sobre o andamento da nação.

Bolsonaro sabe que, sem uma economia florescente, será difícil reeleger-se. O espeto é que, possuído por essa ideia, não se dá conta de que os votos da reeleição virão justamente daqueles que ele hoje relega a segundo plano. Esses infelizes não são variáveis de ajuste, presidente, são seus potenciais eleitores!

Mas não adianta. Não há pior cego que aquele que não quer ver. Vamos torcer para que as eleições deste novo ano não nos ponham de novo um estropício na Presidência – nem este, nem aquele. Feliz 2022 a todos!

Vacina para crianças

José Horta Manzano

Para futuros turistas que se preparam pra visitar determinados países ou regiões, recomenda-se tomar (ou exige-se que tomem) vacina contra doenças como tifo, febre amarela, raiva, hepatite A, poliomielite.

Para crianças, independentemente de qualquer viagem turística, a vacinação é obrigatória ou recomendada para proteger contra bom número de doenças: difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola.

Como se sabe, a vacinação dos pequerruchos é coisa corriqueira, sabida e aceita por todos. Não há mãe que deixe de levar seu filho ao médico ou ao posto de saúde pra ser imunizado.

Os mais antigos se lembram de um tempo em que essa proteção simplesmente não existia. Dá impressão de que vivemos hoje num mundo abençoado. Há quem diga que não passa de impressão. Mas essa é uma outra discussão.

Fico abismado – e meus leitores habituais sabem disso – com essa gente que recusa a vacina anticovid. Na Europa, espantosamente, são muitos. É verdade que, no Brasil, são poucos. Felizmente.

Fico boquiaberto com certos cidadãos de miolo mole, em geral apoiadores do capitão, que combatem a liberação da vacina anticovid para crianças. Como é que pode? Levam o filho para tomar vacina contra difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola, mas, na hora da vacina contra a maior pandemia que castigou a Terra nos últimos séculos, se afinam. Expõem os próprios filhos – e o resto da família – só pra obedecer à mente doentia do capitão. Não pode ser gente normal.

E tem mais. Não se está impondo nenhuma obrigação de vacinar crianças. O que se propõe é a autorização de vacinar. Ao fim e ao cabo, só vacinará seu filho quem quiser.

Vamos ver como está a situação além-fronteiras. Dia 25 de novembro, a Agência do Medicamento Europeia (que corresponde a nossa Anvisa) autorizou a vacina para crianças na faixa de 5 a 11 anos. Desde então, a Dinamarca e a Áustria já organizaram a campanha de vacina para os pequeninos. Na Alemanha, que é um país federal, como o Brasil, Berlim e a Baviera (Munique) já entraram para o time.

A Hungria – dirigida por Viktor Orbán, colega extremo-direitista de Bolsonaro – vai lançar sua campanha para a vacinação dos 5-11 anos quarta-feira. Na Grécia, os pais de 20 mil pequerruchos já inscreveram os rebentos para a picada, que também começa a partir de quarta-feira.

A Espanha, que está na categoria dos bons alunos no quesito vacinação, também já abriu sua campanha para vacinar os 5-11 anos. Portugal já planificou a imunização dos pequenos: começa esta semana e vai até 13 de março, os de 11 anos primeiro, e pouco a pouco baixando até chegar aos de 5 anos.

A Itália, a Lituânia, a Letônia, a Estônia, a Polônia (dirigida por colegas de Bolsonaro), a Eslováquia, a Tchéquia e a Suíça vão dar partida na campanha de vacinação infantil contra a covid estes próximos dias.

Enquanto isso, no Brasil… nosso respeitado capitão subiu a serra quando ficou sabendo que a Anvisa tinha conferido à criançada o direito de também ser imunizada contra a pandemia. Prometeu publicar, para execração pública, o nome dos diretores e funcionários que autorizaram “essa barbaridade”. O ministro da Saúde Pública, um sabujo interesseiro, repetiu como papagaio o discurso do presidente.

Destoando da covardia que os propósitos absurdos e cruéis de Bolsonaro costumam suscitar, a Anvisa soltou uma nota dura, indignada, inflexível.

Ai, que saudades do tempo em que nossos governantes se empenhavam em amparar os brasileiros, não em os assassinar.

O legado de Bolsonaro

É crescente a demanda de produtos que respeitam a floresta tropical

 

José Horta Manzano

Por certo, Bolsonaro não é o único responsável pela destruição da floresta amazônica brasileira. Desde que o primeiro índio cortou o primeiro cipó, instalou-se a convivência, nem sempre fácil, entre os humanos e a mata.

Até meio século atrás, no entanto, essa coabitação tinha sido pacífica e não-destrutiva. Até os anos 1970, o Brasil tinha outras brenhas a explorar e outros troncos a abater. Foi sob a ditadura que os estrategistas militares, então empoleirados no poder, se deram conta de que havia largos horizontes a explorar na porção norte do país.

A função primeira das Forças Armadas é a defesa do território. Nos gabinetes de Brasília, os responsáveis pela defesa das fronteiras se deram conta de que uma imensa Amazônia desabitada era um ponto frágil na proteção do país. Essa constatação está na raiz de medidas de impulso à colonização, como a construção de estradas (cf. Transamazônica) e da criação da Zona Franca de Manaus.

Nas décadas seguintes, o povoamento da região foi incentivado, o que provocou afluxo de populações provenientes de outras partes do país. Com a redemocratização, o objetivo modificou-se: em vez de defesa do território, a palavra de ordem passou a ser a exploração das riquezas. Pra explorar, é preciso antes desmatar. Daí o prosseguimento do festival de deflorestação a que assistimos há tempos.

O século 21 trouxe ventos novos, que sublinham a importância da manutenção da floresta, componente essencial da regulação do clima no sul do país e no mundo. Começaram a ser feitos levantamentos sobre o avanço do desmate. Aos poucos, a preocupação com a conservação de nosso patrimônio florestal foi ganhando adeptos entre os habitantes.

O problema é que essa consciência ecológica não chegou ao capitão que senta atualmente no trono do Planalto. Se ele fosse apenas indiferente e inoperante com relação à proteção da Amazônia brasileira, o problema não seria tão grave: quando ninguém atrapalha, as coisas acabam se ajeitando. O drama é que o presidente tem se mostrado cúmplice ativo – e até incentivador – do avanço criminoso da destruição de nossa cobertura vegetal.

Dentro de um ano, Bolsonaro, se não for escorraçado antes, estará longe do poder. É, ele se vai, mas o Brasil fica. E o panorama não se apresenta cor-de-rosa. Com sua ostensiva hostilidade a uma abordagem racional e ecológica da floresta, nos conformes com o figurino de nossa época, ele acabou chamando a atenção do planeta. Como consequência de suas palavras e gestos, o mundo acordou para os maus tratos que o Brasil dedica à parte que lhe cabe da maior floresta úmida do globo.

Na semana que se encerra, ficamos sabendo que seis grandes grupos varejistas europeus, entre os quais o Sainsbury’s (segunda rede britânica de hipermercados) e o ramo belga do gigante Carrefour (maior grupo europeu de hipermercados), começaram a restringir a compra de carne bovina brasileira. Essa medida, diretamente ligada ao desmatamento e à destruição dos biomas no Brasil, tende a aumentar com o tempo e com a pressão dos clientes. Essa meia dúzia de redes representam só um começo; o resto virá atrás.

O sucessor de Bolsonaro, seja ele quem for, tem muito trabalho pela frente. Vai ter de convencer os europeus, rapidamente, de que a deflorestação está sendo contida. Mas tem uma coisa: belas palavras não vão resolver. O território nacional está sendo vigiado por satélites que não deixam ninguém mentir. Que ninguém acredite que os grupos de hipermercados fazem essas restrições por virtude. A questão é comercial, uma exigência da clientela.

Assessoria indigente

José Horta Manzano

 


Pra que vamos criar problema?


 

O assunto já está na praça há três dias. Tenho de correr pra escrever antes que ele saia da mira. Com o capitão, os escândalos se sucedem, vertiginosos, cada novo episódio condenando o anterior ao esquecimento. A gente tem a impressão de estar sempre correndo atrás pra não perder o bonde.

Sábado passado, o Instituto PoderData publicou o resultado de sua pesquisa sobre a aceitação da vacina por parte dos brasileiros. A pergunta era se o entrevistado já tomou ou pretende tomar vacina contra o coronavírus. Dentre as 3.000 pessoas questionadas – em 489 municípios das 27 unidades federadas ––, somente 2% não souberam ou não quiseram responder à pergunta. As demais responderam afirmativamente. Trocado em miúdos, isso significa que somente 1 em cada 50 habitantes, com 16 anos ou mais, é contrário à vacina. O que se ouviu foi um quase unânime “SIM” nacional.

O povo brasileiro é o mais entusiasta, na América Latina, e quiçá no mundo, com relação à vacina. Dois porcento de ‘vacino-hesitantes’ é praticamente nada. Pode-se concluir que o brasileiro amou a vacina, se jogou em cima dela, abraçou-a, beijou-a, espichou o braço, levou a picada e saiu feliz, pedindo mais.

Dito isso, fica cada dia mais difícil entender o posicionamento do capitão. Não é que, no mesmo sábado em que saiu a pesquisa, ele afirmou ser contrário ao passaporte vacinal exigido de viajantes que chegam do estrangeiro? Soltou frase reveladora: “Pra que vamos criar problema?”

É que, na visão doentia de Bolsonaro, correr o risco de deixar entrar a nova variante mal conhecida do vírus não é problema. Para ele, o verdadeiro problema está em se assegurar que o viajante não está infectado. Pode?

E pensar que, desde que o ser humano vive em comunidade, a função primeira do chefe é justamente a de proteger o grupo. Desde a pré-história, o líder tem sido escolhido por ser capaz de transmitir segurança a seu povo. Bolsonaro prefere importar doença a “criar problema” para viajantes potencialmente infectados.

O capitão não conhece a História da Humanidade. Na escola, pouco aprendeu; durante a vida, nada acrescentou a seu parco capital intelectual. Não consegue se dar conta de que os líderes – bons ou maus – que o povo carregou um dia nos braços foram os que mostraram estar em sintonia com a população. Churchill, Stalin, Hitler, De Gaulle, Mussolini entram nessa conta. Evidentemente, Bolsonaro jamais será membro do clube. Nem dos bons, nem dos maus.

O capitão não perde ocasião pra escancarar sua falta de inteligência. Só dois porcento dos brasileiros rejeitam a vacina. Isso quer dizer que os 10% ou 15% que (ainda) apoiam o presidente já se vacinaram ou pretendem fazê-lo, ou seja, fazem parte do contingente que abraçou a vacina. Ao insistir em se posicionar contra vacina, contra vacinados e contra passaporte vacinal, ele está pisando o calo dos próprios devotos.

Será que ele não tem nenhum assessor menos tapado, capaz de orientá-lo? Parece que não.

Pastel e garapa de canudinho

José Horta Manzano

A ilustração que aparece acima foi tirada de um artigo publicado semana passada no jornal O Globo. Fiquei um tanto surpreso com a imagem. Não com o pastel, que tem cara de estar excelente. Nem com o caldo de cana que, na minha terra, se chama garapa. Não. O que me chamou a atenção foi o canudinho de plástico.

É que fazia séculos que eu não dava de cara com um, e, de repente, me aparecem dois! Já faz tempo que esse artigo desapareceu na União Europeia. Foi sumindo aos poucos, primeiro por iniciativa setorial deste ou daquele ramo, até que o banimento acabou se tornando oficial e generalizado.

Em julho passado, entrou em vigor uma diretiva europeia, votada um ano antes, que proíbe produtos descartáveis feitos de matéria plástica. Especificamente, a regulamentação mira canudinhos, talheres, copinhos e cotonetes. Na prática, já faz algum tempo que esses artigos de plástico vinham sumindo das prateleiras do supermercado, substituídos por equivalentes feitos de outro material – papel ou papelão, o mais das vezes.

A França vai mais longe. Daqui a 20 dias, a partir de 1° de janeiro de 2022, entram em vigor novas regras. Em supermercados, frutas e legumes frescos não poderão mais ser postos à venda envoltos em embalagem de plástico, como tem sido feito até aqui. Terão de ser apresentados a granel, soltos, como na feira livre.

Modo de apresentação em via de extinção

Abobrinhas, pimentões, pepinos, cebolas, peras, maçãs, laranjas, ameixas, maracujás e muitos outros produtos deixarão de ser dispostos em bandejinhas de poliestireno e recobertos de filme transparente. Alguns artigos mais delicados, como morangos, caquis ou framboesas, vão ser objeto de tolerância até 2026. Até lá, alguma solução terá de ser encontrada. O governo francês calcula que, com a nova medida, um bilhão de embalagens inúteis serão evitadas todo ano.

Essas orientações refletem a crescente tomada de consciência de que a natureza não é um conceito vago, que só existe na cabecinha oca de macrobióticos deslumbrados. Cada vez mais, o distinto público se dá conta de que a natureza somos nós e de que não somos meros espectadores, mas fazemos parte do ecossistema planetário. Tudo o que é nocivo a outros seres vivos, sejam eles plantas ou animais, acaba perturbando nossa própria existência.

Mas que ninguém se preocupe. Brasileiro não é menos inteligente que qualquer outro povo. O que falta é informação. Enquanto tivermos um governo federal que acha correto rapar a cobertura vegetal de metade do país e transformar em “Cancún brasileira” os santuários ecológicos de Angra dos Reis, todo protesto racional se perderá na noite surda. Mas nada é eterno. Assim que um próximo governante, seja ele quem for, acordar (ou for acordado) para a realidade da vida no planeta, as coisas vão mudar rapidinho.

Nota
Que os que apreciam tomar garapa de canudinho não se preocupem. Canudinhos de outros materiais já estão no comércio. Comprei outro dia uma caixa com meia dúzia de elegantes canudos feitos de bambu. São reutilizáveis. Para garantir higiene perfeita, vêm até com uma miniescovinha, como aquelas de lavar mamadeira. Num primeiro momento, a gente estranha o material e o peso. Depois, se habitua.

Antivax e terra plana

Antivax (contrário à vacinação)
by Rick McKee, desenhista americano

José Horta Manzano

Para reforçar o que escrevi dias atrás no post A grande derrota de Bolsonaro, a Folha publicou ontem alguns números de um estudo sobre a aceitação das vacinas. A pesquisa é fruto de parceria entre o Banco Mundial e o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Praticamente todos os países da América Latina foram investigados. Entre essas 24 nações, o Brasil é aquele em que a vacina contra a covid-19 tem a mais ampla aceitação. Apenas 3% da população é antivax (ou vacino-hesitante, ou contrário à vacinação – é tudo a mesma coisa). Nos 24 países, a média dos que são contra a vacina é de 8%.

O estudo não diz a razão da hesitação. Medo de virar jacaré? Medo de ser menina e virar menino (ou vice-versa)? Medo de pegar aids? Medo de “morte, invalidez, anomalia” – como preveniu o capitão? A meu ver, é medo de agulha mesmo. Um inconfessável e irrefreável medo de levar picada. Talvez seja algum resto de fobias herdadas, como medo de picada de pernilongo, de aranha, de escorpião.

O importante é constatar que a pregação do presidente não serviu pra nada, rigorosamente pra nada. Com ou sem pregação, sempre haveria esses gatos pingados que recusariam a vacinação.

O resultado do estudo nos ensina que, na hora do vamos ver, cada um cuida de si. Vão pro lixo ideologias, posições no espectro político e convicções íntimas. Os devotos, que juram que se atirariam num precipício se o capitão mandasse, mostram que a devoção não é tão forte assim.

A cada dia que passa, o “mito” vai deixando claro que é isso mesmo: ele não passa de mito, uma “narrativa” que pouco a pouco se desnuda. Seu poder de aglutinar o povo é balela. O homem tem mais é poder de espantar e botar todos pra correr, inclusive os que um dia porventura tenham depositado confiança nele.

Fica de novo confirmada a grande derrota de Bolsonaro. Não conseguiu convencer nem os próprios terraplanistas.

Pátria amada, pátria amada,
logo logo estarás libertada!
O estropício, enxotado!
Nosso pendão, recuperado!

Dedo de honra

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, para se apresentar, o cidadão estendia seu cartão de visita. Estava ali o básico: nome, sobrenome, profissão, endereço e telefone (se houvesse). Quem recebia o cartão tinha ainda a possibilidade de examinar as características: tamanho, espessura e qualidade do papel, cor da tinta, impressão em relevo ou não. De posse dessas informações, já era possível saber muita coisa sobre o titular.

Nestes tempos em que o “Oi!” substituiu o cartão, para saber a que veio cada um, é preciso observar seu tom de voz, seu sotaque, seu comportamento, seu gestual. Ah, o gestual! Esse é ponto importante. Dispensa palavras. É feito exatamente pra ser visto de longe.

Me impressionou muito aquele gesto elegante que nosso ministro da Saúde fez em Nova York, logo depois de comer pizza na calçada. O distinto leitor há de se lembrar que, apupado por manifestantes quando já se encontrava dentro do ônibus, o doutor espichou o braço e mostrou o dedo do meio à multidão.

No arsenal obsceno da minha juventude, não constava o gesto do ministro. Deve ter sido popularizado mais tarde. O gesto equivalente era “dar uma banana”, com os punhos cerrados e os braços cruzados, sendo um na vertical. O significado era o mesmo. Esse gesto de mostrar o dedo do meio, aliás, nem nome tinha. Se hoje tiver, desconheço. Agradeço a quem puder mandar uma cartinha para a Redação desvelando o mistério.

Só que tem uma coisa. O que pode ser tolerável num adolescente – irrequieto e ainda pouco familiarizado com os códigos de comportamento da sociedade – é absolutamente inaceitável de parte de um ministro da República. Um ministro? Impensável!

Outro dia já falei do candidato surpresa nas presidenciais francesas que terão lugar daqui a 4 meses. Trata-se de Monsieur Eric Zemmour, jornalista e escritor, que professa ideias da direita extrema, entre as quais um ódio feroz contra imigrantes em geral e árabes em particular.

O extremista ainda não oficializou sua candidatura. Por enquanto, percorre o país fazendo publicidade para seu novo livro e testando a receptividade da população a sua presença. Sábado esteve em Marselha. Como de costume, foi acolhido tanto por admiradores como por oponentes. A um dado momento, não se conteve e mostrou o dedo a uma mulher (veja a imagem).

Ficou-se sabendo que ele estava apenas reagindo. A distinta senhora também lhe havia feito o mesmo elegante gesto. Pouco importa. O candidato é ele, não ela. Assim como é inaceitável o que fez o ministro brasileiro, é intolerável ver o mesmo gesto vindo de um candidato à presidência da França. Um homem público não tem o direito de reagir como um homem comum em todas as ocasiões.

Dois casos isolados de figuras públicas que se permitem esse tipo de baixaria em público, como os que mencionei, são pouca coisa; não dão amostragem suficiente para um estudo científico. Mas o fato de os dois pertencerem à mesma família política (extrema direita) deixa no ar uma interrogação. Serão todos assim? O palavreado e o gestual rasteiro fazem parte da cartilha de todo aprendiz fascistoide?

Ao se dar conta da onda de indignação que rugiu nas redes por causa de seu gesto, Monsieur Zemmour tuitou uma pirueta: “Madame, naquele momento hão havia tempo para um debate como eu aprecio. É por isso que usei a única linguagem que a senhora e seus camaradas ‘antifascistas’ compreendem imediatamente: a de vocês!”.

A vulgaridade agressiva é a arma dos que não têm argumentos. Assim como Trump e Bolsonaro não tinham, tampouco esse candidato tem programa para seu país. Taí a origem do comportamento rasteiro de todos eles.

Título
Em francês, o gesto de mostrar o dedo do meio se diz “doigt d’honneur”, dedo de honra. A expressão é calcada sobre “bras d’honneur”, braço de honra, que é nossa “banana”.

A grande derrota de Bolsonaro

José Horta Manzano

Desde que a pandemia tomou conta do mundo, Bolsonaro não perdeu ocasião de desdenhar. Chamou-a de gripezinha. Assegurou que, com dois ou três comprimidos de cloroquina, a questão se resolvia. Zombou do povo que o elegeu ao nos tratar de maricas. Mandou que todos se juntassem e se esfregassem, que era pra pegarem a doença, eliminando, ao final, os mais frágeis – todo o mundo tem de morrer mesmo, não é? Antivax desde o primeiro momento, segurou quanto pôde a compra das vacinas. Tentou frear a produção do Butantan porque, politicamente, não lhe convinha.

Mas há uma justiça. O preço da vitória – 600 mil mortos – foi elevado, mas o Brasil acabou vencendo. Bolsonaro perdeu. Ele queria chegar à imunidade coletiva (ou “de rebanho”, expressão que ele prefere) sem aplicação de vacina. Na sua cabecinha tosca, a doença eliminaria os fracos e deixaria os robustos, num arremedo de eugenismo tropical.

Sua estratégia não deu certo. Na sua biografia, estarão para sempre gravados os mortos e o epíteto de genocida. E a vacina foi aplicada. Graças ao trabalho de governadores menos obtusos que o capitão e graças ao empenho de todo o pessoal da área de saúde, o Brasil já vacinou integralmente mais da metade de seus habitantes. Apesar da inépcia de um Pazuello, aquele que, em matéria de saúde pública, entrou sem saber e saiu sabendo menos ainda.

Segundo a contabilidade global de vacinação contra a covid-19, atualizada em 25 de novembro, o Brasil aparece em honrosa posição, com 60,4% da população completamente vacinada. Está até melhor que os EUA, que só vacinaram 59,1% dos habitantes. Estamos muito à frente de grandes países produtores de vacina como Rússia (38,1%) e Índia (30,6%).

À nossa frente, só aparecem uns poucos microestados e alguns países europeus. Portugal, com espantosos 86,6%, é o país europeu que mais vacinou. Bem à frente de potências como a Alemanha (68.2%), França (69,5%) e Reino Unido (68,8%).

Estes dias, foi anunciada a descoberta de uma nova variante, batizada de Ômicron, que surgiu na África do Sul. É cepa perigosíssima, altamente contagiosa, bem mais assustadora do que todas as que tinham aparecido até agora. Bolsas caíram, aeroportos se fecharam, a covid voltou a frequentar as manchetes.

Mas por que razão essas novas cepas surgem sempre em países populosos e pouco desenvolvidos? Tivemos a variante indiana Beta, a brasileira Gama, as sul-africanas Delta e, agora, Ômicron. A razão é simples: o vírus gosta de gente. Quanto mais gente houver, maior a possibilidade de ajuntamentos, de promiscuidade, de extenso contágio. O atraso na vacinação e o descaso na observação das medidas de contenção – álcool em gel, máscara, distanciação social – são fatores agravantes.

Dado que a taxa de vacinação completa ainda está baixa em alguns países populosos, a ameaça não desapareceu. Alguém já disse, com razão, que o planeta só estará protegido quando todos os cidadãos estiverem protegidos. Não adianta um país atingir 100% de plano vacinal, se os demais ainda estiverem gerando cepas resistentes às vacinas disponíveis. Com essas variantes agressivas, o mundo não está livre de voltar ao ponto de partida e ter de esperar por novas vacinas. E a começar a contar de novo os mortos.

Índia (30,6%), África do Sul (23,8%), Rússia (38,1%), Nigéria (1,7% !), Indonésia (34,0%), Paquistão (22,5%), Bangladesh (21,7%) são países populosíssimos, com plano vacinal em atraso. Constituem terreno fértil para a epidemia. Vamos torcer para que nenhuma cepa resistente se desenvolva lá enquanto o vírus ainda circula redondo.

Enquanto seu lobo não vem, alegremo-nos, irmãos! O Brasil venceu Bolsonaro. Apesar do atraso e da má-fé do capitão, a competência nacional em matéria de vacinação forçou a porteira e mostrou que o povo brasileiro é maior que a ignorância do presidente e que o oportunismo irresponsável do grupelho que o cerca.

Ah, se inveja matasse!

José Horta Manzano

Se Bolsonaro pôde viajar a Nova York para comer pizza na calçada e, dias depois, fazer turismo na Itália para cuspir na tumba dos pracinhas, é sinal de que está apto a viajar para qualquer parte do globo. O chato é que ninguém o convida nem o quer receber.

Na verdade, ninguém quer saber dele. Aparecer em foto a seu lado? É o pesadelo de qualquer mandatário que se preze! O capitão é pestiferado, como aqueles infelizes da Idade Média, que, infestados pela bubônica, não tinham sequer permissão para pôr os pés no vilarejo onde viviam. Xô!

O máximo que o capitão conseguiu foi ser recebido nos ouros e nos mármores dos potentados médio-orientais, gente com petróleo de mais e escrúpulos de menos. Visitas assim rendem fotos cintilantes, mas não dão prestígio a ninguém – e Bolsonaro sabe disso.

Já o Lula, apesar de ter instaurado corrupção sistêmica no país e ter gramado ano e meio de masmorra (de 1ª. classe), ainda goza de boa imagem lá fora. Veja só, se um ex-presidiário condenado por corrupção é paparicado enquanto o presidente em exercício é enxotado, é porque este último é ruim de fato. Não tem nada que se aproveite.


“A França não é exemplo para nós, muito menos o seu Macron. Seu Macron está muito bem acompanhado do Lula, e Lula, muito bem acompanhado do seu Macron. Eles se entendem, falam a mesma linguagem.”


Essa foi a reação do capitão ao referir-se à acolhida do Lula pelo presidente da França, dias atrás. Ai, se inveja matasse!…

Em três anos de mandato, nenhum chefe de Estado ofereceu ao capitão hospitalidade tão prestigiosa quanto essa que o Lula acaba de receber de “seu” Macron. Aliás, que eu me lembre, tirando as viagens que fez a Netanyahu e a Trump logo no início do mandato, nenhum chefe de Estado jamais convidou o capitão.

Talvez seja uma das razões pelas quais nosso presidente se tranca no banheiro, de madrugada, para chorar, o pobrezinho. Não estou inventando, foi ele mesmo quem confessou. Não deve ser fácil pra ninguém se achar o rei da raspadinha e, ao mesmo tempo, ser rejeitado pelo mundo ingrato.

Vamos esperar que nenhum dos dois ETs, nem o Lula nem o Bolsonaro, venha a ser o próximo presidente da República. É verdade que o Brasil tem carma pesado, mas nossa geração já pagou boa parte da dívida. Que sobre um pouco para a próxima.

Quatorze anos de PT, mais dois de Temer, mais quatro de Bolsonaro: são vinte anos! Há duas décadas estamos resgatando os pecados cometidos ao longo dos últimos 5 séculos. Bem que podia dar uma refrescadinha. Que venha um outro qualquer. Desde que não seja malandro como um nem maluco destrambelhado como o outro, terá o apoio da nação agradecida.

Para explicar o título
“Ah, se inveja matasse”, o capitão estaria em estado de rigidez cadavérica, pronto pra receber sete palmos de terra por cima. Sem choro nem vela.

1964: Golpe ou revolução?

José Horta Manzano

Todo país medianamente desenvolvido tem um exame geral para testar os adolescentes e conferir-lhes o certificado de conclusão da escolaridade , documento que lhes vai abrir caminho para o ensino superior ou para a vida profissional.

O “Baccalauréat” francês, o “Bachillerato” espanhol, o “Esame di Stato” italiano e o “Abitur” alemão são exemplos. As particularidades de cada um deles podem variar, com exigências diferentes, mas todos se inserem no mesmo princípio: atestar que o jovem recebeu formação escolar satisfatória e está capacitado a seguir adiante.

Excluídos os regimes ditatoriais – dirigistas por natureza, todas as diretrizes emanando dos teóricos do poder –, não costuma haver interferência governamental na organização desse tipo de exame.

O bom senso indica que não faz sentido dar melhores notas a candidatos afinados com a filosofia do governo, deixando os demais na rabeira. Ter (ou não ter) afinidade com os ideólogos de turno não pode ser critério de atribuição de notas. Afinal, nenhum dos examinandos está postulando admissão numa seita.

No Brasil, o certificado é fornecido a quem tem sucesso no Enem. Às vésperas da abertura dos portões para as provas deste ano, o escândalo estourou. Nestes tempos de excesso de baixaria, quase ninguém se espantou quando o Bolsonaro declarou que o Enem deste ano tinha “a cara do governo”. A frase presidencial foi muito comentada, mas sem espanto. Todos já sabem que bom senso é mercadoria em falta crônica nas prateleiras do Planalto.

Ficou-se sabendo que o capitão tinha pedido que, em vez de se falar no Golpe de 1964, se mencionasse a Revolução de 1964. O mundo veio abaixo. Não por uma questão semântica, mas porque é de conhecimento público a paixão presidencial por ditaduras, militares, regimes autoritários, transformação de adversários em inimigos a aniquilar. Logo, se o capitão recomenda, boa coisa não pode ser.

Este blogueiro junta-se à maioria da população e arreganha os dentes quando lê qualquer pronunciamento do Bolsonaro. Sinto por ele o mesmo profundo desprezo que tantos outros conterrâneos sentem. Acredito que o distinto leitor, se me leu até aqui, não faça parte dos devotos do capitão. Vamos baixar a bola por um instante.

Repito mais uma vez: sinto asco pelo presidente. Agora, vamos em frente.

Toda mudança de regime, a não ser que seja resultado de plebiscito, cheira a golpe. Grande parte dos golpes de Estado que já ocorreram em nossa história (e houve muitos) receberam nomes poéticos, até charmosos. Mas nem por isso deixaram de ser golpes.

O Grito do Ipiranga ou Proclamação da Independência não passou de golpe contra a Coroa Portuguesa. Pior ainda, foi golpe de filho contra o próprio pai, o destino de todo um povo decidido numa rusga de família.

A Proclamação da República foi outro caso de golpe que sobrevive com nome poético e é festejado todos os anos. Foi golpe militar contra a monarquia, que era o regime legítimo que vigorava então.

Nossa história guarda também memória de golpes e contragolpes que passaram à história com o charmoso apelido de “revolução”.

A Revolução de 1930, por exemplo. Foi um golpe armado assestado por Getúlio Vargas contra um presidente em fim de mandato. Nesse ponto, guarda pontos de semelhança com a Proclamação da República: em ambos os casos, o chefe do Estado foi destituído e condenado ao exílio no exterior. Ainda que não se festeje mais a Revolução de 1930, que instituiu uma ditadura de 15 anos, o nome continua sendo “revolução”, não golpe.

Em 1932, espocou em São Paulo um contragolpe armado contra a ditadura Vargas. Houve morte e destruição nos quase 3 meses de combate, mas a tentativa fracassou. O ditador continuou firme e forte. Assim mesmo, o contragolpe é conhecido até hoje como Revolução Constitucionalista. Uma revolução que não chegou a revolucionar, em suma.

E chegamos a 1964. Das dezenas de sobressaltos que sacodem nossa história, é o mais recente. Assim que se consumou, naquela manhã de 1° de abril, foi chamado “revolução”, que era o nome que se dava a todas as quarteladas, pequenas ou grandes. Se a tentativa tivesse fracassado, teria passado à história como Revolução de 1964, sem contestação de ninguém. Só que…

Só que foi vitoriosa. Começou de mansinho, sem tiros nem sangue derramando, com apoio popular, mas, em poucos meses, apertou. Mandatos cassados, gente presa, desterrada, torturada, perseguida, censurada. Foi uma noite que durou duas décadas.

Enquanto durou o regime militar, não passaria pela cabeça de ninguém qualificar o movimento de ‘64 de “golpe”. Podia dar cadeia. O nome oficial era Revolução de 1964. No entanto, mesmo depois de enterrada a ditadura, o termo “revolução”, tão arraigado no falar das gentes, não foi imediatamente execrado nem substituído por “golpe”. Foi preciso esperar a chegada dos governos petistas.

Hoje em dia, é verdade, já não ocorreria a ninguém dizer “Revolução de 1964”. Convém referir-se àqueles acontecimentos como “Golpe de 1964”. Só alguns saudosistas dos tempos da ditadura ousam ainda se referir ao movimento de 1964 como “revolução”.

Este blogueiro entra numa categoria especial. Cheguei a morar alguns anos no Brasil durante o período militar. No entanto, dado que não vivo em território nacional há décadas, não experimentei o dia a dia dos anos petistas. Quando saí, todos ainda se referiam à “Revolução de ’64”, sem medo de levar pedrada. Será por isso que essa expressão não me choca.

Repito, caso não tenha ficado claro: não sou militarista, nem saudosista da ditadura, nem muito menos bolsonarista. Pelo-sinal, minha gente, pelo-sinal!

Dia da Bandeira

José Horta Manzano

O golpe de Estado de 15 de novembro de 1889 destronou o imperador e instaurou regime republicano. Naquela altura, um punhado de militares de alto coturno era adepto das teorias sociológicas, filosóficas e religiosas do francês Auguste Comte (1798-1857), o idealizador da corrente de pensamento que viria a ser conhecida como positivismo. É dele a frase L’amour pour principe, l’ordre pour base, et le progrès pour but” (O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por objetivo).

Desterrado o imperador do Brasil e instaurada a república, fez-se necessário alterar rapidamente o símbolo maior – a bandeira. A que estava em vigor, que trazia a coroa imperial e a esfera armilar, já não servia. Em poucos dias, deu-se um jeito.

Para o novo estandarte, conservou-se o que era básico: o losango amarelo sobre fundo verde. Apagados os símbolos imperiais, sobrou um vazio no centro. Para preenchê-lo, os criadores complicaram a vida de futuros desenhistas, escolares e costureiras. Inseriram um globo azul rodeado de estrelas representando o céu do Rio de Janeiro no momento em que D. Pedro II foi apeado. Dado que cada uma delas ocupa um lugar preciso, as estrelas dão muito trabalho na hora de desenhar, esculpir, costurar, pintar ou bordar a bandeira.

Não contentes com essa extravagância, os criadores da flâmula procuraram um complicador. Decidiram inserir na bandeira a conhecida frase do sociólogo francês que admiravam. A ideia, a meu ver, era descabida. Muitos países têm divisa oficial, mas não é comum (nem necessário) vê-la inscrita na bandeira.

Alguém já imaginou a bandeira francesa estampada com a frase “Liberté, Égalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade)? Ou a alemã carregando “Einigkeit und Recht und Freiheit” (Unidade e Direito e Liberdade)? Ou ainda a bandeira norueguesa com um “Alt for Norge” (Tudo pela Noruega) talvez grafado no braço mais longo da raçuda cruz escandinava? É questão de gosto. A mim, parece bastante cafona.

Bom, resolveram inserir a frase e ninguém os convenceu do contrário. Só que, por extenso, ela não cabia. Sem cerimônia, cortaram o que lhes pareceu secundário, deixando só o essencial. Mas acho que não leram direito ou não tinham conhecimento suficiente da língua francesa. Cortaram demais. A tríade sobre a qual Monsieur Comte tinha construído sua teoria perdeu uma pata. Em vez de “amor, ordem e progresso”, ficou só “ordem e progresso”. O amor escorreu pelo ralo.

Não está claro se era uma premonição. É permitido imaginar que os criadores da bandeira intuíram que, na República nascente, amor não haveria. Passadas 13 décadas, pode-se dizer que, em parte, acertaram. Assim como nunca houve ordem na nova República, até amor e progresso têm andado pra trás nestes tempos obscurantistas.

Até uns 20 anos atrás, a gente sentia o vento do progresso batendo no rosto; o país parecia correr para um futuro risonho. Hoje sobrou uma amarga lembrança de um tempo em que a gente achava que a felicidade estava na virada da esquina. Quanto ao amor, nestes tempos de ódio insuflado pelo capitão e destilado por redes e robôs, melhor nem falar.

Está na praça uma petição impulsionada por pessoas que gostariam de resgatar o amor que os criadores da bandeira republicana desdenharam; desejam acrescentá-lo ao lema, completando a tríade positivista. Certamente estão movidos por excelentes intenções, mas não creio que seja boa ideia. Este caso é daqueles em que a emenda periga sair pior que o soneto.

Em primeiro lugar, se bastasse escrever na bandeira as palavras-chave de um futuro que desejamos, a ordem e o progresso, que estão lá gravados há 132 anos já teriam surtido efeito e já teriam dado o ar de sua graça. Não deram. Portanto, pra que serve acrescentar o amor? Pra dar mais trabalho às costureiras que pregam letras nas bandeiras?

Em segundo lugar, escrever – seja o que for – na bandeira nacional é péssima ideia. Bandeira é feita para distinguir nosso país em meio a uma quantidade de países estrangeiros. Como marketing, qualquer palavra anotada é um desastre. Já parei de contar as vezes em que tive de responder a quem me perguntava o significado daquelas palavras. (Sendo que, após minha resposta, me pareceu às vezes entrever a sombra de um sorriso indulgente. Talvez seja impressão minha.)

Certos países árabes trazem inscrições na bandeira. Mas a caligrafia árabe é artística, elegante, um desenho das 1001 noites, uma festa para os olhos. A gente não entende nada, mas aprecia. Já nosso castigado lema, escrito em caracteres latinos, não tem graça. Um estrangeiro olha para aquilo como olharíamos para palavras escritas em turco.

Se este blogueiro ainda tivesse o vigor da juventude, levantaria bandeiras (sem trocadilho), desceria às ruas e lançaria uma campanha exigindo que se eliminasse toda inscrição em nosso belo e original pavilhão. Por si só, ele já é reconhecível de longe, entre outros mil. No centro, basta deixar o globo azul e sua faixa branca, virgem, sem palavras. Como se sabe, as palavras são de prata, mas o silêncio é de ouro.

Quanto às estrelas, bem, já que estão lá, que fiquem. Na próxima existência, voltarei pra reclamar sua supressão. Se ainda houver Brasil, naturalmente.

Bahrein

José Horta Manzano

O Bahrein, reino insular do Oriente Médio, é um país muito pequeno, mas muito rico. Pelas contas do FMI, seu PIB em 2017 foi de US$ 52.000 por habitante. Para efeito de comparação, no mesmo ano o Brasil cravou US$ 15.500 por habitante. Uma senhora diferença de 1 pra 3,5.

A economia do país é inteiramente baseada na extração de petróleo. Antes da descoberta do óleo negro, a ilha era habitada por tribos que comerciavam com outros povos da região. Não sei bem o que vendiam nem o que compravam, mas esse detalhe pouco interessa à nossa história.

O fato é que, como todo o mundo sabe, as reservas de petróleo não são infinitas. É difícil dizer quanto tempo vão durar, porque vai depender do ritmo de extração. Mas, do jeito que vão as coisas, com o mundo buscando (e encontrando!) fontes renováveis de energia, não vai demorar muito pra que o petróleo perca boa parte de seu interesse e os preços despenquem.

Os dirigentes do pequeno país não são bobos nem vivem dentro de uma bolha. Sabem perfeitamente que, se nada fizerem, dentro de poucas décadas voltarão a andar de camelo nas areias de seu desértico país. Com chance, poderão vender alguns quilos de tâmaras a alguma caravana de passagem.

A fim de não sofrer esse triste fim, já faz anos que vêm investindo para transformar o reino em um polo de “soft power”, um moderno centro de tecnologia, de telecomunicações e de turismo. Só assim escaparão de um retorno a condições medievais.

Bolsonaro esteve lá estes dias, pra inaugurar a embaixada do Brasil em Manama, a capital, e pra saudar o soberano. Na véspera de ser recebido pelo rei, nosso presidente estava ainda em Dubai. Foi lá que, imaginando que o auditório fosse integrado por um bando de ignorantes, contou a grande mentira que marcou seu passeio médio-oriental: que a Amazônia ainda estava “do mesmo jeitinho e do mesmo tamanho que tinha quando chegaram os portugueses 500 anos atrás”. A enormidade coincidiu com a publicação dos números de desmatamento do mês passado: 876,5 km2. Tem ideia do que isso signifique?

Faz dois dias, escrevi sobre o assunto. Volto a bater na mesma tecla porque acabo de me dar conta de que a superfície do Reino do Bahrein – com tudo incluído: a ilha principal, ilhas costeiras, camelos, o rei, os ouros e os mármores – atinge 785,0 km2. Resultado do páreo: só no mês de outubro, apesar do negacionismo crônico de Bolsonaro, o Brasil destruiu uma área de cobertura vegetal maior que a superfície do Bahrein inteiro!

Fico aqui calculando quantos barris de ouro negro o rei do desértico país não daria pra ter uma parte, uma pequena parte, um tiquinho desse verde todo que o Brasil vai destruindo a cada dia que passa. Nem que fosse meia dúzia de árvores.

Negacionismo improdutivo

José Horta Manzano

A fraqueza do Bolsonaro salta aos olhos. Faltando menos de seis meses para encerrar o prazo de se afiliar a um partido – condição indispensável para concorrer à eleição –, ele ainda não conseguiu encontrar nenhum que o acolha de olhos fechados e braços abertos. Nenhuma agremiação quer saber do capitão, com receio de que seu pé frio e sua imagem degradada contaminem o partido e causem dano aos demais candidatos. Tirando a turma do sim-senhor, ninguém quer ver seu nome associado ao do presidente. Se isso não é presidente fraco, o que será?

As origens de seu negacionismo são obscuras. Talvez nem Freud explique. Mas as consequências são sempre previsíveis. Funciona assim: dotado de raciocínio particularmente torto, o Bolsonaro se posiciona contra tudo o que o bom senso indica como bom para a população e, por consequência, para o Brasil. No sentido inverso, funciona também: ele será contrário a tudo o que for bom para o Brasil e, por consequência, para a população.

Basta surgir um fato novo, e a gente já sabe o que vai acontecer. Basta analisar: se for bom para a população, o capitão fatalmente será contra. E vice-versa. O exemplo maior foi o da vacina contra a covid-19.

Bolsonaro foi contra desde antes de ela ser lançada no mercado. Para ele, era questão de princípio: ser contra tudo o que possa melhorar as condições de vida e de saúde do povo que o elegeu. Ele não arreda pé dessa premissa.

O capitão não foi o único no planeta a ver a chegada da vacina com certa desconfiança. Será que não foi desenvolvida rápido demais? Todos viram que ela ficou pronta em tempo recorde. Será que funciona? Muitos duvidaram que funcionasse. No início, os questionamentos eram numerosos. Havia mais perguntas que respostas.

Só que as respostas foram chegando. Não se pode lutar contra os fatos. Com milhões de cidadãos vacinados em dezenas de países, e com a epidemia a ponto de ser controlada, não há mais como negar. Um a um, dirigentes desconfiados passaram a encarar a realidade. A vacina veio rápido, funcionava e era indispensável para frear o alastramento da epidemia.

O único que se recusou a aceitar os fatos foi nosso genial doutor Bolsonaro. Negou e continua negando. Não perde ocasião para repetir, com o orgulho dos ignorantes, que não está vacinado e que não tenciona vacinar-se.

Nestes meados de novembro, dirigentes de um bom punhado de países europeus (França, Áustria, Suíça, Alemanha, entre outros) procuram a melhor maneira de convencer sua população de que é necessário tomar vacina. Até Vladimir Putin, de costume tão reservado, foi à tevê implorar a seu povo que tomasse vacina.

Os governos estão propagandeando a imunização faz um ano. No entanto, uma quarta parte dos “vacináveis”, em média, se recusa a espichar o braço. E olhe que não foi por falta de incentivo. Desde que as vacinas foram lançadas, todos os governos têm feito campanhas intensas de convencimento da população. Talvez seja medo da agulha, mas nenhum “antivax” confessa.

Por seu lado, apesar de contar com o dirigente mais antivax do planeta – um bizarro capitão que não perde ocasião para desdenhar a ‘gotinha que salva’ –, o Brasil tornou-se um dos campeões mundiais da vacinação. Em vez das ruidosas passeatas de cidadãos refratários à imunização que se veem na Europa, temos mais é gente louca pra receber a segunda dose, a terceira, e quantas mais vierem.

Não é estranho o povo castigado pelo governo mais negacionista do mundo tornar-se campeão dos adeptos da vacina? No meu entender, é prova eloquente da fragilidade do Bolsonaro e do fracasso de sua imbecil teoria negacionista.

Xô, estropício terraplanista! Nem teu povo presta mais atenção às insanidades que proferes!