Dia da Bandeira

José Horta Manzano

O golpe de Estado de 15 de novembro de 1889 destronou o imperador e instaurou regime republicano. Naquela altura, um punhado de militares de alto coturno era adepto das teorias sociológicas, filosóficas e religiosas do francês Auguste Comte (1798-1857), o idealizador da corrente de pensamento que viria a ser conhecida como positivismo. É dele a frase L’amour pour principe, l’ordre pour base, et le progrès pour but” (O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por objetivo).

Desterrado o imperador do Brasil e instaurada a república, fez-se necessário alterar rapidamente o símbolo maior – a bandeira. A que estava em vigor, que trazia a coroa imperial e a esfera armilar, já não servia. Em poucos dias, deu-se um jeito.

Para o novo estandarte, conservou-se o que era básico: o losango amarelo sobre fundo verde. Apagados os símbolos imperiais, sobrou um vazio no centro. Para preenchê-lo, os criadores complicaram a vida de futuros desenhistas, escolares e costureiras. Inseriram um globo azul rodeado de estrelas representando o céu do Rio de Janeiro no momento em que D. Pedro II foi apeado. Dado que cada uma delas ocupa um lugar preciso, as estrelas dão muito trabalho na hora de desenhar, esculpir, costurar, pintar ou bordar a bandeira.

Não contentes com essa extravagância, os criadores da flâmula procuraram um complicador. Decidiram inserir na bandeira a conhecida frase do sociólogo francês que admiravam. A ideia, a meu ver, era descabida. Muitos países têm divisa oficial, mas não é comum (nem necessário) vê-la inscrita na bandeira.

Alguém já imaginou a bandeira francesa estampada com a frase “Liberté, Égalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade)? Ou a alemã carregando “Einigkeit und Recht und Freiheit” (Unidade e Direito e Liberdade)? Ou ainda a bandeira norueguesa com um “Alt for Norge” (Tudo pela Noruega) talvez grafado no braço mais longo da raçuda cruz escandinava? É questão de gosto. A mim, parece bastante cafona.

Bom, resolveram inserir a frase e ninguém os convenceu do contrário. Só que, por extenso, ela não cabia. Sem cerimônia, cortaram o que lhes pareceu secundário, deixando só o essencial. Mas acho que não leram direito ou não tinham conhecimento suficiente da língua francesa. Cortaram demais. A tríade sobre a qual Monsieur Comte tinha construído sua teoria perdeu uma pata. Em vez de “amor, ordem e progresso”, ficou só “ordem e progresso”. O amor escorreu pelo ralo.

Não está claro se era uma premonição. É permitido imaginar que os criadores da bandeira intuíram que, na República nascente, amor não haveria. Passadas 13 décadas, pode-se dizer que, em parte, acertaram. Assim como nunca houve ordem na nova República, até amor e progresso têm andado pra trás nestes tempos obscurantistas.

Até uns 20 anos atrás, a gente sentia o vento do progresso batendo no rosto; o país parecia correr para um futuro risonho. Hoje sobrou uma amarga lembrança de um tempo em que a gente achava que a felicidade estava na virada da esquina. Quanto ao amor, nestes tempos de ódio insuflado pelo capitão e destilado por redes e robôs, melhor nem falar.

Está na praça uma petição impulsionada por pessoas que gostariam de resgatar o amor que os criadores da bandeira republicana desdenharam; desejam acrescentá-lo ao lema, completando a tríade positivista. Certamente estão movidos por excelentes intenções, mas não creio que seja boa ideia. Este caso é daqueles em que a emenda periga sair pior que o soneto.

Em primeiro lugar, se bastasse escrever na bandeira as palavras-chave de um futuro que desejamos, a ordem e o progresso, que estão lá gravados há 132 anos já teriam surtido efeito e já teriam dado o ar de sua graça. Não deram. Portanto, pra que serve acrescentar o amor? Pra dar mais trabalho às costureiras que pregam letras nas bandeiras?

Em segundo lugar, escrever – seja o que for – na bandeira nacional é péssima ideia. Bandeira é feita para distinguir nosso país em meio a uma quantidade de países estrangeiros. Como marketing, qualquer palavra anotada é um desastre. Já parei de contar as vezes em que tive de responder a quem me perguntava o significado daquelas palavras. (Sendo que, após minha resposta, me pareceu às vezes entrever a sombra de um sorriso indulgente. Talvez seja impressão minha.)

Certos países árabes trazem inscrições na bandeira. Mas a caligrafia árabe é artística, elegante, um desenho das 1001 noites, uma festa para os olhos. A gente não entende nada, mas aprecia. Já nosso castigado lema, escrito em caracteres latinos, não têm graça. Um estrangeiro olha para aquilo como olharíamos para palavras escritas em turco.

Se este blogueiro ainda tivesse o vigor da juventude, levantaria bandeiras (sem trocadilho), desceria às ruas e lançaria uma campanha exigindo que se eliminasse toda inscrição em nosso belo e original pavilhão. Por si só, ele já é reconhecível de longe, entre outros mil. No centro, basta deixar o globo azul e sua faixa branca, virgem, sem palavras. Como se sabe, as palavras são de prata, mas o silêncio é de ouro.

Quanto às estrelas, bem, já que estão lá, que fiquem. Na próxima existência, voltarei pra reclamar sua supressão. Se ainda houver Brasil, naturalmente.

Para o Dia da Bandeira

José Horta Manzano

Você sabia?

A bandeira ‒ em termos crus, um pedaço de pano amarrado num cabo ‒ é símbolo forte cuja origem se perde no passado. Desde a antiguidade, vem servindo como representação de um grupo ou de uma comunidade. Pode corresponder a um regimento, uma firma comercial, um território, uma cidade, uma nação.

No topo do mastro, a bandeira indica a vitória ou a predominância do grupo representado. Arriada ou, pior, destruída ou queimada, significa a perda de soberania, a derrocada. Em momentos violentos, tanto em batalha militar quanto em manifestação de rua, assiste-se por vezes ao triste espetáculo de queima da bandeira do adversário. É reminiscência de prática ancestral, embora os atores nem sempre se deem conta do significado do ato.

bandeira-2O que pode até ser compreensível num campo de batalha é desnorteante em manifestações populares. Em recentes passeatas no Brasil, bandos de ignorantes chegaram a queimar a bandeira do próprio país(!), numa atitude descabida. É como se se autodestruíssem e aniquilassem a própria identidade. Felizmente, demonstrações de estupidez desse jaez são raras em nossa terra.

A Europa medieval criou espetáculos festivos de homenagem à bandeira. Duas ou mais comunidades se afrontavam, numa espécie de concurso, onde cada participante agitava e atirava sua bandeira ao ar para recolhê-la antes que caísse ao chão. Há séculos, a Suíça importou essa prática de países meridionais. Os encontros em que a bandeira é personagem central sobrevivem em alguns poucos países. Na Suíça, no entanto, faz parte do folclore nacional. É tradição cultivada com carinho e renovada em momentos especiais a cada ano.

Festa de lançamento de bandeiras clique para ampliar

Festa de lançamento de bandeiras
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A arte de atirar a bandeira ao ar chama-se «Fahnenschwingen» em alemão, «lancer de drapeau» em francês, «sbandieramento» em italiano. É exercício com regras rígidas. Não se joga de qualquer maneira. Consiste em agitar de um lado para outro uma bandeira de formato padronizado, em seguida lançá-la para cima e apanhá-la pelo cabo antes que caia ao chão. Parece simples, mas exige muito treino e técnica apurada.

O regulamento descreve 90 figuras, das quais cerca de 50 são executadas por ocasião de todo concurso. Frequentemente, os lançadores de bandeira são acompanhados por um conjunto de instrumentos de sopro típicos chamados trompa dos Alpes (Alphorn, cor des Alpes, corno alpino).

Corno dos Alpes clique para ampliar

Corno dos Alpes
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Nos tempos de antigamente, a trompa alpina ‒ cujo comprimento pode atingir 18 metros ‒ servia para comunicação à distância, num expediente análogo aos sinais de fumaça usado pelos índios de Hollywood. Nestes tempos de telefone celular, deixou de transmitir informações para dedicar-se unicamente a alegrar momentos festivos.

Ao vivo
O youtube traz alguns vídeos de arremesso de bandeira acompanhado por corno alpino. Quem estiver interessado pode dar uma espiada neste aqui (de 1min50) ou neste aqui (de 48 segundos).