Antivax e terra plana

Antivax (contrário à vacinação)
by Rick McKee, desenhista americano

José Horta Manzano

Para reforçar o que escrevi dias atrás no post A grande derrota de Bolsonaro, a Folha publicou ontem alguns números de um estudo sobre a aceitação das vacinas. A pesquisa é fruto de parceria entre o Banco Mundial e o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Praticamente todos os países da América Latina foram investigados. Entre essas 24 nações, o Brasil é aquele em que a vacina contra a covid-19 tem a mais ampla aceitação. Apenas 3% da população é antivax (ou vacino-hesitante, ou contrário à vacinação – é tudo a mesma coisa). Nos 24 países, a média dos que são contra a vacina é de 8%.

O estudo não diz a razão da hesitação. Medo de virar jacaré? Medo de ser menina e virar menino (ou vice-versa)? Medo de pegar aids? Medo de “morte, invalidez, anomalia” – como preveniu o capitão? A meu ver, é medo de agulha mesmo. Um inconfessável e irrefreável medo de levar picada. Talvez seja algum resto de fobias herdadas, como medo de picada de pernilongo, de aranha, de escorpião.

O importante é constatar que a pregação do presidente não serviu pra nada, rigorosamente pra nada. Com ou sem pregação, sempre haveria esses gatos pingados que recusariam a vacinação.

O resultado do estudo nos ensina que, na hora do vamos ver, cada um cuida de si. Vão pro lixo ideologias, posições no espectro político e convicções íntimas. Os devotos, que juram que se atirariam num precipício se o capitão mandasse, mostram que a devoção não é tão forte assim.

A cada dia que passa, o “mito” vai deixando claro que é isso mesmo: ele não passa de mito, uma “narrativa” que pouco a pouco se desnuda. Seu poder de aglutinar o povo é balela. O homem tem mais é poder de espantar e botar todos pra correr, inclusive os que um dia porventura tenham depositado confiança nele.

Fica de novo confirmada a grande derrota de Bolsonaro. Não conseguiu convencer nem os próprios terraplanistas.

Pátria amada, pátria amada,
logo logo estarás libertada!
O estropício, enxotado!
Nosso pendão, recuperado!

Negacionismo improdutivo

José Horta Manzano

A fraqueza do Bolsonaro salta aos olhos. Faltando menos de seis meses para encerrar o prazo de se afiliar a um partido – condição indispensável para concorrer à eleição –, ele ainda não conseguiu encontrar nenhum que o acolha de olhos fechados e braços abertos. Nenhuma agremiação quer saber do capitão, com receio de que seu pé frio e sua imagem degradada contaminem o partido e causem dano aos demais candidatos. Tirando a turma do sim-senhor, ninguém quer ver seu nome associado ao do presidente. Se isso não é presidente fraco, o que será?

As origens de seu negacionismo são obscuras. Talvez nem Freud explique. Mas as consequências são sempre previsíveis. Funciona assim: dotado de raciocínio particularmente torto, o Bolsonaro se posiciona contra tudo o que o bom senso indica como bom para a população e, por consequência, para o Brasil. No sentido inverso, funciona também: ele será contrário a tudo o que for bom para o Brasil e, por consequência, para a população.

Basta surgir um fato novo, e a gente já sabe o que vai acontecer. Basta analisar: se for bom para a população, o capitão fatalmente será contra. E vice-versa. O exemplo maior foi o da vacina contra a covid-19.

Bolsonaro foi contra desde antes de ela ser lançada no mercado. Para ele, era questão de princípio: ser contra tudo o que possa melhorar as condições de vida e de saúde do povo que o elegeu. Ele não arreda pé dessa premissa.

O capitão não foi o único no planeta a ver a chegada da vacina com certa desconfiança. Será que não foi desenvolvida rápido demais? Todos viram que ela ficou pronta em tempo recorde. Será que funciona? Muitos duvidaram que funcionasse. No início, os questionamentos eram numerosos. Havia mais perguntas que respostas.

Só que as respostas foram chegando. Não se pode lutar contra os fatos. Com milhões de cidadãos vacinados em dezenas de países, e com a epidemia a ponto de ser controlada, não há mais como negar. Um a um, dirigentes desconfiados passaram a encarar a realidade. A vacina veio rápido, funcionava e era indispensável para frear o alastramento da epidemia.

O único que se recusou a aceitar os fatos foi nosso genial doutor Bolsonaro. Negou e continua negando. Não perde ocasião para repetir, com o orgulho dos ignorantes, que não está vacinado e que não tenciona vacinar-se.

Nestes meados de novembro, dirigentes de um bom punhado de países europeus (França, Áustria, Suíça, Alemanha, entre outros) procuram a melhor maneira de convencer sua população de que é necessário tomar vacina. Até Vladimir Putin, de costume tão reservado, foi à tevê implorar a seu povo que tomasse vacina.

Os governos estão propagandeando a imunização faz um ano. No entanto, uma quarta parte dos “vacináveis”, em média, se recusa a espichar o braço. E olhe que não foi por falta de incentivo. Desde que as vacinas foram lançadas, todos os governos têm feito campanhas intensas de convencimento da população. Talvez seja medo da agulha, mas nenhum “antivax” confessa.

Por seu lado, apesar de contar com o dirigente mais antivax do planeta – um bizarro capitão que não perde ocasião para desdenhar a ‘gotinha que salva’ –, o Brasil tornou-se um dos campeões mundiais da vacinação. Em vez das ruidosas passeatas de cidadãos refratários à imunização que se veem na Europa, temos mais é gente louca pra receber a segunda dose, a terceira, e quantas mais vierem.

Não é estranho o povo castigado pelo governo mais negacionista do mundo tornar-se campeão dos adeptos da vacina? No meu entender, é prova eloquente da fragilidade do Bolsonaro e do fracasso de sua imbecil teoria negacionista.

Xô, estropício terraplanista! Nem teu povo presta mais atenção às insanidades que proferes!

De ministros e telenovelas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 março 2021.

Não é à toa que telenovela faz tanto sucesso no Brasil. E não é de hoje. Quando não havia tevê, nossas mães e avós já se encantavam com as radionovelas. A razão é simples: brasileiro adora assistir a um espetáculo grátis. Se for dramático, melhor ainda. Se sair sopapo e palavrório, é um delírio. Se pingar sangue, então, é o nec plus ultra, o júbilo total.

Em outras terras, troca de ministros é operação que já chega ao distinto público como pacote pronto e embrulhado pra presente. Sai um, entra outro, cumprimentam-se na porta, e a vida segue macia. As tratativas e negociações que precedem a escolha fazem parte da cozinha interna e nunca são divulgadas. Entre nós, não funciona assim.

O povo aprecia um espetaculozinho. Começa já semanas antes, com ‘fritura’ pública do titular e boatos que correm. Será que cai? Será que não cai? Depois vêm os ‘convites’. Fulano foi convidado; vai aceitar? Ih, foi conversar com o presidente! Será que se entenderam? Não, parece que não deu certo. Dizem que a Ala X quer, mas a Ala Y rejeita. E assim segue, como se fosse espetáculo teatral, com a população sentada na fileira da frente. Entre uma pipoca e outra, cada um dá seu palpite.

Quando, finalmente, a coisa decanta e o novo ministro é nomeado, parece último capítulo de novela. Comentários correm soltos pelos elevadores, na rua, no cabeleireiro, no supermercado, na padaria. Passado o desenlace, todos murcham e já se preparam para a próxima atração.

É um procedimento peculiar, esse modo brasileiro de troca ministerial. Mal comparando, é como se um sujeito fosse trocar de carro e os vizinhos resolvessem se intrometer. Cada um se permitiria dar palpite (não solicitado) sobre marca, modelo e cor, tudo sob o olhar atento da rua inteira (ou do condomínio inteiro), uma multidão dividida em alas, cada uma torcendo por seu modelo ou sua cor. É surreal.

No fundo, a escolha de ministros de Estado é ato privativo do presidente da República, visto que são assessores de sua confiança – é o que reza a Constituição. Em princípio, pois, o chefe do Executivo não deve satisfações a ninguém nesse assunto. Se o povo está em desacordo com a política deste ou daquele ministério, o melhor caminho não é reclamar do ministro. Ele foi nomeado para executar a política ditada pelo chefe. No fundo, o cômico Pazuello tinha, até certo ponto, razão: “Um manda, outro obedece”.

O general ficou marcado para o resto da vida pela ingenuidade de ter pronunciado a frase, mas ela não deixa de refletir a realidade. O que se reprova não é tanto que ele a tenha dito, mas que tenha aceitado o posto, já sabedor de que teria de se curvar a um chefe iracundo. A doutora que, outro dia, recusou o posto mostrou-se também ingênua de acreditar poder impor suas visões a um presidente obcecado por conceitos que, viessem de um terraplanista, não chocariam. A ex-futura titular da Saúde escapou na undécima hora, justo a tempo de evitar ter de carregar no currículo a pecha de ter sido ministra de Bolsonaro.

Esse rebuliço que se alevanta a cada troca de ministro não desenha imagem firme e forte do governo federal. Dirigente forte, bem assentado e de pés no chão dispensa teatralidade: troca seus assessores e pronto. Tratativas há, como é natural, mas não há por que deixá-las transpirar. Com a publicidade que foi dada à contratação da quase ministra Hajjar, quem saiu mal foi o próprio presidente. Ao fim e ao cabo, a imagem passada à nação é de que foi ela a dispensar Bolsonaro, e não o contrário. Outro que saiu mal na foto foi o sucessor do general demitido. Está passando recibo de ser ministro de segunda linha – “second choice”, como diriam os ingleses. Isso é péssimo.

Inteligência e sutileza não são mercadoria abundante no Planalto, disso sabemos todos. Será essa a razão de Bolsonaro não estar se dando conta de que, ao imprimir a uma simples troca ministerial ares de espetáculo teatral, está deixando claro que o governo é fraco, hesitante e dependente da opinião alheia. Não fica bem sobretudo para um presidente que, mais de uma vez, já chegou a reclamar: “Quem manda aqui sou eu, pô!”.

Reinfecção

José Horta Manzano

Enquanto nossos míopes e empacados terraplanistas tupiniquins persistem em desdenhar do coronavírus tratando-o de «vírus chinês», a nomenclatura internacional já se alargou.

A turma dos devotos, naturalmente, não ficou sabendo. Isso ocorre por eles viverem em comunidade fechada e terem como fonte única de informação as notícias falsas que circulam entre eles em circuito fechado. O único complemento de informação que lhes traz algum enriquecimento são as prodigiosas lives presidenciais. O empacamento fica, assim, explicado.

Além-fronteiras, a imagem da China como lugar de origem da epidemia já começa a se dissipar, substituída pela preocupação com as novas variantes surgidas de mutações do vírus.

Essas variantes já receberam nome. Como o vírus ‘chinês’ do ano passado (que, aliás, ninguém sabe até hoje como apareceu), estas novas cepas são conhecidas como ‘britânica’, ‘sul-africana’ e ‘brasileira’.

Para a variante britânica, já ficou acertado que as vacinas que estão sendo aplicadas na Europa (Pfizer, Moderna e Astra-Zeneca) são eficazes. Para as variações brasileira e sul-africana, no entanto, a eficácia das vacinas ainda está sendo estudada. O que se sabe é que ambas as mutações são mais contagiosas que o vírus originário. Suspeita-se que até quem já teve covid pode ser reinfectado por uma dessas novas variantes. Formidável problema.

Pode ser apenas coincidência, mas é interessante notar que as variantes se desenvolveram em países que, no início, desdenharam da epidemia e deixaram o vírus correr à solta. Reino Unido e África do Sul se emendaram, mas o Brasil oficial continua fazendo pouco caso. Vamos ver no que dá.

Incompreensível

José Horta Manzano

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid?

Ele mesmo tem repetido, desde que a pandemia se instalou no país, que o bom desempenho da economia é essencial para ele conquistar um segundo mandato. Com a doença se alastrando, é inevitável que medidas de contenção continuem em vigor: confinamento, distanciação social, teletrabalho, entre outras. São medidas que, somadas aos hospitais transbordantes, freiam o bom andamento econômico do país. E o presidente sabe disso.

Nesta altura do campeonato, a única providência radical para acabar com a epidemia é a imunização coletiva. Para chegar lá, o caminho mais direto é a vacinação rápida e generalizada. Não é possível que doutor Bolsonaro não entenda isso; o moço é empacado, mas (supõe-se que não chegue) a esse ponto.

O raciocínio é simples e cristalino. Sem vacina, a doença vai continuar por meses e anos a perturbar todas as atividades – transportes, serviços, turismo, produção industrial, exportação. Em resumo, a economia vai continuar semiparalisada. Com vacinação generalizada e levada a toque de caixa, a recuperação poderá até ocorrer antes do fim de 2022. Um trunfo para o candidato à reeleição!

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid? Não é incongruente? Só vejo uma explicação, embora ela seja tão fora de esquadro que é difícil acreditar: se Sua Excelência age assim, será para contentar sua milícia de devotos.

De fato, entre os fanáticos, há quem acredite que a Terra é plana, há os que juram que o homem nunca pisou na Lua, há ainda os que estão certos de que o clã Bolsonaro é virtuoso e Trump venceu a eleição. Há, naturalmente, ruidosa parcela que tem medo que a vacina os transforme em jacarés. Por essa alucinante hipótese, doutor Bolsonaro estaria se mostrando hostil à vacinação unicamente para contentar seus seguidores e alimentar-lhes a ignorância.

Parece enorme demais pra ser verdade, não? Se minha hipótese for verdadeira, nosso doutor é ainda mais parado do que eu imaginava. Seu comportamento contenta os devotos, é verdade, mas leva ao desespero os demais, que formam a imensa maioria dos eleitores. As eleições estão logo ali na esquina, que não falta tanto assim pra 2022. Na hora de votar, todos se lembrarão do sufoco que passaram quando Bolsonaro bloqueava a vacinação no Brasil enquanto o mundo inteiro se imunizava. Brasileiro tem memória curta, mas nem tanto.

Falando em jacaré, vale lembrar o ditado que se usava antigamente e que cabe aqui como augúrio de ano novo para doutor presidente: «Deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar».

Você tem carteira?

José Horta Manzano

O especialista em relações internacionais Jamil Chade, baseado em Genebra, foi durante anos correspondente do Estadão. Na coluna que assina atualmente no UOL, trouxe hoje informação importante e pra lá de preocupante.

Faz alguns meses que a ONU, diante do descalabro que a pandemia representa especialmente para países menos afortunados, instituiu um programa especial visando a garantir, na medida do possível, que todos os habitantes do planeta tenham acesso à vacina anti-covid. O programa, chamado Covax, tem exigido alentado esforço de coordenação.

Até o presente, o Covax já recebeu a adesão oficial de 95 países. A Europa inteira e até a China confirmaram presença. No começo, o governo brasileiro fez corpo mole. Talvez, sem confessar, contasse com a mão amiga e benevolente de um Trump firme no governo que, em atenção à sólida amizade que tem com nossa primeira famiglia, nos garantiria, a tempo e a hora, acesso às vacinas americanas. Em quantidade ilimitada e ao melhor preço.

O tempo passou, Trump rodou e o plano gorou. Ao fim e ao cabo, o Brasil se encontra hoje em posição precária. O programa Covax oferecia a cada país o direito de comprar vacina suficiente para um mínimo de 10% e um máximo de 50% da respectiva população. O Brasil optou pelo mínimo: 10% dos habitantes. Portanto, a menos que comece a chover vacina nos próximos meses, é magra a chance de o distinto leitor ser beneficiado pelas vacinas do programa Covax: não mais que 1 chance em 10.

Se não conseguir ser atendido (e se a “vacina do Doria” não for suficiente para toda a população brasileira), só resta um caminho: dar uma carteirada pra furar a fila. Falando nisso, você tem carteira?

Observação
Apesar da importância, o assunto tem sido pouco divulgado entre nós. Note-se que é compreensível. Ficaria estranho se a população soubesse que um governo que, além de ser anti-vacina e estar infestado de terraplanistas e negacionistas, se inscreveu na fila dos que querem receber vacina. Pegava mal pra cachorro. A militância era capaz de entrar em greve. E os bots também.

Que clique aqui quem quiser conhecer a história tim-tim por tim-tim.