É do Caribe

José Horta Manzano

Você sabia?

Estava lendo, na Folha de São Paulo, sobre denúncia de malversações no consulado do Brasil em Mendoza, na hermana República Argentina. Os malfeitos foram apontados – pasmem! – pelo Banco Central do país vizinho.

Perto do assalto à Petrobrás, é café pequeno. Responsáveis pelo consulado andaram comprando dólares no oficial e vendendo no paralelo. É comércio pra lá de rentável dado que, naquela economia desregrada, o ágio é importante.

Santa Lucia

Santa Lucia

Pela reportagem, fiquei sabendo que nosso cônsul, sobre cujos ombros recai a suspeita maior, já não oficia em Mendoza. Foi transferido, faz alguns meses, para o posto de embaixador em Santa Lúcia, nas ilhas caraíbas (em português: no Caribe).

Curioso, procurei me informar sobre esse país, do qual havia vagamente ouvido falar. Pois saiba o distinto leitor que a ilha de Santa Lúcia mede uns 20km de largura por uns 40km de comprimento. Tem população total de 170 mil pessoas, um terço das quais vive em Castries, a capital. Profundos laços culturais e intensas trocas comerciais entre nosso país e Santa Lúcia justificam amplamente a instalação de embaixada brasileira nesse país, parceiro importante e estratégico.

Levei um pouco mais longe minha curiosidade. Descobri que o Itamaraty mantém embaixada em outros países exóticos. Em Antigua e Barbuda, por exemplo, país de 440km2 e 90 mil habitantes. Num país chamado Granada igualmente. Granada espalha seus 90 mil habitantes por um território de 350km2. Para efeito de comparação, note-se que o município de São Paulo tem superfície de 1500km2.

Outro paraíso privilegiado a contar com embaixada brasileira é o burgo de Basseterre (13 mil habitantes), capital de São Cristóvão e Névis, país de 40 mil habitantes.

Há muitos outros casos do mesmo naipe. Não vou citar todos porque é maçante e deixa um gosto amargo. Sabe você quanto custa montar e manter uma embaixada? Não sabe? Nem eu, mas é fácil imaginar que custe mais que dez merréis. Aluguel, mobiliário, meios de comunicação, salário do embaixador, salário do pessoal, gastos de representação, despesas de viagem, papelada, malote diplomático. Serão alguns milhões por ano. Para quê?

São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis

Nem Estados Unidos, nem França, nem Reino Unido têm embaixada em Pyong Yang, Coreia do Norte. O Brasil tem. Para que serve, se não como escoadouro de dinheiro que poderia ser mais bem empregado? Pois eu vou-lhes dizer para que serve: é fruto de elucubrações ingênuas dos aspones presidenciais destes últimos doze anos. Se os EUA não têm embaixada e nós temos, isso significa que somos mais importantes. Voilà!

A multiplicação de embaixadas não nos torna mais importantes nem mais respeitados. Demonstrações dessa natureza não convencem. Por minha parte, eu trocaria todos esses penduricalhos por um prêmio Nobel em área científica. Unzinho só. Vale mais que todas as embaixadas no Caribe.

Ninguém sabe direito por que o Brasil é anão diplomático. Por falta de embaixadas é que não será.

Frase do dia — 191

«Das poucas esperanças que nos restam e nos alimentam em busca de um novo tempo neste Brasil contraditório, adolescente, malresolvido, que tal um pouco de carinho e compreensão?

Um ombro amigo é um lembrete: o barco é o mesmo, a casa é uma só. Se pegar fogo no quarto de empregada, queima até a suíte do casal. No fundo, somos todos interdependentes. É bíblico, servos e senhores, lado a lado.»

Eduardo Aquino, neurocientista e escritor, em sua coluna do jornal O Tempo, de BH. Para ler o texto integral, clique aqui.

Debatendo amenidades à véspera do golpe

Fernão Lara Mesquita (*)

A reunião de Dilma Rousseff com “movimentos sociais” reconhecidamente sustentados por seu governo no Palácio do Planalto – para marcar para morrer a democracia no Brasil pelo mesmo gênero de falcatrua plebiscitária que a matou nos vizinhos “bolivarianos” que o PT aponta como modelos politicos – é o grande ausente não só do último debate como de toda esta eleição.

Coup d'etatComecei a sequência desta nota escrevendo que, em qualquer outro lugar do mundo, este seria o tema dominante da campanha. Mas logo me dei conta de que isso é absurdo. Em nenhum país civilizado seria tema de eleição propor aos eleitores a cassação de seus próprios representantes, justamente aqueles que foram eleitos como fonte exclusiva de legitimidade de qualquer ação política ou legislativa.

Isso contradiz o axioma e a essência do contrato social e, por conseguinte, do regime de democracia representativa. Significa a substituição de 140 milhões de eleitores por um punhado de organizações não governamentais – organizadas pelo governo e financiadas pelo partido que ora ocupa o poder.

Perto disso, toda a vasta crônica da corrupção da Era PT fica pequena. Mesmo assim, o absurdo kafkiano de pedir aos eleitores que se cassem a si mesmos não só é exequível entre nós, como, às vésperas da eleição, pôde transformar-se no Decreto n° 8243, assinado pela candidata da situação sem consultar os interessados.

Nem o Congresso Nacional, cujos poderes estão sendo usurpados, nem – acredite quem quiser que venha a ler este texto no futuro – os candidatos que disputaram a presidência da República esboçaram a menor reação. O assunto sequer chegou a ser mencionado ao longo de toda a campanha eleitoral.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Adestrando cães para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minhas cachorras não entendem nada de processo eleitoral. Tentei explicar a elas que, a intervalos fixos, nós humanos precisamos escolher mandatários. Como elas não sabiam o que significa mandatário, expliquei que são uma espécie de “líder da matilha”.

Assombradas, elas retrucaram: “Escolher? Como assim? Líderes não se escolhem, você apenas os reconhece”.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Um tanto ressabiada, aprofundei a explicação: É que, entre nós, não há um líder de matilha que seja reconhecido universalmente e nem mesmo lideranças que durem a vida inteira. Elas riram, atônitas. Insistiram em saber por que isso acontece na espécie humana.

Levei algum tempo refletindo e acrescentei: É que cada pessoa dá preferência a um estilo de governo. Como a pessoa escolhida vai mandar em nossas vidas durante todo o mandato, cada um precisa descobrir com qual candidato se identifica mais.

Elas gargalharam à solta por um bom tempo e novamente retrucaram: “Mandar? Líderes não mandam. Eles simplesmente vão na frente e abrem caminho para o resto da matilha. Nós não temos de ‘obedecer’ ao líder, apenas confiamos cegamente nele e, por isso, o seguimos”.

Mais uma vez, fiquei pensativa por alguns minutos e depois arrisquei: Bom, como o eleito foi escolhido por nós, ele tem, por assim dizer, obrigação de respeitar e fazer cumprir os projetos que seus eleitores acham que são prioritários.

Novas risadas e nova pergunta: “E o que acontece se o líder não cumpre o que prometeu?”

Respondi orgulhosa pela sabedoria de nossa espécie: Aí a gente o destitui e começa tudo de novo, tentando aprimorar o processo de escolha e discutindo novos requisitos para que não aconteça outra falha.

– “Mas o que acontece com o líder que não deu certo? Ele é morto ou banido de vez da matilha?”

Não – respondi – ele pode explicar por que não cumpriu o prometido, comprometer-se a melhorar e, se a gente acreditar que ele está mesmo empenhado em fazer tudo certinho, ele pode até mesmo se candidatar de novo.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

De queixo caído, minhas cachorras engataram uma pergunta delicada: “Mas se ele já deu provas de que não merece confiança, o que leva vocês a acreditarem que vai ser diferente da próxima vez?”

Gaguejei, meio sem graça, tentando me dar um tempo para elaborar uma resposta convincente: Veja bem – comecei – a gente compara sempre dois candidatos e escolhe aquele no qual a gente confia mais. É por comparação, escutando os argumentos que cada um apresenta para convencer a gente.

Crédito: Bullies.centerblog.net

Crédito: Bullies.centerblog.net

Elas rolaram no chão de tanto rir: “E vocês se fiam em palavras? Em meio à enxurrada de palavras do debate de ontem à noite, um candidato manteve a cabeça baixa, orelhas em pé, o corpo todo encrespado e projetado para a frente, o rabo baixo e rosnou a maior parte do tempo. Entre nós, isso é sinal de que se está diante de um valentão que quer ganhar a briga na porrada e, portanto, é alguém em quem não se pode confiar. Já o outro candidato manteve o peito cheio, a cabeça e o corpo eretos, olhos bem abertos, sorriso nos lábios e o rabo abanando o tempo todo. Entre nós, isso é sinal de que deseja uma aproximação amigável, de que não há razão para ter medo. Agora, o tom monocórdio e sem vida das palavras dos dois deixava claro, pelo menos para nós, que eles estavam só fazendo de conta que eram isso mesmo”.

Então – disse eu, já exausta – nós humanos às vezes esquecemos de verificar se as palavras que a pessoa está usando combinam com sua postura corporal porque estamos mais preocupados com o conteúdo do que com a forma.

“Mas – observou minha golden retriever – todas as vezes que eu abano o rabo freneticamente e pulo nas pessoas para fazer festa, você puxa a guia de volta e me dá uma bronca. Quando eu começo a latir e a rosnar, você grita ‘não’. Como é que fica?”

Desisti de buscar novas explicações. Elas nunca vão entender mesmo o processo eleitoral dos humanos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O feioso português da presidenta

Carlos Eduardo Gonçalves (*)

Este escriba aqui não vota em Dilma não, apesar de já ter votado em Lula, em 2006.

Os motivos são diversos, mas destaco dois: a incompetência no manejo da economia e a corrupção sistêmica.

Tem um terceiro, porém, que pode até ser menos relevante, mas que, confesso, me gera certa repulsa e me motivou a rascunhar este post: o uso do português pela presidenta.

Dilma, desculpe-me, mas seu português é de estarrecer. Embaralhado, sem fluência, sem um charmezinho sequer.

Além disso, muitas vezes não dá mesmo para entender o que ela quer dizer, tortuosas estruturas de difícil apreensão, idas e vindas labirínticas. E aquele repetir infinito do «no que se refere», tão pouco natural e sinalizando escassez de termos e expressões substitutas.

A presidenta já citou o Velho do Restelo para criticar os críticos, mas será que leu efetivamente Camões?

Interligne 18c

(*) Carlos Eduardo Gonçalves é economista, escritor e professor da USP. Edita o blogue Prosa Curta, alojado no Estadão.

Frase do dia — 190

«Ao dizer que ‘voto não se transfere’, a fim de desdenhar do apoio de Marina Silva a Aécio Neves, a presidente Dilma Rousseff contraria a razão de sua própria eleição em 2010. Ou então, nestes quatro anos, passou a acreditar que era ela a dona daqueles quase 56 milhões de votos transferidos por Lula.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 14 out° 2014.

Menosprezo oportunista

José Horta Manzano

Dizer isto hoje parece mentira, mas houve tempos em que o PT carregava aura de ética, de sabedoria, de retidão e de credibilidade. Os mais jovens podem achar que estou delirando. Assim era, garanto.

Dislike 2Nos tempos benditos que antecederam o ascenso aos mais altos cargos, os dirigentes do partido da estrela solitária conseguiam discernir o bem do mal. Não acreditam? Pois assim era, garanto.

Antes de trocar a ética pela prostituição política, antes de ceder às tentações do vil metal, antes de renegar os princípios fundadores do partido, pautavam-se por um certo discernimento. Acham que não? Pois assim era, garanto.

Dislike 1Querem uma prova? Aqui vai. Todos ficaram sabendo que o candidato Aécio, se eleito, nomeará Armínio Fraga para segurar as rédeas da economia do País. O senhor Fraga, para quem não se lembra, é economista de alto coturno. Foi presidente do Banco Central e diretor do Banco do Brasil. Lecionou em universidades americanas e brasileiras.

Quando tomaram conhecimento das intenções do senhor Aécio, dirigentes petistas botaram a boca no trombone para menosprezar a capacidade do provável futuro condutor da política econômica do País. «Caíram de pau», como se dizia, ou «foram pra cima», como se diz agora. Pois têm a memória curta, os desmiolados…

Em plena campanha presidencial de 2002, quando o Lula ainda vivia na tentativa de alçar-se ao trono do Planalto, a Folha de São Paulo publicou reportagem sobre a visão petista da economia nacional. Aqui vai um trecho:

Interligne vertical 10«Integrantes do alto escalão da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva defendem a colaboração do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, em um eventual governo do PT, no mínimo como um consultor informal.

Petistas com voz ativa na campanha consultados pela Folha vêem o presidente do BC como peça importante para o período de transição e para a fase subsequente à hipotética posse de Lula.

Há quem sugira até a criação de uma espécie de “conselho” para assessorar o governo, do qual Armínio poderia constar.  (…) É tido, inclusive por Lula, como técnico competente, que se preocupa mais com a economia do que com posicionamentos partidários.»

Dislike 3Como veem meus distintos leitores, os tempos eram outros. Hoje, por despeito ou ignorância – talvez por ambos os motivos – o partido cospe no prato que ontem cobiçou.

Para ler na íntegra o artigo da Folha de São Paulo de 10 ago 2002, clique aqui.

Frase do dia — 189

«Ver João Santana repetir friamente todos os dias – pela boca de uma Dilma Rousseff de olhar cândido e despida de atributos e características pessoais – que a chuva de lama da Petrobrás sobre o PT, o PMDB, o tesoureiro Vaccari Neto e o círculo íntimo da ex-presidente do conselho de administração da estatal assaltada pelos “petrolões” não é senão o reflexo “da luta sem tréguas que o PT vem travando contra a corrupção” é algo que só pode ser interpretado como antecipação das violências que virão quando as delações premiadas virarem processos. Quando se tornar realidade aquilo que os indicadores econômicos antecipam, será preciso que o partido mate mais do que apenas a verdade para não ser apeado do poder.»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em seu blogue Vespeiro, 13 out° 2014.

A violência política e a violência doméstica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Augagneur 4Assistindo aos últimos debates e propagandas eleitorais, consegui obter uma compreensão mais profunda das razões que levam uma mulher agredida por seu companheiro a não registrar queixa numa delegacia – ou mesmo a retirá-la após ter dado entrada a um boletim de ocorrência.

Assoberbada pela confusão de sentimentos que experimenta a cada dia – as boas lembranças do tempo da sedução, da corte e dos primeiros dias de convivência confrontadas com o dolorido assombro diante da transmutação do comportamento do parceiro – ela começa a se indagar se o problema não estaria, afinal, dentro dela mesma.

Augagneur 3Dedo podre’ para apontar o homem que vai acompanhá-la em sua jornada, talvez alguma falha em seu perfil físico ou psicológico que afaste candidatos mais qualificados ou até, quem sabe, alguma dificuldade emocional para acolher os defeitos de outras pessoas.

Hesitante, sem conseguir decifrar o enigma, ela resolve dar mais um tempo para que as coisas se acalmem. Depois – pensa – se eu decidisse levar tudo a ferro e fogo, minha vida provavelmente sofreria uma mudança radical. Mudança de residência, problemas financeiros graves, imagem social arranhada e, pior, o medo diante dos enormes obstáculos para convencer o atual parceiro a se afastar em definitivo e abrir espaço para uma possível aproximação com novos companheiros.

Augagneur 1No núcleo de toda a situação, a incapacidade de apostar todas as fichas em seus próprios valores e desejos. A impossibilidade de projetar um futuro em que eles reinariam absolutos. A descrença no seu próprio poder de realização.

Assim, entre um futuro incerto que carrega consigo a obrigação de sair da zona de conforto e outro com o qual já se está habituado, a escolha recai, no mais das vezes, no desejo de preservar o que já se conquistou – sem qualquer forma de reflexão a respeito da possibilidade de conquistar ainda mais.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ilustrações: Jean Augagneur, desenhista suíço

O Lula em lua de mel

Lua de mel

Wálter Maierovitch (*)

Para a mídia alemã não representa notícia de interesse público o fato de a chanceler Angela Merkel, chefe de governo, não dar carona ao marido em avião oficial. Por exemplo, Merkel passou a Páscoa na cidade italiana de Nápoles a fim de descansar. O avião oficial que a transportava desembarcou na sexta-feira e o corpo de segurança alemão a acompanhou à residência que alugara com dinheiro próprio.

Avião 6Cerca de quatro horas depois do desembarque de Merkel em Nápoles, chegou o seu marido. Estava programado que o casal passaria a Páscoa em Nápoles. O “maridão”, no entanto, pegou um vôo comercial Berlim-Roma e, na sequência, uma conexão para Nápoles.

Por que não pegou uma “carona” com a poderosa chanceler e esposa? A resposta é simples. A carona em vôo oficial, segundo a legislação alemã, é muito cara. Mais de dez vezes o preço de um bilhete aéreo comercial. Por isso, o casal Merkel viajou separado. Em outras palavras, para economizar. Assim, o varão viajou como um comum mortal que, temporariamente, é esposo da chefe de governo da Alemanha. A mandachuva, de enormes responsabilidades institucionais, cumpriu a lei e fez economia doméstica.

AviaoDepois da Páscoa, um avião alemão oficial conduziu Merkel de volta a Berlim, sede do governo e sua cidade natal. O esposo da chanceler partiu em vôo de carreira, com conexão e passagem paga por ele próprio e não pelo cidadão alemão.

(No Brasil, o senador Eduardo Suplicy, depois de noticiado o fato na imprensa, correu para devolver o valor de uma passagem aérea que o seu gabinete, por sua ordem e numa relação privada, havia comprado para a namorada.)

Interligne 18b

(*) Wálter Fanganiello Maierovitch é jurista e professor. Já foi desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. O texto apareceu no Portal Terra já faz algum tempo. Foi recentemente repercutido pela Tribuna da Internet.

Quantos milhares de votos voaram?

Carlos Chagas (*)

Conhecida parte da delação dos ladrões da Petrobrás, José Roberto Costa e Alberto Youssef, na tarde de quinta-feira, a pergunta que varre o país de Norte a Sul refere-se a quantos milhares ou até milhões de votos terá perdido a presidente Dilma Rousseff?

Quem quiser que faça as contas, mas se inusitados não acontecerem até o dia 26, Aécio Neves está eleito presidente da República. Não dá para livrar a cara de Dilma, bem como do Lula, muito menos do PT, diante do escândalo agora denunciado.

Avião 10O partido dos companheiros levava 3% de todos os contratos superfaturados de empreiteiras com a Petrobrás. PP e PMDB também participavam da lambança. Será possível que a presidente e o ex-presidente nada soubessem, com tanta gente envolvida? Por onde andou a Abin, encarregada de informar o chefe do governo? E o ministro da Justiça? Precisou a Polícia Federal investigar.

Vem muito mais chumbo grosso por aí. Quando o Supremo Tribunal Federal começar o julgamento dos políticos envolvidos na tramoia, assistiremos deputados, senadores, governadores e ministros serem transformados em réus. Os que tiverem sido reeleitos perderão o mandato. Quanto aos empreiteiros, serão expostos, junto com outros diretores da Petrobrás. Estarão abertas as portas da caverna de Ali Babá.

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diario do Poder, 11 out° 2014.

Jó e Abraão

José Horta Manzano

Fica cada dia mais palpável que os donos do poder, aterrorizados com o embalo da diligência, andam perdendo o discernimento. Más línguas dizem que discernimento é justamente o que nunca tiveram, mas é melhor não começar a discutir isso, que é debate para dias e semanas.

Marcha a ré 1Por que será que se nota tanto nervosismo pelas bandas do Planalto? É sabido que o poder, mormente na versão longa duração, desgasta. Faz já 12 anos que nos martelam o mesmo disco, as mesmas fórmulas, as mesmas promessas, as mesmas esfarrapadas explicações. E que continuamos obrigados a engolir frustrações, fracassos e uma interminável lista de malfeitos. Escândalos espocam feito bombinha de são-joão. O sentimento de insegurança explode.

Vai chegando uma hora em que palavras, anúncios e promessas deixam de fazer efeito. A lavada que os que nos governam estão levando nestas eleições é prova de que há muita frustração acumulada.

Tenho um amigo que, ao receber convite para viajar durante o mês de outubro, retrucou, firme: «Agradeço, mas não vou de jeito nenhum. Ajudei a botar essa gente lá, agora tenho de ajudar a mandá-los embora. Vou votar.». Juro que não é invenção minha.

Dona Dilma – ou seus aspones, é difícil saber – andou escrevendo no tuíter que os adversários representam o retrocesso. Expressão estúpida, que, como bumerangue, atinge a presidente em plena testa.

Retrocesso

A esmagadora maioria dos eleitores da presidente ignora o significado dessa palavra. Portanto, para essa fatia do eleitorado, movida por outros interesses, o falar chique dos gênios da comunicação presidencial é inócuo.

Já os que conhecem essa palavra, mais esclarecidos, sabem que, ao contrário do que afirma, dona Dilma – essa sim! – é a personificação do retrocesso. Conseguiu completar a pauta da regressão que já havia sido traçada por seu antecessor. O retrocesso destes últimos anos assume características múltiplas.

Os brasileiros mais pobres voltaram aos tempos do coronelismo, que imaginávamos sepultos. O paternalismo – e sua consequência mais daninha, a compra de votos – ressuscitou e se revigorou.

A pauta de exportações do Brasil regrediu ao que costumava ser nos tempos imperiais: o País se afirma, cada dia mais, exportador de matéria-prima. A desindustrialização se acentua.

Marcha a ré 2De receptor de imigrantes, o Brasil passou a emissor. Temos hoje menos de um milhão de estrangeiros no País, enquanto três milhões de brasileiros batalham no exterior.

Até no futebol, regredimos. Concedo que a presidente não tem a culpa (integral). Mas, para azar dela, vaias e derrotas aconteceram sob sua gestão. E na sua presença.

Portanto, acusar o adversário de trazer consigo o retrocesso é falso e, no mínimo, desastrado.

Entre os apoiadores da presidente, o argumento não é compreendido. Passa batido.

Entre os que rejeitam a candidata, a alegação só faz reforçar o sentimento de que a campanha se baseia em engodo.

Finalmente, entre aqueles que, embora já não vivam nas trevas, ainda não escolheram candidato, a falácia periga precipitar a decisão de votar no adversário. Afinal, todos se dão conta de que o País regrediu, e ninguém gosta de ser feito de bobo.

Nem paciência de Jó aguenta mais tanta incoerência. Nem fé de Abraão acredita mais em tanta mentira.

Lasciate ogni speranza…

José Horta Manzano

Inferno de Dante by Salvador Dalí (1904-1989), Marquês de Dalí de Púbol

Inferno de Dante
by Salvador Dalí (1904-1989),
Marquês de Dalí de Púbol

Muitos têm a nítida sensação de que o País mergulha, cada dia mais fundo, num lamaçal espesso. O líquido visguento abraça todos os viventes, reboca todas as coisas, tolda a visão, baralha as ideias e embaça o discernimento.

Muitos acham que era preferível viver num país mais pobrezinho do que num atoleiro rico mas inglório. «Somos pobres, mas honrados!» – é divisa que deixou de fazer sentido.

Muitos sentem saudade de um tempo em que, embora andássemos a pé, íamos na certeza de chegar ao destino sãos e salvos. Sequer nos passava pela cabeça que algum perigo nos rodeasse.

Muitos lembram com nostalgia o tempo em que vaga em escola pública era valorizada e disputada. Pode parecer exagero para os que não conheceram aqueles tempos, mas é verdade: em certos estabelecimentos públicos de maior prestígio, só entrava quem dispusesse de um bom pistolão – hoje diríamos recomendação ou «Q.I.».

Alguns ainda se recordam que político de alto coturno podia ser processado e condenado por ter-se apoderado de objeto pertencente ao patrimônio público. Um caso retumbante envolveu Adhemar de Barros, destacada figura política dos anos 40 e 50. O figurão foi um dia processado por ter levado pra casa um pote de barro, no episódio que passou à história como o da urna marajoara.

Sem admitir abertamente, muita gente deposita numa intervenção militar suas últimas esperanças de tirar o País do charco em que se afunda a cada dia. Dá pra entender. Nós, contribuintes ignaros, estamos descobrindo os capítulos de tenebrosa novela que nos dá detalhes de como a maior empresa do Brasil foi saqueada por uma camarilha de cidadãos da elite que habita o andar de cima. Pior, mesmo, é saber que tudo isso terminará em nada. Alguém duvida?

Sem admitir abertamente, muita gente deposita numa intervenção militar a última esperança de arrancar o País do atoleiro. Que percam toda fantasia, que abandonem toda ilusão. Tudo indica que os uniformizados continuarão no banco de reservas, timoratos e paralisados.

Inferno de Dante - Mosaico do Batistério de Florença

Inferno de Dante – Mosaico do Batistério de Florença

Como é que eu sei? Transcrevo aqui o ponto levantado pelo sempre bem informado jornalista Claudio Humberto em seu Diário do Poder, 11 out° 2014.

Interligne vertical 10«Os comandantes do Exército e da Aeronáutica se fingem de mortos. Dois anos após a condenação por corrupção dos mensaleiros José Genoino e José Dirceu, ainda não cumpriram a legislação que os obriga a cassar as condecorações concedidas à dupla de presidiários. Ambos têm medo de contrariar a cúpula do PT e sobretudo a presidente Dilma. A condenação da dupla completou dois anos no dia 3 passado.

O Decreto n° 3446/2000, ignorado pelos comandantes, manda cassar medalhas de condenado por crime contra o erário, como é o caso.

José Genoino foi homenageado com a Medalha do Pacificador, uma das mais importantes do Exército. E a mantém até hoje.

José Dirceu ganhou a condecoração da Ordem do Mérito Aeronáutico, também entregue a Genoino quando ele era réu do mensalão, no STF.

O Ministério da Defesa e os comandantes militares se escondem para não dar explicações sobre o medo de cumprir a lei e cassar medalhas.»

Interligne 18b

(*) Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate – Abandonai toda esperança, vós que entrais.
Transcrição, em italiano moderno, de ultracitado decassílabo da Divina Commedia do poeta Dante Alighieri (1265-1321).
A advertência aparece no Canto Terceiro da terrível descrição do inferno e dirige-se a todos os que chegam.

Deram o golpe

José Horta Manzano

Petrobras 3Mal-aconselhada como de costume, dona Dilma declarou que «a oposição usa o caso Petrobrás para dar golpe».

Como é que é? Goste ou não, a presidente terá de engolir a verdade: o verdadeiro «golpe» já foi dado – e bem dado! – por seus íntegros companheiros. Saquearam a maior empresa do país, patrimônio e orgulho de toda a nação.

A Petrobrás vale hoje um décimo do que valia poucos anos atrás. Somos a zombaria do mundo inteiro, que nos enxerga cada vez mais nitidamente como legítimos integrantes do Terceiro Mundo.

E tudo isso aconteceu à vista de dona Dilma. Não nos esqueçamos de que, antes de ocupar o trono presidencial, a senhora Rousseff foi titular do Ministério de Minas e Energia, da Casa Civil e, para coroar, presidente do conselho de administração da Petrobrás.

A presidente não precisa se mostrar tão irritada. Pode suspender essa encenação que já não impressiona ninguém. Truque antigo perde a graça.

Filho de brasileiros

José Horta Manzano

Faz mais de seis meses que um bando de insurgentes autodenominado Ejército del Pueblo Paraguayo raptou um adolescente. Desde então, numa das modalidades criminosas mais repugnantes, o refém vem sendo mantido em cativeiro.

Filho de brasileirosO jovem, de pai e mãe brasileiros, nasceu no país vizinho. Dado que o Paraguai, exatamente como o Brasil e os outros países americanos, concede cidadania a todo aquele que nascer em seu território, o moço tem a nacionalidade paraguaia.

No entanto, o fato de ser detentor de um passaporte guarani não lhe cassa o direito à nacionalidade originária, legada pelos pais. Antes de ser paraguaio, o rapaz já era brasileiro por direito de sangue. Já nasceu com direito à nacionalidade verde-amarela. Está na Constituição.

Esse direito à nacionalidade paterna já lhe calhava antes mesmo do nascimento. Tivesse visto a luz nalgum outro país do continente americano, teria também dupla cidadania: a dos genitores e a do país de nascimento. No entanto, se tivesse nascido na Europa ou na maioria dos países fora da América, teria direito a uma só nacionalidade: a de seus pais. Pessoalmente, não sei de nenhum país europeu que conceda automaticamente a nacionalidade aos filhos de estrangeiros, ainda que nasçam em território nacional.

Expat 1O Brasil outorga a cidadania aos nascidos no território. Por extrapolação, costumamos imaginar que essa prática seja comum a todos os outros países. Não é. Universal é a transmissão da cidadania do pai (ou da mãe) para os filhos. Atribuir a nacionalidade por razão de nascimento no território é exceção. Prende-se a razões históricas e limita-se, em princípio, aos países do continente americano.

Todos os jornais brasileiros – todos, não vi exceção – vêm noticiando que «filho de brasileiros» foi (e continua) sequestrado no Paraguai. Com isso, subentendem que se trata de um jovem estrangeiro que, por acaso, é descendente de brasileiros. Não é assim. Filho de brasileiros, o rapaz herdou, além do patrimônio genético, a nacionalidade. Diga-se, portanto, que «adolescente brasileiro» continua sequestrado e mantido em cativeiro privado no Paraguai.

Afinal, filhote de gato, só porque nasce no forno, não é biscoito.

Dilma campeã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Segundo informações do mui oficial TRE paulista, repercutidas pela revista Veja, dona Dilma foi campeã estourada de votos. Obteve 51% do total, seguida de longe por dona Marina (22%). Deixou na rabeira o senhor Aécio, que não passou de 9%.

Prisioneiro 2Vale ressaltar um detalhe assaz importante: o levantamento se refere ao voto dos inquilinos dos presídios do Estado. Se dependesse da vontade dessa fatia do eleitorado, dona Dilma estaria reeleita já no primeiro turno.

Como disse? Afinidade de objetivos? Vire essa língua suja pra lá, sô!

La queue d’une poire

José Horta Manzano

«Elle ne se prend pas pour la queue d‘une poire»ela não se considera o cabinho de uma pera. É o que costumam dizer, jocosamente, os franceses diante de uma pessoa que se dá muita importância. «Ela se acha», expressão da moda, dá o mesmo recado.

Dona Marina Silva tenta vender seu apoio ao senhor Aécio Neves a preço de ouro. Apresentou uma lista de exigências que incluem fixação da idade da maioridade penal, demarcação de terras de indígenas, reforma agrária, benesses para estudantes.

Em resumo, dona Marina pretende implantar seu programa por procuração. Conquanto ache a intenção louvável, acredito que a candidata esteja exagerando na dose. Não se deve prensar ninguém contra a parede. Se o candidato Aécio aceitar a fieira de exigências, estará mostrando que age exatamente como aqueles que pretende combater: verga-se e “faz o diabo” para amealhar votos.

Crédito: mademoisellestef.com

Crédito: mademoisellestef.com

O grande mal da política brasileira, potencializado estes últimos 12 anos, é justamente o fato de políticos venderem a alma ao diabo em troca de dinheiro, de benesses ou de um punhado de votos. O candidato Aécio não pode, decentemente, aquiescer a todas as demandas de dona Marina. O programa dele é o programa dele. O dela é o dela. Se há pontos antagônicos, deve prevalecer a visão daquele que ainda tem chance de se eleger.

Alguém precisa lembrar a dona Marina que mingau se come pelas bordas. Não convém enfiar a concha no meio da gamela, que o perigo de se queimar é tremendo. Acordo político não se faz por intermédio da mídia, muito menos diante das câmeras. Acertos e ajustes devem ser discutidos nos bastidores. Dá muito mais certo e ninguém perde a face.

Ao tornar públicas as condições que impõe para conceder seu apoio, a candidata derrotada dá um passo sem volta. Caso o candidato sobrevivente não concorde, como é que fica? Marina engolirá a cobra e o lagarto em público? Ou denegará seu apoio?

Vamos mais longe. Suponhamos que, mesmo sem o apoio de Marina, Aécio chegue lá. Já pensou como fica a situação da acriana? Pode significar seu fim político.

Ela deveria ser mais comedida e mais prudente em seus reclamos. Teria tudo a ganhar.