Com claque e sem vaia

José Horta Manzano

Vaia 1Na virada do século 19 para o 20, a ópera andava muito na moda. Antes do disco, da tevê, do rádio e do cinema, espetáculo musical ou teatral tinha de ser assistido ao vivo. Dado que conjugava música com teatro, ópera fazia sucesso e atraía plateias populares.

Para aparentar sucesso de arromba e assegurar artigos elogiosos nos jornais do dia seguinte, cantores costumavam contratar uma claque. Era um grupo de mercenários incumbidos de aplaudir estrepitosamente o desempenho do artista por conta do qual trabalhavam. A um sinal discreto do chefe da tropa, choviam aplausos fenomenais.

Ao final do espetáculo, dirigiam-se os componentes da claque a um lugar discreto onde, em fila, se preparavam para receber o pagamento combinado. Antes de embolsar os cobres, passavam pela inspeção. Suas mãos eram palpadas. Só fariam jus ao soldo se as palmas estivessem quentes, vermelhas, sinal evidente de que haviam aplaudido com vigor. Hoje em dia, espetáculos ao vivo dispensam claque. Fazem sucesso sem estímulos forçados.

Aplauso 1Ontem, no entanto, assistimos a uma emocionante viagem ao passado. Para amenizar a saída inglória ‒ por debaixo da rampa do Planalto, diga-se de passagem ‒, dona Dilma recorreu ao antigo truque. Pequena tropa estava ali, constituída em boa parte de mulheres devidamente paramentadas de vermelho. Palavras de ordem foram regularmente escandidas aos brados. Aplausos e gestos enérgicos não faltaram.

Foi uma comovente volta no tempo, o coroamento apoteótico de uma era de regressão. Esperamos todos que, daqui pra frente, o Brasil volte a funcionar. Esperamos todos que a simbólica ressurreição da claque tenha significado o enterro do retrocesso.

A mídia não registrou a fila da palpação das mãos.

¡Me alegro!

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Em 2002, não éramos muitos a descrer. A grande maioria tinha esperança de que o governo do recém-eleito presidente Luiz Inácio da Silva seria benéfico. Alguns meses antes, tinha sido publicada a Carta aos Brasileiros, documento no qual o então candidato renegava a parte ideológica do programa de seu partido e se comprometia a respeitar tratos em vigor.

Pessoalmente, não acreditei. Quando a esmola é muita, o santo desconfia – já dizia minha velha avó. A maioria dos eleitores, no entanto, deu ao candidato crédito de confiança e alçou-o ao Planalto.

Não demorou muito, espocou o escândalo do mensalão. Embora ninguém antecipasse, já estavam ali delineadas as primícias do caudaloso petrolão. E sabe Deus que revelações ainda estão por vir.

Em 2002, não éramos muitos a sentir cheiro de retrocesso. Do mensalão pra cá, o cortejo dos desapontados foi engrossando. Entre descrentes e decepcionados,  somos hoje 90% da população.

Chamada da Folha de São Paulo, 11 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 11 nov° 2015

Com alívio, abrimos os braços para receber mais um membro no clube. Não é um cidadão qualquer. Embora costume alegar que não sabia de nada, o homem sabe das coisas: é o Luiz Inácio, o mesmo que já presidiu o Executivo.

Assinou ontem a carteirinha de sócio. Passeando pela Colômbia, declarou que, finalmente, também ele «sente cheiro de retrocesso». Não só no Brasil, mas em toda a América do Sul. Demorou!

Enfim, chegamos lá! Estamos todos de acordo. O retrocesso, que começou com a gestão de nosso guia na presidência, não só continuou como se acelera. Estamos regredindo cada vez mais rápido.

É bom que o antigo presidente se tenha dado conta. É reconhecimento tardio mas… antes tarde que nunca. ¡Me alegro! – como diriam os castelhanos.

Os escândalos, a caravana e a banda

José Horta Manzano

Briga 4As consequências do mensalão e do petrolão não são apenas financeiras. Atingem o momento econômico e perturbam o planejamento do Brasil de amanhã.

Faz quase dez anos que o País, estarrecido, assiste ao interminável desfile de acusações, contra-acusações, afirmações, negações, imputações, absoluções. Quando a gente acha que chegou ao clímax, aparece novidade mais espetaculosa.

Políticos, sociólogos, filósofos, ministros, artistas, jornalistas, empresários – enfim, os integrantes da nata que detém o poder – se engalfinham de embolada. Faz dez anos que o Brasil está paralisado.

Por falta de previsão e erros de aplicação, planos apresentados como salvação da lavoura deram em nada. Bifurcação do Rio São Francisco, trem-bala, exploração do pré-sal, programa espacial, extinção do desmatamento, elevação do nível de ensino, consolidação de infraestrutura rodoviária e ferroviária – tudo isso ficou no papel.

by Armand

by Armand “Apfel” Feldmann, artista francês

A corrupção, sozinha, não justifica todo esse empacamento. Corrupção, posto que nunca antes tenha atingido a magnitude atual, sempre existiu. Assim mesmo, o Brasil progrediu.

Discussão 3A incompetência tampouco é explicação para a estagnação. Nossos dirigentes nem sempre foram competentes. Assim mesmo, o Brasil progrediu.

Crises externas não servem de pretexto para o marasmo atual. Crises, tensões, conflitos, guerras sempre houve. Nem por isso, nosso País retrogradou.

Sabe o distinto leitor qual é o ingrediente que, mal percebido, junta-se às mazelas nacionais endêmicas e as reforça? Pois é justamente a exacerbação desses males congênitos, trazida à tona pelo mensalão e pelo petrolão.

Ponhamos em outros termos. Apesar da corrupção crônica e da incompetência difusa, o Brasil de 2015 é, em muitos aspectos, melhor que o de um século atrás. Bem ou mal, o País vinha desempenhando razoavelmente.

Discussão 1No entanto, estes últimos anos, petrolão e mensalão baralharam as cartas. Desmilinguiu-se o pouco que havia de competência para pensar o Brasil do futuro. O tempo e o esforço dos mais capazes tem sido consumido na fogueira dos escândalos.

Juristas, psicólogos, historiadores, sociólogos, antropólogos e outros eruditos não fazem outra coisa senão tecer considerações sobre os excessos que vêm sendo revelados a cada dia. É afligente ver desperdiçada tanta massa cinzenta, que seria tão mais útil se estivesse esboçando o Brasil de amanhã.

by Sinval Fonseca, artista brasileiro

by Sinval Fonseca, artista brasileiro

O decênio de 1980 ficou na história do Brasil como «a década perdida». Que nome darão os historiadores do futuro ao período túrbido que começou em 2005? Que nome se deve dar a um tempo que a gente terá passado se estapeando, sem preocupação com o amanhã, enquanto outros povos pavimentavam, previdentes, o próprio futuro? Quantos degraus teremos descido no processo civilizatório? Quem viver verá.

Enquanto a caravana passa e nos ultrapassa, nós, bobões, continuamos ladrando. Vendo a banda passar.

Jó e Abraão

José Horta Manzano

Fica cada dia mais palpável que os donos do poder, aterrorizados com o embalo da diligência, andam perdendo o discernimento. Más línguas dizem que discernimento é justamente o que nunca tiveram, mas é melhor não começar a discutir isso, que é debate para dias e semanas.

Marcha a ré 1Por que será que se nota tanto nervosismo pelas bandas do Planalto? É sabido que o poder, mormente na versão longa duração, desgasta. Faz já 12 anos que nos martelam o mesmo disco, as mesmas fórmulas, as mesmas promessas, as mesmas esfarrapadas explicações. E que continuamos obrigados a engolir frustrações, fracassos e uma interminável lista de malfeitos. Escândalos espocam feito bombinha de são-joão. O sentimento de insegurança explode.

Vai chegando uma hora em que palavras, anúncios e promessas deixam de fazer efeito. A lavada que os que nos governam estão levando nestas eleições é prova de que há muita frustração acumulada.

Tenho um amigo que, ao receber convite para viajar durante o mês de outubro, retrucou, firme: «Agradeço, mas não vou de jeito nenhum. Ajudei a botar essa gente lá, agora tenho de ajudar a mandá-los embora. Vou votar.». Juro que não é invenção minha.

Dona Dilma – ou seus aspones, é difícil saber – andou escrevendo no tuíter que os adversários representam o retrocesso. Expressão estúpida, que, como bumerangue, atinge a presidente em plena testa.

Retrocesso

A esmagadora maioria dos eleitores da presidente ignora o significado dessa palavra. Portanto, para essa fatia do eleitorado, movida por outros interesses, o falar chique dos gênios da comunicação presidencial é inócuo.

Já os que conhecem essa palavra, mais esclarecidos, sabem que, ao contrário do que afirma, dona Dilma – essa sim! – é a personificação do retrocesso. Conseguiu completar a pauta da regressão que já havia sido traçada por seu antecessor. O retrocesso destes últimos anos assume características múltiplas.

Os brasileiros mais pobres voltaram aos tempos do coronelismo, que imaginávamos sepultos. O paternalismo – e sua consequência mais daninha, a compra de votos – ressuscitou e se revigorou.

A pauta de exportações do Brasil regrediu ao que costumava ser nos tempos imperiais: o País se afirma, cada dia mais, exportador de matéria-prima. A desindustrialização se acentua.

Marcha a ré 2De receptor de imigrantes, o Brasil passou a emissor. Temos hoje menos de um milhão de estrangeiros no País, enquanto três milhões de brasileiros batalham no exterior.

Até no futebol, regredimos. Concedo que a presidente não tem a culpa (integral). Mas, para azar dela, vaias e derrotas aconteceram sob sua gestão. E na sua presença.

Portanto, acusar o adversário de trazer consigo o retrocesso é falso e, no mínimo, desastrado.

Entre os apoiadores da presidente, o argumento não é compreendido. Passa batido.

Entre os que rejeitam a candidata, a alegação só faz reforçar o sentimento de que a campanha se baseia em engodo.

Finalmente, entre aqueles que, embora já não vivam nas trevas, ainda não escolheram candidato, a falácia periga precipitar a decisão de votar no adversário. Afinal, todos se dão conta de que o País regrediu, e ninguém gosta de ser feito de bobo.

Nem paciência de Jó aguenta mais tanta incoerência. Nem fé de Abraão acredita mais em tanta mentira.