O mingau

José Horta Manzano

O pedido de prisão de nosso guia, feito pelo MP de São Paulo, está dando pano pra mangas. A notícia apanhou meio mundo de surpresa. Todos imaginávamos que viria um dia, mas ninguém acreditava que o pedido fosse feito agora. Até a televisão suíça dedicou um bloco ao assunto.

Analistas, que ainda não tiveram tempo pra digerir a notícia, emitem opiniões contrastadas. Há os entusiastas incondicionais, que aplaudiram de pé. Há os moderados, que enxergam nessa informação um lado bom mas um caminho pedregoso. Há, por fim, os reticentes, que acreditam que o pedido de prisão foi intempestivo, despropositado. Quanto a mim, não me encaixo em nenhuma das categorias, muito pelo contrário!…

Mingau 1Acredito que, se o pedido for excessivo, o juiz designado não o acolherá. Muitos cogitam que a súbita intromissão do MP paulista possa “enfraquecer” a Operação Lava a Jato ‒ seja lá o que isso possa querer dizer.

Quanto a mim, não acredito que o que ocorreu ontem tenha influência nas investigações diligenciadas desde que a Lava a Jato foi lançada. Não me parece que nosso guia saia desse episódio reconfortado. As evidências e os indícios de crimes e de ilegalidades acumulados até agora são uma baciada.

IMingau 2Isso tudo me faz lembrar esses filmes americanos em que aparece briga de soco. Nenhum dos contendores vai a nocaute com um golpe só. Um dá um soco, o outro cai, levanta-se, revida, o primeiro cai, levanta-se, revida. E assim por diante. A cada pancada, o bandido vai ficando mais fraquinho. No final, o mocinho sempre vence. Pelo menos, nos filmes.

Ainda que nosso guia não vá para trás das grades desta vez, o golpe não há de lhe ter feito bem. Se ainda não se esborrachou no chão, está cada dia mais combalido. O personagem que já foi visto como semideus vai-se dessacralizando inexoravelmente.

Como se diz nas Minas Gerais, mingau se come pelas bordas. Não convém enfiar a concha no meio da gamela, que o perigo de se queimar é tremendo. Vamos com calma que, aos pouquinhos, o prato se vai esvaziando.

La queue d’une poire

José Horta Manzano

«Elle ne se prend pas pour la queue d‘une poire»ela não se considera o cabinho de uma pera. É o que costumam dizer, jocosamente, os franceses diante de uma pessoa que se dá muita importância. «Ela se acha», expressão da moda, dá o mesmo recado.

Dona Marina Silva tenta vender seu apoio ao senhor Aécio Neves a preço de ouro. Apresentou uma lista de exigências que incluem fixação da idade da maioridade penal, demarcação de terras de indígenas, reforma agrária, benesses para estudantes.

Em resumo, dona Marina pretende implantar seu programa por procuração. Conquanto ache a intenção louvável, acredito que a candidata esteja exagerando na dose. Não se deve prensar ninguém contra a parede. Se o candidato Aécio aceitar a fieira de exigências, estará mostrando que age exatamente como aqueles que pretende combater: verga-se e “faz o diabo” para amealhar votos.

Crédito: mademoisellestef.com

Crédito: mademoisellestef.com

O grande mal da política brasileira, potencializado estes últimos 12 anos, é justamente o fato de políticos venderem a alma ao diabo em troca de dinheiro, de benesses ou de um punhado de votos. O candidato Aécio não pode, decentemente, aquiescer a todas as demandas de dona Marina. O programa dele é o programa dele. O dela é o dela. Se há pontos antagônicos, deve prevalecer a visão daquele que ainda tem chance de se eleger.

Alguém precisa lembrar a dona Marina que mingau se come pelas bordas. Não convém enfiar a concha no meio da gamela, que o perigo de se queimar é tremendo. Acordo político não se faz por intermédio da mídia, muito menos diante das câmeras. Acertos e ajustes devem ser discutidos nos bastidores. Dá muito mais certo e ninguém perde a face.

Ao tornar públicas as condições que impõe para conceder seu apoio, a candidata derrotada dá um passo sem volta. Caso o candidato sobrevivente não concorde, como é que fica? Marina engolirá a cobra e o lagarto em público? Ou denegará seu apoio?

Vamos mais longe. Suponhamos que, mesmo sem o apoio de Marina, Aécio chegue lá. Já pensou como fica a situação da acriana? Pode significar seu fim político.

Ela deveria ser mais comedida e mais prudente em seus reclamos. Teria tudo a ganhar.