Medalhistas indignos

José Horta Manzano

Imagine o distinto leitor que houvesse uma edição dos Jogos Olímpicos a cada três meses, num total de quatro por ano. Perderia toda a graça, não? Tudo o que é demais perde importância e acaba cansando. Uma das lindezas da Olimpíada é a rarirade. Quanto mais espaçadas as edições, maior será a expectativa.

Em pleno embalo gerado pela participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, nasceu a Ordem do Mérito Aeronáutico. Exército e Marinha já tinham criado insígnias honoríficas para homenagear seus benfeitores. A Aeronáutica não podia ficar atrás. Um decreto-lei de novembro de 1943, assinado pelo ditador Getúlio Vargas, criou a condecoração. O propósito era distinguir personalidades ‒ militares ou civis ‒ que tivessem prestado serviços relevantes às Forças Aéreas.

Ordem do Mérito Aeronáutico 1Nos primeiros tempos, os agraciados foram poucos, quase todos militares. Durante os primeiros vinte anos, apenas 50 cidadãos, em média, receberam a medalha a cada ano. Já nos anos 1970, a condecoração foi distribuída a perto de 140 pessoas por ano. Entre 1980 e 1994, o número de premiados subiu para 215 anuais. A era FHC, de 1995 a 2002, manteve a média de 220 agraciados por ano.

Já não era pouca gente, mas o Lula fez melhor. Durante seus oito anos no Planalto, outorgou a medalha a 313 cidadãos por ano, 42% a mais do que na era FHC. Doutora Dilma, então, promoveu verdadeira “socialização” da condecoração. Durante seus cinco anos de mandato, 490 pessoas receberam a distinção anualmente, num aumento de 56% com relação ao governo de nosso guia.

Entre os que tiveram direito à honra no governo Dilma, estavam os notórios heróis do povo brasileiro José Dirceu e José Genoino, personagens que, como sabemos todos, prestaram inestimáveis serviços à nação e à Aeronáutica em especial. Faça-me o favor! Tem limite pra tudo.

Genoino e DirceuUm decreto do ano 2000, bem anterior à atribuição da medalha a nossos heróis, regulamenta a atribuição da honraria. Um de seus artigos determina que serão excluídos da Ordem agraciados que tiverem sido condenados pela justiça brasileira por crimes contra o erário ‒ entre outros. Os «heróis» se enquadram nesse caso.

Durante o governo da doutora, enquanto o lulopetismo ainda parecia poderoso, o alto comando da Aeronáutica hesitou e fez cara de paisagem. Preferiram descumprir um preceito legal a desagradar a turma do andar de cima. A distinção dos dois condenados foi vergonhosamente mantida.

Com o governo titubeante da doutora escorrendo pelo ralo, o Comando da Aeronáutica decidiu agir. Por meio de portaria publicada semana passada no Diário Oficial da União, os medalhistas indignos foram excluídos da Ordem. A justiça tarda mas não falha.

Diário Oficial da União, 18 ago 2016

Diário Oficial da União, 18 ago 2016

Nem todoas as doze mil pessoas agraciadas desde que a Ordem foi criada hão de ter sido benfeitoras das Forças Aéreas. É plausível que, desde o começo, compadrio e corporativismo tenham influído na escolha de comendadores, oficiais e cavaleiros. Em outros termos: tem muito lixo aí. Com tantos membros, já faz tempo que a Ordem anda meio chinfrim. É como Olimpíada quatro vezes por ano.

Mas é fato que o caso de nossos dois «heróis» ‒ caídos, julgados, condenados e presos ‒ passou dos limites. Não se podia deixar como estava. A justiça às vezes pode tardar, mas, um dia, acaba golpeando.

Lasciate ogni speranza…

José Horta Manzano

Inferno de Dante by Salvador Dalí (1904-1989), Marquês de Dalí de Púbol

Inferno de Dante
by Salvador Dalí (1904-1989),
Marquês de Dalí de Púbol

Muitos têm a nítida sensação de que o País mergulha, cada dia mais fundo, num lamaçal espesso. O líquido visguento abraça todos os viventes, reboca todas as coisas, tolda a visão, baralha as ideias e embaça o discernimento.

Muitos acham que era preferível viver num país mais pobrezinho do que num atoleiro rico mas inglório. «Somos pobres, mas honrados!» – é divisa que deixou de fazer sentido.

Muitos sentem saudade de um tempo em que, embora andássemos a pé, íamos na certeza de chegar ao destino sãos e salvos. Sequer nos passava pela cabeça que algum perigo nos rodeasse.

Muitos lembram com nostalgia o tempo em que vaga em escola pública era valorizada e disputada. Pode parecer exagero para os que não conheceram aqueles tempos, mas é verdade: em certos estabelecimentos públicos de maior prestígio, só entrava quem dispusesse de um bom pistolão – hoje diríamos recomendação ou «Q.I.».

Alguns ainda se recordam que político de alto coturno podia ser processado e condenado por ter-se apoderado de objeto pertencente ao patrimônio público. Um caso retumbante envolveu Adhemar de Barros, destacada figura política dos anos 40 e 50. O figurão foi um dia processado por ter levado pra casa um pote de barro, no episódio que passou à história como o da urna marajoara.

Sem admitir abertamente, muita gente deposita numa intervenção militar suas últimas esperanças de tirar o País do charco em que se afunda a cada dia. Dá pra entender. Nós, contribuintes ignaros, estamos descobrindo os capítulos de tenebrosa novela que nos dá detalhes de como a maior empresa do Brasil foi saqueada por uma camarilha de cidadãos da elite que habita o andar de cima. Pior, mesmo, é saber que tudo isso terminará em nada. Alguém duvida?

Sem admitir abertamente, muita gente deposita numa intervenção militar a última esperança de arrancar o País do atoleiro. Que percam toda fantasia, que abandonem toda ilusão. Tudo indica que os uniformizados continuarão no banco de reservas, timoratos e paralisados.

Inferno de Dante - Mosaico do Batistério de Florença

Inferno de Dante – Mosaico do Batistério de Florença

Como é que eu sei? Transcrevo aqui o ponto levantado pelo sempre bem informado jornalista Claudio Humberto em seu Diário do Poder, 11 out° 2014.

Interligne vertical 10«Os comandantes do Exército e da Aeronáutica se fingem de mortos. Dois anos após a condenação por corrupção dos mensaleiros José Genoino e José Dirceu, ainda não cumpriram a legislação que os obriga a cassar as condecorações concedidas à dupla de presidiários. Ambos têm medo de contrariar a cúpula do PT e sobretudo a presidente Dilma. A condenação da dupla completou dois anos no dia 3 passado.

O Decreto n° 3446/2000, ignorado pelos comandantes, manda cassar medalhas de condenado por crime contra o erário, como é o caso.

José Genoino foi homenageado com a Medalha do Pacificador, uma das mais importantes do Exército. E a mantém até hoje.

José Dirceu ganhou a condecoração da Ordem do Mérito Aeronáutico, também entregue a Genoino quando ele era réu do mensalão, no STF.

O Ministério da Defesa e os comandantes militares se escondem para não dar explicações sobre o medo de cumprir a lei e cassar medalhas.»

Interligne 18b

(*) Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate – Abandonai toda esperança, vós que entrais.
Transcrição, em italiano moderno, de ultracitado decassílabo da Divina Commedia do poeta Dante Alighieri (1265-1321).
A advertência aparece no Canto Terceiro da terrível descrição do inferno e dirige-se a todos os que chegam.