De revoluções

Sebastião Nery (*)

Antes
Em 1952, Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. O saudoso David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes e esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina.

Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castillo, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico e estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde queria ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista adotivo de São José do Rio Preto, autor do segundo projeto de reforma agrária apresentado no Congresso (o primeiro tinha sido o do baiano Nestor Duarte).

guatemala-1Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá, acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando os ideais do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castillo Armas derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México.

Em 1958, reapareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes e esbugalhados implantou a reforma agrária em Cuba, baseada no projeto do deputado Coutinho, o paulista adotivo de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara. Ia encontrar-se com Fidel Castro em Sierra Maestra.

charuto-1Depois
Vitorioso em Cuba, em 1959 Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha ofereceu-lhe um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro-ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos em Cuba.

– Pois posso assegurar ao senhor que só fuzilei os ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Adhemar de Barros.

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(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Campeões das reformas

Ruy Castro (*)

Lula e Dirceu 2Os políticos de esquerda costumam lutar por reformas – agrária, política, bancária, fiscal, urbana, universitária, administrativa – e pagar caro por isso. O statu quo, por definição, não gosta de reformas e combate os políticos que tentam promovê-las.

O ex-presidente Lula também é partidário de reformas. Mas, cioso de seus amigos das elites, limita-se a reformas mais modestas. Uma delas, a do triplex que ele diz não ter comprado no edifício Solaris, na praia das Astúrias, Guarujá (SP). Por que alguém faria reformas num apartamento que não lhe pertence é um mistério. E por que sua mulher, dona Marisa, vivia visitando o apê se nunca iriam morar lá só ela e Lula – por enquanto – sabem.

Pode haver coisa pior do que uma reforma? Começa-se trocando uma escada comum por outra em caracol e, de repente, já se quer instalar um elevador privativo, só para os bacanas. Um rodapé de madeira torna-se de porcelana e, num instante, o porcelanato toma também as paredes das salas de estar, jantar e TV. Dona Marisa fez tudo isso no triplex que não é de Lula. Por sorte, os 777 mil reais que a obra custou lhe saíram de graça, cortesia de uma gentil construtora.

Lula e Dirceu 3Outra reforma pela qual Lula lutou foi a de um sítio de 173 mil metros quadrados em Atibaia, que também não lhe pertence, mas a sócios de seu filho. A obra envolveu construir ou ampliar um pavilhão, churrasqueira, piscina, campo de futebol e converter um lago em tanque de peixes – quase uma reforma agrária. E, que bom, ela também lhe foi oferecida pela construtora.

Igualmente campeão das reformas é o ex-ministro José Dirceu – no caso, a de seu próprio sítio em Vinhedo (SP), no valor de 1,8 milhão de reais, pago por um lobista. Dirceu nem precisou lançar mão da vaquinha que, um dia, seus correligionários fizeram para socorrê-lo. Lembra-se?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Pátria educadora – 2

Cláudio Humberto (*)

Beca 1A Universidade Federal do Paraná abriu 60 vagas no curso de Direito especialmente reservadas para os “beneficiários do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária”.

Se dinheiro sobra para financiamento de estudo dos sem-terra, falta para o Ministério da Educação. Com a crise financeira, o governo cortou R$ 1 bilhão no orçamento do seu ministério “mais importante”.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

La queue d’une poire

José Horta Manzano

«Elle ne se prend pas pour la queue d‘une poire»ela não se considera o cabinho de uma pera. É o que costumam dizer, jocosamente, os franceses diante de uma pessoa que se dá muita importância. «Ela se acha», expressão da moda, dá o mesmo recado.

Dona Marina Silva tenta vender seu apoio ao senhor Aécio Neves a preço de ouro. Apresentou uma lista de exigências que incluem fixação da idade da maioridade penal, demarcação de terras de indígenas, reforma agrária, benesses para estudantes.

Em resumo, dona Marina pretende implantar seu programa por procuração. Conquanto ache a intenção louvável, acredito que a candidata esteja exagerando na dose. Não se deve prensar ninguém contra a parede. Se o candidato Aécio aceitar a fieira de exigências, estará mostrando que age exatamente como aqueles que pretende combater: verga-se e “faz o diabo” para amealhar votos.

Crédito: mademoisellestef.com

Crédito: mademoisellestef.com

O grande mal da política brasileira, potencializado estes últimos 12 anos, é justamente o fato de políticos venderem a alma ao diabo em troca de dinheiro, de benesses ou de um punhado de votos. O candidato Aécio não pode, decentemente, aquiescer a todas as demandas de dona Marina. O programa dele é o programa dele. O dela é o dela. Se há pontos antagônicos, deve prevalecer a visão daquele que ainda tem chance de se eleger.

Alguém precisa lembrar a dona Marina que mingau se come pelas bordas. Não convém enfiar a concha no meio da gamela, que o perigo de se queimar é tremendo. Acordo político não se faz por intermédio da mídia, muito menos diante das câmeras. Acertos e ajustes devem ser discutidos nos bastidores. Dá muito mais certo e ninguém perde a face.

Ao tornar públicas as condições que impõe para conceder seu apoio, a candidata derrotada dá um passo sem volta. Caso o candidato sobrevivente não concorde, como é que fica? Marina engolirá a cobra e o lagarto em público? Ou denegará seu apoio?

Vamos mais longe. Suponhamos que, mesmo sem o apoio de Marina, Aécio chegue lá. Já pensou como fica a situação da acriana? Pode significar seu fim político.

Ela deveria ser mais comedida e mais prudente em seus reclamos. Teria tudo a ganhar.