A acolhida dos refugiados

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José Horta Manzano

Já vi muita imagem de refugiado sendo acolhido em país que não é o seu. Já vi muita imagem de cidadão que, por motivo de guerra ou sequestro, foi fotografado na volta ao país natal. Todos chegam sorridentes. É sorriso de cansaço, mas sabem que é o último esforço antes de poder sossegar.

O que nunca vi é refugiado ou repatriado chegar ostentando a bandeira do pais natal ou do país que o acolhe. É imagem rara. Que eu me lembre, só cheguei a ver coisa parecida quando a doutora importou profissionais cubanos no âmbito do programa Mais Médicos, lembram-se? Eram aqueles que já vinham de jaleco – um contrassenso, visto o risco de contaminação –, todos agitando uma bandeirinha de Cuba e outra do Brasil.

O instantâneo estampado acima foi colhido em 10 de março, quando desembarcaram algumas dezenas de cidadãos provenientes da Ucrânia. Deviam estar todos pra lá de cansados. Dependendo da cidade ucraniana de onde cada um vinha, já tinha cumprido uma jornada de dias de perigo pra chegar a Varsóvia, ponto de embarque no aviãozinho da FAB.

Em seguida, dado que o pequeno aparelho não tem autonomia para ir muito longe sem reabastecer, tiveram de fazer quatro escalas: em Lisboa, depois em Cabo Verde (no meio do Atlântico), em seguida no Recife, para, finalmente pousar em Brasília sob aquele sol do meio-dia. Imagine em que estado chega alguém que saiu do inverno ucraniano, viajou sabe-se lá quantos dias e quantas noites fugindo de canhão, chacoalhou sentado num banco improvisado dentro de avião cargueiro, e desembarca no escaldante cerrado braziliense.

A meu ver, o que mais esse pessoal queria era poder espichar as pernas numa cama confortável e se deliciar com a sombra e o silêncio de um hotel qualquer. Mas Bolsonaro não liga pra essas coisas. Sofrimento alheio, pra ele, não conta. Enquanto ele e a família não estiverem em perigo, os outros que se danem. Todos tiveram de se alinhar, de pé, em cima do concreto, plantados ao lado do corpo metálico do bojudo avião, sem nada que lhes protegesse a cabeça.

O mais curioso é que, como por milagre, apareceram 10 ou 12 bandeiras, todas de mesmo tamanho e de mesmo feitio. Foi solicitado aos participantes que exibissem o símbolo nacional. Foi tão espontâneo, que alguns nem sabiam como segurar o lindo pendão da esperança.

Repare na foto. Tem um que “entornou” a flâmula, exibindo-a como livro em prateleira, daqueles que a gente tem de torcer o pescoço se quiser ler o dorso. Pior ainda, tem outra que segurou nosso símbolo maior… de cabeça pra baixo! (Fosse no tempo dos militares, seria chamada a prestar esclarecimentos no quartel mais próximo.)

Até o momento em que escrevo, perto de dois milhões (yes, dois milhões!) de cidadãos ucranianos já foram acolhidos na fronteira polonesa. Nem o presidente do país foi lá apertar mãos, nem a primeira-dama foi dar beijinhos. Ninguém distribuiu bandeiras para mostrar às câmeras. Presidente de país sério costuma ter mais que fazer. E as equipes designadas para a acolhida conhecem as necessidades urgentes dos refugiados: comida quente, água e uma cama quentinha o mais rápido possível.

O capitão precisa fazer um estágio fora do país. Não há muita esperança de ele aprender, mas não custa tentar.

Curiosidade
Ninguém se preocupou muito com isso, mas o fato é que Bolsonaro não discursou. Para um homem que, além de ter o costume de falar pelos cotovelos, está em desabrida campanha eleitoral, pode parecer estranho. Tenho cá uma explicação.

Os filhos e os áulicos devem ter recomendado vigorosamente a ele que não abrisse a boca diante de microfones. Sabem por quê? Porque fica difícil dirigir-se a um grupo que escapou de uma guerra sem pronunciar a palavra “guerra”.

Cairia muito mal que Bolsonaro – que não esconde sua admiração por Putin, nem o apoio indisfarçado que dá ao ditador russo – falasse em guerra, quando essa palavra está proscrita da ‘narrativa’ oficial russa. Pelas bandas de Moscou, quem ousar se referir à invasão da Ucrânia como “guerra” arrisca passar uma dúzia de anos nos gelos siberianos. Preso.

O capitão, que é meio bobão, era bem capaz de escorregar. Vai daí, foi compelido a calar o bico. Melhor assim. Já imaginaram, logo ele, que zombou do Lula quando foi preso no conforto de uma cela cinco estrelas em Curitiba, acabar encarcerado numa masmorra siberiana?

Virolahti

José Horta Manzano

A cidadezinha finlandesa de Virolahti, de apenas 3.400 habitantes, tem história movimentada. Fundada nos anos 1300, já mudou de dono diversas vezes. Já pertenceu ao Reino da Suécia, ao Império Russo, à República Finlandesa, à União Soviética. Desde 1944, voltou a fazer parte do território finlandês.

Goza de uma particularidade geográfica: é fronteiriça com a Rússia. Só que isso é faca de dois gumes: por um lado, causa apreensão; por outro, é bastante interessante do ponto de vista econômico. Colada à fronteira entre a Finlândia e a Rússia, a cidadezinha tornou-se, nos últimos anos, o ponto de passagem mais movimentado entre os dois países. Em certos momentos do ano, gigantescos congestionamentos se formam do lado russo, em consequência da lentidão e do rigor da alfândega daquele país, que ainda não perdeu certos maus hábitos herdados da era soviética.

A relativa proximidade entre Virolahti e São Petersburgo, segunda maior cidade da Rússia, alimenta o tráfego estimado em 2 milhões de pessoas que cruzam a fronteira a cada ano. A metrópole russa está a menos de 200km por estrada, distância que muitos cobrem num bate-volta no mesmo dia.

Há finlandeses que visitam a Rússia, sem dúvida, mas não são muitos. O grosso do movimento vem em sentido contrário: são russos que passam a fronteira com o único objetivo de comprar certos artigos impossíveis de encontrar em seu país. Há que lembrar que a Finlândia é membro da União Europeia, enquanto a Rússia ainda não se recuperou totalmente do atraso provocado por 70 anos de regime soviético.

De olho nesses “sacoleiros” árticos, a Finlândia construiu um importante centro de compras em Vaalimaa, um distrito de Virolahti situado apenas a 500 metros da fronteira. Para o russo que vem às compras, é ultraprático. Passada a fronteira, é só estacionar nos amplos espaços previstos, entrar na primeira loja e encher a sacola. Há também quem visite várias lojas. Todas, num dia só, é praticamente impossível. Para quem preferir pernoitar, hotéis e restaurantes não faltam.

Os finlandeses já conhecem a preferência dos russos, que vêm sempre atrás dos mesmos artigos: aqueles que não existem do outro lado da fronteira. Os clientes mais apressados já vão encontrar embalagens prontas, cada uma com uma seleção de artigos – alimentos, bebidas, souvenirs. Cada saco pesa exatos 25kg, que é o máximo que a lei russa permite a cada cidadão trazer do exterior. É só escolher o que mais lhe agradar, pagar e pegar a estrada de volta.

A florescente área de comércio de Vaalimaa vinha se expandindo nos últimos anos. Havia até projetos de ampliação, com comércios maiores e mais modernos, a serem construídos por renomados escritórios de arquitetura vindos de longe (Alemanha, Áustria). Mas isso foi antes da pandemia. A partir de março 2020, da noite para o dia, a fronteira se fechou e não passou mais ninguém.

Dois anos mais tarde, logo agora que a covid arrefeceu e a luz começava a aparecer no fim do túnel, catapum! Lá vem Putin com sua guerra estúpida. Os russos estão proibidos de sair do país. De qualquer maneira, ainda que saíssem, seus cartões de crédito não valem mais nada, já que Visa, Mastercard e American Express suspenderam suas operações na Rússia. E o rublo perdeu metade de seu valor, pondo os preços finlandeses bem acima do orçamento do cidadão russo de classe média.

Mais uma vez, ao vilarejo sobram os olhos pra chorar. Quem sabe, dentro de alguns anos, dá pra trabalhar de novo. Se Putin não tiver a péssima ideia de invadir a Finlândia, país neutro. Deus nos acuda!

Observação
Estes dias, em que, na Rússia, os que têm condições de fugir estão fugindo do país, a rota mais movimentada é justamente a linha ferroviária São Petersburgo – Helsinque, com dois trens por dia. Saem lotados. Como conseguem driblar a proibição de sair do país, não me pergunte. Parece que, no país de Putin, quem tem dinheiro consegue tudo.

Só que os que fogem não vêm exatamente pra encher sacolas de compras. De todo modo, o trem passa por Virolahti a toda velocidade, sem parar perto de loja nenhuma.

Fórum diplomático

Fórum Diplomático de Antalya (Turquia)
entre Ucrânia e Rússia

José Horta Manzano

A aceitação, por parte da Rússia, de negociar com a Ucrânia é bom sinal. Semana passada, o Kremlin estava bem mais altivo, confiante numa vitória esmagadora e rápida. O panorama mudou.

Quem está por cima, vencendo uma guerra e destroçando o inimigo, não aceita sentar em volta de mesa nenhuma pra negociar. Negociar o quê? Só aceita rendição incondicional. Aliás, era o que Putin dizia nos primeiros dias da invasão. Suas condições eram claras: rendição incondicional, armas no chão, deposição do governo da Ucrânia.

Hoje, passados quinze dias desde que o primeiro míssil acertou um paiol ucraniano, percebe-se que a belicosidade abrandou. Sente-se que ambos os lados estão dispostos a dar um passo e fazer alguma concessão. O importante é acabar logo com essa carnificina estúpida e inútil. Tem muita gente morrendo de ambos os lados. Por nada.

A solene reunião desta quinta-feira, que se realiza em Antalya (cidade balneária do sul da Turquia), e que reúne, sob patrocínio turco, invasor e invadido, é de alto nível. Cada uma das partes beligerantes enviou o respectivo ministro de Relações Exteriores.

O ucraniano, Dmitro Kuleba, é praticamente desconhecido. Mas o representante russo é Sergei Lavrov, figurinha carimbada. Chegadíssimo a Putin, é seu fiel servidor, escudeiro e ministro há 18 anos – longevidade praticamente impossível de ser atingida em nosso país, dado que a alternância no poder tem vigorado, bem ou mal, desde a redemocratização.

Falando em alternância, me vem à mente que os quase 23 anos de Putin causaram à Rússia um mal infinitamente mais profundo e duradouro que os 13 infelizes anos de lulopetismo no Brasil. Comparados a Vladímir Putin, Lula e Dilma não passam de primeiranistas do aprendizado. Foram desastrados em tudo, até no assalto ao erário.

Se, nas eleições deste ano, conseguirmos nos livrar tanto de Bolsonaro quanto do Lula, a recuperação do país tem chance de se fazer em uma década. (Eu não disse que se fará, mas que “tem chance”.)

Já o buraco em que Putin meteu a Rússia é duradouro. A imagem e a economia do país não estão arranhadas: estão destruídas. Os russos não vão sair do fundo do poço antes de uma geração – a contar do dia em que Putin desaparecer do palco, naturalmente.

A coragem da velhinha da boina

José Horta Manzano

Todos os que se opuseram frontalmente a Vladímir Putin ou foram assassinados ou estão presos. Sobrou um pacifista aqui, um iluminado ali, um resmungão acolá. Nos tempos atuais, ser iluminado, universalista, saudosista, resmungão ou vegano ainda passa. Mas falar em pacifismo em tempo de guerra é pecado mortal.

A polícia do Estado putiniano mantém sempre olho vivo nesses perigosos agitadores. Ao menor sinal, são imediatamente retirados de circulação antes que contaminem outros cidadãos.

Faz alguns dias, Putin fez aprovar novíssima lei que pune com até 15 anos de cadeia quem ousar se opor à invasão da Ucrânia. A mera utilização da palavra guerra (Война = vainá) pode levar o petulante a ser enquadrado como “terrorista” e a incorrer no mesmo artigo de lei.

Com tantos oponentes presos ou envenenados, uma velhinha pequenina, Yelena Osipova, tornou-se o rosto da frágil oposição ao regime. Aos 77 anos de idade, a velha senhora é figura conhecida na Rússia. Dedicou toda a sua vida a manifestar-se firmemente contrária à guerra e especialmente às armas atômicas.

Na semana que passou, Yelena decidiu enfrentar mais uma vez o frio de São Petersburgo, segunda maior cidade do país, que é, por coincidência, o lugar de origem de Putin e também o seu. Desenhou à mão dois cartazes com slogans pacifistas, enrolou um cachecol em volta do pescoço, cobriu a cabeça com uma boina e foi até o centro da cidade. De pé, em silêncio, passou alguns minutos exibindo seus escritos aos passantes.

O título principal de seus cartazes dizia: нет ядерному оружию во всем мире (=Não às armas nucleares no mundo todo). Em países normais, o espetáculo seria considerado excentricidade inocente de uma pessoa senil. Na ditadura de Putin, porém, as coisas não funcionam exatamente assim. Tudo o que possa, de perto ou de longe, se assemelhar a um desejo de que as “operações especiais” na Ucrânia logo terminem é passível de ser enquadrado no novo conceito de “terrorismo”. Na verdade, trata-se de indisfarçado terrorismo de Estado, isso sim.

Não demorou muito para uma meia dúzia de policiais acorrerem, cada um medindo o dobro da altura da velhinha. Sob aplausos de populares, ela foi levada embora de braço dado com dois “sordado”. Decerto por estarem sendo filmados, trataram a senhora com delicadeza. Pelo menos, diante das câmeras. Depois disso, não se teve mais notícia de Yelena Osipova.

O vídeo de 39 segundos divulgado pelo Tweeter por um jornalista deu a volta ao mundo. Agora que a poeira está baixando, não seria impensável que a velha senhora fosse condenada a passar uns anos nalguma masmorra de Putin. Vindo dele, nada mais espanta.

A Amazônia é nossa

Amazônia: um condomínio de 8 coproprietários

José Horta Manzano

Nosso capitão continua imerso em confusão mental. Não tem capacidade de entender o que se passa fora de sua bolha. Se o que acontece no Brasil já lhe escapa, o que ocorre na martirizada Ucrânia está totalmente fora de seu alcance.

Bolsonaro, que não lê e só se informa pelo que contam seus aduladores pelas redes sociais, não sabe os comos e os porquês do que se passa no mundo. Rússia, para ele, é aquele país muito grande, em que ele passou um frio danado ao descer do avião, por ter esquecido de perguntar qual era a temperatura externa.

Deve-se lembrar também que a Rússia é o país onde outro dia ele teve de dar as narinas cinco vezes ao teste anticovid, mas em seguida foi recebido como um rei por um baixinho de nome meio cômico que até parece palavrão. Deve saber ainda que seus amigos agrotrogloditas brasileiros importam fertilizantes da Rússia. Afora isso, não deve saber grande coisa. Pelo que se vê, seus áulicos também não.

Nem de longe ele consegue perceber que nosso planeta se encontra em uma daquelas esquinas cruciais da História, num daqueles momentos em que o futuro da humanidade nas próximas décadas está sendo equacionado.

Talvez não lhe tenham contado que, dois dias atrás, quando a assembleia geral da ONU aprovou uma moção exigindo a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, apenas 5 dos 193 países-membros se opuseram. O Brasil aprovou a moção, decerto à revelia do próprio Bolsonaro.

Reconheço que, ao escrever os parágrafos acima, forcei um pouco nas tintas. Pouco. O exagero é leve. A verdade não está muito longe. Acho até injusto espalhar a responsabilidade pelos membros do clã e da equipe do capitão. Se ele mostrasse interesse, tenho certeza de que encontraria rapidamente assessores bem informados e solícitos, prontos a esclarecer. O problema é que ele não quer. E ponto final, talquei?

O mundo está atento a cada fragmento de informação que chega do front. Noite passada, bombas caíram a alguns metros da maior central nuclear da Europa, no sul da Ucrânia, com 6 reatores e geração total de 6.000 megawatts (Angra 1 gera 640 megawatts). Mais de um milhão de cidadãos daquele país já encontraram refúgio nos países vizinhos, onde estão sendo acolhidos com carinho. Ontem, o presidente da França, depois de passar hora e meia (contadas no relógio) em conversa telefônica com Putin, fez comentário assustador: “O pior ainda está por vir”.

Enquanto isso, nosso esclarecido capitão continua firme em seu fascínio por Putin. Parece até que tem atração por homens poderosos – Trump, de estatura avantajada, e agora Putin, menos dotado pela natureza, com seu metro e setenta. Ainda ontem, fez declaração agradecida ao ditador russo. Confessou estar feliz pelo cala-boca que Putin teria dado ao mundo sobre uma suposta e irreal internacionalização da Amazônia brasileira.

Pouco inteirado da realidade, Bolsonaro acredita que as expressões Amazônia e Amazônia brasileira são sinônimas. Não são. A Amazônia – falo da floresta integral, ou do que resta dela – se estende por 8 países. O Brasil tem, portanto, 7 sócios nessa região. A internacionalização, seja lá o que isso possa significar, da Amazônia é irrealizável. Teria de expropriar parte do território de 8 países, um dos quais é a própria França (Guiana Francesa). Seria um quebra-cabeça impossível de resolver.

Embora a espoliação da Amazônia brasileira seja o pesadelo número 1 de muito general, e do próprio Bolsonaro, ela é inviável. Inviável não: ela acontece diariamente. A espoliação vem sendo praticada por garimpeiros, madeireiros e grileiros ilegais, nas barbas do andar de cima. Ou com sua cumplicidade.

Portanto, quem tiver contacto com o capitão faça a fineza de informá-lo que não precisa reverenciar Putin, visto que não é a Amazônia brasileira que está prestes a ser ocupada por sabe-se lá que exército. É o mundo que está diante de uma encruzilhada. O embate é entre a democracia e a autocracia oligárquica. Estamos decidindo em que mundo queremos viver.

Não convém confiar em autocratas. A Ucrânia também acreditava que os russos eram um país-irmão. Até que um dia os mísseis de Putin começaram a derrubar prédios e seus tanques de guerra invadiram o país.

No dia em que zunirem os mísseis de Putin, o que é que Bolsonaro vai fazer? Pedir ajuda a quem, se já se indispôs com todos?

O humorista e o imbecil

Manchete do jornal russo Ria Novosti
28 fev° 2022

José Horta Manzano

Francamente, Bolsonaro não perde uma oportunidade para escancarar sua estupidez. Sua estreiteza mental é tão impressionante, que às vezes a gente acha que ele está brincando. Parece que sua visão de mundo, bitolada por natureza, se afunila a cada dia que passa.

Num momento em que o mundo civilizado se movimenta para mostrar a Putin que ele errou ao invadir a Ucrânia, lá vai nosso capitão defender o ditador. E aproveita o ensejo para desmerecer, gratuitamente, o presidente da Ucrânia, eleito democraticamente por seu povo.

A mídia russa, enfeudada a Putin, não tem liberdade para publicar nada que possa desagradar ao capo. A manchete de ontem do Ria Novosti, que reproduzo acima, narra uma frase de Bolsonaro:


«Bolsonaro declara que os ucranianos “confiam em um humorista para determinar o destino da nação”»


Na arte de fazer inimigos, o capitão é imbatível. Imprudente, não se dá conta de que, ao pronunciar com desdém a palavra “comediante”, ele está ofendendo por tabela todos os humoristas, cômicos e comediantes do planeta. O néscio não sabe que o “comediante” que ele despreza tem-se revelado ser providencial chefe de guerra, um homem corajoso e combativo, um esteio, uma referência para um povo martirizado pela covarde invasão de Putin. Não se pode afirmar que Bolsonaro agiria com tanta dignidade se estivesse no lugar do “comediante”.

A mente estreita do capitão não lhe permite enxergar que, ao fixar seu empenho na importação de fertilizantes, está se posicionando na contracorrente do mundo civilizado. Todos os países que estão condenando a Rússia e impondo sanções econômicas ao país também comerciam com o país dirigido por Putin. Todos vão sofrer em maior ou menor escala. Há países, na Europa principalmente, cuja dependência da Rússia é bem maior que a do Brasil. No entanto, todos entenderam que a hora é grave e que o equilíbrio mundial está ameaçado. Eis por que aderiram ao embargo.

O espaço aéreo europeu está fechado para aviões russos. Os haveres dos bilionários oligarcas próximos de Putin estão congelados, indisponíveis. As reservas do Banco Central russo também estão bloqueadas. A própria Fifa excluiu a Rússia de toda competição de futebol – coisa nunca vista! A onda de solidariedade que se levanta em todos os países europeus é impressionante. Doações se amontoam nos centros de coleta; para acolher refugiados, cada um oferece o que pode: uma casa de campo, um quarto, uma cama.

O ministro da Economia da França declarou nesta terça-feira que as sanções impostas pela parte civilizada do mundo vão estrangular e derrubar a economia russa. É exatamente esse o objetivo. Se der certo – e certamente vai dar –, Bolsonaro terá apostado mais uma vez no cavalo errado. Esta nova (e irresponsável) aposta vai entrar para uma longa lista que inclui candidatos derrotados no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Chile. E até o mais vistoso de todos: o folclórico Donald Trump.

É nas horas difíceis que se conhecem os verdadeiros líderes. Na sua terrível desgraça, os ucranianos têm hoje um consolo. Sabem que elegeram um presidente à altura do cargo. O “humorista” tem a coragem e a dignidade que sua posição exige, e que nosso capitão não tem.

Não é à toa que Volodímir Zelenski se tornou o alvo número um de Putin. Ninguém sabe como as coisas vão evoluir e como vai terminar essa infame agressão. Mas uma coisa é certa: que saia dessa vivo ou morto, o “comediante” tem lugar para sempre reservado na memória nacional ucraniana. As gerações futuras ainda vão ver estátuas do herói e estudar suas façanhas nos livros de história.

Já quanto a nosso capitão, ai, ai, ai…

Como parar Putin?

José Horta Manzano

Muito tem sido dito sobre Vladímir Putin.

  • Que foi formado nos serviços secretos da finada União Soviética.
  • Que tem o perfil de chefe mafioso.
  • Que está sozinho no topo de um sistema vertical de governança.
  • Que tem pretensões expansionistas.
  • Que tem olhos mas não tem olhar.
  • Que o pouco que tinha de expressão facial se perdeu, congelado sob baldes de botox.
  • Que é frio, impiedoso e cruel.
  • Que sua imensa fortuna provém da espoliação do maior bilionário russo, que ele mandou condenar, num processo viciado, a pesados anos de masmorra na Sibéria.
  • Que sonha em entrar para a grande História como aquele que recompôs o Império Russo – não somente a URSS, mas o imenso império tsarista do século 19.

No empenho para alcançar o objetivo de reconstruir a Grande Rússia, a anexação da Ucrânia é apenas o primeiro passo. Certos analistas consideram altamente provável que a próxima vítima seja a Moldávia, pequeno país que faz fronteira com a Ucrânia e que tem o azar de não ser membro nem da Otan nem da União Europeia.

A partir daí, a empreitada começa a se complicar, visto que os países seguintes pertencem a uma das duas entidades (Otan ou UE), ou até às duas. Mas para Putin, que tem um dedo em cima do botão nuclear e que não se importa em ver correr sangue, isso não é problema. Será um problema para o resto do mundo. Reagir? Não reagir? Ninguém sabe como pode evoluir.

Como parar Putin?

Sanções econômicas, como se sabe, nunca derrubaram ditador nenhum. Se assim fosse, países que vivem há décadas sob pesado embargo (Cuba, Irã, Coreia do Norte, a própria Rússia) já teriam se livrado dos autocratas. Não ocorreu.

Usar a força bruta? Quem teria a ousadia de lançar um míssil sobre o Kremlin? Poderia ser o sinal de partida para o fim da humanidade.

Este blogueiro só enxerga uma saída. A possibilidade de sucesso, embora pequena, existe.

Primeira consideração
Os russos consideram os ucranianos como povo irmão. Todo russo tem um antepassado, um amigo, um vizinho, um parente ucraniano. Todo ucraniano tem um antepassado, um amigo, um vizinho, um parente russo. A ligação afetiva entre os dois povos é real.

Segunda consideração
Sabe-se que a informação na Rússia é controlada. Não existe mídia independente. Os poucos jornalistas que ousaram criticar Putin estão hoje enjaulados nas neves siberianas. Ou simplesmente repousam debaixo de uma lápide.

Terceira consideração
A imensa maioria do povo russo, que só recebe a informação oficial filtrada pelo governo, não faz a menor ideia do que está ocorrendo na Ucrânia. Não sabem que soldados russos estão morrendo. Não sabem que o país irmão está sendo atacado com mísseis. Não sabem que tanques de guerra russos passeiam pelas ruas de Kyiv. Não sabem que mulheres e crianças estão sendo trucidadas pelas tropas russas.

Se os russos soubessem o que realmente está ocorrendo, há boas chances de que se revoltassem. Se alguém tem poder de derrubar Putin e os mafiosos que o cercam não são as armas, mas o povo nas ruas. Já vimos isso duas vezes no Brasil.

Mas como levar ao povo a verdade sobre o que ocorre na Ucrânia?

Não estou capacitado a dar conselhos de informática, mas sei que há meios de “derrubar” sites e de substituir seu conteúdo. Também isso já vimos no Brasil.

Os países decentes teriam de reunir seus respectivos piratas informáticos (em português: hackers) e pedir que metessem mãos à obra – em esforço conjugado e orientado, não cada um por si. O intuito não é só “derrubar” as redes de informação russas, mas também inserir nelas informação verdadeira. Em língua russa, naturalmente.

Não me pergunte como fazer porque não saberia dizer. Mas imagino ser possível.

Só que tem uma coisa. Isso teria de ser feito rapidamente, enquanto as tropas russas ainda miram civis do país irmão. Daqui a alguns dias, quando tiverem ocupado a Ucrânia inteira e os combates tiverem cessado, será tarde demais. A invasão de uma insignificante Moldávia não é capaz de comover o coração dos russos, que não consideram os moldávios um “povo irmão”. Ou paramos Putin agora, na aventura ucraniana, ou podemos esquecer. A barreira é agora. Se ela for arrombada, ele vai se sentir livre para mandar suas tropas para onde bem entender.

Se o distinto leitor conhece algum hacker, peço-lhe a fineza de soprar-lhe a ideia ao pé do ouvido. Mas tem de ser rápido.

As sanções

José Horta Manzano

Nem só de sanções econômicas vivem os países considerados párias. Há outros tipos de castigos que podem doer bastante. Veja aqui as primeiras consequências das loucuras de Putin, o aprendiz de tsar.

No exterior

O Grand Prix da Rússia de Fórmula 1, previsto para correr em 25 de setembro deste ano em Sotchi, acaba de ser cancelado pela direção do campeonato. Grande Prêmio russo acabou, c’est fini.

A UEFA, que está para a Europa como a Conmebol está para a América do Sul, congrega 55 países. Anunciou hoje que a final da Champions League, prevista para realizar-se em São Petersburgo (Rússia) vai ser disputada no Estádio de France, em Paris. O dia não muda: 28 de maio de 2022.

É de conhecimento público que o maestro russo Valery Gergiev é fiel devoto de Putin. Antes de tomar decisão drástica, o Teatro alla Scala, de Milão, pediu que ele esclarecesse sua posição acerca das decisões do presidente russo. Enquanto isso, o prestigioso Carnegie Hall, de Nova York, não perdeu tempo e passou à frente. Anulou, no último minuto, uma série de representações que o maestro daria já neste fim de semana.

Isso é só o começo.

No interior

O Globo informa que, como vice, o general Mourão preside uma comissão de alto nível composta por vice-presidentes brasileiros e primeiros-ministros russos. A função do fórum é pôr em prática iniciativas conjuntas acertadas pelos respectivos chefes de Estado – Putin e Bolsonaro.

À vista do que está acontecendo atualmente, a realização da próxima reunião, prevista para abril próximo, está em perigo.

Vamos ver se nosso aprendiz de ditador ousa insistir no conceito de “amizade eterna” que une os dois países. Se o fizer, vai ver-se mal com a parte civilizada do mundo.

Putin & Maduro

José Horta Manzano

Semana passada, o auê em torno da vistosa excursão de Bolsonaro à Rússia foi tamanho, que um fato inquietante acabou relegado para segundo plano. Exatamente nos dias em que o capitão esteve na capital russa, com uma revoada de jornalistas brasileiros vasculhando todos os montes de neve das esquinas moscovitas atrás do capitão, algo acontecia aqui, bem mais perto de nossas fronteiras.

Foi em Caracas, Venezuela. Putin não veio pessoalmente – nem podia, visto que estava trocando figurinhas com Bolsonaro. Não veio, mas mandou Yuri Borisov, seu vice-primeiro ministro. O figurão encontrou-se com Nicolás Maduro, autocrata de nosso país vizinho.

Neste ponto, é bom lembrar que, talvez sob conselho de Donald Trump, o governo brasileiro desqualificou Maduro, anos atrás, como governante legítimo da Venezuela. Preferiu reconhecer Juan Guaidó como presidente do país. Desde então, a relação entre Maduro e Bolsonaro, que já não era lá essas coisas, azedou de vez.

Maduro, que é tão malcriado como seu par brasileiro, já tratou o presidente do Brasil de farsante, imbecil, neonazista e palhaço. Vê-se que, considerado o nível do vocabulário de cada um, os dois se equivalem.

Logo no dia da chegada do vice-premier russo a Caracas, foi publicada a razão da visita. O emissário de Putin veio assinar um acordo de cooperação militar com a Venezuela. Quem botou a boca no trombone foi o próprio Maduro, por meio de um tuíte. (Aparentemente, ele não privilegia o Telegram, a rede preferida pelo seguidores de Trump.)

Essa desabrida implantação russa em nossa fronteira deixa a impressão de estarmos de volta aos anos 1950-1960, quando a Guerra Fria opunha os bons aos malvados, obrigando cada país a escolher seu campo.

Com a rede de satélites espiões que orbitam atualmente, é inimaginável que a Rússia repita a façanha de 1962, ano em que foi apanhada com a boca na botija quando se preparava a instalar uma base de mísseis em Cuba, a 160km das costas americanas. Além do que, quem se prepara a enfrentar uma empreitada dessa envergadura não costuma anunciar nas redes sociais.

Assim mesmo, a “parceria” entre o belicoso Putin e o animoso Maduro é pra deixar qualquer governo de prontidão. Especialmente quando o consórcio cheira a enxofre e funciona na esquina de casa.

O que aconteceria

José Horta Manzano

Li hoje, de soslaio, um artigo em que o autor dava sua opinião sobre “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Era artigo longo, de mais de 4.000 toques (página e meia em escrita Arial corpo 12). Me pergunto se alguém terá lido.

Longe de mim pretender menosprezar o autor. Este escriba sabe, por experiência própria, quanto dói uma saudade. Meus textos para o blogue geralmente são feitos na hora, mas, quando escrevo para jornal, a conversa é outra. O Correio Braziliense, que costuma publicar meus artigos num sábado, pede que sejam enviados na quinta-feira o mais tardar.

Dado que não espero até o último minuto da última hora do último dia, escrevo antes. Lá pela segunda ou terça, já está pronto. Aí surge o dilema. Mando ou não mando? E se o assunto já tiver envelhecido quando chegar a hora da publicação? E se o problema já tiver desaparecido? E se o personagem malhado tiver sido hospitalizado com doença grave? Dizem que não é de bom-tom atirar em quem está caído.

Tem sorte quem, como eu, conta com autorização do jornal para abordar o assunto que bem entender. Jornalistas especializados não têm essa amplitude. Comentarista político tem de falar de política. Analista econômico só escreve sobre economia. E assim por diante.

Em situações em que o panorama pode mudar de um minuto a outro, a porca torce o rabo. O pobre comentarista que mencionei deve ter pulado miudinho para escolher bem suas palavras, pois foi dormir com um Putin vociferante e um exército de 100 mil homens amontoado junto à fronteira ucraniana. Era uma quase-guerra.

Só que, quando se levantou de manhã, ficou sabendo do começo de retirada das tropas russas e do arrego de um Putin que argumenta, num contorcionismo: “Mas eu nunca disse que invadiria país nenhum! Tudo não passa de intriga da oposição!”.

Nisso, o artigo já estava no prelo. E lá está ele hoje, com destaque: “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Mas a Rússia não invadiu a Ucrânia. E a invasão se torna menos provável a cada minuto que passa. Putin pode ser atirado, mas estúpido não é. Seria uma guerra em que todos perderiam, a Rússia mais que os outros.

Tecer considerações sobre o que aconteceria (ou, melhor dizendo, o que teria acontecido) se tivesse havido guerra corresponde a conjecturar como seria o mundo se Hitler tivesse ganhado a guerra. É assunto que pertence ao campo da ficção científica. Ou filme de horror.

Bolsonaro visita o tsar de todas as Rússias

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que falo deste assunto, que me deixa bastante inquieto. Tenho a impressão de que a imprensa brasileira tem passado ao largo do desastre que está se preparando. Parecem todos mais preocupados com a ‘jequiata’ que Bolsonaro planeja do que com a ‘burrata’ que está prestes a cometer.

Imagine o distinto leitor que o Dalai Lama fizesse uma visita ao Principado de Mônaco. Ou que o papa Francisco desse um pulinho a Andorra. Um conversaria com o príncipe, o outro se encontraria com o chefe do governo. Conversariam amenidades, trocariam presentes, dariam passeio em carro aberto, escutariam coral de crianças agitando bandeirinhas. E pronto. Terminado o passeio, cada um voltaria pra casa. E a Terra não pararia de girar.

Fim de semana que vem, Bolsonaro embarca para uma visitinha dita ‘de cortesia’ à Rússia. Não é fácil explicar a razão pela qual os personagens mais vistosos a acompanhar o presidente – além dos intérpretes, evidentemente – serão Mário Frias, secretário de Cultura, e o “capitão Cultura”, um senhor que fiscaliza a Lei Rouanet. Vão aprender como montar uma companhia de dançarinos cossacos? Como de costume, a comitiva presidencial deverá ser rechonchuda, com dezenas de autoridades, convidados, xeretas e penetras.

Alguém precisa urgentemente contar ao capitão que a Rússia não é Mônaco nem Andorra. Uma visita desse quilate não passa despercebida. Tem significados, nem sempre aparentes, aos quais ele não parece estar dando a devida importância.

Pra começar, Jair Bolsonaro e Vladímir Putin não hão de ter grande coisa a conversar. O capitão não deve entender lhufas de política interna russa. Nunca deve ter ouvido falar no mundialmente conhecido Alexei Navalny, oponente e atual prisioneiro político, que foi vítima de tentativa de assassinato da qual escapou penosamente depois de meses de tratamento na Alemanha. Novichok, o veneno de que foi vítima, não se compra na farmácia da esquina. É substância desenvolvida pela indústria militar russa. Donde se conclui que a ordem de eliminá-lo partiu do chefe de Estado. Gente fina.

Menos ainda deve nosso capitão entender do problema entre a Rússia e a vizinha Ucrânia. Com boa vontade, admito que já tenha ouvido falar da União Soviética, que finou 30 anos atrás. Mas não deve estar a par da importância que a Ucrânia representa para os russos, considerada por estes o berço da civilização nacional. Não deve ter a menor ideia de que, nas fronteiras russas, se prepara um afrontamento entre Rússia e Otan. (Estou supondo que saiba o que é a Otan, mas não tenho muita certeza.)

Essa visitinha presidencial me lembra aquela que o Lula fez, acompanhado de alentada comitiva, ao Oriente Médio. Tinha na cabeça uma ideia ambiciosa e genial: resolver a questão palestina, nada menos que isso. Imaginou que, com um jogo de futebol entre os adversários, tudo se resolveria. Santa ingenuidade! Deu tudo errado e ele teve de voltar com o rabo entre as pernas, quase escorraçado como inhambu em festa de jacu. Humilhação total. Nunca mais se falou no assunto.

Lula, o messias de Garanhuns, tinha a pretensão de salvar o mundo, mas faltava-lhe instrução e capacidade. Bolsonaro apesar de ser Messias de nome, é bobão. O momento é de quase-guerra entre Rússia e Ucrânia. Se não for para tratar de apaziguar os ânimos, o momento é péssimo pra qualquer visita, seja ela de cortesia ou de negócios. Quem não for lá pra ajudar só vai atrapalhar.

A visita de Bolsonaro a Putin (a versão 2.0 do tsar de todas as Rússias) não trará nada de bom para nosso país. Vejamos por quê:

• Uma viagem dessas implica logística complexa e custa os olhos da cara. Se não tiver um objetivo útil para o Brasil, é dinheiro jogado fora.

• A Rússia, que já é cliente dos frigoríficos brasileiros, não vai comprar nem um bife a mais.

• A Ucrânia, país que contribuiu para a formação do Brasil com mais imigrantes que a Rússia, vai ficar muito desagradada. Por que Bolsonaro visita Moscou, mas ignora Kiev? Não é inteligente indispor-se com um mercado de quase 45 milhões de consumidores.

• A União Europeia, que tem envidado esforços para garantir a paz na região, vai se sentir contrariada. Não convém indispor-se com a UE assim, sem nada, sem motivo válido, num momento de tanta tensão.

Os EUA já rogaram a Bolsonaro que desista da viagem. Nosso aliado tradicional são os Estados Unidos, não a Rússia. Isto aqui não é a Venezuela – Bolsonaro está confuso.

Já que ele bate o pé, me resta dar-lhe um conselho de bom samaritano.

Capitão, procure não repetir o vexame de Nova York, quando vosmicê e seus badalos se deixaram fotografar comendo pizza na calçada. E com as mãos! É verdade que, de quem come farofa com as mãos, tudo se pode esperar.

Mas olhe que em Moscou faz muito frio nesta época do ano. Quem, como vosmicê, está a caminho dos 70 anos e passou recentemente por meia dúzia de cirurgias devia evitar apanhar resfriado. Pode dar complicação. Se acontecer, não são seus seguranças nem o Centrão que vão acudir.

Encontro bilateral

Villa La Grange (Genebra) e seu parque
Sede do encontro histórico

José Horta Manzano

Em 1917, a cidade de Genebra, na Suíça, recebeu uma herança valiosa. Monsieur William Favre, riquíssimo habitante, legou à cidade uma propriedade familiar que consistia em uma enorme mansão, grande como um palácio, plantada em meio a um parque de 200 mil m2, área equivalente a 30 campos de futebol. Tudo isso situado às portas da cidade.

A propriedade tem sido utilizada como parque público, aberto para a visitação. Em raras ocasiões, o château é sede de algum evento excepcional. É o que vai ocorrer amanhã, quarta-feira 16 de junho de 2021. Uma cúpula reunindo Joe Biden e Vladimir Putin terá lugar no local.

Pra se ter uma ideia da raridade desses encontros bilaterais, o último que ocorreu entre dirigentes dos dois países teve lugar também em Genebra, no longínquo ano de 1985. Na época, Ronald Reagan havia se encontrado com Mikhail Gorbatchov.

Que ninguém espere grandes resultados do encontro de amanhã. Não será hora e meia de tête-à-tête que há de iluminar o caminho do planeta. O importante desses eventos é o lado simbólico. Com a crescente importância da China no cenário mundial, a Rússia – potência militar de primeira linha – está se tornando o trunfo que tanto chineses quanto americanos gostariam de ter a seu lado. Ciente disso, Putin deve estar adorando a paquera, que fortalece sua imagem.

Faz duas semanas que milhares de pessoas trabalham sem descanso, cada um nas suas atribuições, pra que tudo dê certo amanhã. É um batalhão de gente, operários, especialistas em logística, seguranças, mecânicos, eletricistas, cozinheiros, motoristas, militares, policiais. Por seu lado, o exército suíço deslocou 1000 homens em dedicação exclusiva. Centenas de policiais de Genebra participam, e boa parte da cidade está interditada ao tráfego. Com o espaço aéreo fechado, o aeroporto está sofrendo perturbação. Há atiradores de elite encarapitados nos prédios e homens armados com metralhadora por toda parte. A gente não se dá conta do desafio logístico que representa um deslocamento do presidente americano. É impressionante.

Como eu dizia, não se deve ter ilusões. Em geral, grandes decisões não são tomadas nesses encontros, mas nos bastidores. O encontro vale mais pela imagem que fica. Conversar é sempre melhor do que arreganhar os dentes, cada qual no seu canto.

Scherzo

José Horta Manzano

Você sabia?

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Está aqui um quadro interessante. Traz a altura (corporal) de alguns figurões. Não sei quem é o autor, mas merece parabéns pelo esforço. Não é tarefa fácil coletar imagem desse pessoal, todos na proporção justa, alinhá-los, identificá-los. Quanto a mim, só tive de traduzir pés e polegadas em centímetros.

Os personagens antigos (Churchill e Hitler) são figuras históricas que cabem em qualquer comparação. Os demais eram os grandes de então – esse “então” há de ter sido uns dez anos atrás.

Pra que serve o quadro? Pra nada. È uno scherzo – é uma brincadeira. Bom domingo para os que já estão confinados em casa e para aqueles que logo estarão.

O verdadeiro problema

José Horta Manzano

Os brasileiros antenados andam inquietos. Pra onde vai o barco nacional – nau sem timoneiro, em tempestade grossa, em noite sem lua? A água entra às cataratas e só temos xícaras pra esvaziar o porão. O naufrágio passa a ser possibilidade concreta. Pelo chacoalhar da diligência, já não se deve perguntar se, mas quando vai acontecer.

Uns acusam os filhos dementes do presidente. Outros preferem situar a origem do desastre na interferência malfazeja de um astrólogo boca-suja. Há quem constate que, com uma oposição política em frangalhos, o governo se esteja consumindo num macabro ritual de autofagia. O dedo da CIA, da China ou até de Putin é visto por alguns como culpado pela crise – ainda que eu não entenda bem que vantagem uma débâcle nacional traria a essa gente.

Pra mim, estão todos longe da verdade. Nem os filhos dementes, nem o astrólogo boca-suja, nem a oposição desmilinguida, nem a CIA, nem a China, nem Putin. Nenhum desses seria capaz de empurrar o país para o abismo. O verdadeiro problema, a desgraça que nos desabou sobre a cabeça – e que ninguém havia previsto – é uma só: temos um presidente fraco.

Que se pode esperar de um homem que nem ao menos tem mão forte pra enquadrar os próprios filhos? Quem não consegue fazer reinar a harmonia no círculo familiar não está em condições de conduzir o barco.

O pior de tudo é que essa desgraça não tem remédio. É ilusão esperar que um biotônico qualquer venha dar força a um presidente fraco. O homem é assim e assim continuará. As futricas palacianas tendem a se estender por todo o mandato. E é bom que o petismo não se fortaleça muito nos próximos quatro anos. Se um candidato do lulopetismo estiver em condições de disputar as próximas eleições com chance de vitória, o mesmo fenômeno de voto útil de 2018 tende a repetir-se. Assim, a reeleição de doutor Bolsonaro está garantida.

Guerra nas Estrelas ‒ versão século 21

José Horta Manzano

No início dos anos 1980, a tensão entre as duas superpotências andava pelas alturas, com a atmosfera carregada de eletricidade. Em 1983, Ronald Reagan, presidente dos EUA, lançou sua Guerra nas Estrelas, programa de armamento militar. O nome oficial era Iniciativa Estratégica de Defesa ‒ SDI, na sigla inglesa.

No oficial, o objetivo era dotar o espaço de um cinturão de armas sofisticadas, aptas a defender os Estados Unidos de um ataque nuclear proveniente da Rússia. No paralelo, supõe-se que o aspecto militar fosse apenas fachada. O programa era bem mais astucioso. A intenção era passar uma rasteira na já combalida economia da União Soviética.

A esperteza deu certo. Ao se dar conta de que Washington tinha a intenção de militarizar o espaço, Moscou não quis ficar pra trás. Subtraiu bilhões de rublos ao orçamento do país para torrá-los em projetos militares. Poucos anos bastaram para mandar ao chão a economia soviética. Veio a época das longas filas de gente decepcionada à porta de supermercados vazios. Esse desalento popular preparou o terreno para o fim do regime comunista e da própria União Soviética.

Faz duas semanas, Donald Trump, em pronunciamento impactante, anunciou que seu país estava se retirando de um tratado militar concluído com a Rússia trinta anos atrás. Com a retirada dos EUA, o tratado deixa de existir, pois eram apenas dois os países signatários. O acordo era um marco no desarmamento. Tratava da redução de mísseis de curto e médio alcance. Com o desaparecimento do tratado, os EUA se veem livres de aumentar sua produção de mísseis e de instalá-los onde bem entenderem ‒ inclusive nas cercanias da Rússia, caso os aliados europeus consintam.

Vladimir Putin, dando sinais de que compra a briga, exprimiu publicamente seu temor de que esse gesto americano conduza a nova corrida armamentista. As mesmas causas costumam produzir os mesmos efeitos. Nos anos 80, a Guerra nas Estrelas de Reagan levou a URSS a despender grande esforço financeiro para acompanhar a corrida. Quarenta anos depois, a atitude belicosa de Trump periga levar a Rússia a gastar o que tem e o que não tem para tentar manter o status de segunda potência militar do planeta ‒ diante de uma China que ameaça surrupiar-lhe a classificação.

Para a Rússia, a guerra está perdida antes de começar. Diante do americano, o PIB russo (1,7 trilhões de dólares) é raquítico. O PIB dos EUA é dez vezes maior. Se Putin topar realmente o desafio, vai abrir caminho para a desintegração da economia de seu país.

Não sei que razões terão levado Mr. Trump a abandonar o tratado de quarenta anos atrás. Atabalhoado (e mal aconselhado), é bem capaz de ter simplesmente dado uma cabeçada a mais, sem medir consequências. Como diz o outro, atirou no que viu e acertou no que não viu.

Davos 2019

José Horta Manzano

Presidente ilegítimo
Hoje, abre-se em Davos (Suíça) mais uma edição do WEF ‒ World Economic Forum, encontro annual dos grandes deste mundo, na politica e principalmente na economia. O Brasil está representado por um presidente… ilegítimo.

De fato, minutos antes de embarcar, doutor Bolsonaro transferiu seus poderes ao vice-presidente. A partir daí, general Mourão passou a ser o legítimo presidente do Brasil. Jair Messias entrou num território esquisito, como quem está entre parênteses. Surgem duas hipóteses.

A primeira considera que os poderes presidenciais são unipessoais, ou seja, só podem ser exercidos por uma única pessoa de cada vez. Se assim for, o presidente em exercício é Mourão, o que ficou em Brasília segurando as rédeas. Aquele que será apresentado ao distinto público de Davos não passa de impostor. O que ele disser e os papéis que assinar não terão validade. A voz do Brasil não é ele.

A segunda hipótese concede que os poderes presidenciais sejam exercidos por dois indivíduos ao mesmo tempo. Dado que, em nosso país, vigora regime presidencial, essa ideia é esdrúxula. Se, por hipótese, os dois tomarem atitude diferente diante de um mesmo fato, qual das decisões prevalecerá? A do que largou os poderes e se foi para a Suíça ou a do que ficou tomando conta do forte? Convenhamos : ter dois presidentes ao mesmo tempo é folclórico. Resquícios de um passado que morreu.

Agasalho
Espero que doutor Bolsonaro & excelentíssima equipe tenham trazido bons agasalhos. Hoje de manhã, fazia 13,5° abaixo de zero em Davos. Saiu um solzinho chocho, que fez subir a temperatura. Às duas da tarde, no melhor momento do dia, o mercúrio subiu para 3,5° abaixo de zero. A partir daí, recomeçou a descer rumo às profundezas do inverno alpino.

Luzerner Zeitung (Lucerna, Suíça), 21 jan° 2019

Convidado de honra
Nem Mr. Trump nem Monsieur Macron estarão presentes. As senhoras May (UK) e Merkel (Alemanha) também decidiram não comparecer. O presidente da Rússia, o número um da China e o primeiro-ministro da Índia mandaram avisar que não virão. Assim, por falta de concorrentes, doutor Bolsonaro foi promovido a convidado-vedette.

Sua fala está marcada para amanhã à 15h30. Os encontros do Fórum de Davos se realizam em quatro salas. Normalmente, há eventos simultâneos, frequentemente quatro de uma vez só. Na meia hora dedicada a doutor Bolsonaro, uma concessão especial: nenhum outro evento ocorrerá ao mesmo tempo. O mundo econômico vai parar, por meia hora, pra ouvir o que tem a dizer o doutor.

Etiqueta grudada
Quando uma etiqueta gruda firme, não há solvente que dê conta de a retirar. Falando da vinda do presidente do Brasil a Davos, o jornal suíço Luzerner Zeitung publica um artigo com título bombástico: «Stargast am WEF hat keine Ahnung von Wirtschaft ‒ Convidado-vedette do WEF não tem nenhuma noção de economia».

O autor da boutade foi o próprio doutor Bolsonaro quando, ainda em campanha, confessou nada entender do assunto. Sinceridade é bom, mas sincericídio mata. Foi ingênuo, o doutor. Podia ter dado uma pirueta e respondido algo como: “Nesse campo, as competências de Paulo Guedes são superiores às minhas. Sugiro-lhe fazer a pergunta a ele”. Teria sido menos impactante.

É um perigo dizer o que passa pela cabeça, sem refletir nas consequências. Segundo os chineses, há quatro coisas que não se podem recuperar: a pedra lançada, a ocasião perdida, o tempo passado e a palavra pronunciada.

Aqui é meu lugar

José Horta Manzano

Semana passada, comemoraram-se os cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Para a ocasião, o governo francês providenciou cerimônia solene. A França, palco principal do sanguinário conflito, foi um dos países que mais sofreram naqueles anos sombrios.

Dirigentes de mais de setenta países acudiram ao convite e acorreram a Paris. Ao pé do Arco do Triunfo, entre dezenas de outros, estavam Trump, Putin, Merkel, Netanyahu. Procurei, na foto de família que se costuma tirar nessas ocasiões, nosso presidente. Perda de tempo. Ele não se dignou de comparecer. Apesar de o Brasil ter atuado nessa guerra ao lado dos aliados ‒ numa participação modesta mas ativa ‒, doutor Temer não julgou necessário estar presente de corpo.

Tampouco a ocasião de manter colóquio informal com algum colega dirigente motivou nosso cansado presidente. Doutor Temer, aprecie ou não, ainda tem mês e meio pela frente na chefia do Executivo. Está sendo pago pra isso.

Nestes dias, tem lugar, na capital da Guatemala, a Cúpula Ibero-Americana 2018, encontro dos dirigentes dos países ibéricos e latino-americanos. Com exclusão dos EUA, não precisa nem dizer. A intenção dos participantes é encontrar solução para desviar o planeta do destino trágico ao qual está condenado caso nacionalismos e regionalismos continuem a vicejar. Observo uma curiosa contradição: organiza-se uma cúpula regional, que exclui todo forasteiro, no intuito de denunciar e condenar regionalismos.

Doutor Temer, que não deu o ar da graça em Paris, embarcou dia 15 de novembro para Guatemala City. Tinha encontro marcado com o rei da Espanha ‒ figura politicamente decorativa ‒ e com o dirigente do Principado de Andorra. Estava previsto também um encontro reservado com o anfitrião, o presidente da Guatemala. São todos colóquios de primeira grandeza, como se vê.

Doutor Temer mantém-se fiel à doutrina da diplomacia Sul-Sul, instaurada por seus antecessores. Afinal, não se deve esquecer de que ele foi eleito na chapa de Dilma Rousseff. O passado deixa marcas.

Ciberpiratas

José Horta Manzano

AQUI
Parece milagre. Para nós todos, tão acostumados com a lentidão e o desleixo dos guardiães da língua na tarefa de aportuguesar palavras estrangeiras, é um espanto. Tomando a dianteira sobre o francês, o espanhol, o italiano e outras línguas próximas, o mui oficial Volp ‒ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa ‒ já abonou o termo «ciberpirata», perfeita adaptação do inglês «hacker». A transposição foi muito feliz. A palavra portuguesa evoca exatamente a figura do indivíduo que passeia pela rede recheado de más intenções. Estamos liberados para usar e abusar do termo sem aspas e sem sentimento de culpa. Aleluia!

Ciberpirata 1


O governo espanhol confirma ter constatado, estas últimas semanas, a invasão do espaço cibernético nacional. As redes sociais do país estão inundadas de milhares de perfis falsos que propagam «pós-verdades»(*). Todas elas seguem clara linha de incentivo à independência da Catalunha. Está comprovado que as investidas vêm da Rússia e… da Venezuela, veja só.

O fenômeno se assemelha ao que se viu nos EUA durante a campanha para as eleições presidenciais do ano passado. Naquela ocasião, a pirataria só foi descoberta tarde demais, quando Mr. Trump já estava eleito. Escaldados, os peritos que investigam esse tipo de ataque já acenderam o sinal vermelho no caso da Catalunha.

Ciberpirata 3

O assunto é delicado. Apesar da certeza sobre a origem dos ataques, o governo espanhol optou por manter certa discrição, pelo menos por enquanto. À boca pequena, corre a informação de que Madrid tem provas que incriminam a Rússia. Mas certas verdades são incômodas. Se acusados, os russos vão imediatamente negar. Será palavra contra palavra. Ao final, um incidente diplomático estará criado sem que a piratagem cesse. Não vale a pena.

Mas que interesse tem a Rússia numa hipotética independência catalã? ‒ deve estar-se perguntando o distinto leitor. À primeira vista, nenhum. Muito pelo contrário. Abrigando em seu vasto território dezenas de povos com línguas e religiões diferentes, a Federação Russa não deveria ver com bons olhos uma onda secessionista que partisse da Catalunha, varresse o continente e despertasse sentimentos nacionalistas no interior de seu imenso território.

Ciberpirata 2

No entanto, um exame mais atento desvela a razão da intervenção. À Rússia de Putin, não interessa uma Europa forte e unida. O enfraquecimento da União Europeia ‒ seu esfacelamento, se possível ‒ está entre as prioridades de Moscou. Farão tudo o que puderem para semear a discórdia no continente. O sonho do Estado russo é ver a Europa de novo subdividida em dezenas de pequenos países fracos e desunidos. É uma evidência: uma Europa despedaçada será um concorrente a menos.

E a Venezuela, o que faz nesse imbróglio? Abandonados por todos, nossos hermanos do norte precisam desesperadamente de aliados. Chineses, que são comerciantes na alma, não costumam se meter em política alheia. A Europa tem sérias restrições em apoiar a ditadura de Maduro. Resta a Rússia. Eis por que Caracas dá uma forcinha a Moscou na romântica tentativa de «quebrar» a Europa com a força de redes sociais.

Por mais exímios que sejam seus ciberpiratas, os russos não têm chance de conseguir, a médio prazo, o que desejam. A grande firmeza mostrada por Madrid deixa claro aos independentistas catalães que não conseguirão separar-se. E, ainda que isso desagrade a Moscou, a Europa segue firme e unida no apoio à Espanha.

(*) Faz mês e meio, escrevi sobre «pós-verdades». Clique aqui quem quiser recordar.

A solução do problema sírio

José Horta Manzano

Durante meio milênio, a região onde se situa a Síria atual esteve sob o mando do Império Otomano, como era chamada a extensa zona dominada pelos turcos. Quando espocou a Primeira Guerra mundial, os otomanos tiveram o azar de escolher o lado errado: apoiaram a Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Perderam.

Na sequência da derrota, a Grã-Bretanha e a França puseram em prática o plano já acertado anos antes: repartiram o Oriente Médio em zonas de influência britânica ou francesa, um pouco para cada um. As fronteiras da Síria, tanto quanto as dos outros países da região (Jordânia, Iraque, Líbano, Kuwait), foram desenhadas nas pranchetas de Londres e de Paris. Muito provavelmente por ignorância, os decididores deram pouca ou nenhuma importância à população local, às etnias, às religiões, às alianças ou inimizades seculares. Deu no que deu. O caldeirão ferveu.

Na época dos otomanos, quando as ordens vinham de Constantinopla, estavam todos no mesmo saco, sob domínio estrangeiro. A partir do momento em que tiveram de autogovernar-se, o problema se pôs: qual das comunidades toma as rédeas? Aquilo virou um faroeste onde manda quem grita mais.

Repare na complexidade étnica da população síria
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Como se não bastassem as brigas intestinas, interesses externos têm contribuído para apimentar o molho. A criação do Estado de Israel, a descoberta de petróleo na região, a Guerra do Iraque, as pretensões iranianas de domínio regional, o antagonismo entre EUA e Rússia são fatores agravantes. Chegamos ao ponto em que nenhuma solução será satisfatória para todos. O emaranhado de interesses é tão complexo que, por mais que se procure um ponto de equilíbrio, não é possível encontrá-lo. Tem-se de optar pelo «menos pior».

Infelizmente, a única linguagem que se fará ouvir será a da firmeza e da força. Apesar de todos os defeitos, o longo período de domínio otomano trouxe relativa paz à região. Não será uma oposição entre EUA e Rússia que vai aplacar ódios ‒ só pode desembocar numa guerra por procuração. A melhor solução passará por um acordo, de preferência sob patrocínio da ONU, que garanta:

A destituição do atual ditador
É condição sine qua non. Enquanto Bachar permanecer no comando, será impossível acalmar os ânimos. O acúmulo de ódios é grande demais.

O desarmamento da população
Sempre haverá revólver escondido dentro de colchão. Mas todo esforço deve ser envidado para confiscar e neutralizar armamento pesado, tradicional e químico.

A manutenção da base naval russa de Tartus
Sem isso, nenhum acordo será alcançado ‒ toda proposta será vetada pelos russos. Eles veem a base como necessária para garantir presença na região.

Outra visão da complexidade étnica do território
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A criação de uma federação
A atual Síria será partilhada entre dezenas de microestados. Para definir as fronteiras, serão levadas em conta as diferenças entre os diversos povos: religião, língua, tradições, história.

Um poder central neutro sob mando externo
Um protetorado deverá ser estabelecido, preferivelmente sob a guarda da ONU. Um representante escolhido pelas Nações Unidas exercerá o poder executivo. Será substituído periodicamente. Não deverá ser árabe, nem originário da região, nem de nenhum dos membros permanentes do Conselho de Segurança.

Pronto, aí está a solução, que o resto é blá-blá-blá. Podem, naturalmente, deixar tudo como está pra ver como fica. A guerra não terá fim e ninguém sairá ganhando. Menos os fabricantes de armas, que continuarão esfregando as mãos.

Queremos ou não queremos?

José Horta Manzano

No Brasil, nos tempos da ditadura, era proibido protestar contra o regime. Desfile na Avenida Paulista? Impossível. Protesto na orla de Copacabana? Pior ainda. Passeata em qualquer capital do país? Nem pensar. Vez por outra, alguém até chegou a tentar. Deu um forrobodó dos diabos, com tumulto, presos e feridos. Não tinha jeito. Quem não estivesse de acordo com as condições nacionais tinha duas soluções: deixar o país ou… calar-se.

Hoje, depois de mais de três décadas de democracia e liberdade de expressão, a gente se acomodou. Brasileiros com menos de 40 ou 50 anos de idade não conheceram a repressão. Têm todos a impressão de que a atual paleta de liberdades é natural, permanente, inamovível, um direito adquirido. Reclamam contra as mazelas nacionais ‒ a corrupção generalizada em especial ‒ mas, na hora de demonstrar, negam fogo. Em vez de sair às ruas com faixa e bandeira, paramentados de camisa amarela e bonezinho, preferem refestelar-se diante do domingão da televisão.

Os russos são um povo que nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tzarista para a ditadura comunista e, de lá, para a opressivo arremedo de democracia atual. Em matéria de corrupção, o páreo é duro entre os grandes «emergentes». É difícil apontar o campeão. China, Rússia, Brasil? Fato é que a Rússia é membro importante do clube. A corrupção está presente em todos os escaninhos do Estado.

Como sabemos, Vladimir Putin encontrou um meio de se eternizar no poder. Esperto, soube manejar os instrumentos de cooptação à sua disposição. Há eleições periódicas, mas ele ganha sempre. Por bem ou por mal, em jogo limpo ou fraudado, o vencedor é sempre o mesmo. Acostumado há séculos a aguentar calado, o povo aceita esse estado de coisas.

Ontem, um sobressalto. Milhares de cidadãos decidiram manifestar descontentamento. Marcaram protesto nas ruas. O número de participantes foi estimado em sete mil pelas autoridades oficiais, o que indica que terá sido dez vezes superior. A reação do governo foi uma tremenda repressão, com direito a brucutu e pancadaria. A polícia desceu o pau, prendeu centenas de manifestantes ‒ entre eles, um candidato às próximas eleições presidenciais. O passar dos séculos não mudou o país. Só são admitidas duas categorias de cidadãos: os do sim e os do sim senhor.

O brasileiro não se tem mostrado à altura de ser governado por gente fina. Vota mal. Elege bandido. Não manifesta desagrado. Vota em palhaço e acha uma graça. Elege e reelege corrupto. Come mal, transporta-se mal, veste-se mal e acha que a vida é assim mesmo. Na hora de demonstrar desagrado, prefere ficar no sofá e deixar que outros carreguem o piano.

Pois quando a música tocar, é ele mesmo quem vai dançar.