Homeschooling

José Horta Manzano

Não sou especialista em Educação, o que não me impede de refletir sobre a Instrução Pública com consideração e bom senso. Embarcando na onda de uma pandemia que tem fechado escolas e impedido crianças de frequentar aulas, muitos preconizam o ‘homeschooling’ – neologismo desnecessário usado atualmente para designar a escola em casa. Há gente cogitando tirar os filhos definitivamente da escola e continuar a ministrar-lhes instrução em casa.

Para dar nome aos bois, a expressão nacional (escola em casa) me parece mais eloquente do que a importada. Se alguns preferem a inglesa, será sintoma do mesmo mecanismo que transformou liquidação em sale e entrega em delivery.

O ensino que se ministra a crianças e adolescentes é assunto sério. A aparente simplicidade da atividade é enganosa: a prática é cheia de armadilhas. Um professor é formado para exercer o magistério, o que não acontece com quem não estudou as técnicas da profissão. A escola é lugar de socialização da criança e do jovem, ambiente dificilmente reproduzível no ensino em casa. A escola propõe (pra não dizer impõe) frequência regular, horários, deveres para o dia seguinte; em casa, é inviável manter toda essa disciplina a longo prazo; com o passar do tempo, o afrouxamento é inevitável.

Se a escola é ruim, que se procure outra. O que não me parece razoável é privar os filhos do convívio com a meninada e da disciplina imposta a todos. Num país socialmente tão desigual, conviver com pessoas alheias ao núcleo familiar, ainda que estejam no mesmo nível social, já é um passo em direção à socialização. O passo é tímido mas, para a criança, é sempre melhor do que ficar em casa e crescer dentro de uma bolha.

Matéria-cinza

José Horta Manzano

Tem notícias que parecem primeiro de abril. Esta de ontem entra na coleção: a entrega de passaportes está atrasada por falta de matéria-prima.

A previsão de normalização? Não, distinto leitor, não é para a semana que vem. Se tudo correr bem, lá pelo meio do ano voltamos à rotina. Daqui a três meses, se tudo der certo.

Chamada do Estadao, 25 abr 2016

Chamada do Estadao, 25 abr 2016

Uma mente maliciosa poderia até entender que, de tanto despachar gente fina para o exterior, anda faltando matéria-prima humana, daí a suspensão da emissão de documentos de viagem. Já não sobrou ninguém para expatriar.

Santo Erasmo

Santo Erasmo de Formia

Sabemos que não é isso. Se pudessem, muitos brasileiros, envergonhados com a baixeza onipresente, se mandariam definitivamente para a Florida. Por que Florida? Porque lá faz calor e nossos conterrâneos receiam o frio, ora.

Bem, se a matéria-prima faltante não é massa cinzenta, há de ser papel. Estou começando a sentir um cheirinho de Venezuela. Lá também começou assim, com falta de papel fino. O nível foi baixando e terminou faltando… papel higiênico.

Valei-nos, Santo Erasmo (≈253 ‒ ≈303), venerado protetor dos que padecem cólicas intestinais!

Só para constar

José Horta Manzano

Novo personagem apareceu na trama do Petrolão, de infinitos desdobramentos. Trata-se do contínuo, daquele que entregava o produto do assalto, em dinheiro vivo, aos barões assinalados.

Angulo retoO sobrenome do indivíduo não é familiar a nossos ouvidos. Não sei como estarão pronunciando os jornais televisivos – que são os que mandam. Na mídia impressa, andam escrevendo Ângulo, assim, com circunflexo. Está errado.

Sei que a associação com ângulo é tentadora, mas o nome espanhol não é Ângulo, mas Angulo, sem circunflexo e com acento tônico no u. Pronunciado, fica assim: Angúlo.

Concordo que o comportamento do homem não tem nenhum parentesco com a direitura de um ângulo reto. Mas essa não é razão suficiente para que se lhe estropie o nome.