Confeitura

José Horta Manzano

Confiture 5No Hemisfério Norte, onde vive a maior parte da humanidade, a primavera está chegando timidamente. Folhas brotam, flores se abrem, a paisagem fica cada dia mais colorida. E os frutos começam a dar o ar da graça.

Os primeiros são os morangos, já presentes em quitandas e supermercados desde o mês de março. Depois virão cerejas, melões, pêssegos, abricós, ameixas, peras, maçãs, uvas e, pra fechar o ano, laranjas.

Confiture 2Hoje em dia, nem tem mais graça: o mercadinho da esquina oferece, o ano todo, frutas fora de estação. Em pleno dezembro, há cerejas do Chile. Em maio, uvas da Índia ou da África do Sul. Mangas do Brasil e abacaxis da Costa do Marfim encontram-se o ano todo. Fazem companhia às bananas onipresentes, todas iguaizinhas, da mesma cor, sem pintinhas e… cá entre nós: sem gosto. Pior: com gosto de remédio.

Abrindo parênteses, acho um despropósito comprar frutas fora de época, daquelas que atravessaram meio planeta de avião, gastando querosene e poluindo. Mas há quem não pense assim. Cada cabeça, uma sentença. Fechem-se os parênteses.

Confiture 1Se a tecnologia e a logística atuais põem praticamente todas as frutas à nossa disposição o tempo todo, nem sempre foi assim. Tempo de morango era março-abril, ponto e basta. Fora daí, necas de pitibiriba. E fruta não se pode guardar, que logo apodrece. Como faziam os antigos?

Não sei quem terá tido a ideia de cozinhá-las no açúcar. Foi um achado! Cozidas e guardadas num recipiente bem fechado, podem durar anos. Sem geladeira, sem sal, sem aditivo.

Confiture 6Praticamente todos os europeus mantêm a tradição de conservar frutas em açúcar. Franceses, ingleses e alemães costumam consumir essas doces «memórias de verão» no café da manhã, em pleno inverno. E no resto do ano também, uai. Espanhóis e portugueses também apreciam, mas com menor intensidade.

Confiture 4No Brasil, não são componente indispensável do café da manhã. Café, leite, pão, manteiga, sim. Geleia – que é como chamamos – é optativo. Há mesas em que está sempre presente. E há gente que jamais comprou um pote.

Os franceses dizem «confiture». Espanhóis preferem «mermelada». Ingleses reservam «marmalade» para cítricos; para outras frutas, usam «jam». Já os italianos dizem «marmellata» em todos os casos. Alemães hesitam entre «Konfitüre» e «Marmelade».

O vocabulário da Academia Brasileira de Letras registra a forma peculiar confeitura. Na vida real, nunca ouvi ninguém utilizar esse termo. O nome usual é geleia ou, mais raramente, doce. Confesso desconhecer o uso lusitano. Se algum distinto leitor me puder iluminar, fico sensibilizado.

Confiture 3Toda mulher europeia – e muito homem também – costuma fazer geleia em casa, conforme vão aparecendo as frutas da estação. Faz-se o doce, despeja-se num pote de vidro, fecha-se hermeticamente, põe-se uma etiqueta e pronto: vai para o fundo do armário. Em geral, a quantidade de potes é superior à que se consumirá até o ano seguinte. Que fazer pra não acumular doce antigo?

Pois nesta época em que frutas frescas reaparecem, é comum as pessoas serem acometidas de súbita generosidade. Por um sim, por um não, todos se dão de presente potes de geleia do ano anterior. É pra esvaziar prateleira e abrir espaço pra novas conservas. Semana passada, recebi presente assim de duas pessoas.

Interligne 18hPS:
Nossa expressão «ser apanhado com a boca na botija», usada quando alguém é surpreendido ao agir de maneira indevida, tem equivalente em francês. É «se faire prendre les doigts dans le pot de confiture» – ser apanhado com os dedos no vidro de geleia. Pra você ver o valor que se dá a esse tesouro armazenado no fundo do guarda-comida.

Joões que choram, joões que riem

José Horta Manzano

Campo de colza na Europa

Campo de colza na Europa

O azar de uns…
A insatisfação de caminhoneiros anda fazendo a infelicidade de muitos no Brasil. Nos anos 1960, a rodovia primeiro suplantou, depois dizimou toda atividade ferroviária. Desde então, a economia do País tornou-se dependente do caminhão. Qualquer perturbação no movimento de carga pesada tem reflexo imediato dos montes roraimenses às coxilhas gaúchas.

… faz a felicidade de outros
Mas a balança tem dois pratos. Se um baixa, o outro, necessariamente, tem de subir. O Brasil, grande fornecedor de soja, não é o único produtor de alimento animal. Outras partes do mundo cultivam outras comidas pra bicho.

Nos países de clima fresco, uma planta anual resultante de antiquíssimo cruzamento entre repolho e nabo está entre as três principais fontes de óleo vegetal de regiões temperadas: é a colza. O girassol e a oliveira completam o trio das estrelas oleaginosas.

Campo de colza em andares

Campo de colza em andares (terraços)

Um campo de colza é esteticamente muito bonito. Lá pelo mês de abril-maio, suas flores amarelas enfeitam a paisagem. Da colza, planta polivalente, extrai-se óleo comestível, etanol e alimento animal.

A canola, termo familiar ao brasileiro, é uma variedade de colza desenvolvida no Canadá.

Os dez maiores produtores mundiais são os seguintes:

Interligne vertical 16 3Kb1°) Canadá
2°) China
3°) Índia
4°) França
5°) Alemanha
6°) Austrália
7°) Reino Unido
8°) Polônia
9°) Ucrânia
10°) Estados Unidos

Flor de colza

Flor de colza

Exatamente como a soja, a colza também é cotada nas bolsas de matérias-primas. Com o tráfego bloqueado e a soja fermentando na carroceria de caminhões brasileiros, o que é que aconteceu? Um doce pra quem adivinhar.

É claro: a cotação da colza subiu. A balança começa a pender pro outro lado. É a lei da gangorra.

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(*) A palavra colza é contribuição dada ao mundo pela língua holandesa. O original é koolzaad (= semente de repolho).

Morreu de medo…

José Horta Manzano

Suisse 7Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.

É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.

Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.

Suisse 4Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.

A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.

Suisse 6Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.

Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.

Suisse 5Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.

De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».

Mãos ao alto!

José Horta Manzano

A UNODC – Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime – publicou a edição 2013 de seu Estudo Global sobre Homicídios, baseado em dados de 2012. Quem estiver interessado pode obter o original aqui (em inglês).

Assalto 2Quando o assunto é brutalidade, a gente já começa a folhear o relatório com certo temor. O País que nos interessa dificilmente aparece em boa posição. Notícias encorajantes são raras. Dito e feito.

Nosso Brasil detém um triste recorde: em números absolutos, é campeão mundial de assassinatos. Foram mais de 50 mil(!) no ano de 2012. Isso dá quase mil por semana, perto de 140 por dia. Um a cada dez minutos, minha gente! Quando você chegar ao fim deste artigo, alguém terá sido assassinado em território nacional. Quem foi mesmo que classificou nosso País como cordial, acolhedor e pacífico?

Comparar nossa situação com a da Dinamarca ou a do Japão é covardia. A situação não é a mesma. O estágio civilizatório é diferente. O número de habitantes é distinto.

Mas vale comparar com os outros três componentes da sigla Bric. São todos considerados ‘emergentes’, têm território imenso, população numerosa e renda per capita média. Comparei. Ficou assim:

País         Total    Por 100mil
—————————————————————————————————-
Brasil      50.108      25,2
Rússia      13.120       9,2
Índia       43.355       3,5
China       13.410       1,0

A primeira coluna dá o total de humanos assassinados em 2012. A segunda mostra o número anual de homicídios por 100 mil habitantes. Os dados da China são de 2010, mas a taxa de homicídios vem caindo por lá ano após ano. Nos últimos oito anos, caiu pela metade.

Revolver 1Em conclusão, para um assassinato na Rússia, há 3 no Brasil. Para cada indiano trucidado, trucidamos quase 8 brasileiros. E – este dá vergonha – para cada homicídio chinês, respondemos com 25 cidadãos massacrados.

Dei mais uma olhada. Queria saber onde se situam os campeões mundiais em morticínio per capita, ou seja, onde é que se mata proporcionalmente mais. O resultado é inapelável: os primeiros 35 lugares da lista são ocupados por países americanos e africanos. São 19 da América e 16 da África. Os olhos precisam passear até o 36° lugar para encontrar o primeiro não americano e não africano. Trata-se do obscuro Quirguistão, que poucos saberiam situar num mapa-múndi.

Crime 1Dos países americanos, apenas dois estão propriamente na América do Sul: Venezuela e Brasil. Os outros fazem parte da América Central e do Caribe. O campeão mundial disparado neste gênero de esporte é Honduras. Com a impressionante taxa anual de mais de 90 homicídios por 100 mil habitantes, deixa El Salvador, segundo colocado, comendo poeira.

Ganha um bilhete de ida simples para Tegucigalpa (capital de Honduras) quem explicar por que razão a taxa de homicídios vem subindo no Brasil enquanto desce nos demais Bric.

A China e seus satélites

José Horta Manzano

Quando dois ou mais se juntam para formar um clube, há que haver objetivo comum. Se assim não for, não faz sentido.

Em 2001, Terence James O’Neill, economista inglês funcionário do banco de investimento Goldman Sachs, conjecturava sobre a evolução da economia mundial para os 50 anos seguintes. Considerou que quatro grandes países tinham condições não só de figurar em primeiro plano, mas até de desbancar economias tradicionais.

Comparação entre os sócios do "Brics"

Comparação entre os sócios do “Brics”

Esses países – atualmente chamados «emergentes» – são o Brasil, a Rússia, a China e a Índia. Todos eles têm superfície extensa e população numerosa. Seguindo a tradição inglesa, o economista logo procurou combinar a primeira letra do nome de cada um dos países para formar um acrônimo. Podia ter sido Crib, Irbc, Bcir, Ricb – todos difíceis de pronunciar. Bric pareceu-lhe mais palatável. E assim ficou.

O mundo comprou a conjectura de O’Neill pelo valor de face: uma elucubração sem efeito prático, nada mais. Os quatro países, de fato, têm pouca coisa em comum. As diferenças são mais importantes que as semelhanças. Em alguns aspectos, as disparidades são enormes: população, religião dominante, clima, base econômica são exemplos gritantes.

No entanto, Nosso Guia há de ter farejado no acrônimo inventado pelo inglês boa oportunidade de subir um degrau e tornar-se – por que não? – guia global. Já pensou? Fez o que pôde para promover encontros e reuniões de cúpula. Por inércia, desembocamos no projeto de criação de um banco comum de desenvolvimento.

No meio do caminho, a África do Sul foi agregada ao acrônimo não se sabe exatamente por quê. Talvez para acrescentar um «s». Talvez para incluir um membro em cada continente e dar, assim, importância global ao grupo. A Indonésia teria sido escolha mais coerente.

Um banco de fomento? Para o Brasil, não vejo bem o interesse. Já temos nosso BNDES. Injetar nosso suado dinheirinho num banco que financiará projetos na Índia? Ou na Rússia? Como perguntaria o outro: que vantagem Maria leva?

A economia chinesa é, de longe, superior à soma do PIB dos outros membros do «clube». A dissimetria é abissal. Em teoria, pode até parecer que os sócios têm peso igual. Na hora do vamos ver, todos funcionarão como satélites da China. Duvido que algum projeto contrário aos interesses chineses seja aprovado. Não se pode dizer o mesmo dos interesses brasileiros.

Cerimônia de fundação do Banco del Sur

Cerimônia de fundação do “Banco del Sur”

Tirando a projeção mundial que Nosso Guia contava obter para sua humilde pessoa, não vejo que interesse o Brasil tem nesse projeto de banco. Nosso Guia, abatido pelos atuais dissabores, segue caminho descendente. As últimas eleições mostraram a perda de embalo de seu partido. Nem poste ele consegue mais plantar. Acredito que já tenha perdido as esperanças de tornar-se o pai mundial dos pobres.

O presidente do conselho de administração do novo banco será indicado pelo Brasil. É posição honorífica, nada mais. No novo banco, nenhum «companheiro» há de se lambuzar como têm feito no BNDES e na Petrobrás. Chinês, além de desconfiado, é pra lá de cioso com dinheiro.

É possível e bastante provável que esse banco tome o mesmo caminho do Banco del Sur – lembra-se dele, distinto leitor? –, aquela fantasiosa invenção chavista endossada pelo Lula. Nasceu em 2009 e continua no papel até hoje. Era golpe de marketing. Caiu no esquecimento.

Você votou em quem você votou?

Fernão Lara Mesquita (*)

Urna 5A resposta é que você nunca saberá.

É com anos de atraso, num mau momento e possivelmente até com algum rabo preso, como se verá abaixo, que o PSDB pede à Justiça Eleitoral uma auditoria do sistema eletrônico de votação brasileiro por uma comissão de especialistas indicados por todos os partidos.

Mas antes tarde do que nunca. As queixas são recorrentes, o Brasil vai na contramão do padrão mundial, e é função de um partido dar satisfação a seus representados.

Que a máquina brasileira de votar não tem segurança é ponto pacífico. Nada que lide com softwares e bits tem segurança. Isso está provado por testes que quebraram a segurança da nossa urna eletrônica não só nas medidas destinadas a evitar a identificação do voto com o respectivo eleitor, como também nas medidas para impedir que softwares maliciosos atribuam o voto de um eleitor a um candidato diferente daquele em quem ele votou.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Esses testes foram feitos, e falhas de segurança foram identificadas desde as primeiras eleições computadorizadas no País. Não só por brasileiros como também por americanos da Universidade de Princeton, especialistas em máquinas similares às nossas (do ponto de vista tecnológico, não na aparência) produzidas pelo mesmo fabricante das brasileiras – que, aliás, é alvo de um monte de processos por corrupção nos EUA.

urna 4Mas o que há de escandaloso no caso brasileiro é que, apesar de todas essas provas de falta de confiabilidade da máquina, do acúmulo de queixas em eleições passadas (94 municípios registaram queixas de fraude na eleição de 2012), das centenas de vídeos que circulam na rede mostrando casos pontuais pra lá de estranhos em locais de votação de diversos estados e das provas diárias de que nem os computadores do sistema financeiro nacional e internacional, da Casa Branca ou do Pentágono estão imunes a invasões ou fraudes, mantém-se em pé, com argumentos pífios, uma suspeitíssima barreira para impedir a introdução de contraprova física das nossas votações. Um documento que possa ser conferido manualmente como se faz em todos os países do mundo com votações eletrônicas. São só duas as exceções: o Brasil e a Índia.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

O banco do Brics

José Ronaldo Saad (*)

A propósito da recente criação do banco CRA, banco do Brics, faço um comentário.

Por mero cálculo aritmético, verifica-se que o rateio do investimento dos cinco países se baseou na média de três índices: população, PIB, renda per capita. O aporte de cada um foi (em bilhões de dólares): China: 41, Índia: 18, Brasil: 18, Rússia: 18, África do Sul: 5.

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe. by Paresh Nath, desenhista indiano

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Ocorre que o terceiro índice (renda per capita) teria de ser descartado por dissimular uma falácia. Como ele é a relação entre PIB e população ― já devidamente computados nos dois primeiros critérios ― sua consideração é redundância equivalente ao notório expediente de “dar com uma mão para tirar com a outra”.

Ou seja, neste último indicador a população entra como denominador de uma fração, diminuindo sensivelmente o correto aporte dos países mais populosos ― a China e a Índia ―, justamente os gigantescos países asiáticos que mais precisam da infraestrutura para a qual o fundo foi específicamente criado. Hermanos vizinhos!

A média legítima seria obtida se se levassem em conta unicamente população e PIB. O rateio deveria ficar assim (em bilhões de dólares): China: 52.4, Índia: 26.3, Brasil: 10.3, Rússia: 9.0, África do Sul: 2.0.

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar. by Paresh Nath, desenhista indiano

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Como ficou, a China e a Índia deixaram de aportar 11,4 e 8,3 bilhões (22% e 32% de vantagem). Brasil, Rússia e África do Sul, investiram a maior 8, 9 e 3 bilhões respectivamente, chegando a 75%, 100% e 150% de desvantagem.

Não é à toa que os indianos são os maiores matemáticos do planeta. E adivinhem quem será o primeiro presidente?

Mais uma copa perdida?

in Tribuna da Imprensa, 16 jul° 2014.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

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PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

Os dois tabus

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jan° 2014

Desde que o mundo é mundo, a humanidade cultiva dois temas sensíveis: raça e religião. Lidar com eles requer prudência e tacto. Evitar acidentes é dever de todos.

Embora a razão de ser de toda religião seja a crença na continuação da vida após a morte física, a diversidade de ritos, dogmas, preceitos, obrigações, proibições é notável. Cada credo tem seu catálogo de regras. O assunto, delicado, é daqueles que se hão de tratar com luvas e pinça. Muita guerra já se travou e muita gente já morreu por divergências religiosas.

O Brasil teve sorte. As práticas animistas dos habitantes originários e o aporte de tradições africanas atenuaram a rigidez e o dogmatismo de colonizadores e de imigrantes. Embora nem sempre nos apercebamos disso, é de reconhecer que não padecemos de conflitos religiosos. Vão longe os tempos da Controvérsia de Valladolid, da Inquisição e das conversões forçadas. O afluxo de gente de vários quadrantes incutiu tolerância à índole nacional.

Visto assim do alto, esse traço de nosso caráter pode até parecer banal. Pois não é. Há pontos no globo onde ainda se luta por divergências de fé. Como prova, estão aí a Irlanda do Norte, o Egito, o Sudão, o Tibete. Até na Europa Ocidental, fricções de ordem religiosa obrigam parlamentos a legislar sobre vestimenta feminina ― o porte da burca ou do véu islâmico, por exemplo. Em nossas terras, a sunga e o fio dental já cuidaram de banir esses rigores. Nosso problema está resolvido.

Stop racismo! Crédito: harrycutting.com

Stop racismo!
Crédito: harrycutting.com

O racismo, outro tema sensível, planta raízes nos estratos mais primitivos do subconsciente. É a manifestação da desconfiança que dedicamos aos que não pertencem a nosso clã. Na prática, esse sentimento se exprime através da repulsa aos que têm cor de pele diferente da nossa, que não falam nossa língua, que não se comportam como nós. Em resumo: rejeitamos o que foge à norma.

Países onde coexistem etnias diferentes costumam ser palco de fricções. Um nada pode provocar conflitos. Essa intolerância está na raiz de atritos crônicos na Palestina, na Síria, no Iraque, na Índia, na Rússia. Na mesma linha, rebeliões nas periferias francesas e surtos de violência nos EUA nos lembram que a paz racial está longe de ser conquista planetária.

Múltiplos fatores forjaram o Brasil. Temos qualidades de fazer inveja: clima agradável, gente afável, ambiente tolerante, povo acolhedor. Mas arrastamos problemas pesados: corrupção, paternalismo, baixa instrução crônica, gritantes disparidades econômicas.

«Deus é brasileiro», dizemos às vezes. Pois olhe, ainda que não passe de um dito jocoso, o fato é que, até hoje, conseguimos escapar da armadilha dos dois grandes tabus. Costumamos encarar com bonomia a diversidade religiosa de nosso povo. Tem até gente que professa duas religiões! A fé ― ou a descrença ― de cada um não constitui obstáculo à convivência. Na esfera racial, a intensa miscigenação do povo brasileiro é a prova maior de que a tolerância e a flexibilidade são a regra, não a exceção. E é melhor assim.

Sabe-se lá por que, de uns anos para cá, o ideal de igualdade e de unidade que alicerça nossa sociedade vem sendo artificialmente solapado. O elenco de normas oficiais passou a dispensar tratamento diferente a determinadas categorias de cidadãos segundo critérios raciais. Cotas e quilombos ― noções inexistentes até há pouco tempo ― entraram na pauta da modernidade brasileira.

A intenção, apesar de leviana, foi nobre. Já o resultado, a médio prazo, pode escorregar para uma ladeira perigosa e não prevista. «Discriminação positiva» é conceito ambíguo: positiva ou negativa, discriminação será sempre discriminação. Para subir de um lado, a gangorra tem de descer do outro. A cada vez que um grupo de cidadãos for privilegiado, a lógica elementar ensina que outro grupo será obrigatoriamente defraudado.

Stop racismo!

Stop racismo!

Políticas desse jaez trafegam na contramão do processo civilizatório ― são danosas para a consolidação de um sentimento de unidade nacional. Pelo contrário, podem atiçar melindres raciais, semear ressentimentos e abalar a concórdia que costumava reinar entre nós.

Se o nível de instrução pública é baixo, que se faça o necessário para elevá-lo. Dar como favas contadas que alguns são menos instruídos que outros unicamente por terem cor de pele diferente é generalização barata, uma falácia, uma ofensa. Estamos cutucando a onça com vara curta. Cuidado, ela pode se enervar!

Que a aragem leve do novo ano sopre sabedoria a nosso legislador. Mais vale recuar enquanto é tempo. Feliz ano-novo a todos!

Melhores destinos para expatriados

José Horta Manzano

O marketing governamental carece de visão de futuro. Pode ser instrumento excelente para tapar buracos pequenos e imediatos, mas, no capítulo das previsões, é um desastre. Só se dá conta dos problemas quando já aconteceram. E aí, é mais difícil dar jeito. Precisa competência, artigo raro entre nossos mandarins.

Assim como o Brasil tem o Valor Econômico, publicação que preencheu o vazio deixado pela extinção da Gazeta Mercantil, a França tem as revistas Capital e Management. A versão online das duas está alojada no sítio Capital.fr.

Mês passado ― antes dos protestos das ruas brasileiras ― o especialista publicou um interessante artigo, bastante documentado, com recomendações aos franceses que pretendem se estabelecer no estrangeiro.

Bandeiras do mundo Para onde ir?

Bandeiras do mundo
Para onde ir?

Descreve, com os comos e os porquês, os oito países mais interessantes para os futuros expatriados. Atenção: não estamos mais falando da imigração de 100 anos atrás, quando levas de agricultores pobres e iletrados saíam em busca de vida menos apertada. Falamos aqui de deslocamento voluntário de gente que tem formação técnica ou intelectual e competência para exercer funções de responsabilidade.

Para cada um dos países, o artigo indica quais são os setores onde os expatriados terão melhores chances de descolar uma boa posição. Dá também algum conselho útil para quem chega a terra desconhecida.

Os oito países são: o México, a Índia, a República Dominicana, a Turquia, a Indonésia, o Marrocos, a Suíça e a Hungria. Não necessariamente nessa ordem.

Notou falta de alguma coisa? Pois é, eu também reparei. Falta o Brasil, o novo eldorado cantado em verso e prosa pelo marketing oficial.

É assaz incômodo ficar sabendo que empresários estrangeiros nos enxergam como um país com menos oportunidades que um México ou uma Indonésia. Pior: na visão deles, até Índia e República Dominicana nos ultrapassam.

Que outras realidades o marketing do Planalto nos oculta?

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O fim da zelite

José Horta Manzano

Segundo o discurso oficial, a zelite foi apeada do poder doze anos atrás. Desde então, nos livramos da promiscuidade entre o probo e austero governo tupiniquim e o execrável e corrupto império norte-americano.

Demos as costas ao bicho-papão para melhor dar as mãos a compañeros mais póximos do nosso feitio. Ahmadinejad, os Castros e Chávez foram os primeiros. Depois aceitamos novos sócios no clube dos virtuosos: Correa, Evo, Ortega, Zelaya e a inefável señora de Kirchner. As inscrições continuam abertas, mas por tempo limitado.

Para coroar tudo, estabelecemos as bases de uma sólida, profícua e duradoura parceria estratégica com a Rússia, a Índia e, principalmente, com a China. Foi a melhor decisão político-econômica jamais tomada na história deste país. Afastamo-nos dos malvados e atrelamos nosso vagão à locomotiva chinesa que representa, sabemos todos, o futuro brilhante da humanidade. Um modelo de equidade, lisura e justiça.

Perdemos algumas plumas no meio do caminho, é verdade. Mas que importa se descemos alguns degraus, se nos desindustrializamos, se voltamos a ser produtores de matéria-prima? Isso é coisa pouca se comparado ao caminho radioso que preparamos para nós mesmos.

O grito lançado em 1822 pelo filho do rei tinha ficado meio entalado na garganta. Afinal, que história é essa de o símbolo maior da zelite ― o herdeiro da coroa! ― liberar o país? Coisa esquisita. Pois agora a obra está completa. Estamos independentes!

O governo popular, preocupado exclusivamente em servir ao povo, fechou o círculo. Os peçonhentos americanos ― ou estadunidenses, como usam dizer alguns ― foram definitivamente removidos de nosso horizonte.Interligne 18d

Excelente reportagem de investigação assinada por Rubens Valente e publicada na Folha de São Paulo deste 15 de julho contradiz frontalmente os parágrafos anteriores. Essa história de bater na madeira e nos isolar dos malvados do Norte não passa de cortina de fumaça, produto de elaborado marketing palaciano. A história real é bem diferente.

Se já não o fizeram, leiam a reportagem da Folha. Ela nos informa que os serviços de inteligência dos Estados Unidos continuam colaborando estreitamente com a Polícia Federal brasileira. Acordos ― alguns sigilosos, outros não ― continuam sendo firmados entre os dois países.

Ajuda financeira

Ajuda financeira

Entre 1999 e 2008, ajuda financeira por um total de 140 milhões de reais foi oferecida pelas autoridades americanas. E, naturalmente, aceita pelos altos responsáveis brasileiros.

Essa detestável zelite não tem jeito mesmo: a gente enxota pela porta, e ela entra pela janela. Acabrunhado, o governo popular não sabe mais que fazer.

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Interligne vertical 5Nota pessoal:
Não tenho notícia de que nenhum de nossos parceiros estratégicos ― China, Índia, Venezuela, Bolivia, Nicarágua, Irã & companhia ― tenha desatado os cordões da bolsa para nos enviar alguma ajuda. Nem que fosse simbólica.

Falta espaço

José Horta Manzano

Quem já teve ocasião de chegar a Londres de avião deve ter reparado ― se o tempo estava claro e sem névoa, coisa rara por aquelas bandas ― que a metrópole britânica é composta de casinhas baixas, cada uma com seu jardinzinho e muitas com quintal.

Como é possível que uma aglomeração de mais de 12 milhões de almas possa se dar ao luxo de ter aquela multidão de casinhas, cada uma com seu terreno, sua grama e suas flores? É ainda mais intrigante se pensarmos que o Reino Unido, com uma superfície comparável à do Estado de São Paulo, abriga 60 milhões de habitantes.

E a Europa, então, com seus 750 milhões de viventes? Deveria ter a aparência de um formigueiro, mas não tem. Qual é o segredo?

Aglomeração urbana em pouco espaço

Aglomeração urbana em pouco espaço

Uma dispersão populacional lenta, como a Europa conheceu ao longo dos últimos dois milênios, favorece o estabelecimento dos habitantes de maneira pouco concentrada, mais equilibrada. Já o povoamento rápido que caracterizou o Brasil no século XX privilegiou o inchaço de aglomerações.

Entre 1900 e os dias atuais, a população europeia não chegou a dobrar ― seu aumento foi de 76%. No mesmo período, a população do Brasil mais que decuplicou, num aumento superior a 1000%. As cidades oferecem melhores perspectivas que o campo. É compreensível que os numerosos novos habitantes de nosso País, imigrantes ou nascidos na terra, tenham preferido aglomerar-se em meio urbano.

A enorme procura por espaço para morar, aliada à precariedade dos transportes, faz que o preço da terra suba às alturas. O resultado é que os terrenos oferecidos têm superfície ridiculamente exígua. Casas e prédios são construídos praticamente colados uns aos outros, dando esse aspecto apinhado, que lembra vagamente a China ou a Índia.

Nosso País é palco de contrastes difíceis de explicar a olhos estrangeiros. Latifúndios de milhares de hectares se estendem pelo interior das terras, vazios, sem um casebre para contar a história. Pode-se percorrer quilômetros sem encontrar vivalma. Os brasileiros se amontoam em aglomerações ultradensas, dentro de perímetros minguados, fato que contribui para estimular comportamentos agressivos e suas nefastas consequências.

Não só as pessoas vivem empilhadas, mas também as plantas, como nos mostra artigo publicado no Correio Braziliense.

Plantas em pirâmide Crédito: Correio Braziliense

Plantas em pirâmide
Crédito: Correio Braziliense

Alguns até podem encontrar uma certa beleza plástica nesse estado de coisas, mas não passa de estética. No fundo, o bom mesmo é viver em sua casinha, com seu jardinzinho, sem vizinho em cima, sem vizinho embaixo, com espaço para abrir os braços.

Infelizmente, a persistir o estado calamitoso do transporte público nas aglomerações brasileiras, a casinha com terreno generoso ainda é um sonho longínquo.