Quingentésimo septuagésimo nono

José Horta Manzano

Na Antiguidade, classificações em ordem numeral não iam muito longe. Não havia necessidade. O que é que tinha de ser contado? A quantidade de filhos, de horas, de dias ‒ não muito mais. Não se elaboravam listas com centenas de componentes. O mais longe que se costumava contar eram os marcos da liturgia, com trigésimas e quadragésimas. Fora isso, ninguém se preocupava em dar nome ao 248° de uma série. Tudo o que não é utilizado acaba enferrujando.

Foi o que ocorreu com os ordinais em nossa língua. Por falta de uso, o conhecimento das regras acabou se perdendo. Quem frequentou boa escola pode até ter aprendido que o 500° de uma relação se diz quingentésimo e que o 579° é o quingentésimo septuagésimo nono. Mas tudo isso não vai além do plano teórico. Ainda que o esforçado aluno puxasse, lá do fundo da memória, a forma correta do ordinal, dificilmente seria entendido.

O resultado? Estamos atolados em desorientação numérica. Até o 50, a conversa vai: vigésimo segundo, trigésimo quinto, quadragésimo terceiro. Daí pra frente, a coisa se complica. Quando a posição numa lista de classificação é maior que 50, até pessoas cuja profissão é falar ‒ locutores, palestrantes, professores ‒ hesitam, titubeiam e… acabam utilizando o cardinal. No rádio, ouve-se falar do setenta e seis distrito policial. Na conferência, o palestrante diz que o Brasil ficou na posição 137.

Podemos dar de ombros, nos conformar com a situação e passar pro capítulo seguinte. Joga-se a poeira pra debaixo do tapete, faz-se uma pirueta e pronto. Atrás, vem gente, e a vida segue. Podemos também procurar uma solução.

O “50” aniversário do rei

Nossos ordinais são descendentes diretos das formas latinas. Só que, ao tempo dos romanos, não andavam na boca do povo. Eram reservados para uso literário. Hoje em dia, dado que as enumerações são mais longas, a complexidade do sistema ficou pesada.

Cada povo resolveu o problema a seu modo. Ingleses, alemães, franceses e italianos encontraram uma saída genial. A partir dos números de dois algarismos, pronunciam a primeira parte do número em forma cardinal e só marcam o ordinal quando chegam à unidade. Transplantando o sistema para nossa língua, nosso 579° fica assim: «quinhentos e setenta e nono». Facilita a vida, não? Se tomássemos esse caminho, o locutor não tropeçaria mais: diria que o bandido foi levado preso ao «setenta e sexto» distrito. E o palestrante, aliviado, mencionaria a «cento e trinta e sétima» posição do Brasil na classificação.

Há também a solução de joão sem braço adotada pelos castelhanos. Exceto para os pequenos números, eles eliminaram os ordinais. Falam do «cinquenta» aniversário do rei, do «trinta e nove» festival de cinema. Fica esquisito, um pouco pobre. Por mim, adotaria a solução de ingleses, franceses e alemães. No começo, havia de parecer estranho, mas a gente logo se acostuma.

De toda maneira, a sugestão tem de vir de quem de direito: da Academia Brasileira de Letras. Em vez de se preocupar em nos infernizar a vida com a dança dos hifens, bem que podiam se debruçar sobre o assunto e mostrar o caminho. Mas não tenho esperança de que o façam tão cedo. Melhor puxar uma cadeira e esperar sentado, que de pé cansa.

Pós-verdade

José Horta Manzano

Palavras são criadas a toda hora. Ao redor do planeta, torrentes de termos novos jorram continuamente. Como é natural, nem todos os idiomas têm a mesma importância. Cada época tem suas línguas de maior prestígio. As novidades baseadas na língua dominante têm mais chance de dar a volta ao globo.

Na Idade Média, os europeus iam buscar no latim, língua de cultura, os ingredientes para compor palavras. Do século XV até uns cem anos atrás, o francês passou a ocupar o lugar do latim declinante. Todas as novidades vinham de Paris inclusive palavras e expressões. Tudo «très chic».

by Kike Ibáñez (1980-), desenhista espanhol

Em nossos dias, quem esmaga a concorrência é o inglês. No Brasil, onde somos particularmente permeáveis a neologismos, palavras inglesas chegam a aposentar termos e expressões que, ainda ontem, costumávamos utilizar sem constrangimento. Algum comerciante ousaria botar mercadoria em liquidação? Ou dar desconto? Alguma pizzaria ofereceria serviço de entrega? Algum restaurante fino poria simples manobristas à disposição da clientela? Alguém pensaria em tecer considerações sobre comércio eletrônico? Qual nada! Sale, off, delivery, valet, e-commerce estão na crista da onda.

Os exemplos que acabo de dar são modismos. Hoje estão em todas as bocas, mas ninguém garante que resistam à passagem do tempo. Existe, no entanto, uma outra casta de palavras importadas. Trata-se daquelas que exprimem conceitos novos, objetos e fatos para os quais não tínhamos nome. Esses aportes, sim, são bem-vindos. Vêm para ficar. Hão de permanecer enquanto o objeto existir.

Nos últimos anos, as redes sociais se espalharam com rapidez impressionante. Como toda moeda, têm duas faces. O lado bom é permitir que notícias se alastrem com a rapidez de rastilho aceso. O lado escuro é que as notícias alastradas nem sempre correspondem à verdade. Mas há gente ‒ muita gente ‒ que engole, sem filtro, tudo o que ouve ou lê. O fenômeno é antigo. A gente costumava chamar de boataria, diz-que-diz, fofoca. O incremento exponencial que se verifica atualmente estava a exigir nome específico.

Atribuem a um blogueiro a criação da expressão «post-truth». A menção mais antiga aparece sete anos atrás. Em inglês, o termo se generalizou rapidamente. Talvez por dificuldade de pronúncia, cada língua tratou de adaptar o termo à sua fonética. Ou mesmo de traduzi-lo. Assim, temos «post-vérité» em francês, «post-verità» em italiano, «posverdad» em espanhol. Aliás, o diretor da RAE ‒ Real Academia Española, que corresponde a nossa Academia Brasileira de Letras, já anunciou que a palavra estará incluída na próxima edição do dicionário RAE, a bíblia da língua de Cervantes.

by Sébastien Thibault (1980-), desenhista canadense

Já nossa bíblia, o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), cuidado pela ABL, ainda não registra o termo em sua versão online. Que não seja por isso. O Dicionário Priberam já ousou. Incluiu o verbete pós-verdade, que vem assim descrito: «Informação que se divulga ou aceita como fato verdadeiro devido à forma como é apresentada e repetida, mas que não tem fundamento real.»

Mr. Trump tem feito amplo uso do estratagema. Em nossas plagas, tivemos um presidente da República que pautava seu discurso por um conceito aparentado: o da quase-lógica. De tão vago e ambíguo, alguns até hoje acreditam sinceramente nas palavras do demiurgo. A expressão não entrou nos dicionários. Dificilmente entrará.

Confeitura

José Horta Manzano

Confiture 5No Hemisfério Norte, onde vive a maior parte da humanidade, a primavera está chegando timidamente. Folhas brotam, flores se abrem, a paisagem fica cada dia mais colorida. E os frutos começam a dar o ar da graça.

Os primeiros são os morangos, já presentes em quitandas e supermercados desde o mês de março. Depois virão cerejas, melões, pêssegos, abricós, ameixas, peras, maçãs, uvas e, pra fechar o ano, laranjas.

Confiture 2Hoje em dia, nem tem mais graça: o mercadinho da esquina oferece, o ano todo, frutas fora de estação. Em pleno dezembro, há cerejas do Chile. Em maio, uvas da Índia ou da África do Sul. Mangas do Brasil e abacaxis da Costa do Marfim encontram-se o ano todo. Fazem companhia às bananas onipresentes, todas iguaizinhas, da mesma cor, sem pintinhas e… cá entre nós: sem gosto. Pior: com gosto de remédio.

Abrindo parênteses, acho um despropósito comprar frutas fora de época, daquelas que atravessaram meio planeta de avião, gastando querosene e poluindo. Mas há quem não pense assim. Cada cabeça, uma sentença. Fechem-se os parênteses.

Confiture 1Se a tecnologia e a logística atuais põem praticamente todas as frutas à nossa disposição o tempo todo, nem sempre foi assim. Tempo de morango era março-abril, ponto e basta. Fora daí, necas de pitibiriba. E fruta não se pode guardar, que logo apodrece. Como faziam os antigos?

Não sei quem terá tido a ideia de cozinhá-las no açúcar. Foi um achado! Cozidas e guardadas num recipiente bem fechado, podem durar anos. Sem geladeira, sem sal, sem aditivo.

Confiture 6Praticamente todos os europeus mantêm a tradição de conservar frutas em açúcar. Franceses, ingleses e alemães costumam consumir essas doces «memórias de verão» no café da manhã, em pleno inverno. E no resto do ano também, uai. Espanhóis e portugueses também apreciam, mas com menor intensidade.

Confiture 4No Brasil, não são componente indispensável do café da manhã. Café, leite, pão, manteiga, sim. Geleia – que é como chamamos – é optativo. Há mesas em que está sempre presente. E há gente que jamais comprou um pote.

Os franceses dizem «confiture». Espanhóis preferem «mermelada». Ingleses reservam «marmalade» para cítricos; para outras frutas, usam «jam». Já os italianos dizem «marmellata» em todos os casos. Alemães hesitam entre «Konfitüre» e «Marmelade».

O vocabulário da Academia Brasileira de Letras registra a forma peculiar confeitura. Na vida real, nunca ouvi ninguém utilizar esse termo. O nome usual é geleia ou, mais raramente, doce. Confesso desconhecer o uso lusitano. Se algum distinto leitor me puder iluminar, fico sensibilizado.

Confiture 3Toda mulher europeia – e muito homem também – costuma fazer geleia em casa, conforme vão aparecendo as frutas da estação. Faz-se o doce, despeja-se num pote de vidro, fecha-se hermeticamente, põe-se uma etiqueta e pronto: vai para o fundo do armário. Em geral, a quantidade de potes é superior à que se consumirá até o ano seguinte. Que fazer pra não acumular doce antigo?

Pois nesta época em que frutas frescas reaparecem, é comum as pessoas serem acometidas de súbita generosidade. Por um sim, por um não, todos se dão de presente potes de geleia do ano anterior. É pra esvaziar prateleira e abrir espaço pra novas conservas. Semana passada, recebi presente assim de duas pessoas.

Interligne 18hPS:
Nossa expressão «ser apanhado com a boca na botija», usada quando alguém é surpreendido ao agir de maneira indevida, tem equivalente em francês. É «se faire prendre les doigts dans le pot de confiture» – ser apanhado com os dedos no vidro de geleia. Pra você ver o valor que se dá a esse tesouro armazenado no fundo do guarda-comida.