Urgência urgentíssima

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 janeiro 2019.

Muitos anos de maus governos maltrataram o país. Apesar de sacolejado por golpes e revoluções, o brasileiro não se lembra de ter assistido antes a tanto descaminho por tão longo tempo. O horizonte trancado durante quase duas décadas gerou sensação de impotência. A bateção de panela de 2013 foi bonita, empolgou, mas não resolveu. A destituição da doutora foi um começo de solução, mas não passou disso: um começo. Serviu pra desanuviar, mas não afastou o espectro do retorno vigoroso da rapina institucionalizada. Como náufragos, os brasileiros procuravam uma tábua à qual se abraçar.

Eis senão quando, na última campanha eleitoral, um candidato obscuro e desconhecido emergiu das profundezas do baixo clero do Congresso. No princípio, ninguém teria apostado um real furado no sucesso do homem. Estava mais pra figura folclórica, um daqueles candidatos que parecem estar lá só pra dar um tchauzinho na televisão e pra receber uns caraminguás do fundo eleitoral. À medida que o tempo foi passando, como quem não quer nada, a candidatura engrossou, ganhou peso e tomou lastro. Sem ser radical, do tipo ‘todos al paredón’ ou ‘à guilhotina os burgueses’, a fala do postulante denunciava o descalabro instalado nas altas esferas. O discurso não vinha tricotado com fios de oratória arrebatadora, mas dizia o que os brasileiros, cansados de guerra, queriam ouvir. Aquele em quem, seis meses antes, nenhum apostador teria botado fé venceu a corrida e ganhou direito ao trono do Planalto. Terminada a corrida e conquistada a taça, é hora de sentar e cogitar sobre o rumo a tomar.

Em princípio, preocupação com filhos termina assim que eles atingem a maioridade, deixam o lar e vão viver a própria vida. No clã dos Bolsonaros, no entanto, filhos já grandinhos continuam grudados ao pai. A mostra explícita de família unida sai bem na foto, mas os rebentos têm dado sérias dores de cabeça ao patriarca. Nas semanas escoadas desde a tomada de posse, francamente, mais atrapalharam que ajudaram. Já antes da entronização, era perceptível que os juniores se comportavam como crianças mimadas, daquelas que, na hora do recreio, desdenham dos coleguinhas: «Meu pai é mais forte que o seu!». Agora, que o chefe virou presidente, a dor de cabeça virou enxaqueca.

Os herdeiros não são a única fonte de problemas de doutor Bolsonaro. Um vozerio descontrolado percorre o mundinho que lhe está em torno ‒ secretários, conselheiros, assessores, ministros. Talvez em virtude daquele natural deslumbre que subjuga todo noviço, as declarações do entourage do presidente andam abrindo remoinhos e levantando ondas que lambem o país inteiro. São falas desencontradas, cada um se sentindo livre de afirmar o que lhe passa pelo bestunto, numa cascata de tagarelice bizarra que vai desde política externa até vestuário infantil.

Unanimidade de opiniões, concedo, é característica de regime totalitário. Como exemplo máximo, temos a bem-comportada torrente de aplausos que coroa todo anúncio de decisões tomadas pelo comitê central do partidão, na China ou em Cuba. Não é sadio, nem é o que gostaríamos de ter em nossa incipiente democracia. Nem por isso, o inverso é aceitável. As estrepolias dos filhos do presidente adicionadas à inabilidade dos que lhe orbitam em torno está gerando algaravia. Botar remédio nesse estado de coisas é caso de urgência urgentíssima.

Um outro ponto que vem gerando atrito é a radicalização religiosa de alguns dos novos componentes do andar de cima. É importante ter presente que Estado laico é invenção relativamente recente. Desde sempre, o Estado foi ligado à religião, o que não é um mal em si. Mais importante do que a crença pessoal de membros do governo é o ambiente de tolerância que deve reinar. Há países civilizados com religião oficial ‒ Inglaterra, Dinamarca, Noruega, Grécia ‒ onde, nem por isso, os habitantes se sentem aprisionados por uma teocracia em que nada existe fora da fé. A tolerância e a benevolência, se bem aplicadas, são precioso anteparo contra excessos.

O que pode e o que não pode

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro fez seu début internacional num palco de prestígio. Entrou pela porta grande. Ser o convidado de honra logo na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, não é pra qualquer capiau. Durante o discurso, o presidente dava a impressão de funcionar como ventilador, com a cabeça abanando pra um lado e pro outro. Isso ocorre em virtude do posicionamento do ponto.

O ponto (no original, presidential teleprompter) é uma placa de plexiglas fixada no topo de uma haste metálica que se assenta num tripé. À medida que o discurso avança, o texto vai desfilando, como num karaokê, mas visível só do lado de quem faz o pronunciamento. O objetivo é dar a impressão de que a oração é feita de improviso.

Em geral, são colocados dois pontos, à esquerda e à direita do orador. Para dar a impressão de estar falando espontaneamente, ora ele lê no ponto da direita, ora no da esquerda. A ilusão é quase perfeita. O encanto só se quebra quando o discursante engasga na leitura de uma palavra. Não deu outra: aconteceu com o doutor. São acidentes de percurso.

No fundo, que o discurso seja lido no papel, decifrado no ponto ou declamado de cor, o que importa mesmo é o conteúdo. Comentaristas brasileiros consideraram que a fala foi muito curta e superficial. Não compartilho essa impressão. A concisão é qualidade rara. É mais difícil resumir o assunto em poucas palavras do que espichar a alocução durante horas. Ficaram na história os discursos do bondoso Fidel Castro, que chegavam a durar seis ou sete horas, pronunciados sob o sol impiedoso de Havana, com chavões repetidos ad nauseam. Faltava, ao líder máximo, o precioso dom da concisão.

É verdade que a fala de doutor Bolsonaro não foi ao fundo de cada tópico. Não esmiuçou os pontos da reforma da Previdência. Não deu previsão de quantos hectares serão poupados do desflorestamento. Não disse quantos corruptos serão processados. Mas, convenhamos, não era hora nem lugar pra descer a minúcias. As linhas mestras foram traçadas, e isso era o que interessava.

Tirando a mímica do ventilador, o discurso inaugural não me chocou. No dia seguinte, no entanto, a gafe que tinha de acontecer aconteceu. Com pré-aviso de quinze minutos, o presidente cancelou coletiva de imprensa agendada havia semanas. Num universo como aquele, almofadado, azeitado e feito de regras fixas, essas piruetas não estão previstas. Os pretextos foram desencontrados. Certas fontes alegaram cansaço do presidente. Outras disseram que a culpada era a imprensa, que não estava se comportando exatamente como doutor Bolsonaro gostaria.

Blá-blá-blá! É ridículo alegar que a culpa é da imprensa. Mídia com cabresto é atributo de regimes autoritários. No Brasil (por enquanto) o regime é liberal. O cansaço, vá lá, é compreensível. Ainda assim, se fosse verdade, os outros componentes da mesa deveriam ter honrado o compromisso. Não é porque o chefe está de repouso que os companheiros devem acompanhá-lo na greve. Por que não vieram participantes importantes, como Moro e Guedes, cujo comparecimento era esperado?

O fato de o presidente ainda estar em fase de aprendizado não explica desfeitas como essa. Se não sabem como se comportar, que contratem um assessor com experiência internacional. Faltar a um compromisso sem motivo justo, em terras civilizadas, é ressentido como afronta. Quem está tentando «vender» um novo Brasil e atrair investidores não pode cometer afronta justamente aos donos do dinheiro. É mais que tolice: é um disparate.

Davos 2019

José Horta Manzano

Presidente ilegítimo
Hoje, abre-se em Davos (Suíça) mais uma edição do WEF ‒ World Economic Forum, encontro annual dos grandes deste mundo, na politica e principalmente na economia. O Brasil está representado por um presidente… ilegítimo.

De fato, minutos antes de embarcar, doutor Bolsonaro transferiu seus poderes ao vice-presidente. A partir daí, general Mourão passou a ser o legítimo presidente do Brasil. Jair Messias entrou num território esquisito, como quem está entre parênteses. Surgem duas hipóteses.

A primeira considera que os poderes presidenciais são unipessoais, ou seja, só podem ser exercidos por uma única pessoa de cada vez. Se assim for, o presidente em exercício é Mourão, o que ficou em Brasília segurando as rédeas. Aquele que será apresentado ao distinto público de Davos não passa de impostor. O que ele disser e os papéis que assinar não terão validade. A voz do Brasil não é ele.

A segunda hipótese concede que os poderes presidenciais sejam exercidos por dois indivíduos ao mesmo tempo. Dado que, em nosso país, vigora regime presidencial, essa ideia é esdrúxula. Se, por hipótese, os dois tomarem atitude diferente diante de um mesmo fato, qual das decisões prevalecerá? A do que largou os poderes e se foi para a Suíça ou a do que ficou tomando conta do forte? Convenhamos : ter dois presidentes ao mesmo tempo é folclórico. Resquícios de um passado que morreu.

Agasalho
Espero que doutor Bolsonaro & excelentíssima equipe tenham trazido bons agasalhos. Hoje de manhã, fazia 13,5° abaixo de zero em Davos. Saiu um solzinho chocho, que fez subir a temperatura. Às duas da tarde, no melhor momento do dia, o mercúrio subiu para 3,5° abaixo de zero. A partir daí, recomeçou a descer rumo às profundezas do inverno alpino.

Luzerner Zeitung (Lucerna, Suíça), 21 jan° 2019

Convidado de honra
Nem Mr. Trump nem Monsieur Macron estarão presentes. As senhoras May (UK) e Merkel (Alemanha) também decidiram não comparecer. O presidente da Rússia, o número um da China e o primeiro-ministro da Índia mandaram avisar que não virão. Assim, por falta de concorrentes, doutor Bolsonaro foi promovido a convidado-vedette.

Sua fala está marcada para amanhã à 15h30. Os encontros do Fórum de Davos se realizam em quatro salas. Normalmente, há eventos simultâneos, frequentemente quatro de uma vez só. Na meia hora dedicada a doutor Bolsonaro, uma concessão especial: nenhum outro evento ocorrerá ao mesmo tempo. O mundo econômico vai parar, por meia hora, pra ouvir o que tem a dizer o doutor.

Etiqueta grudada
Quando uma etiqueta gruda firme, não há solvente que dê conta de a retirar. Falando da vinda do presidente do Brasil a Davos, o jornal suíço Luzerner Zeitung publica um artigo com título bombástico: «Stargast am WEF hat keine Ahnung von Wirtschaft ‒ Convidado-vedette do WEF não tem nenhuma noção de economia».

O autor da boutade foi o próprio doutor Bolsonaro quando, ainda em campanha, confessou nada entender do assunto. Sinceridade é bom, mas sincericídio mata. Foi ingênuo, o doutor. Podia ter dado uma pirueta e respondido algo como: “Nesse campo, as competências de Paulo Guedes são superiores às minhas. Sugiro-lhe fazer a pergunta a ele”. Teria sido menos impactante.

É um perigo dizer o que passa pela cabeça, sem refletir nas consequências. Segundo os chineses, há quatro coisas que não se podem recuperar: a pedra lançada, a ocasião perdida, o tempo passado e a palavra pronunciada.

Sinais trocados?

José Horta Manzano

Quando doutor Bolsonaro assumiu as funções no Planalto, o Brasil entrou em compasso de espera. Foi um breque no samba do crioulo doido(*). De respiração suspensa, ficamos todos presos àquele curto instante que corre entre o clarão do raio e o estampido do trovão. É quando a gente sabe que o barulho virá, mas não dá pra determinar a intensidade. Será trovoada longínqua ou estrondo de assustar cachorro e despertar criança?

Por enquanto, há muita conversa e pouco efeito. As promessas de «eu bato e arrebento» andam meio murchinhas, desenxabidas. Fica a desagradável mas nítida impressão de que mais se fala do que se faz. Dizem muitos que a ideologia dos atuais dirigentes é como a dos anteriores, só que com sinal trocado. Discordo.

É inegável que os atuais ocupantes do andar de cima emitem sinais de adesão ao ideário conservador. Ressalte-se que o brasileiro, de qualquer modo, vê com desconfiança todo sacolejo brusco da sociedade. Mudanças, sim, desde que não sacudam demais o coqueiro. Na oposição entre o statu quo e a revolução, não há dúvida: preferimos conservar o que temos.

Tirando a tendência conservadora, que eu hesitaria em classificar como ‘ideologia’, o atual governo mostra, sim, inclinações ideológicas de caráter místico e messiânico. Doutor Araújo, ministro de Relações Exteriores, e Doutora Damares, ministra dos Direitos Humanos, são a face mais visível da moeda.

Revolução

Já o período anterior, o lulopetismo, carecia de ideologia. Alguns enxergam naqueles tristes anos uma tendência ‘esquerdista’ de trocas Sul-Sul, de alinhamento com países pobres, de políticas de amparo aos deserdados do planeta. Eu não vejo nada disso. Tudo que consigo enxergar é uma política malandra de fazer negócios com governos estrangeiros que aceitassem compartilhar os bilhões com a clique que comandava o Planalto. Construir vias expressas na África não é a melhor maneira de ajudar populações que não têm o que comer. Não é por acaso que países de regime ditatorial foram o alvo preferencial da política de ‘ajuda fraterna’ lulopetista. São os mais abertos a obscuras transações.

Estão aí, de maneira resumida, as razões pelas quais concordo que o atual governo se deixa guiar, até certo ponto, por ideologia. Estão aí também as razões que me levam a refutar toda ideologia no sistema petista de gerir a coisa pública. Organizar rapina do erário não é manifestação ideológica. É pura bandidagem.

(*) Em seu discurso de entronização, doutor Bolsonaro propôs um desafogo na dura lei do politicamente correto. É de supor que a nova orientação já esteja em vigor. Se não estiver, corrija-se: onde se lê crioulo doido, leia-se afrodescendente com deficiência intelectual.

Voz ativa

José Horta Manzano

Faz três dias, o Planalto emitiu uma nota. Deu conta de um ato que é, sem dúvida, o mais sensato, até esta data, do recém-inaugurado governo: foi designado o porta-voz oficial da Presidência.

Depois de quinze dias cacofônicos, uma voz credenciada vai pôr fim a essa sensação de casa de mãe joana, onde todos gritam e ninguém se entende. Não se dará mais importância se alguém ousar vociferar que meninos vestem azul ou que sapos não se vestem. Somente a voz oficial do governo fará fé.

by Tom Toro, desenhista americano

Falta recomendar aos Bolsonaros juniores que se abstenham de bagunçar o coreto. Compreende-se que seja impossível calá-los, afinal os três são eleitos do povo. Será importante, pelo menos, que abandonem o mau hábito de pôr o verbo na primeira pessoa do plural. No singular, já estará de bom tamanho.

Pega mal referir-se à Presidência com expressões como «nós queremos», «nós decidimos» ou «nós faremos». O povo gostaria de manter a ilusão de que quem decide é o presidente, sozinho, sentado em seu despacho. E não um quadrunvirato reunido em torno da mesa da cozinha.

Caiu na rede

José Horta Manzano

Alguém disse que foi no Facebook que doutor Bolsonaro cresceu, e que de lá não quer sair. É verdade, é sinal dos tempos. Quem precisou levar uma sova pra aprender isso foi doutor Alckmin, candidato infeliz à Presidência. Não se tendo dado conta de que os tempos haviam mudado, ele apostou todas a fichas no horário eleitoral ‘gratuito’ transmitido pela tevê. Perdeu todos os anéis e, por um triz, não se foram os dedos.

Doutor Bolsonaro não mora no Alvorada nem no Torto. Fixou residência nas redes sociais. Disse adeus a palanques e comícios, dos quais nunca foi grande fã. Passa longe de escrever artigos para a imprensa e de discursar no rádio. Desdenha aparições na televisão. As redes sociais são sua praia favorita. Esse é, por sinal, o ponto de maior semelhança entre ele e seu homólogo dos EUA. De fato, Mister Trump reza pelo mesmo missal: tudo pelas redes, nada fora delas.

Quem achar isso estranho, que vá se acostumando: estamos no limiar de nova era no terreno das comunicações. Discursos radiofônicos e comícios para um mundaréu de gente traziam ao ouvinte a desagradável impressão de que a fala não havia sido dirigida a ele, mas a uma multidão ‒ um discurso impessoal, que sempre deixava um gostinho de insatisfação.

A comunicação por meio das redes é direta. O recado aparece na palma da mão do eleitor, como se lhe fosse pessoalmente endereçado. Frases curtas e despojadas convidam à leitura e facilitam o entendimento. O cidadão tem uma sensação de intercâmbio amistoso entre o líder e ele, como se a hirerarquia tivesse desaparecido ‒ ainda que isso não seja verdade.

O governo de um país da importância do Brasil, no entanto, é por demais complexo pra ser exercido em ritmo de tuitadas. Frases de efeito, ainda que angariem milhões de likes, se não forem seguidas de ação concreta, não levarão a bom porto. Dez dias é pouco pra avaliar um governo de quatro anos. Mas é bom que, lá em cima, doutor Bolsonaro comece a se preocupar menos com palavras impactantes e mais com ações concretas. É pra isso que foi eleito.

Cada qual a seu modo

José Horta Manzano

Como era previsível, a mídia do mundo inteiro repercutiu o emposse de doutor Bolsonaro na chefia do Estado brasileiro. Quando se fala de um líder conhecido, não há necessidade de etiquetá-lo. Pouca gente se preocupa em saber a que partido pertencem a alemã Frau Merkel ou a britânica Mrs. May. Já quando o nome é novo, jornalistas se contorcem pra situá-lo no tabuleiro político.

Não é tarefa fácil. No caso do novo presidente do Brasil, se a mídia nacional já pula miudinho na hora de defini-lo, a imprensa estrangeira dança e escorrega. É igualmente difícil prever como será a nova era. Vai abaixo um florilégio colhido na imprensa internacional.

Segundo BFMTV, emissora de tevê francesa de cunho político, «le Brésil bascule dans l’inconnu ‒ o Brasil emborca no desconhecido».

O francês Le Figaro enxerga as coisas de modo radical: «Bolsonaro, le Trump tropical, sorti d’un Brésil en ruine ‒ Bolsonaro, o Trump tropical, produto de um Brasil em ruína».

A emissora de tevê Europe 1 continua presa aos clichês da campanha eleitoral: «Bolsonaro, ouvertement misogyne, homophobe et raciste, exacerbe les tensions ‒ Bolsonaro, abertamente misógino, homófobo e racista, acentua as tensões».

A venezuelana TeleSur, conhecida como a ‘tevê do Cháves’, é porta-voz do regime de Maduro. Passando por cima da entronização do novo presidente, prefere dar tiro de festim: «Brasil y EEUU, países con más muertes con armas de fuego ‒ Brasil e EUA, países com mais mortes por arma de fogo».

Correios do Brasil: selo comemorativo do 70° aniversário de Israel

A americana Time prefere um tom mais sóbrio, ainda que não sereno: «Brazil’s Jair Bolsonaro to Take Power Amid High Hopes and Fears ‒ No Brasil, Jair Bolsonaro assume o poder entre esperanças e temores».

Moderado, o irlandês The Irish Times opta pela fleugma e fala em «wave of conservative zeal ‒ onda de zelo conservador».

Na Itália, Il Fatto Quotidiano ressalta que «Bolsonaro guiderá un governo di ultradestra, con due sole donne e sette militari ‒ Bolsonaro chefiará um ministério de extrema-direita, com apenas duas mulheres e sete militares».

Interessado, como todos os italianos, por tudo o que diz respeito a automóveis, o Corriere della Sera faz questão de dar marca e modelo na manchete: «Bolsonaro è presidente: la sfilata in Rolls Royce cabrio acclamato dalla folla ‒ Bolsonaro é presidente: o desfile em Rolls Royce decapotável aclamado pela multidão».

O portal alemão Nex24 News evitou caminho muito pisado. Preferiu noticiar a emissão de selo especial comemorativo por ocasião do 70° aniversário da fundação do Estado de Israel, estampilha da qual uma terça parte é coberta pelo retrato do primeiro-ministro. Maldoso, o portal foi sibilino: «Brasilien widmet Netanjahu eigene Biefmarke ‒ Brasil dedica selo a Netanyahu».

Desleixo quadrienal

José Horta Manzano

A faixa verde-amarela, símbolo mais vistoso da Presidência, passa do antigo ao novo inquilino. A cerimônia é solene, encenada diante de câmeras e plateia. De tanta importância que se dá ao adereço, a gente fica com a impressão de que presidente usa faixa o tempo todo. Será que dorme com ela?

No entanto, um detalhe não costuma ser contado. A faixa é renovada a cada mandato. A que doutor Bolsonaro recebeu não é a que doutora Dilma tinha usado. Foi confeccionada especialmente para ele. Foi apenas ‘emprestada’, por alguns minutos, a doutor Temer, só para a cerimônia de passação.

Olhando de longe, o amarelo da faixa inaugurada ontem me pareceu meio pálido. Os símbolos da nação são rigorosamente codificados, fato que não é conhecido de todos. As estrelas da bandeira têm lugar astronomicamente definido. O verde, o amarelo, o azul e até o branco são descritos nos sistemas de cores RGB, CMYK e Hexadecimal. Se bandeirinha vendida em banca de jornal sair do tom, não será tão grave assim. No entanto, para uso oficial, os símbolos deverão respeitar fielmente o figurino.

Pelas imagens, é difícil julgar se a palidez do amarelo era verdadeira ou só impressão minha. De repente, lá vem doutor Bolsonaro agitando bandeira que tinha levado no bolso. O contraste foi impiedoso. Não era impressão minha. O amarelo intenso ‒ e oficialmente correto ‒ da bandeira de bolso escancarou a palidez da faixa.

É preocupante que o símbolo do cargo tenha empalidecido antes mesmo da assunção do novo ocupante. É mau sinal. Lembra aquele carro russo que importavam nos anos 1980, cuja chave, diziam as más línguas, já vinha enferrujada.

Assim mesmo, é de indignar o fato de a insígnia do chefe de Estado ser confeccionada com tamanho desleixo. Têm quatro anos pra pensar no assunto e, apesar disso, ainda sai com defeito. Desleixo quadrienal.

A posse e o desapossamento

José Horta Manzano

O novo presidente e seu vice tomaram posse do cargo. A cerimônia foi solene, formal, um tantinho demorada ‒ especialmente em razão do interminável discurso do presidente do Senado, um exercício de autolouvação explícita. Não é de bom-tom falar mais do que o homenageado, mas quem esperaria recato de doutor Oliveira?

Pelo protocolo, doutor Bolsonaro tornou-se presidente oficial do Brasil no exato momento em que o presidente da mesa fez a proclamação. Isso ficou claro. Porém, um detalhe ficou no ar.

Não foi oficialmente retirada a posse do antigo presidente. É automático, é? Ou, quem sabe, doutor Temer vai continuar residindo num puxadinho do Alvorada, como presidente emérito, igual ao papa antigo.

É verdade que todo o mundo intuiu que a posse dada ao novo anula a que tinha sido dada ao antigo. Mas não custava formalizar.

Observação
O mandato de doutor Temer terminou dia 31 de dezembro à meia-noite. O sucessor só foi empossado na tarde de 1° de janeiro. Tecnicamente, portanto, o Brasil ficou sem presidente da zero hora até o meio da tarde do dia primeiro.

Não é brincadeira. Suponhamos que alguma coisa grave aconteça nessas horas, algo que necessite imperativamente de decisão presidencial. Quem está no comando?

Chefe de Estado

José Horta Manzano

A data de entrada em função do presidente da República variou ao longo dos anos. Até 1930, o eleito tomava posse do cargo num 15 de novembro. Terminado o interregno getulista, o dia mudou para 31 de janeiro. No período militar, passou a ser dia 15 de março. Os constituintes de 1988, talvez preocupados em eliminar tudo o que dizia respeito aos militares, decidiram fazer coincidir o ano presidencial com o ano civil: a posse passaria a ser em 1° de janeiro.

Trinta anos se passaram mas, assim mesmo, a data continua incômoda. Atrapalha muita gente. Cai em pleno período de festas. Estraga o feriado de todos os convocados a trabalhar em virtude da tomada de posse: policiais, seguranças, servidores e funcionários rasos, repórteres, jornalistas, gente do rádio e da tevê, militares, controladores de tráfego aéreo, pessoal médico e paramédico de prontidão. E muito mais gente.

Outro ponto chato é a influência negativa que a escolha infeliz faz recair sobre o prestígio internacional do empossado. Se a data é incômoda para nacionais, o é também para estrangeiros. Raríssimos são chefes de Estado ou de governo a se abalarem no meio da festa de passagem de ano. Tirando os dirigentes de países vizinhos, contam-se nos dedos de uma mão os visitantes graduados. Cerimônia assistida por apenas meia dúzia de gatos pingados vindos do estrangeiro soa como desapreço ao presidente estreante.

Os países que não podem deixar de marcar presença mandam representante de patente mais ou menos elevada. Da Itália, está anunciada a presença do ministro da Agricultura. Outros europeus mandarão representantes de nível equivalente. Fico imaginando que o pau deve comer feio entre assessores susceptíveis de serem designados para vir a Brasília. É possível que tirem no palitinho. Deixar a festa e a família falando sozinha pra viajar milhares de quilômetros a fim de assistir a uma cerimônia sem graça é o fim da picada.

Jornalistas distraídos, ao comentar a longa estada de Benjamin Netanyahu no país, dão-lhe o título de «chefe de Estado». Erram. Bibi Netanyahu, aliás bastante enrolado com a Justiça de seu país sob acusação de corrupção, não é chefe de Estado. Como primeiro-ministro, ele é o chefe do governo israelense. Desde julho de 2014, o chefe de Estado de Israel é Reuven Rivlin, o presidente da República.

Que se observe: tampouco Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, é chefe de Estado. Não passa de chefe do governo húngaro. Nas repúblicas latino-americanas, na falta de primeiro-ministro, o presidente da República encarna as duas funções: chefe de Estado e chefe de governo. Em regimes parlamentares, não funciona assim.

Está aí um efeito colateral pernicioso da fixação da tomada de posse em 1° de janeiro. Israel é um país simpático, sem dúvida, mas está longe de ter a importância de EUA, China, Rússia, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão. Na falta de dirigentes graduados representando esses países de destaque, doutor Netanyahu, chefe de governo de Israel, virou a estrela do momento. Está vivendo seu momento de glória nos trópicos, antes de ser de novo engolfado pelo dia a dia de seu país. Quem não tem cão, caça com chefe de governo mesmo.

Solução
Há maneira simples de remediar a esse transtorno sem modificar a Constituição. Quem já não viu alguém fazer anos numa quarta-feira e organizar a festa no sábado seguinte? Pois é só aplicar o mesmo raciocínio para a entrada em funções do presidente.

A tomada de posse continua dia 1° de janeiro, nada muda. Será cerimônia simples, entre quatro paredes, sem desfile, sem parada, sem convidados estrangeiros. A festa será marcada para daí a dez ou quinze dias, num fim de semana. Aí, sim, convidados nacionais e estrangeiros poderão apreciar o desfile, o carro aberto, a subida da rampa, os salgadinhos e as bebidinhas. Sem excesso.

Promessa de marciano

Elio Gaspari (*)

Nas últimas semanas, Bolsonaro e seu ministro Sergio Moro repetiram formulações genéricas que fazem sentido para quem está solto, mas são promessa de marciano para quem está preso. Por exemplo: negar a progressão da pena para quem pertence a uma facção dentro de um presídio.

Tudo bem, desde que se faça de conta que em alguns lugares é possível viver numa cela sem aderir à facção. Quem vai distinguir o preso primário que aderiu para proteger sua vida e a de sua família do bandido que chefia o grupo?

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 30 dez° 2018.

Classe é pra quem tem

José Horta Manzano

Classe é pra quem tem, não adianta fazer de conta. Quem não tem, fica sem. O mundo nos tem brindado com alguns figurões políticos que brilham justamente pela falta de classe.

Mr. Donald Trump tem doutorado na matéria. Suas escorregadelas são diárias. A última surpreendeu até admiradores. Foi quando, no dia de Natal, perguntou a uma criança de sete anos se ainda acreditava em Papai Noel. Fez isso diante das câmeras que levavam a cena a todas as famílias do país. Baita pisão de bola.

Chirac na praia de meia preta

Certa feita, quando era presidente da França, Jacques Chirac hospedou-se no Forte de Bregançon ‒ residência presidencial de verão. Uma bela manhã de sol, dirigiu-se à praia em companhia de dois assessores. Os acompanhantes iam convenientemente trajados de bermuda e chinelo ou sapatinho raso sem meia. Monsieur Chirac respeitou o código vestimentar com exceção de um detalhe: calçava meias pretas. A caminho da praia. De bermuda. Passaram-se anos, mas os franceses comentam até hoje.

Nos últimos anos de vida, quando já o chamavam «coma andante», Fidel Castro deixou-se fotografar algumas vezes no retiro secreto onde definhava aos poucos. A cada vez, seu agasalho portava, bem visível, o logo de conhecida marca alemã de roupas esportivas. Nas costas alquebradas do dono de uma ditadura comunista, essa adesão explícita à fé capitalista pegou mal.

Bolsonaro de Nike

Lula da Silva, quando inaugurou seu primeiro mandato, não tinha mais classe do que tem hoje. Antes de ser repreendido por seu entourage, apresentou-se mais de uma vez em público vestindo terno e gravata e levando, picado na lapela, un pin com a estrela vermelha do PT. Todos ficaram chocados de constatar que o recém-empossado não se considerava presidente de todos, mas chefe de um partido. Precisaram sacudi-lo pra ele acordar.

O atual presidente eleito e excelentíssima senhora também têm, visivelmente, um problema vestimentário. Semana passada, doutor Bolsonaro mandou ao ar um vídeo com uma espécie de prestação de contas. Inspirado ironicamente no falecido ditador cubano, apareceu vestindo um agasalho de conhecida marca americana de roupas de esporte. Pra quem se declara nacionalista e defensor dos interesses da pátria, ficou esquisito. Em se tratando de presidente eleito, ficou pior ainda.

Dona Michelle Bolsonaro e seu lulu

Doutora Michelle Bolsonaro mostrou comportamento concordante com o do marido. Esta semana, passado o Natal, chegou de barco ao Iate Clube de Itacuruçá, no Rio. No desembarque, foi fotografada carregando seu lulu no colo e vestindo camiseta preta com os seguintes dizeres estampados: «Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema». Como se lembram todos, a frase foi pronunciada pela juíza Hardt, quando do mais recente interrogatório de Lula da Silva. Ficou a pergunta: o que é que tem o interrogatório do Lula a ver com as férias de madame? Tivesse ela usado camiseta com o escudo do Corinthians ou do Flamengo, não teria sido mais brega.

Faz tempo que bom-tom e presidência não rimam.

Menos médicos

José Horta Manzano

Nesse Programa Mais Médicos, desde que começaram a ser importados profissionais cubanos, dois pontos me incomodaram. Por um lado, o fato de os médicos vindos de Cuba receberem apenas 25% do salário que o governo brasileiro lhes destina, indo o resto para engordar o Estado de Cuba. Por outro, o fato de esses profissionais estarem dispensados de fazer reconhecer seu diploma pelas autoridades brasileiras.

Naqueles tempos pesados em que a confusa doutora Rousseff dava as cartas, esse arreglo bizarro firmado entre Brasília e Havana passou batido. Como se sabe, no entanto, o que nasce torto acaba dando problema mais tarde. E o mais tarde chegou. Varrido o PT do poder e findo o governo transitório de doutor Temer, começa o longo e difícil trabalho de correção do foco da política externa brasileira.

Desde que Lula da Silva assumiu a presidência pela primeira vez, 16 anos se passaram. É muito tempo de descaminho. A reaprumação da conduta dos negócios vai levar tempo e exigir tato e tenacidade. Não convém torcer com violência o timão, que é para o barco não soçobrar. Suave, mas firmemente ‒ eis como o capitão deve agir.

Numa dessas falas que doutor Bolsonaro devia guardar para o círculo íntimo em vez de publicar nas redes, ele se mostrou inconformado com duas distorções do Mais Médicos ‒ as mesmas que incomodam a mim e a muita gente. Dispensar os médicos cubanos de se submeter ao Revalida foi perigosa anomalia. Confiscar ¾ do salário deles os fez cair na servidão.

Porto de Mariel, Cuba

O presidente eleito deveria ter agido com mais cautela. Mas tato, francamente, não é traço marcante de sua personalidade. Disse o que disse e deixou que a fala se espalhasse. A reação veio a cavalo. Sentindo que estava na iminência de passar pelo vexame de ver seus médicos expulsos do Brasil, o regime de Havana tomou a dianteira e convocou-os de volta à base.

O resultado, para o Brasil, não é bom. Em primeiro lugar, doutor Bolsonaro devia ter-se dado conta de que nem todos os brasileiros têm a chance que ele teve de ser atendidos como ele foi, com pompa e circunstância, num dos maiores hospitais do país. A saúde de muitos brasileiros depende da presença de um médico estrangeiro nas brenhas esquecidas de nosso território. Além disso, há um nó pecuniário. Cuba deve muito dinheiro ao Brasil. Considerando só o porto de Mariel, construído com empréstimo do BNDES, a dívida está ainda na casa dos 600 milhões de dólares (2,3 bilhões de reais).

A debandada de oito mil médicos periga entravar a cobrança da dívida cubana. São dois fatores conjugados que doutor Bolsonaro devia ter levado em conta antes de praguejar. Do jeito que vai, forte contingente da população vai sofrer com a falta de médico. Por seu lado, o BNDES vai ficar chupando o dedo à espera de pagamentos de Havana.

Com essa afoiteza, o presidente eleito se iguala a seus predecessores, Lula da Silva e doutora Rousseff. A dupla petista usou nosso dinheiro pra confortar a ditadura dos bondosos irmãos Castro. Doutor Bolsonaro está desperdiçando nosso dinheiro pra acalentar a própria vaidade. Para um presidente que acaba de chegar, foi mal.

Falam de nós – 26

José Horta Manzano

No Brasil, os espíritos já vão serenando. Lá fora, no entanto, o mundo continua abismado com a ousadia da maioria de brasileiros que deram voto de confiança a doutor Bolsonaro. Basta abrir qualquer jornal pra encontrar análises tingidas de incompreensão. Este apanhado de manchetes colhidas estes últimos dois dias revela que a ficha ainda não caiu.

La Depêche, França
«Le Brésil est revenu cinquante ans en arrière»
«O Brasil retrocedeu cinquenta anos»

Le Monde, França
«Sergio Moro adhère au programme répressif de Jair Bolsonaro»
«Sergio Moro adere ao programa repressivo de Jair Bolsonaro»

The New York Times (Spanish edition), USA
«Bolsonaro representa el pasado colonial de Brasil»
«Bolsonaro representa o passado colonial do Brasil»

Le Point, França
«Brésil: Bolsonaro et Israël, une relation politico-religieuse à haut risque»
«Brasil: Bolsonaro e Israel, uma relação político-religiosa de alto risco»

Sydöstran, Suécia
«Brasilien: nationalismen ett allvarligt hot mot våra barn»
«Brasil: nacionalismo é ameaça séria contra nossos jovens»

Le Monde, França
«Au Brésil, la détresse des homosexuels et des trans»
«No Brasil, a aflição dos homossexuais e dos trans»

Lava a Jato pro brejo?

José Horta Manzano

No primeiro momento, quando vazou a notícia de que o juiz Moro podia se assentar no topo do Ministério da Justiça, também senti certo desconforto. “Se o homem está tão bem onde está” ‒ pensei ‒ “por que diabos tirá-lo de lá? Não se mexe em time que está ganhando.”

Passaram-se alguns dias e a ideia foi amadurecendo. Ah, nada como um dia depois do outro (com uma noite no meio)! Com o espírito serenado e já acostumado à nova realidade, dá pra reavaliar a decisão do juiz. De toda maneira, ele aceitou o convite do presidente eleito. Vai virar superministro em janeiro.

O inconveniente maior que consigo enxergar é o fato de doutor Moro abrir mão da cátedra de juiz federal para tornar-se, no fundo, funcionário subalterno de doutor Bolsonaro. Trocou a inamovibilidade e a estabilidade da carreira de juiz pelos tremores de uma poltrona ejectável. Mas esse problema é dele. Fora isso, ganham todos.

Doutor Moro ganha em altitude perante o povo. Se, antes, já era figura pra lá de popular, pode agora abrir as asas pra voos mais ousados. Não seria espantoso se estivesse entre os pré-candidatos para as eleições presidenciais de 2022. Com boas chances de levar a taça, dependendo ainda do balanço de sua gestão.

Doutor Bolsonaro ganha em credibilidade. Dá um ‘chega pra lá’ no temor que alguns têm de ver a Constituição rasgada pra dar lugar a regime militar ou ditatorial. Doutor Moro é baluarte da lei. Quem tem vocação pra ditador não convoca Moro de assistente.

Ganha o Brasil, com maior amplitude e mais largo raio de ação de um incansável batalhador contra a corrupção nos altos escalões. Digam o que disserem, o ministro da Justiça ‒ mormente quando respaldado pelo presidente ‒ tem muito mais poder do que um juiz de Primeira Instância.

Uma consideração final. Tem gente por aí achando que, com a saída de doutor Moro, a Operação Lava a Jato vai pro brejo. Isso me faz lembrar a lição de um superior hierárquico, muitos anos atrás. Ensinou-me que a gente deve aprender a delegar, a não segurar todo o serviço, a deixar que colegas e subalternos assumam as rédeas. «Você verá que os controles deles são, às vezes, mais rigorosos que os seus.»

Desde então, já tive ocasião de comprovar a lição. Funciona. A Lava a Jato vai prosperar como nunca. Achar que doutor Moro é o único capaz de levar adiante uma operação dessa envergadura é fazer ofensa aos demais juízes. Que se cuidem os corruptos que já estiverem esfregando as mãos com a perspectiva da saída de doutor Moro. Perigam sentir saudades da mansuetude dele.

Visão do exterior

José Horta Manzano

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

A representação que os europeus se fazem das recentes eleições presidenciais brasileiras está sintetizada no traço de Patrick Chappatte, desenhista suíço.

A charge apareceu no New York Times dois dias atrás. O artista é colaborador permanente da grande mídia planetária. Desenha para o NYT, o alemão Der Spiegel, o suíço Le Temps, o francês Herald Tribune.

Ça y est, c’est fait!

José Horta Manzano

Ça y est, c’est fait!, dizem os franceses, lançando mão de expressão com mil e uma utilidades. Neste caso, pode ser traduzida por Acabou, chegamos ao fim.

A expressão é vazia de emoções, não tem carga negativa nem positiva. Quem a usa não denota euforia, nem desânimo, nem espanto, nem tristeza. Cai bem pra pôr fim a uma campanha eleitoral atípica, suja, de baixo nível, violenta, desgastante tanto para candidatos quanto para eleitores. Se um sentimento sobressai neste momento, é a sensação de alívio. C’est fait!

Como toda campanha, esta também deixa marcas. Alguns nomes, sufragados pelos eleitores, sobem de elevador ao pedestal da glória. Aos abandonados pelos votantes, não resta senão recolher-se à própria inexpressividade.

Confirmando tendência já detectada pelas sondagens, doutor Bolsonaro foi, sem surpresa, escolhido para o Planalto. Apesar de todas as análises e especulações, ninguém tem a menor ideia dos rumos que tomará o Brasil nestes próximos quatro anos. Acredito que nem o próprio doutor tenha ideia de como será seu governo.

Portanto, o que vier será surpresa para todos. Esperamos que, na condução dos assuntos nacionais, os anos que temos à frente sejam mais simpáticos do que os que deixamos atrás. No fundo, não é pedir muito: é difícil fazer pior.

Uma coisa é certa. Escapamos do vexame de ter na Presidência a marionete de um condenado purgando pena por corrupção, uma situação bizarra e constrangedora. Já é um bom começo.