Desleixo quadrienal

José Horta Manzano

A faixa verde-amarela, símbolo mais vistoso da Presidência, passa do antigo ao novo inquilino. A cerimônia é solene, encenada diante de câmeras e plateia. De tanta importância que se dá ao adereço, a gente fica com a impressão de que presidente usa faixa o tempo todo. Será que dorme com ela?

No entanto, um detalhe não costuma ser contado. A faixa é renovada a cada mandato. A que doutor Bolsonaro recebeu não é a que doutora Dilma tinha usado. Foi confeccionada especialmente para ele. Foi apenas ‘emprestada’, por alguns minutos, a doutor Temer, só para a cerimônia de passação.

Olhando de longe, o amarelo da faixa inaugurada ontem me pareceu meio pálido. Os símbolos da nação são rigorosamente codificados, fato que não é conhecido de todos. As estrelas da bandeira têm lugar astronomicamente definido. O verde, o amarelo, o azul e até o branco são descritos nos sistemas de cores RGB, CMYK e Hexadecimal. Se bandeirinha vendida em banca de jornal sair do tom, não será tão grave assim. No entanto, para uso oficial, os símbolos deverão respeitar fielmente o figurino.

Pelas imagens, é difícil julgar se a palidez do amarelo era verdadeira ou só impressão minha. De repente, lá vem doutor Bolsonaro agitando bandeira que tinha levado no bolso. O contraste foi impiedoso. Não era impressão minha. O amarelo intenso ‒ e oficialmente correto ‒ da bandeira de bolso escancarou a palidez da faixa.

É preocupante que o símbolo do cargo tenha empalidecido antes mesmo da assunção do novo ocupante. É mau sinal. Lembra aquele carro russo que importavam nos anos 1980, cuja chave, diziam as más línguas, já vinha enferrujada.

Assim mesmo, é de indignar o fato de a insígnia do chefe de Estado ser confeccionada com tamanho desleixo. Têm quatro anos pra pensar no assunto e, apesar disso, ainda sai com defeito. Desleixo quadrienal.