Escolher sem conhecer

José Horta Manzano

Está fazendo uma semana que Bolsonaro jr passou à frente de Luiz Inácio no primeiro turno. Com o Brasil já um pouco refeito do grande espanto, que fez cair o queixo da turma do Lula e que ofereceu um salto de 12 cm aos correligionários do Júnior, grande parte dos brasileiros vem se indagando qual seria a razão de um resultado que nem todos esperavam.

Já se aventaram muitas hipóteses. A idade de Lula, o rosto fofinho e quase imberbe do Júnior (que contrasta com a agressividade de jagunço de seu pai e seus irmãos), o crescimento dos adeptos de denominações neopentecostais, a eficiência da campanha que corre pelas redes.

Certamente todos esses fatores contribuíram, uns mais, outros menos, para que o Júnior possa ter chegado em primeiro. Ainda falta o exame final do 25 de outubro, mas o fato de ter virado na frente já dá ao bolsonarinho uma vantagem indiscutível. Luiz Inácio e sua turma vão precisar engolir alguns frascos de Biotônico em dose dupla diária. Pra garantir, é melhor acrescentar à receita uma colher de óleo de fígado de bacalhau depois do almoço.

Me ocorre um fator a juntar às hipóteses já aventadas. Brasileirinhos de 16 aninhos já têm o direito de votar. Numa idade em que o jovem ainda não sabe direito o que quer fazer na vida, já é chamado a escolher quem o vai representar no Congresso e quem vai governar o país. Para quem tem dezesseis, essas atribuições me parecem temporãs, mas assim decidiu o legislador.

Pois bem, os que completaram 16 este ano tinham 12 ou 13 quando Bolsonaro desgraçou o país durante a pandemia. Não têm como se lembrar. Ainda tomavam mamadeira quando o Lula estava deixando seu governo, com 80% de popularidade. Na verdade, só conheceram um Luiz Inácio ancião e um Bolsonaro preso.

Essa turma que faz 16 agora é um caso extremo, é verdade. Mas consideremos que só os que têm hoje pra mais de 40 conheceram nosso último presidente equilibrado. De fato, FHC desceu a rampa em janeiro de 2003, lá se vão 24 anos.

Compreende-se que aqueles que só conheceram Lula e Dilma considerem que o Júnior seja um candidato aceitável. Quem nunca comeu melado não sabe que gosto tem.

Minhas considerações estão entre os motivos que levaram metade do Brasil a votar no Bolsonarinho. Mas são inúteis neste momento. Não há o que se possa fazer para alterar o quadro.

Vamos em frente que, daqui a duas semanas, já deixaremos de botar o verbo no condicional e passaremos para o indicativo, na esperança de que os tempos sejam menos calamitosos que os de Bolsonaro pai.

Zé da Pinga e a linhagem familiar

Como eram as apurações antes da urna eletrônica

José Horta Manzano

O Brasil está entre os raros países em que o nome próprio e a transmissão do sobrenome não são codificados, isto é, não seguem uma norma. Não é costume herdado dos lusos, visto que, em Portugal, a transmissão do sobrenome é codificada. Em terra lusitana, o recém-nascido recebe o sobrenome dos pais – primeiro o da mãe, em seguida o do pai. Esse é o costume nacional e ninguém imagina fazer diferente.

Já no Brasil, veem-se irmãos que, mesmo sendo de mesmo pai e mesma mãe, não levam sobrenomes idênticos. Há quem leve só o sobrenome do pai. Há quem carregue sobrenome completamente diferente do dos pais, em “homenagem” a um avô, um tio ou um amigo da família. Há profusão de bebês que recebem nome completo do pai (ou do tio, ou do avô) seguido do epíteto “Júnior”, “Filho”, “Neto”, “Sobrinho”. Há ainda os que vergam sob o peso de três ou quatro sobrenomes, um desafio ao espaço que documentos atuais reservam para o nome do titular.

É curioso notar que, entre nossas centenas de parlamentares de direita e de extrema direita, nenhum se tenha debruçado sobre uma normatização da transmissão do(s) sobrenome(s) no Brasil. Digo que é curioso que não se preocupem com isso apesar de se proclamarem “defensores da família”. A continuidade do sobrenome familiar, geração após geração, é característica forte e evidente da família ao longo do tempo.

Agora que se aproximam as eleições, vai aparecendo um festival de nomes bizarros, como: Zé da Pinga, Val do Açaí, Capitão Almofadinha, Miguel Coronel, Iolanda da Quitanda, e por aí vai. Dizem os candidatos que o chamado “nome de urna” tem a função de bem individuá-los. Entendo o argumento, mas a Justiça Eleitoral já pensou nisso ao atribuir um número a cada um deles. O eleitor vota no número, que é mais fácil de memorizar.

Levantamento feito estes dias, antes do término do período de inscrições, já encontrou, em todo o Brasil, dois candidatos que, sem seram parentes do presidente da República, acrescentaram “Lula” ao próprio “nome de urna”. Com o ex-presidente Jair, é ainda pior. Nada menos de quinze candidatos que, sem serem parentes do ex-presidente, acrescentaram “Bolsonaro” a seu “nome de urna”.

A meu ver, são casos flagrantes de falsidade ideológica que, em outros contextos, pode dar até cadeia. Não entendo como o Tribunal Eleitoral deixa passar essas brincadeiras num momento tão solene como o das eleições.

É trágico perceber que nenhum dos quinze (até agora) que portam o nome “Bolsonaro” há de ter sido advertido ou bloqueado pelo partido em que se inscreveu.

Onde está, nessas horas, o clã Bolsonaro, que se jacta de ser o grande “defensor da família brasileira”? Ao permitir que outros usem seu santo sobrenome em vão, mostram ser defensores da família só da boca pra fora.

Alinhamento automático

José Horta Manzano

Em novembro passado, quando o pai ainda nem havia ainda vestido a faixa, doutor Bolsonaro júnior, em visita a Washington, enfiou na cabeça um boné marcado «Trump 2022». Pela mesma ocasião, encontrou-se com o genro do presidente americano e atirou-lhe flores ao descrevê-lo como ‘um dos mais importantes conselheiros da Casa Branca e grande empresário’.

De lá pra cá, vivemos um não oficial alinhamento automático com a maior potência do planeta. Embora a expressão pareça fácil de entender, não sei exatamente o que significa um país alinhar-se automaticamente com outro. Acho que ninguém sabe direito. Que haja convergência em diversos temas, posso entender. Daí a colar feito sanguessuga me parece complicado. Colônias, protetorados e satélites podem agir assim. País soberano, não.

Não convém que o Brasil grude em outro país, como se sombra fosse. Pouco importa que os EUA sejam a potência dominante. O problema é o mesmo. Com a mudança de dirigentes, a orientação do país que serve de modelo pode se alterar. Quando isso ocorre, como é que fica? Caso apareça novo presidente com ideias semelhantes às de Mr. Obama, um pouco menos America first e um pouco mais globalizantes, que fazemos? Desgrudamos? E se, em seguida, vier outro Trump? Grudamos de novo?

Banquete medieval

Ajustar a política externa é exercício pra lá de delicado. A própria União Europeia ‒ fechado clube de menos de 30 sócios relativamente bem de vida, com níveis de desenvolvimento não muito díspares ‒ tem de fazer exercícios de contorcionismo nesse campo. É virtualmente impossível encontrar solução unificada que contemple o interesse individual de cada membro. Haverá sempre os descontentes, que se recusarão a sentar-se à mesa do banquete.

Tomemos o caso do repúdio ao ditador venezuelano. O apoio explícito a señor Guaidó, presidente autodeclarado, só foi subscrito, até o momento presente, por 19 dos 28 países membros da UE. Os demais, cada um por um motivo que lhe diz respeito, preferem manter distância do conflito e não declarar apoio nem a um nem ao outro. A Grécia nem tenta disfarçar: dá apoio integral ao regime de señor Maduro. E ressalte-se que são todos sócios do mesmo clube.

Enquanto um Brasil entusiasmado apoiou Guaidó desde o primeiro dia, a Itália, apesar de contar com um Salvini tão chegado aos Bolsonaros, difere da maioria dos europeus. Recusa-se a manifestar apoio ao autoproclamado presidente venezuelano. Isso tende a demonstrar que o caminho do alinhamento automático ‒ com quem quer que seja ‒ não nos convém. É insustentável. Atritos e divergências aparecem rapidinho.

Urgência urgentíssima

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 janeiro 2019.

Muitos anos de maus governos maltrataram o país. Apesar de sacolejado por golpes e revoluções, o brasileiro não se lembra de ter assistido antes a tanto descaminho por tão longo tempo. O horizonte trancado durante quase duas décadas gerou sensação de impotência. A bateção de panela de 2013 foi bonita, empolgou, mas não resolveu. A destituição da doutora foi um começo de solução, mas não passou disso: um começo. Serviu pra desanuviar, mas não afastou o espectro do retorno vigoroso da rapina institucionalizada. Como náufragos, os brasileiros procuravam uma tábua à qual se abraçar.

Eis senão quando, na última campanha eleitoral, um candidato obscuro e desconhecido emergiu das profundezas do baixo clero do Congresso. No princípio, ninguém teria apostado um real furado no sucesso do homem. Estava mais pra figura folclórica, um daqueles candidatos que parecem estar lá só pra dar um tchauzinho na televisão e pra receber uns caraminguás do fundo eleitoral. À medida que o tempo foi passando, como quem não quer nada, a candidatura engrossou, ganhou peso e tomou lastro. Sem ser radical, do tipo ‘todos al paredón’ ou ‘à guilhotina os burgueses’, a fala do postulante denunciava o descalabro instalado nas altas esferas. O discurso não vinha tricotado com fios de oratória arrebatadora, mas dizia o que os brasileiros, cansados de guerra, queriam ouvir. Aquele em quem, seis meses antes, nenhum apostador teria botado fé venceu a corrida e ganhou direito ao trono do Planalto. Terminada a corrida e conquistada a taça, é hora de sentar e cogitar sobre o rumo a tomar.

Em princípio, preocupação com filhos termina assim que eles atingem a maioridade, deixam o lar e vão viver a própria vida. No clã dos Bolsonaros, no entanto, filhos já grandinhos continuam grudados ao pai. A mostra explícita de família unida sai bem na foto, mas os rebentos têm dado sérias dores de cabeça ao patriarca. Nas semanas escoadas desde a tomada de posse, francamente, mais atrapalharam que ajudaram. Já antes da entronização, era perceptível que os juniores se comportavam como crianças mimadas, daquelas que, na hora do recreio, desdenham dos coleguinhas: «Meu pai é mais forte que o seu!». Agora, que o chefe virou presidente, a dor de cabeça virou enxaqueca.

Os herdeiros não são a única fonte de problemas de doutor Bolsonaro. Um vozerio descontrolado percorre o mundinho que lhe está em torno ‒ secretários, conselheiros, assessores, ministros. Talvez em virtude daquele natural deslumbre que subjuga todo noviço, as declarações do entourage do presidente andam abrindo remoinhos e levantando ondas que lambem o país inteiro. São falas desencontradas, cada um se sentindo livre de afirmar o que lhe passa pelo bestunto, numa cascata de tagarelice bizarra que vai desde política externa até vestuário infantil.

Unanimidade de opiniões, concedo, é característica de regime totalitário. Como exemplo máximo, temos a bem-comportada torrente de aplausos que coroa todo anúncio de decisões tomadas pelo comitê central do partidão, na China ou em Cuba. Não é sadio, nem é o que gostaríamos de ter em nossa incipiente democracia. Nem por isso, o inverso é aceitável. As estrepolias dos filhos do presidente adicionadas à inabilidade dos que lhe orbitam em torno está gerando algaravia. Botar remédio nesse estado de coisas é caso de urgência urgentíssima.

Um outro ponto que vem gerando atrito é a radicalização religiosa de alguns dos novos componentes do andar de cima. É importante ter presente que Estado laico é invenção relativamente recente. Desde sempre, o Estado foi ligado à religião, o que não é um mal em si. Mais importante do que a crença pessoal de membros do governo é o ambiente de tolerância que deve reinar. Há países civilizados com religião oficial ‒ Inglaterra, Dinamarca, Noruega, Grécia ‒ onde, nem por isso, os habitantes se sentem aprisionados por uma teocracia em que nada existe fora da fé. A tolerância e a benevolência, se bem aplicadas, são precioso anteparo contra excessos.