L’inutile precauzione

José Horta Manzano

Na época em que Gioacchino Rossini (1792-1868) compôs seu Barbiere di Siviglia, ainda era comum que livros e óperas recebessem não somente um título, mas também um subtítulo. Este último era em geral mais longo e costumava ser mais explícito que o principal.

O título original do libreto do Barbiere é Almaviva ossia l’inutile precauzione ― Almaviva, ou seja, a precaução inútil.

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Segundo o Houaiss, doutor honoris causa «é título laudatório e homenageante, conferido a pessoa sem que esta tenha passado por quaisquer exames ou concursos». Em palavras mais chãs, é badalação. É como dar um agradozinho de Natal ao porteiro do prédio. Não vem necessariamente do coração, mas, nunca se sabe, pode-se até amanhã precisar dele.

O Lula andou passeando pela Argentina para acrescentar mais uma meia dúzia dessas medalhas de chocolate à sua já extensa coleção. Enquanto isso, as consequências nefastas dos erros cometidos por ele e por seus companheiros desde que assumiram as rédeas do País se tornam dia a dia mais evidentes.

Expressões como emergente, potência, Bric, G20, tão em voga até um ou dois anos atrás, andam rareando na linguagem atual.

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Entre as ideias fixas de nosso messias, sobressai a inamovível obsessão por congregar os países vizinhos numa espécie de Confederação do Equador versão 2.0. Países desafortunados de outros quadrantes também são bem-vindos. O objetivo talvez seja o de marcar a História como fundador de um novo Império.

No entanto, o mundo gira e, nessas voltas, a paisagem vai mudando. O fato é que a mania de grandeza de nosso líder tem sido vítima de reveses acachapantes.

Quando ele tentou se meter no meio dos briguentos do Oriente Médio, os contendores deixaram bem claro que não o tinham chamado e que não precisavam dele ― sabiam brigar sozinhos e preferiam que assim continuasse.

O baixinho maluco do Irã, além de não ter ainda conseguido fazer sua bomba, enfrenta contestação crescente. Do jeito que vão as coisas, não deve continuar na presidência de seu país por muito tempo. Será um companheiro a menos.

O bigodudo de Honduras, aquele que, com a complacência do Planalto, transformou a embaixada do Brasil em comitê de campanha, acabou deixando seu país com o rabo entre as pernas. Para nunca mais voltar.Barbiere di Siviglia libretto

Na Venezuela, o líder bolivariano acabou involuntariamente seguindo o conselho que lhe havia dado alguns anos antes um irritado D. Juan Carlos I da Espanha: se calló. O sucessor, além de bufão, é ainda mais destrambelhado que o original. Anda proclamando, a quem interessar possa, que sabe quem são os que não votaram nele. Com nome e endereço. Coisa de desequilibrado acuado.

Sobrou doña Cristina Fernández de Kirchner. Na falta de uma reedição da grandiosa Confederação do Equador, uma diminuta Confederação Platina podia até quebrar um galho. A coisa anda feia pros lados de nossos hermanos, mas, para quem cortejou até ditadores africanos, a Argentina é de bom tamanho. Vantagem adicional: ninguém corre o risco de terminar fuzilado como Frei Caneca.

Precavido, o Lula anunciou que anda rezando para que nossa presidenta se entenda bem com sua homóloga portenha. Como no Barbeiro de Sevilha, é precaução inútil. Não vai dar certo. Dois bicudos não se beijam. Tirando a corrupção generalizada, o Brasil e a Argentina pouco têm em comum. A experiência tem mostrado que uma associação dos dois países, além de contranatural, é contraproducente.

A imaginação de nosso líder anda fértil demais. Um abraço de Cristina equivale ao de um náufrago. Melhor não aceitar, sob risco de afundarem as duas.

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Lembrete
Não consta que alguma universidade brasileira tenha agraciado Sepp Blatter, presidente da Fifa, com o diploma de doutor honoris causa. Que não seja por isso! Os vereadores paulistanos cuidaram do assunto. Em nome de todos os habitantes da metrópole, conferiram ao mandachuva da nobre e imaculada entidade o título de cidadão paulistano.

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Miséria-zero

José Horta Manzano

Às vezes se ouve dizer que esta ou aquela estatística «foi manipulada». Está aí uma afirmação que não faz muito sentido. Em princípio, todas as estatísticas são manipuladas.

Se queremos mostrar que a progressão de um determinado número foi forte, basta iniciar a contagem no momento em que estava mais baixo. Se, ao contário, quisermos demonstrar que o mesmo número está beirando a estagnação, faremos nossa estatística partir do momento em que ele esteve mais elevado.

Curiosamente, a própria palavra estatística é uma invenção, uma criação artificial relativamente recente. Aparece na língua portuguesa, importada do francês, no começo do séc. XIX. A palavra francesa era uma adaptação do alemão Statistik, termo forjado pelo economista prussiano Gottfried Achenwall (1719-1772). Este último se tinha baseado no italiano statista, homem de Estado. Para Achenwall, a estatística reunia todo o conhecimento que um estadista deveria possuir.

O Brasil cresceu? Cresceu muito? Cresceu pouco? Depende. Se considerarmos o século XX inteiro, do advento da República até a atualidade, as estatísticas demonstrarão que o Brasil foi um dos países que mais cresceram em todo o planeta. Se tomarmos unicamente os últimos três anos, constataremos que o crescimento do País se aproxima da estagnação. Cada um escolhe os parâmetros que lhe interessam a fim de provar o que quiser.

Crédito: Folha de São Paulo

Crédito: Folha de São Paulo

No entanto, há realidades que não precisam de estatística para serem constatadas. Quando um pobre tem fome, tem fome. Embora as estatísticas demonstrem que ele está muito menos pobre do que estava alguns anos atrás, o infeliz continua com fome. Ninguém se alimenta de estatísticas.

A Folha de São Paulo de 19 de maio traz um artigo esclarecedor, assinado por João Carlos Magalhães. Demonstra, com clareza, que basta mudar um pequeno parâmetro para alterar o resultado do cômputo da miséria nacional.

Vale a pena dar uma olhada. A erradicação da miséria ainda está muito longe de ser alcançada. Não se atinge o estado de miséria-zero pelo simples condão da varinha mágica de presidentes. Nem de presidentas.

Do it yourself

José Horta Manzano

Você sabia?

Tudo começou com um menino esperto, curioso e observador. Era um negociante nato. Desde criança sabia que queria trabalhar por conta própria.

Dedicou-se ao ramo de móveis semiprontos, daqueles que o freguês mesmo monta em casa. A partir de sua Suécia natal, criou a Ikea, um dos grandes conglomerados do planeta. Pouco a pouco, foram sendo acrescentados outros artigos ao sortimento. Atualmente, vendem todos os utensílios e accessórios de que uma casa precisa.

O menino sueco, hoje com 87 anos, chama-se Ingvar Kamprad. Pertence ao restrito clube de bilionários confirmados por revistas especializadas. Vive na Suíça.

Sua rede de lojas, ainda desconhecida no Brasil, está implantada em 43 países. Anualmente, editam um catálogo de vendas. É um verdadeiro livro, espesso, em papel couchê, muito bem ilustrado. Distribuído gratuitamente de casa em casa, sua tiragem total é de 200 milhões de exemplares. Sai em 27 diferentes línguas. Dizem que nem a Bíblia é impressa em volume tão impressionante a cada ano.

Se alguém estiver interessado em conhecer a história do grupo, vai encontrá-la em português aqui.

A Ikea tem por norma dar a seus produtos nomes suecos. Sempre foi assim e, pelo jeito, ainda continuará por muito tempo. Para quem não conhece as línguas escandinavas, certos nomes parecem às vezes impronunciáveis. Já outros soam cômicos para nossos ouvidos. Dou-lhes aqui abaixo uma seleção dos que me pareceram mais engraçados.

Caso alguém pense que estou brincando, que consulte a página original da firma. Aqui.

Clique nas ilustrações para ampliar

Ik-Abat-jour

Ik-Arandela

Ik-Areia colorida

Ik-Baixela

Ik-Brinquedos

Ik-Cabide que volta

Ik-Cadeira para visitas

Ik-Caixa para geladeira

Ik-Colchonete

Ik-Copo

Ik-Cortina

Ik-Escrivaninha boba

Ik-Guarda-sol

Ik-Lata de lixo

Ik-Lustre

Ik-Mesa e cadeiras

Ik-Porta-retrato

Ik-Pregador

Ik-Tigelas para criança

Ik-Travesseiro

Imigração

José Horta Manzano

Os mais antigos hão de se lembrar. Quando éramos crianças, o Brasil andava cheio de estrangeiros. Nas grandes aglomerações, era muito comum encontrar pessoas, às vezes jovens, às vezes nem tanto, falando com sotaque.

Num tempo sem internet, o Brasil chegou a ter vários diários impressos em língua estrangeira. Havia jornais em alemão, em italiano, em espanhol, em japonês. Poucos subsistem e suas perspectivas de sobrevivência não são animadoras.

Nossas estatísticas nunca foram lá extremamente rigorosas, mas as estimativas convergem para um total de 6 milhões de imigrantes aportados entre 1870 e 2000.

Houve momentos, na década de 1920, em que metade da população da cidade de São Paulo era constituída de imigrantes, 50% dos quais eram italianos. Sim, senhores, o Brasil já foi um país cosmopolita.

Crédito: Editora Abril

Crédito: Editora Abril

A Folha de São Paulo deste 17 de maio traz uma reportagem interessante sobre o abrandamento das formalidades atualmente exigidas de um candidato à imigração. É natural que desapertem o gargalo. Já não são muitos os que querem se estabelecer. Se, ainda por cima, o caminho for pedregoso, muitos vão desistir.

O último recenseamento mostra que, ao contrário do que geralmente acreditamos, a população estrangeira vem diminuindo. Decresceu entre 2000 e 2010, enquanto a população do país continuava a crescer.

Parece que o antigo país de imigração já não exerce a mesma atração de antes. Uma vista d’olhos basta para constatar:

   – a média de imigrantes na população mundial é de 3%

   – a média de imigrantes na população dos EUA é de 15%

   – a média de imigrantes na população da América Latina (excluído o Brasil) é de 1,5%

   – a média de imigrantes na população do Brasil é de magros 0,3%.

O mundo mudou. Noventa e cinco porcento das autorizações de permanência concedidas atualmente pelo Brasil a estrangeiros são temporárias. Gente que vem por um tempo limitado, na maior parte dos casos a serviço de uma firma. Somente 5% das autorizações são concedidas em caráter permanente.

Já não se fazem mais imigrantes como antigamente…

Nacionalidade

José Horta Manzano

Você sabia?

Os primeiros europeus começaram a se estabelecer nas Américas por volta de 500 anos atrás. Nos primeiros tempos, brotaram apenas núcleos de povoamento, um aqui, outro ali, mais ou menos estáveis, sujeitos a desaparecer subitamente. Bastava uma epidemia, um ataque de indígenas, uma invasão de piratas ou de corsários para apagar a colônia do mapa.

Naqueles tempos recuados, vigorava o sábio e ancestral costume segundo o qual filho de peixe peixinho é. As colônias fundadas no continente eram mera extensão dos povos europeus que as tinham criado. Assim, um cidadão da Nova Inglaterra era tão britânico quanto um legítimo londrino. Um português nascido na Bahia, ainda que de terceira ou quarta geração, continuava sendo tão lusitano quanto se tivesse visto a luz em Viana do Castelo ou em Freixo de Espada à Cinta.Passeport français

As colônias britânicas foram as primeiras a se proclamarem independentes da metrópole europeia. É bem verdade que a França, por razões de rivalidade com a Inglaterra, deu aos colonos uma mãozinha mais que bem-vinda. Mas essa já é uma outra história.

Os ingleses não apreciaram nem um pouco o fato de perder a importante fonte de ganho. Espernearam durante algum tempo, mas acabaram se dobrando à realidade. A separação era sem volta.

Algumas décadas mais tarde, tanto a América portuguesa quanto a espanhola espertaram e se dispuseram a seguir o exemplo dos colonos britânicos. O povoamento ibérico era, no entanto, geograficamente extenso, esparso. E as comunicações entre os diversos núcleos era precária, quase inexistente. Esse fator inviabilizava uma ação concertada. As regiões colonizadas foram-se despedindo da metrópole, cada uma por sua conta. Pelos anos 1825, o continente já contava uma vintena de novos países soberanos.

Junto com a independência, apareceu a questão da nacionalidade. Se fosse mantida a tradicional regra da lei do sangue, a jus sanguinis, as novas nações estariam fadadas a ser povoadas por estrangeiros até o fim dos tempos. Com efeito, pela lei do sangue, filho de inglês é inglês, filho de espanhol é espanhol, e assim por diante. Somente a naturalização, ou seja, o abandono da nacionalidade herdada e a aquisição de uma nova poderia resolver o problema.

Mas os tempos eram outros. Poucos eram alfabetizados. Não se podia exigir que cada vivente enfrentasse os trâmites burocráticos inerentes a um procedimento de naturalização. Os habitantes da Nova Inglaterra encontraram solução bem mais simples para contornar o problema da naturalização maciça: instauraram a lei do solo, a jus soli. Pela nova norma, bastava nascer no território para adquirir automaticamente a nacionalidade do país. Para problemas iguais, soluções iguais. Todos os novos países americanos adotaram o mesmo princípio.

Passeport russe

Tão acostumados estamos com esse sistema, que não nos damos conta de que é criação relativamente recente. E tem mais: a instituição da lei do solo é praticamente restrita aos países americanos. Fora do continente, poucas são as nações que seguem essa doutrina. Por outro lado, todos os países do mundo mantêm, naturalmente, a lei do sangue para seus cidadãos.

Exemplificando, podemos dizer que, se um casal brasileiro tiver um filho na Alemanha, a criança não será alemã, dado que a legislação daquele país não conhece a lei do solo. O pequerrucho será necessariamente brasileiro. Brasileiro nato, ou seja, brasileiro desde o nascimento. Se assim não fosse, o infeliz não teria nacionalidade, seria apátrida.

Num exemplo inverso, o filho de um casal alemão nascido no Brasil terá, desde o primeiro choro, dupla nacionalidade: a alemã, pela lei do sangue; e a brasileira, pela lei do solo.

Portanto, todos os filhos de brasileiros nascidos no exterior são brasileiros natos. Se o parto ocorrer num dos (raros) países que reconhecem também a lei do solo ― os países americanos, em princípio ― a criança terá nacionalidade dupla, a brasileira e a do país de nascimento.

A jus sanguinis (lei do sangue) é universal. Afinal, gato que nasce no forno não é biscoito. A jus soli (lei do solo) é a exceção instituída para resolver a questão da cidadania nas antigas colônias do continente americano.

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Foi anunciado que uma estrela da tevê brasileira, Xuxa Meneghel, recebeu seu passaporte italiano. A Folha de São Paulo afirmou que ela «se tornou» cidadã italiana. O site Terra foi ainda mais enfático. Falou em «conquista» da cidadania peninsular. Ambos estão mal informados.

Xuxa, como todos os «oriundi», já nasceu com duas nacionalidades. Podia até nem saber disso quando era mais jovem ― provavelmente não sabia mesmo ― mas o fato de uma norma de direito ser desconhecida não anula sua validade.

O que a estrela fez foi apenas requerer seu documento de identidade italiana, papel ao qual sempre teve direito, ainda que não o possuísse antes.

Fato semelhante ocorreu com uma antiga primeira-dama do País alguns anos atrás. Muitos se escandalizaram porque aquela senhora «requereu» sua nacionalidade estrangeira. Nada mais falso. A nacionalidade ela sempre teve. O que pegou muito mal foi ela ter aceito, simploriamente, que lhe entregassem o passaporte enquanto o marido presidia o País. Podia ter esperado até que ele terminasse o mandato.

Enfim, bons modos não se compram, não se vendem, não se alugam, não se emprestam. Quem tem, tem. Quem não tem está condenado a passar a vida dando vexame.

Bolsa de estudos

José Horta Manzano

A notícia parece boa. Vem de um fórum nacional organizado por uma certa Undime ― União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, braço do MEC.

Não tenho certeza de que o termo fórum tenha sido uma escolha feliz para designar o evento. Podiam ter usado encontro, simpósio, congresso, conferência, seminário, reunião. Fórum tem carga ideológica. Enfim, talvez tenha sido exatamente essa a intenção. Afinal, há que manter sintonia com o Zeitgeist, l’esprit du temps.

O fórum anuncia o plano do Ministério da Educação de conceder bolsas a estudantes da escola média que demonstrem interesse em seguir carreira científica. Uma questão de proteger a fruta ainda verde, antes que caia da árvore ou seja devorada pelos vermes. Aplaudi de pé.

De fato, o nó do atraso brasileiro está na falta de instrução, estamos todos cansados de saber. Portanto, toda e qualquer iniciativa que puder desempacar nossa juventude só pode ser bem-vinda.

Mas nada é perfeito. Quando a esmola é muita, o santo desconfia ― costumava dizer minha avó. Aliás, de uma reunião autodenominada fórum, pode-se esperar tudo.Praia

A surpresa demora, mas chega no finzinho da reportagem. Está lá explicado que o fórum se estende por 4 dias (de terça a sexta) num complexo hoteleiro très chic da Costa do Sauípe. Além de chique, o encontro é grandioso: congrega o impressionante total de 1’100 (mil e cem) participantes.

O repórter do Estadão assume que viajou a convite da Undime. Não diz o que estava incluído nesse «convite». Seria um simples aviso ou um pacote com viagem e estada pagas? Dado que repórteres não costumam esperar convite para cobrir eventos e deles dar notícia, é lícito deduzir que, neste caso, o chamamento tenha incluído o pacote completo, embrulhado e entregue em casa.

Na mesma linha de pensamento, é igualmente lícito deduzir que outros cidadãos tenham sido agraciados com o mesmo mimo. Quantos terão sido os felizardos convidados para uma temporada na Côte d’Azur baiana à custa do dinheiro suado dos contribuintes?

Os valores andam um bocado distorcidos no Brasil. Gastam-se cachoeiras de dinheiro em marketing para anunciar pacotes de boas intenções. Pouco importa que os anúncios venham ou não a ser seguidos de efeito. O alvo não é necessariamente esse.

Não é difícil entender o objetivo real: cativar a classe média, que, com valentia, continua resistindo aos charmes inconsequentes dos novos tempos.

Miscelânea 01

José Horta Manzano

VAMOS NESSA, MERMÃO!
O Estadão anuncia que a polícia carioca faz operação para desarticular uma determinada milícia, que atual na zona oeste da cidade. Faz parte da arrumação da casa para preparar a visita de Papa Francisco, prevista para julho próximo.

Ficam no ar as perguntas:
1) Por que não fizeram antes?
2) Precisa vir um visitante ilustre para que se limpe a casa?
3) Que tal programar uma visita importante por mês?

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PRA INGLÊS VER
Dia 13 de maio, o ex-presidente Lula apareceu, elegantemente vestido de vermelho da cabeça aos pés, para prestigiar um evento comemorativo dos dez anos durante os quais seus companheiros vêm tentando conciliar corrupção e governança. Sem grande sucesso, frise-se.

Profundo conhecedor dos que o cercam desde que se meteu em política, o Lula ousou exprimir-se com inabitual e surpreendente franqueza. Confessou que não existe político de moral e ética irretocáveis.

Crédito: Filipe Araújo, AE

Crédito: Filipe Araújo, AE

É impressionante a leviandade com que certas pessoas atribuem seus próprios defeitos ao resto do mundo. Que cada um fale por si!

Nota picante:
O ínclito personagem deixou-se fotografar vestido de vermelho, a folhear um livro vermelho, sentado num sofá vermelho, tendo ao fundo um cartaz vermelho. Há de ser só pra inglês ver e repórter registrar. Em mais de uma ocasião ele já declarou jamais ter lido um livro.

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BRIGA DE ENXADA
A Comissão Pastoral da Terra, braço secular da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, empunhou a enxada e se prepara para briga feia com o governo central do País.

Em defesa dos índios, lançou nota pública denunciando a atitude da ministra da Casa Civil. A acusação é de que o governo privilegia suas boas relações com empreiteiros em detrimento da população.

Dá para entender. Comparado com as somas polpudas com que grandes empresários costumam apoiar campanhas políticas, o voto de alguns pobres bugres conta muito pouco.

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Amianto

José Horta Manzano

Mais de dois milênios atrás, esse material e suas extraordinárias propriedades já eram conhecidas. Os antigos gregos deram-lhe o nome de ásbestos (= indestrutível), nome justificado pela excepcional resistência ao calor desse silicato.

Romanos e gregos endinheirados gostavam de encomendar roupas tecidas com fibras de amianto. A particularidade maior dessas vestes era deveras fora do comum. Quando se sujavam, nada de lavar com água: bastava atirá-las ao fogo que, em vez de as consumir, limpava-as.

Mas nada é perfeito. Plínio, o Velho (23 dC – 79 dC), o maior naturalista romano, já notara que os escravos cujo trabalho consistia em manipular fibras de amianto costumavam apresentar problemas respiratórios e pulmonares. O potencial de nocividade do amianto já é conhecido, portanto, há pelo menos dois mil anos.

Isso não impediu que industriais do fim do século XIX, em busca de um material resistente à tensão, ao calor, ao frio e ao fogo se interessassem pela fibra. Desde então, esse material tem sido utilizado em duas aplicações principais: como revestimento externo de superfícies e diretamente incorporado à massa quando da preparação de um composto.

Pontos onde o amianto está presente Crédito: INRS, França

Pontos onde o amianto está presente
Crédito: INRS, França

Como revestimento externo, finas partículas de amianto são projetadas contra a superfície de um objeto, a fim de torná-lo resistente ao fogo. Roupas de bombeiro são um exemplo.

Encontramos também o velho ásbestos entre os componentes de outros produtos. É o caso do cimento-amianto, amplamente utilizado para a confecção de telhas onduladas, tubulações, caixas d’água, conexões.

Como Plínio já tinha observado vinte séculos antes, estudos científicos levados a efeito no século XX confirmaram que a inalação de pó de amianto é causa de patologias mortais. Os industriais desconheceram a constatação e continuaram a expor seus funcionários aos riscos da manipulação da fibra.

Nos últimos vinte anos, os países mais adiantados baniram, um após o outro, o fabrico e a comercialização de produtos contendo amianto. A Suíça fez isso já em 1990. A França proibiu totalmente o amianto em 1997. Em 1999 foi a vez da União Europeia de impor a todos os países membros que banissem a fibra. Um prazo de adaptação até 31 de dezembro de 2004 foi concedido.

E o Brasil? Sacumé, sempre se dá um jeito. O território brasileiro tem importantes jazidas de uma variedade de amianto. Naturalmente, um discreto lobby passeia pelos corredores brasilienses para defender os interesses dos produtores. Até o momento, não há nenhum sinal de que esse material venha a ser proibido. Talvez mais preocupados em não perder eventuais mimos dos lobistas, nossos legisladores vêm empurrando com a barriga o assunto incômodo.

Ninguém está ligando para os operários que passam anos enchendo os pulmões de pó cancerígeno. Faz 50 anos que se sabe que os pobres diabos terão a vida encurtada por um câncer bronco-pulmonar, uma fibrose pulmonar, um câncer da pleura ou do aparelho digestivo.

E daí? Quem está preocupado com a vida dos que trabalham em mina de amianto ou dos que pavimentam nossas estradas? Para cuidar deles, temos o SUS(*), que oferece fabuloso atendimento de Primeiro Mundo.

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(*) Para quem não estiver familiarizado, o SUS (Sistema Único de Saúde) é o sistema brasileiro de saúde pública. Alguns anos atrás, um simplório presidente do Brasil ― que já terminou seu mandato ― não corou nem se vexou ao declarar que, graças ao SUS, o Brasil já se tinha praticamente tornado um país do Primeiro Mundo. Mas o mundo dá voltas. Alguns anos mais tarde, o mesmo cavalheiro teve graves problemas de saúde. Não procurou o SUS.

Uma reflexão para o 13 de maio

José Horta Manzano

Os primeiros europeus a desembarcarem na ilha Hispaniola estavam a serviço da coroa espanhola. Cristóvão Colombo em pessoa pisou aquelas praias em 1492. Aventureiros logo apareceram à cata de metais preciosos. Encontraram ouro na parte oriental da ilha.

Como no restante das terras americanas, também em Hispaniola grande parte dos indígenas sucumbiu às doenças trazidas pelos estrangeiros. Os poucos que escaparam mostraram-se inaptos ao trabalho servil e preferiram refugiar-se nas zonas montanhosas. Para explorar suas minas, os espanhois recorreram à mão de obra africana, importada em condições de escravidão.

A parte ocidental da ilha, desprovida de riqueza mineral, foi abandonada. Acabou colonizada por franceses, que lá criaram grandes plantações de tabaco e de cana de açúcar. Como os espanhois, também eles se valeram de escravos trazidos da África.

No fim do séc. XVIII, a Revolução Francesa inaugurou um período conturbado. Na confusão daqueles anos, a parte oeste da ilha, depois de muitas peripécias, conseguiu expulsar os cultivadores franceses e declarar sua independência em 1804. Era o nascimento do Haiti, primeiro país negro independente.

Nenhuma potência colonial europeia apreciou. Muito menos a França, que levou mais de 20 anos para reconhecer a perda da antiga colônia e só o fez com uma condição: a de que o novo país pagasse uma indenização de 90 milhões de francos à antiga metrópole. O dinheiro era destinado a ressarcir os plantadores que haviam perdido suas terras. Haiti pagou.

Crédito: Gonzalo Fuentes, Reuters

Crédito: Gonzalo Fuentes, Reuters

Dois séculos se passaram. Alguns anos atrás, o presidente Chirac decidiu designar o 10 de maio como dia comemorativo da abolição da escravidão.

Haiti, como país independente, nunca deu certo. Desde a partida dos colonos, ditaduras, golpes de estado, catástrofes naturais se abateram sobre o país, numa série ininterrupta de infelicidades.

No 10 de maio deste ano, uma ong francesa chamada Cran (Conselho Representativo das Associações Negras) prestou queixa contra a Caixa de Depósitos, estabelecimento bancário estatal francês equivalente a nossa Caixa Econômica. Acusam o banco ― que é um dos braços financeiros do governo francês ― de cumplicidade de crime contra a humanidade.

Referem-se aos milhões que o Haiti pagou para conseguir ter sua independência reconhecida. Segundo o Cran, o montante não foi inteiramente redistribuído aos plantadores, tendo sobrado um saldo que a Caixa embolsou. Calculam que os 90 milhões da época equivalem a 21 bilhões de dólares atuais, montante considerável.

O próprio presidente Hollande já declarou que a queixa não será levada em consideração. Não entendi bem o objetivo real da iniciativa, mas qualquer um percebe que ela não tem a menor chance de prosperar. É mais uma daquelas ideias despropositadas que dão a seus autores 5 minutos de exposição midiática, nada mais.

Concordo que se possa, em parte, atribuir o atraso do pequeno país caribiano ao montante exorbitante pago à antiga metrópole. No entanto, em vez de uma queixa de crime contra a humanidade, melhor seria se pedissem que o governo francês lhes desse uma mão para melhorar a Instrução Pública haitiana.

Vamos ver como evolui

José Horta Manzano

Desta vez, não deu

Não se sabe bem quem terá tido a ideia. O marketing foi deixado aos cuidados de um músico baiano que costuma se apresentar com a cabeça encimada por uma touca que lembra a de um mestre-cuca. Um pouco menos elegante, é verdade.Touca mestre-cuca

Inventaram um dispositivo meio esquisito, parecido com brinquedo de criança, feito de plástico, recheado de bolinhas, com alças laterais onde se encaixam os dedos. Para rimar com ecologia, anunciaram que seria feito a partir de cana-de-açúcar. Para rimar com nacionalismo, foi tingido de verde.

Na hora de escolher o nome, fizeram um esforço especial para escapar do ridículo. Quiseram compensar a escolha infeliz do apelido dado ao simpático tatuzinho que simboliza a Copa (mas não só…), o pobre Fuleco. Chamaram o novo brinquedinho de caxirola. Não ocorreu a ninguém que os estrangeiros pronunciarão caksirôla. Faltou aconselhamento.

Para reforçar o marketing, distribuíram a novidade ― de graça! ― num recente jogo de futebol. Cinquenta mil exemplares. Que desastre! Torcedores descontentes com o desempenho de sua equipe não pensaram duas vezes. Tomados pela decepção e pela raiva, lançaram sobre o gramado o que traziam na mão. Era justamente nossa caksirôla em fase de teste. Centenas delas terminaram no gramado, perturbando o jogo. A história não diz se o dispositivo foi aprovado como instrumento. Contudo, o teste detectou que é excelente projétil.

Resultado: autoridades baianas baniram o aparelhinho das partidas que vierem a ser disputadas em Salvador. É de imaginar que outros Estados sigam o exemplo, a não ser que… bem, sabemos todos que os argumentos da Fifa costumam ser convincentes.

Vamos ver como evolui.Interligne 4f

Brincando com a saúde… dos outros

Uma mafia de falsificadores de leite foi flagrada no Rio Grande do Sul estes dias. Por ganância, batizavam o alimento com substâncias comprovadamente cancerígenas. O detalhe sórdido é que um dos criminosos mandava separar uma parte do leite bom para consumo de sua família. A adulteração vinha em seguida. Mateus, primeiro os teus!Vache 2

Em 2008, escândalo semelhante estourou na China. Uma gangue mafiosa explorava o mesmo filão. Acrescentavam melamina ao leite. Apanhados, foram presos e julgados. O caso rendeu duas penas de morte e mais uma de prisão perpétua. As penas capitais já foram executadas em 2009. A firma de lacticínios ― a maior da China ― foi à falência.

Voltemos ao Rio Grande. Dos 8 presos, um já foi solto. Seis ― bem orientados por seus defensores ― declararam que só se pronunciarão em juízo. O oitavo falou. Disse que não sabia de nada.

Que pena merecem os que vendem gato por lebre e expõem crianças, velhos e doentes ao câncer?

Vamos ver como evoluiInterligne 4i

Bismarck tinha razão

José Horta Manzano

Leis & salsichas
Atribui-se ao homem político alemão Otto von Bismarck (1815-1898) uma citação que, traduzida em tupiniquim, fica mais ou menos assim: «Se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite».Salsicha

Cento e cinquenta anos depois do prussiano, Geraldo Alckmin (1952-), governador de São Paulo, acaba de dizer a mesma coisa. Usou palavras mais duras, mas a constatação é a mesma. Foi bem mais contundente que Bismarck.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o governador disse: «O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele próprio, se não, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse (sic) sofrido povo brasileiro».

Por aí se vê que, lá como cá, ontem como hoje, pouca coisa mudou nas práticas políticas.

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Não é nem deixa de ser
A França foi o 14° país a instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. «Foi longe demais!», dizem uns. «Já estava passando da hora!», reclamam outros. Os dois campos têm razão.

Como já comentei neste mesmo espaço algum tempo atrás, não é a formalização do casamento, em si, que atrapalha tanto assim. É a autorização da adoção, que entrou embutida de contrabando no novo texto legal francês.

Por isso ― na minha opinião pessoal ― têm razão os que consideram que a lei extrapolou ao incluir a adoção plena. Têm também razão os que acham que o reconhecimento da união homoafetiva já não veio sem tempo.

Enquanto isso… enquanto isso, numa certa República que conhecemos bem, tergiversa-se. Na falta de um texto completo, abrangente, definitivo, claro, o brasileiro tem de recorrer a jeitinhos. Um remendo aqui, uma resolução ali, um decretozinho acolá. O CFM se mete, a OAB dá seus palpites, até o STF entra na dança. Já os congressistas, que foram justamente eleitos para fabricar leis, não estão fazendo seu trabalho.Justiça

Situações esdrúxulas se criam. Inseminação artificial pode. Adoção pode. Barriga de aluguel pode. Quanto a casamento, depende. Tem de encontrar um cartório de boa vontade. E um bom advogado em caso de contestação. Na falta de lei clara, conquistam-se direitos no grito, na marra, na valentona, na Justiça. Ora, o poder judiciário foi concebido para julgar na base da legislação existente, não para criar leis.

Fica difícil entender por que o parlamento brasileiro, tão rápido no gatilho quando se trata de reconhecer direitos de outras minorias, não legiferou até hoje com relação a essa realidade social.

Talvez seja influência das salsichas de Bismarck. Em outras palavras, os deputados devem ter avaliado que, se votarem uma lei autorizando claramente a união homossexual, perigam perder votos de adeptos de seitas neopentecostais.

Entre o bem de uma categoria de cidadãos e os votos de outra, ficam com os votos.

Passa passa três vezes

José Horta Manzano

Na quinta-feira 25 de março de 1999, Jiang Zemin, presidente da China, estava na Suíça em visita oficial. A recepção havia sido preparada em detalhe e tudo corria bem. Cordões de isolamento, crianças agitando bandeirinhas, percurso em limusine dessas que começam aqui e terminam na esquina, autoridades sorridentes, flores por toda parte.

Assim que a comitiva parou na praça do Palácio Federal, em Berna, bem em frente ao edifício que abriga o governo e o parlamento suíço ― o equivalente da brasiliense Praça dos Três Poderes ― a coisa subitamente desandou.

Vaias, gritos, apitos se fizeram ouvir. Do alto dos prédios desenrolaram-se bandeiras do Tibete. Cartazes com os dizeres «Free Tibet» apareceram por todo lado. As autoridades suiças, que não esperavam por essa, não sabiam se riam ou choravam.

O presidente da China teve um ataque de fúria. Rispidamente, perguntou à presidente da Confederação Suíça se ela não tinha capacidade de controlar seu próprio país. E acrescentou: «Vocês acabam de perder um bom amigo».

Assim mesmo, o resto do programa foi cumprido. Mas o mandachuva chinês continuava muito chateado. Como é costume, veio a troca de presentes. O governo suíço ofereceu ao chinês uma caixinha de música de grande valor, toda esculpida e pintada à mão, uma maravilha mecânica. E o visitante, depois de examinar o presente, ousou: «Ela parece funcionar melhor que a segurança do país».

A visita continuou num clima azedo. Desde então, nunca mais nenhum dirigente máximo chinês visitou a Suíça em caráter oficial.

O estrangeiro, pouco afeito à liberdade de opinião de que gozam os cidadãos europeus, não conseguia entender que perigosos manifestantes pudessem ter sido deixados à vontade. Em seu país, esse tipo de acontecimento é inimaginável. Antes de eventos importantes, tomam-se as devidas providências para esconder a miséria e neutralizar eventuais manifestantes.

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Mata atlânticaNa terça-feira 17 de outubro de 2006, Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil, assinou um manifesto no caderno opinião da Folha de São Paulo. O texto, tecido em tom épico e voluntarioso, rechaçava toda e qualquer intervenção estrangeira em assuntos referentes à floresta amazônica. Assegurava que o Brasil era suficientemente grandinho para cuidar sozinho de seu território. E terminava com uma afirmação pra lá de ufanista: «A Amazônia é um patrimônio do povo brasileiro, e não está à venda».

Em 1° de agosto de 2008, menos de 2 anos após o inflamado libelo de nosso inefável chanceler, foi criado, por decreto, o Fundo Amazônia. Como qualquer um pode conferir no próprio site do Fundo, ele se propõe a apoiar projetos que visem a gerir, controlar, monitorar, fiscalizar, manejar, desenvolver, zonear, ordenar, conservar, recuperar o território amazônico. Os verbos utilizados são exatamente esses.

Ao contrário do que a fala do chanceler dava a entender, o Fundo aceitou doações de governos estrangeiros. Compreende-se que, embora a Amazônia não esteja propriamente «à venda», aparecendo alguém com dinheiro na mão, dá-se sempre um jeitinho e aceita-se de bom grado. O Estadão de 6 de maio último nos dá conta do que chama “vexame amazônico”.

Ora, basta de brincadeira. Se o chanceler brasileiro, o inenarrável Amorim, declarou que o Brasil podia cuidar sozinho de seu patrimônio, é incongruente ter aceitado doações de governos estrangeiros para esse fim. Quem aceita ajuda financeira torna-se, até certo ponto, devedor. O provedor tem direito a explicações sobre o uso do dinheiro.

Mas o pior não é ter cantado de galo para, em seguida, render-se ao maná financeiro aportado por alemães e por noruegueses ― como diria Padim Ciço, todos louros de olhos azuis. O pior mesmo é que, nos últimos cinco anos, a destruição da floresta amazônica continuou impávida, a zombar dos milhões angariados pelo Fundo.Desmatamento

Está feita a prova de que, com ou sem Fundo Amazônia, com ou sem aporte de dinheiro de governos estrangeiros, o governo brasileiro continua mostrando absoluta incapacidade de controlar seu próprio território. «Tem mulher e filhos que não pode sustentar», como costumávamos cantar.

Daqui a um século, quando nada mais sobrar da antiga floresta, restarão a nossos trinetos os olhos para chorar. A arrogante frase do insigne ministro será então citada como exemplo de nacionalismo tosco, míope, vazio e daninho que terá contribuído para uma catástrofe de proporções planetárias.

Dar a mão a quem precisa

José Horta Manzano

Repercutindo reportagem publicada pela revista Época em 7 de maio, o Estadão informa que o governo do Estado de São Paulo está terminando de embrulhar um novo pacote de auxílio aos drogados.

Coisa rara no Brasil de hoje, a ajuda é bem maior que uma migalha eleitoreira. O montante alocado a cada caso ― de 1350 reais mensais ― dissipa eventuais dúvidas nesse sentido.

Não conheço os pormenores do programa, mas, em princípio, não posso deixar de aplaudir a iniciativa. Costumo dizer que o grau de civilização de uma sociedade se mede pela atenção que ela dispensa aos mais frágeis de seus membros.

Um detalhe, no entanto, me deixa surpreso. É o fato de a nova bolsa ser representada por um montante fixo. Pior que isso é o fato de ela não ser entregue ao interessado, mas à sua família, e em dinheiro. Que seja moeda corrente ou cartão de crédito, sempre dinheiro é.Interligne 3a

Embora possa parecer inacreditável, na Suíça também existe pobreza. Não falo de miséria, gente dormindo nas calçadas, crianças barrigudinhas na beira da estrada. Falo de gente, principalmente pessoas idosas, cuja pensão não dá para satisfazer todas as necessidades.

Que faz a sociedade em casos assim? Deixa que morram à míngua, que não se cuidem, que não se vistam, que não se tratem? Não seria civilizado. Quando um cidadão se dá conta de que ― por motivo de desemprego, velhice, doença ― não está conseguindo cumprir seus compromissos financeiros, tem o direito de pedir ajuda às autoridades.Dar a mão

É um passo que a maioria dos suíços hesita muito em dar. Sentem-se envergonhados de ter de pedir ajuda à sociedade. Caso vençam a barreira do recato, o caso será tratado individualmente. Não há uma alocação fixa. Cada caso é um caso.

O cidadão dará os detalhes de sua situação financeira. Quanto recebe de pensão ou de salário, quanto paga de aluguel, de seguro e de outros encargos. Os assistentes sociais estudarão o caso e, de comum acordo com o interessado, chegarão a um acerto. O dinheiro público pagará uma parte das contas do requerente.

Jamais lhe darão dinheiro, nem sob forma de cartão de crédito nem, muito menos, em moeda corrente. O serviço de assistência social assumirá o pagamento do aluguel, do seguro de saúde, ou do que for acertado. O assistido não verá a cor do dinheiro, que sairá diretamente dos cofres públicos para a conta do senhorio, da companhia de seguros ou de quem for o beneficiário. Não há limite máximo para a ajuda. O valor de um aluguel numa cidade importante pode ser muito mais elevado que em uma pequena localidade. Portanto, não seria justo nem normal estabelecer um montante fixo. Como preconizava Marx, cada um deve receber conforme suas necessidades.Interligne 3a

Voltemos à bolsa crack paulista. (Deixando a hipocrisia de lado, a apelação é cruel mas explícita.) Não me parece que entregar dinheiro à família de viciados seja a melhor solução. Quem garante que esse dinheiro será suficiente? Quem garante que será realmente usado para a função a que se destina? Como procederão no caso de adictos sem família?

Fica a impressão de que, por detrás da boa intenção das autoridades, há uma forte dose de descaso. É como se dissessem: «Ó, tomem aqui o dinheiro e sumam. Vão cuidar desse infeliz, que nós não temos tempo nem paciência pra essas coisas».

Sei não. Acho que, se é para fazer, que se faça benfeito. Usar o dinheiro do contribuinte para fazer as coisas pela metade e torcer para que a família de cada assistido tenha o bom-senso de segurar a peteca e não deixá-la cair me parece uma meia solução. Não vai até o fim.

Será que estou pedindo demais?

O blogue recomenda

José Horta Manzano

Não percam o artigo datado de 7 de maio que o Guilherme Fiuza publica no seu blogue. Ô língua ferina!

Outro escrito que merece leitura esta semana é a crônica do João Ubaldo Ribeiro, publicada em 5 de maio pelo Estadão.

Os links estão aqui do lado direito.

O uso do cachimbo

José Horta Manzano

Fala-se muito da anestesia do povo brasileiro que, cada dia mais blasé, não se abala mais com os desatinos cometidos por seu desastrado governo. Os parâmetros estão-se perdendo. Os pés estão escapando do estribo.

Acabam todos com a impressão de que tudo é permitido. Só não pode chamar cego de cego, surdo de surdo, louco de louco, preto de preto. O resto pode.

O governo comete enormidades. Ninguém se choca. Todos se sentem liberados para fazer o que bem entenderem. Diante dessa situação, o governo se sente ainda mais livre para continuar a tomar suas decisões extravagantes. Assim, o círculo vicioso se fecha e se realimenta, num movimento infernal cada dia mais difícil de ser freado com meios suaves.

A vizinha Venezuela está mergulhada num torvelinho semelhante faz mais de 10 anos. Talvez por contar com instituições menos sólidas que as nossas, o encadeamento está lá mais adiantado. Os amigos do rei já dominam praticamente todo o processo decisório do país. Executivo, legislativo e judiciário, já subjugados pelo mandachuva maior, guardam fidelidade aos sucessores do falecido e respeitam seus caprichos.Maduro

A arrogância dos figurões do país vizinho está-se tornando insuportável. Estão convencidos de que, façam o que fizerem, ninguém os poderá atingir. O mais recente exemplo do descomprometimento deles com as regras básicas que regem o mundo civilizado chegou estes dias.

Sem se preocupar em solicitar a devida autorização, utilizaram um trecho da música Detalhes, do capixaba Roberto Carlos para ilustrar uma peça de propaganda política. O compositor, cioso de sua obra, não apreciou. Ficou de cobrar direitos autorais dos usurpadores, com juros e correção.

Señor Maduro ― um tanto verde em matéria de recato ― zombou do ocorrido. Aos olhos do bolivarianismo, propriedade intelectual é noção ultrapassada, coisa de burguês.

Roberto Carlos promete entrar com pedido de indenização. Deve apresentá-lo à Justiça venezuelana. E é aí que a porca torce o rabo. Visto que, naquele país, o poder judiciário virou capacho do executivo, a probabilidade de sucesso do compositor é mínima.

Assim como o uso do cachimbo faz a boca torta, o exercício do poder sem contestação afasta os governantes da realidade. Faz que passem a viver num mundo de fantasia.

Se a boca dos dirigentes brasileiros anda meio oblíqua, a de seus colegas bolivarianos já entortou de vez.

Senzalas francesas

José Horta Manzano

Quando, em 1830, os franceses se apossaram do território norte-africano que hoje se chama Argélia, estavam selando o destino da França. Ad vitam æternam.

Quando, a partir do século XVI, os brasileiros(*) e outros plantadores de cana decidiram ir buscar mão de obra gratuita na África, estavam selando o destino do Brasil. Ad vitam æternam.Interligne 3d

A independência da Argélia, reconhecida em 1962, provocou uma descolonização a toque de caixa. Um milhão de franceses oriundos da metrópole tiveram de ser repatriados em regime de urgência, deixando para trás tudo o que possuíam.Torre Eiffel

Essa chegada súbita e maciça dos retornados não teve grande impacto na metrópole. Os anos 60, 70 e 80 foram, na Europa ocidental, décadas de prosperidade. Fechavam-se as últimas cicatrizes da guerra e construía-se e reconstruía-se em ritmo acelerado. Centrais nucleares, aviões supersônicos, construção civil, estradas ― tudo isso exigia mão de obra.

Grandes contingentes de norte-africanos, especialmente argelinos, foram trazidos. Faziam o trabalho mais humilde, justamente aquele que os franceses não queriam mais fazer.

Embora fossem remunerados ― uma situação bem diferente da dos africanos levados à força para o Brasil ―, foram propositadamente apartados do resto da população. Grandes conjuntos de imóveis especialmente destinados aos imigrantes argelinos, tunisinos e marroquinos foram construídos na periferia das cidades.

Cada conjunto dispunha de comércio de base, como as superquadras da Brasília dos anos 60. A intenção era conter os novos imigrantes dentro do espaço que lhes era destinado, concentrá-los, coibir sua interpenetração com a boa sociedade. Os conjuntos habitacionais exerciam ― exercem até hoje ― o papel da senzala conhecida dos brasileiros. Todos juntos, sim, mas… vocês lá e nós cá.Interligne 3d

A vida dá voltas. O boom dos anos dourados arrefeceu. Os descendentes de imigrantes progrediram. Se alguns, é verdade, descambaram para a criminalidade, a droga e outros tráficos, muitos seguiram trilha melhor. Estudaram, se esforçaram, não se conformaram em continuar no baixo patamar social em que haviam nascido.

Abandonados à própria sorte, os habitantes dessas cités não têm a vida fácil. Estigmatizados pela cor de sua pele, pelo aspecto físico ou pelo sobrenome, às vezes até pelo prenome que denota origem norte-africana, são usados, especialmente por partidos de extrema direita, como bodes expiatórios. Todos os males nacionais lhes são atribuídos.

Costuma-se dizer que, entre dois currículos de categoria semelhante, um dos quais tenha sido mandado pelo candidato Mohamed Sahraoui enquanto o outro esteja louvando as qualidades de Jean Martin, o selecionador tenderá a preferir Jean. Talvez nem mesmo chegue a propor entrevista a Mohamed.

Para remediar esse problema, tem-se falado com muita insistência em instituir currículos anônimos. Sem se deixar influenciar por preconceitos de origem étnica, o selecionador julgaria os méritos e as qualidades de seus candidatos e chamaria para entrevista os que lhe parecessem convir. Se o sistema ainda não foi adotado, é por dificuldades práticas. Mais dia, menos dia, será instituído.Interligne 3d

Um editorial do Estadão de domingo 5 de maio nos traz uma boa análise de uma inacreditável situação. O perfil que cada pesquisador mantém no incontornável Currículo Lattes, verdadeira instituição conhecida por todos os cientistas brasileiros e respeitada por todos eles, deverá obrigatoriamente trazer a raça ou a cor de pele de cada acadêmico(!).Moulin rouge

Se não tivesse saído no Estadão, seria de duvidar da veracidade da história. Com que então, os que vêm tomando essas decisões estes últimos tempos acreditam mesmo que a melhor maneira de atenuar preconceito racial é oficializar a compartimentação dos cidadãos em etnias distintas e conferir a cada uma direitos diferentes das demais? Combate-se uma discriminação lançando mão de outra? Para compensar os maus tratos de que foram vítima os tataravós de certos cidadãos, discriminam-se os tataranetos dos algozes de séculos atrás? Tudo isso atropela o bom-senso.

Mas o mundo gira. Por mais que isso atrapalhe os planos dos racistas brasileiros ― que preferem pudicamente ser chamados de racialistas ― a miscigenação da população continuará. Dentro de muito pouco tempo, não brancos (pretos e pardos) serão maioria, se é que isso já não aconteceu. E aí, como ficamos? Estabeleceremos quotas para a minoria eurodescendente?

Ao invés de olhar para o próprio umbigo e dar tiros em seu próprio pé, esses novos racistas deveriam estudar soluções encontradas por outros países que enfrentam o mesmo problema. Não basta ir a Paris só para subir à Tour Eiffel e assistir a um espetáculo no Moulin Rouge. Há que aproveitar para aprender com a experiência dos outros.

Um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

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(*) O termo brasileiros é utilizado aqui na sua acepção original de comerciantes de pau-brasil.

Com ditadura é mais fácil

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 maio 2013

«L’important dans la vie ce n’est point le triomphe, mais le combat.
L’essentiel n’est pas d’avoir vaincu, mais de s’être bien battu.»

O importante na vida não é o triunfo, mas o combate.
O essencial não é vencer, mas lutar bem.

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Que me perdoem pela longa citação. É a famosa máxima ― geralmente mencionada truncada ― do barão Pierre de Coubertin, aquele que, 120 anos atrás, ressuscitou os Jogos Olímpicos. Achei importante citá-la na íntegra.

Quando o barão pronunciou essas palavras, todos fingiram acreditar. Mas elas seguem um raciocínio contrário à natureza humana. Não tivessem nossos antepassados vencido, e não estaríamos nós aqui. É importante lutar, mas vencer é o objetivo natural de toda contenda. Ninguém compete pelo simples prazer de renhir. Dizem alguns biógrafos, aliás, que nem o próprio barão acreditava na frase que havia pronunciado.

Há mentiras e meias-verdades em que a gente faz que acredita. Nem que seja só para evitar discussão. Um antigo presidente de nossa República, quando ainda exercia o cargo, disse certa feita que a Venezuela padecia de excesso de democracia. Todos fizeram cara de acreditar. Pra que discutir?

François Hollande, quando ainda candidato à presidência da França, garantiu que consertaria a economia do país já no primeiro ano de mandato. Alguns eleitores acreditaram, outros só fizeram cara. O homem foi eleito. Um ano depois, a economia continua a mergulhar num abismo que parece não ter fim, enquanto a taxa de desemprego sobe à estratosfera. Estes dias, Monsieur Hollande voltou a prometer que, daqui para o fim do ano, sem falta, estará tudo dominado e o país terá entrado nos eixos. Agora, vai. A gente faz que acredita. Pra que discutir?

No Brasil, ao término de um processo conhecido como mensalão, alguns figurões de alto coturno foram considerados culpados e, ato contínuo, condenados por crimes vários. Curiosamente, alguns dos anjos caídos ― justamente os que mais alto se situavam na hierarquia ― continuam a jurar não ter jamais cometido os crimes pelos quais foram sentenciados. Alegam ter sido vítimas de uma farsa grotesca e garantem que uma corte internacional de arbitragem reconhecerá a iniquidade da condenação. Todos fazemos de conta que acreditamos. Pra que discutir?

De vez em quando, um medalhão nos surpreende com alguma declaração fora de esquadro. Semana passada, por exemplo, o secretário-geral da Fifa nos brindou com uma pérola. Em tom de queixa contra a burocracia brasileira, afirmou que «um nível mais baixo de democracia é preferível para organizar uma Copa do Mundo». Trocando em miúdos, o mandarim insinuou que, na hora de preparar um campeonato mundial, nada se compara a uma boa ditadura.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O secretário-geral tem tudo para se sentir blindado. No ano passado, depois de fazer um de seus desastrados pronunciamentos, foi declarado persona non grata pelo Ministro dos Esportes do Brasil. Sabe-se lá por que milagre, o incêndio foi apagado rapidinho e o episódio foi esquecido. Monsieur Valcke voltou a ser persona grata em nossas terras.

De novo incensado, sentiu-se livre para reclamar da quantidade de interlocutores com os quais é obrigado a dialogar no Brasil. Gostaria de ter uma só pessoa com quem conversar. Se essa pessoa for o mandachuva maior, melhor ainda.

O secretário-geral mostrou-se nostálgico da Copa de 1978, aquela que serviu de vitrina para os ditadores argentinos mostrarem ao mundo a excelência do regime. Na época, naturalmente ninguém mencionou o lado sombrio e as dezenas de milhares de desaparecidos.

Para coroar, o figurão não se privou de formular votos para que a Copa seguinte, a da Rússia, seja mais do seu feitio. Chegou ao despudor de mencionar o nome de Putin. Mostrou-se seguro de que o tsar de todas as Rússias ainda estará firme no poder, e de que, com ele, o diálogo será mais fluido. Ninguém duvida.

O relacionamento entre a Fifa e o governo brasileiro é complicado, difícil de delinear. O que parece nem sempre é. A riquíssima Fifa é organização notoriamente corrupta. A elite política brasileira também está habituada a lidar com muito dinheiro e não costuma mostrar especial empenho em coibir a corrupção por estas bandas.Copa 14 logo 2

Mas cada turma tem seus métodos, seu jeito de operar. Mal comparando, costurar um acordo entre a Fifa e os governantes brasileiros é tentar conciliar, digamos, capos da Máfia siciliana com chefes da Camorra napolitana. Para chegar lá, precisa ter boa vontade e paciência. Muita paciência.

Nosso consolo é que, no fim, o esporte vencerá. Afinal, o importante é competir. Pra que discutir?

Lá como cá

José Horta Manzano

A cidade de Bruges fica na provícia de Flandres Ocidental, no norte da Bélgica. Seus canais lembram uma ultraconhecida cidade italiana, daí seu apelido de Veneza do Norte. Na região fala-se flamengo, um dos dialetos do holandês. Cá entre nós, holandês é apenas o nome popular do idioma. Quem quiser se exprimir corretamente e impressionar diga neerlandês.

Aliás, o verdadeiro nome da língua é, realmente, neerlandês. Holanda do Norte e Holanda do Sul (Noord-Holland e Zuid-Holland) são duas das doze províncias que compõem o Reino dos Países Baixos. São as mais importantes, é verdade, mas não as únicas. Dizer que a língua do país é o holandês equivale a dizer que os brasileiros falam carioca. É inapropriado.

Na periferia de Bruges fica a cidadezinha de Zedelgem, pouco mais de 20 mil habitantes, um daqueles lugares pacatos, onde pouca coisa acontece. A vila é mais conhecida por seu edifício medieval, o lindíssimo Castelo de Baesveld. A quem interessar possa: o monumento pode ser alugado para casamentos e outras celebrações. Informações na prefeitura.

Castelo de Baesfeld, Bélgica Crédito: belgiumview.com

Castelo de Baesfeld, Bélgica
Crédito: belgiumview.com

Algo fora do comum aconteceu estes dias no tranquilo vilarejo. Caiu uma chuva de dinheiro. Nada de sobrenatural, vou contar-lhes como ocorreu. Deu na televisão.

Um assalto ― coisa rara naquelas bandas ― deu errado. Malfeitores se apoderaram de dois cofres-fortes e os embarcaram num furgão. Assim que se puseram a escapar do lugar do crime, perceberam que estavam sendo seguidos pela polícia.

Para atrapalhar os que os perseguiam, atiraram um dos cofres no meio da rua, com o carro em movimento. Com o choque, a caixa-forte se partiu e uma chuva de notas atapetou a rua principal. Notas verdes de 100 euros caindo do céu? A Bélgica é país chuvoso, por certo, mas em princípio o que costuma cair é água fria. A população nunca tinha assistido a espetáculo tão fascinante.

A Bélgica não é conhecida por abrigar gente desonesta, mas, sacumé, a ocasião faz o ladrão. Quem pôde, saiu à rua para catar nem que fosse algumas notas. Parece até que uma distinta senhora chegou ao local empunhando uma vassoura, para racionalizar e apressar a preciosa colheita antes que algum aventureiro lançasse mão.Ladrão

A polícia conseguiu recuperar boa parte do butim, assim mesmo faltava meio milhão de euros. O prefeito do lugarejo, cioso da fama de honestidade de seus governados, teve uma ideia: mandou instalar uma espécie de caixa de cartas onde cidadãos arrependidos poderiam inserir, de forma anônima, as cédulas surrupiadas.

A emenda saiu pior que o soneto. Na calada da noite, outros ladrões vieram e levaram… a caixa de cartas. Com seu conteúdo, naturalmente.

Lá como cá…

Ai, que sede!

José Horta Manzano

Você sabia?

Até os anos 1880, os habitantes da cidade de São Paulo não sabiam o que era água encanada. As famílias abasteciam seus lares com água de diversos tanques naturais. Os mais abastados mandavam lá seus escravos mais fortes, que voltavam carregando pesados cântaros à força dos braços. Havia também quem fizesse vir o precioso líquido no lombo de burros. Era tarefa praticamente quotidiana. Fazia parte da rotina da cidadezinha de então.

Os tanques eram vários. O clima tropical da cidade sempre trouxe muita chuva. E a natureza, sábia, providenciou vias de drenagem. Em certos baixios, a água se acumulava e formava tanques naturais. Era nesses reservatórios que se ia buscar a água necessária ao consumo doméstico.

O ponto de colheita mais próximo do centro da cidade sempre foi o próprio rio Tamanduateí, aonde se chegava descendo a ladeira do Carmo. À medida que o pequeno burgo se expandiu e transpôs o vale do Anhangabaú, outros pontos de apanha foram sendo utilizados.

Entre eles, havia o tanque do Ribeirão Saracura, de bom tamanho. Ficava aproximadamente onde hoje se situa a Praça 14 bis, na Avenida 9 de Julho. Chegava-se lá subindo a rua de Santo Antônio.

Outro reservatório ficava nas imediações do atual Largo do Arouche, onde hoje estão as ruas Bento Freitas e Rego Freitas. Um outro muito concorrido era o Tanque do Zuniga(*), localizado no atual Largo do Paissandu.

A Fonte Monumental em 1928 Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/

A Fonte Monumental em 1928
Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/

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Mais um tanque se encontrava na atual Avenida Pacaembu, na altura das ruas Traipu, Veiga Filho e Tupi, não longe do Hospital Samaritano. Dado que o arruamento do Pacaembu foi tardio, a planta de São Paulo de 1913 ainda assinala esse alagado.

Com a instalação da Companhia Cantareira, criada para trazer água limpa e levar águas servidas, os antigos tanques passaram a ser menos e menos utilizados. Por inúteis, foram aos poucos sendo secados, aterrados e esquecidos.

Preocupada em matar a sede dos passantes e, naturalmente, em embelezar a cidade, a prefeitura mandou instalar fontes. Unia-se, assim, o útil ao agradável. No começo do século, inauguraram-se, entre outras, a fonte da Ladeira do Piques (rua Quirino de Andrade) e a Fonte Monumental, na atual praça Júlio Mesquita.

Naqueles tempos civilizados, tanto essas duas como todos os chafarizes da cidade eram, naturalmente, abertos ao público. Podiam ser admirados e, claro, utilizados por todos os que estivessem com sede. Bons tempos.

Um artigo de Edison Veiga, publicado em seu blogue alojado no Estadão, nos informa que, após oito meses fechada para obras, está sendo reinaugurada a Fonte Monumental.

A obra é exatamente conforme ao original com acréscimo de um detalhe: pode ser admirada de longe, mas uma proteção de vidro impede os passantes de se aproximarem. A prefeitura prefere não correr o risco de ver de novo o ponto d’água transformado em mictório público.

Deve ser isso o progresso.

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(*) Existe o sobrenome vasco Zúñiga (pronunciado com acento no U). É bem provável que aquela gleba tenha pertencido a algum oriundo de Bilbao, San Sebastián ou Vitoria.

Problemas burocráticos

José Horta Manzano

Uns vinte anos atrás, tive contacto profissional com um comerciante gaúcho chamado Roque, estabelecido na cidade de Lajeado, no Vale do Taquari. Homem honesto e fino, acabamos ficando amigos.

Roque, pessoa de boa cultura, me contou o drama pessoal que tinha atravessado anos antes. Era alcoólatra. O desregramento tinha-se apresentado já no fim da adolescência e não fez senão agravar-se com a idade.

Mesmo casado e pai de família, ele continuou sob o domínio do álcool. Com os anos, a situação foi piorando. Entre um gole e outro de chimarrão, ele mesmo contava, com seu saboroso sotaque do Sul: «Primeiro, bebi meu dinheiro; depois, bebi meu carro; por último, bebi minha casa e fui parar na rua».

Perdeu o que tinha. Foi rejeitado por família e amigos. Virou um trapo. Até que um dia uma mão amiga lhe mostrou o caminho. Roque aprendeu que o alcoolismo é uma doença. Incurável. Não é alcoólatra quem quer, já se nasce assim e assim se permanecerá pelo resto da vida. Só há um meio de controlar ― digo bem controlar, não curar ― o problema: a abstinência.Bebida

É basicamente o que ensinam grupos como os diversos AA (Alcoólicos anônimos). O adicto que quiser sair desse tormento tem absolutamente de evitar tomar o primeiro copo. Se sucumbir, as defesas psíquicas se afrouxarão, e ele não poderá mais parar. Para viver uma vida normal, terá de se empenhar para não tomar nem uma gota de álcool. Nunca mais. Pelo resto da vida.

Com o apoio de um desses grupos, Roque entendeu que a abstinência dependia dele. E se empenhou. Nunca mais bebeu. Ele me dizia: «Olhe que não estou curado, hein! Se tomar um copo, volta tudo de novo. Tenho de policiar-me até o último dia».

Roque achou que podia ajudar outros infelizes a se livrarem do inferno do alcoolismo. Montou, aos poucos, uma estrutura de aconselhamento e de acompanhamento de viciados. A «Central», como era chamada, foi ganhando renome. Vinha gente de longe procurando ajuda. Tudo era gratuito. A Central vivia de doações.

Quando visitei Lajeado pela última vez, faz quase duas décadas, o Roque já tinha conseguido uma casa relativamente grande, cheia de quartos, onde os novos chegados eram acolhidos por um período inicial de desintoxicação. Palestras e conselhos eram ministrados todos os dias. Uma verdadeira terapia de grupo.

O tempo passou, não fiz mais negócios com Lajeado, acabei perdendo de vista meu amigo Roque.

Outro dia, por mero acaso, fiquei sabendo que a «Central» tinha sido obrigada a fechar suas portas dois anos atrás. Por problemas burocráticos. Pelo que entendi, suas instalações não correspondiam mais aos padrões exigidos pelas leis estaduais.

Não sou especialista em tratamento de alcoólatras. Muito menos sou conhecedor das leis que regulam estabelecimentos de prevenção do alcoolismo.

Mas o bom-senso ensina que, quando aparece um problema, convém resolvê-lo. É angustiante ficar sabendo que, num País carente como o nosso, uma instituição que funcionou durante 25 anos e que prestou assistência a quase 17 mil infelizes pode ser fechada por razões menores.

Com boa vontade, sempre se encontra uma solução.