Miséria-zero

José Horta Manzano

Às vezes se ouve dizer que esta ou aquela estatística «foi manipulada». Está aí uma afirmação que não faz muito sentido. Em princípio, todas as estatísticas são manipuladas.

Se queremos mostrar que a progressão de um determinado número foi forte, basta iniciar a contagem no momento em que estava mais baixo. Se, ao contário, quisermos demonstrar que o mesmo número está beirando a estagnação, faremos nossa estatística partir do momento em que ele esteve mais elevado.

Curiosamente, a própria palavra estatística é uma invenção, uma criação artificial relativamente recente. Aparece na língua portuguesa, importada do francês, no começo do séc. XIX. A palavra francesa era uma adaptação do alemão Statistik, termo forjado pelo economista prussiano Gottfried Achenwall (1719-1772). Este último se tinha baseado no italiano statista, homem de Estado. Para Achenwall, a estatística reunia todo o conhecimento que um estadista deveria possuir.

O Brasil cresceu? Cresceu muito? Cresceu pouco? Depende. Se considerarmos o século XX inteiro, do advento da República até a atualidade, as estatísticas demonstrarão que o Brasil foi um dos países que mais cresceram em todo o planeta. Se tomarmos unicamente os últimos três anos, constataremos que o crescimento do País se aproxima da estagnação. Cada um escolhe os parâmetros que lhe interessam a fim de provar o que quiser.

Crédito: Folha de São Paulo

Crédito: Folha de São Paulo

No entanto, há realidades que não precisam de estatística para serem constatadas. Quando um pobre tem fome, tem fome. Embora as estatísticas demonstrem que ele está muito menos pobre do que estava alguns anos atrás, o infeliz continua com fome. Ninguém se alimenta de estatísticas.

A Folha de São Paulo de 19 de maio traz um artigo esclarecedor, assinado por João Carlos Magalhães. Demonstra, com clareza, que basta mudar um pequeno parâmetro para alterar o resultado do cômputo da miséria nacional.

Vale a pena dar uma olhada. A erradicação da miséria ainda está muito longe de ser alcançada. Não se atinge o estado de miséria-zero pelo simples condão da varinha mágica de presidentes. Nem de presidentas.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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