Frase do dia — 223
«O ano político costuma começar só depois do carnaval, mas até isso mudou: 2015 começou seco, quente e antes da hora em Brasília, com a presidente Dilma Rousseff sambando no Planalto, o PT desafinando no Congresso e os dois derrapando na avenida.»
Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 13 fev° 2015.
Mamãe, eu quero
Monica Pinheiro (*)
Mamãe, eu quero. Neste carnaval eu vou é me acabar. Não adianta vir com mimimi nem quaquaquá, porque ninguém me segura. Vou sair num bloco aí qualquer. As ruas do Rio de Janeiro estão cheias deles. Só preciso escolher um. Mas qual?
Pego o jornal e percorro com os olhos a lista interminável de blocos, todos devidamente aprovados, com dia, hora e trajeto bem definidos pela prefeitura. Brasileiro é bom nisso. Quando os homens resolvem trabalhar, fazem tudo direitinho e com bastante antecedência. Primeiro, organizam a bagunça. Depois, deixam a turma se esbaldar na esbórnia triunfal. Mamãe, eu também quero!
Mas agora tenho que me concentrar na minha escolha. Qual será o bloco que mais tem a ver comigo neste carnaval? São tantas as opções! Decido escolher pelo nome. Vamos lá.
Logo de início, o que mais me chama a atenção é a vulgaridade dos nomes estilo Zorra Total: Perereka sem Dono, Cutucano Atrás, É Mole Mas Estica, É Pequeno Mas Vai Crescer, Balança Meu Catete, Encosta Que Ele Cresce, Rola Preguiçosa Tarda Mas Não Falha. No começo, até acho graça. Mas são tantos os blocos com nomes desse tipo que, de repente, tudo me parece repetitivo, cansado. Nomes que antes me pareciam supercriativos passam a ser tão estimulantes quanto um copo de cerveja choca.
Nomes menos apelativos mas com senso de humor quase infantil me fazem rir mais: Virilha de Minhoca, Puxa Que É Peruca, Nunca Mais Bebo Ontem e Me Beija Que Sou Cineasta.
Volto a examinar a lista. Acho simpáticos os blocos que escolhem nomes para homenagear seus próprios bairros, como o Eu Choro Curto Mas Rio Comprido e o Largo do Machado Mas Não Largo da Cerveja. Só que eu não moro nem lá, nem cá. Preciso de uma identificação maior com o meu bloco. Continuo a busca.
Vejo que lá em Bangu tem um bloco cujo nome traduz uma humildade inexplicável: Meia Dúzia de Gatos Pingados. Tô fora. No Humaitá, batizaram um bloco com um nome que não parece prometer grande coisa: Bloco de Segunda. OK, entendi, o bloco sai na segunda-feira de carnaval. Mas, mesmo assim, acho o nome meio desanimado. Se eu for lá e não gostar, a turma da rua Marques pode até rir da minha ingenuidade e me dizer: “A gente bem que te avisou!”.
Nomes menos inspirados que esses são os da “categoria hospitalar”. Sim, por incrível que pareça, eles existem! Em Campo Grande, criaram um bloco chamado Geriatria e Pediatria. Por mais que me garantam que este seja um bloco animadíssimo, prefiro não pagar para ver. E a Banda dos Inválidos, que sai na Lapa? Sei não, acho que preferiria engrossar as fileiras solidárias do Senta que Eu Empurro, que desfila no mesmo dia no Catete.
Alguns nomes são até poéticos, como o Céu na Terra de Santa Teresa. E tem também aquele bloco do Leblon que inovou em grande estilo, substituindo a exaltação dos prazeres carnais pela mineralidade de um só nome, très minimalista-chic: Areia. Mas nenhum desses nomes conseguiu me cativar este ano.
Confesso que tenho uma queda pelos blocos que homenageiam com singeleza os velhos tempos do carnaval carioca. É o caso do Cordão do Boitatá, Maracangalha e Gigantes da Lira. Também sempre gostei de nomes ingenuamente convidativos, como Simpatia É Quase Amor, Só Falta Você! e Acorda e Vem Brincar.
Mas neste começo de 2015 tenho que encarar a realidade que nos cerca. Sinceramente, não me sinto muito para brincadeira, amor ou simpatia. Quero mais, mamãe.
Enfim decido concentrar minha escolha em alguns blocos que selecionei para integrar aquilo que resolvi chamar de “categoria política”. Os nomes me fascinam: Tamo Junto In Folia, Desliza na Justiça, Fogo na Cueca. Poucos me dizem tanto quanto o Nem Muda Nem Sai de Cima.
Finalmente, sem maiores folias, elejo o meu bloco – aquele cujo nome mais bem reflete o estado de espírito em que me encontro neste fevereiro. É o Ai, que vergonha! Assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo. O bloco da comunidade da Rocinha desfila dia 21 na praia de São Conrado, com seus mil integrantes. É pra lá que eu vou, mamãe. Preciso soltar o grito que está preso na minha garganta no meio da multidão.
(*) Monica Pinheiro é jornalista. Edita e anima o Blog da Monipin.
La legge è uguale per tutti
José Horta Manzano
As aventuras de Signor Pizzolato renderiam um bom romance de suspense com toques de surrealismo. Quem sabe até, um dia, as peripécias serão levadas à tela.
Que é esse senhor? Ora, falo daquele mensaleiro que, usurpando a identidade de um parente já falecido, fugiu para a Itália para escapar à punição. Imaginando-se mais esperto que o resto da gangue, virou as costas para os demais, desertou na calada e se foi para o que imaginava fosse porto seguro.
Deu-se mal. Caçado, foi encontrado e encarcerado. Trancaram-no em regime fechado mais tempo que os comparsas instalados na Papuda. Durante esse tempo, comeu menos feijão, mas macarrão não lhe há de ter faltado.
Num primeiro momento, a justiça italiana negou a extradição solicitada pelo Brasil, em decisão que desagradou a promotoria e o governo brasileiro. Entraram ambos com recurso, que acaba de ser julgado. A corte suprema de Roma, em decisão definitiva, cassou a decisão das instâncias inferiores. Estatuiu que o réu é passível de extradição.
Exatamente como no Brasil, o decreto de reexpedição do condenado tem de ser assinado pelo chefe do governo – que pode, em teoria, graciar o extraditando. Pessoalmente, acredito que signor Matteo Renzi, o primeiro-ministro, não se oporá à decisão do tribunal maior.
A parte surrealista vem embutida no relato do embate entre a promotoria e os defensores do réu. Pizzolato alegou que escapara do Brasil para «salvar a vida». Sabemos todos que seus parceiros não só foram bem tratados na prisão, como também transformaram o cárcere em sala de visitas e em balcão de negócios.
Para reforçar o irrealismo, numa confissão espontânea da injustiça social que impera no País, as autoridades brasileiras garantiram que o condenado «receberá tratamento melhor que os demais presos».
Tem mais. Diante dos juízes da corte de Roma, os advogados contratados pelo Brasil afirmaram que, como os companheiros condenados no mensalão, Pizzolato «fará parte de uma categoria de presos aos quais está assegurado o total respeito da lei e de seu conforto».
A conclusão se impõe: no Brasil, nem todos os presos têm direito ao respeito nem acesso a condições de conforto. A estratificação socioeconômica não se extingue à porta da penitenciária.
PS1:
Todo tribunal italiano assegura, em letras garrafais afixadas à vista de todos, que «La legge è uguale per tutti» – a lei é igual para todos.
PS2:
Recomendo aos distintos leitores dar uma espiada em meu artigo Vamos jogar golfe? É boca livre. Foi postado um ano atrás e trata das peripécias de signor Pizzolato.
Da cabeça para a mão
José Horta Manzano
Você sabia?
Meus distintos e cultos leitores hão de conhecer a estranha palavra inglesa handkerchief, que corresponde a nosso lenço. Assim, de cara, o termo nem parece inglês. Leva mais jeito de ser alemão ou holandês. A palavra tem origem divertida. Vem por caminho surpreendente.
Na Alta Idade Média europeia, todos andavam de cabeça coberta. Fosse de dia ou de noite, dentro ou fora de casa, cobrir a cabeça fazia parte do ritual. Mal comparando, corresponde ao telefone que (quase) todos levam hoje no bolso. Indispensável.
A palavra latina caput, que reaparece no italiano capo e no português cabeça, é chef em francês. Para designar aquilo que cobre a cabeça, os franceses da Idade Média diziam couvre-chef – literalmente cobre-cabeça. Servia para chapéu, touca, boné, pano, o que fosse.
Quando o exército do francês Guilherme, o Conquistador, venceu os ingleses na Batalha de Hastings (1066), suas tropas ocuparam e dominaram a Grã-Bretanha. Considerados mais refinados, os costumes dos invasores passaram a ser imitados pelos autóctones. Foi assim que uma enxurrada de palavras latinas entraram no léxico inglês: por intermédio do francês falado na região da Normandie. Entre as palavras adotadas, aparecia couvre-chef.
Os camponeses britânicos não conheciam a peça que hoje conhecemos como lenço. Quando necessário, faziam como faz todo jogador de futebol: assoavam o nariz nos dedos, chacoalhavam a mão com elegância e enxugavam algum eventual perdigoto na roupa. Uma finura.
Os invasores normandos, que tinham passado a constituir a casta dominante, carregavam um pedaço de pano que fazia as vezes de lenço. Era um notável avanço no asseio nasal. Admirativos, os ingleses mais endinheirados logo aderiram à moda. Naturalmente, a objeto novo, dá-se nome novo. Como chamá-lo?
Tomaram a referência que lhes era mais familiar. O trapo lembrava um pano de cobrir cabeça. A diferença era que não ia em cima da cachola, mas na mão. Sem problema. Passou a ser designado como cobre-cabeça de mão, ou seja, hand couvre-chef.
O povão, incapaz de pronunciar couvre-chef, popularizou a forma handkerchief, que usamos ainda hoje.
A orelha e a pulga
José Horta Manzano
Muita gente é afiliada ao CTC – Clube dos Teóricos do Complô. São pessoas que enxergam intenções ocultas em tudo o que acontece. Têm certeza, por exemplo, de que o homem jamais pousou na Lua. As imagens que estamos cansados de ver não passariam de cenas filmadas em estúdio.
Muitos há que entreveem, nos ataques que derrubaram prédios em Nova York, o dedo de autoridades americanas. Estaria o governo daquele país fabricando pretexto para invadir o Iraque.
Há ainda os que juram que Getúlio, João Goulart, Castello Branco e Juscelino não morreram de morte morrida, mas de assassinato.
Embora acredite que a verdade integral sobre os fatos raramente seja divulgada, não faço parte dos adeptos sistemáticos da teórica do complô. Assim mesmo, vez por outra, aparece alguma notícia que nos põe, digamos assim, a pulga atrás da orelha.
Na edição do domingo 1° fev° 2015, o caderno de Economia do importante diário boliviano La Razón traz matéria sobre a Petrobrás. Nem de longe menciona o «chega pra lá» que o folclórico Lula, então presidente de nossa República, levou em 2006, quando seu colega Evo Morales decidiu encampar as instalações bolivianas de nossa petroleira.
O artigo dá notícia de que, no ano de 2014, a Petrobrás investiu um milhão de dólares em projetos de desenvolvimento social dirigido a bolivianos desfavorecidos. (Só para constar, observe-se que a operação Lava a Jato foi deflagrada já em março 2014.)
Foram quinze os projetos desenvolvidos em solo boliviano pela petroleira brasileira no ano passado. Beneficiaram diretamente 2850 famílias, sem contar outras 7000 que recolheram proveito indireto.
Não tendo a ser nacionalista exacerbado, muito menos em matéria de esmola. A miséria é global. Nenhum necessitado é mais merecedor que outro – estão todos no mesmo barco.
Assim mesmo, convenhamos, algo está mal contado nessa história. O destino final dos bilhões surrupiados da Petrobrás ainda está por ser revelado, se é que o será um dia. Do desvio de dezenas de bilhões, aparecem três milhõezinhos aqui, mais dois ali… e o resto? Usado para financiar campanha? Quá! É o povo quem financia a propaganda eleitoral.
Não resisto à tentação de revelar o que a pulga, atrás da minha orelha, está sussurrando. Ela me diz que esse mísero milhãozinho aplicado em caridade na Bolívia é a parte miudinha de um manancial muito mais extenso. Não é senão a pontinha do iceberg. O grosso da ajuda talvez jamais venha a ser revelado.
A pulguinha me diz que um naco do dinheiro surrupiado ao povo brasileiro pode ter ido financiar interesses eleitorais além-fronteira. Para corroborar essa ideia, tivemos recentemente a renovação do mandato do presidente do país vizinho, reeleito pela enésima vez.
Pulgas nem sempre têm razão, mas insistem em cochichar atrás da orelha.
Se alguém quiser ler o artigo do jornal boliviano, clique aqui.
Sangria de gente e de dinheiro
José Horta Manzano
«Pregúntele a los brasileños acaudalados por qué se están mudando al sur de Florida y mencionarán las altas tasas de criminalidad y la moribunda economía de su país.
Sin embargo, hay otra explicación que Alyce M. Robertson, directora de la Autoridad de Desarrollo del Centro de Miami, escuchó con frecuencia en sus recientes viajes de negocios a Brasil: “Dilma”.»
Meus distintos e cultos leitores hão de ter entendido a citação acima, extraída do jornal hondurenho La Prensa, 8 fev° 2015. De fato, o artigo informa que brasileiros endinheirados buscam o sul da Florida para escapar da violência e da «economia moribunda» do Brasil. Outro motivo citado com frequência para a fuga é simplesmente: “Dilma”. Sem comentários.
Ninguém quer ser o último a sair do País, aquele que vai apagar a luz do aeroporto. Embora o êxodo se esteja acentuando estes últimos anos, não é de hoje que brasileiros abastados procuram escapulir do ambiente agressivo do país de origem. Uns poucos optam pela Europa, mas a grande maioria gosta mesmo é dos EUA.
Já repararam que todo latino-americano tem uma quedinha especial pelo grande irmão do Norte? Isso vale até para os que nutrem forte antipatia por aquele país. Ou alguém já viu algum arauto do antiamericanismo transferir-se, de mala e cuia, para Cuba ou para a Venezuela?
O jornal hondurenho ressalta que Miami se tornou a maior cidade brasileira fora do Brasil. Estimativas indicam que 300 mil compatriotas vivem nos arredores daquela metrópole. As estatísticas mostram também que 51% dos turistas que visitam a região são brasileiros.
Em 2010, os brasileiros investiram menos de um bilhão de dólares em compra de imóveis no exterior. Três anos depois, a cifra subiu para perto de três bilhões e meio. De dólares.
Os pioneiros, aqueles que se transferiram ao sul da Florida décadas atrás, constituíram o pedestal sobre o qual se assenta a corrente migratória atual. Os primeiros que lá chegaram abriram as primeiras lojas dedicadas a brasileiros, supermercados, bares, restaurantes, açougues, cabeleireiros, agências imobiliárias. Todos os serviços, enfim, aos quais estamos acostumados.
Ao encontrar infraestrutura montada, os novos imigrantes se sentem em casa. E vão ficando. E contribuem para reforçar o pedestal onde se virão apoiar novos imigrantes. Está formado o círculo virtuoso.
Ninguém abandona a terra natal de coração leve. Se centenas de milhares de conterrâneos se foram – e justamente os mais endinheirados – é porque a coisa tá realmente preta. É uma pena. É de mau agouro para o Brasil de amanhã.
Os mais abastados são os que mandarão os filhos às melhores escolas. Estatisticamente, essa segunda geração será mais bem formada do que a média de nossa juventude nacional. Sendo jovens criados e escolarizados nos EUA, é pouco provável que retornem à terra dos pais. Prejuízo para quem ficou pra trás.
Enfim, que fazer? Esse é mais um efeito colateral do inacreditável descalabro que transpira por todos os poros da administração pública brasileira.
Frase do dia — 222
«Pobre do político que se torna previsível. Nada é mais vulnerável do que ele. Fica fácil derrotá-lo.
Lula tornou-se previsível. Parece ter esgotado seu estoque de velhos truques e de tiradas antes espertas. Envelheceu. Como o partido que agora celebra seus 35 anos de fundação.»
Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 7 fev° 2015.
A simbologia das cores
Frase do dia — 221
«O impeachment é o contrário de um golpe. Trata-se de um mecanismo constitucionalmente previsto que pode ser utilizado para sair de certas crises. Embora seja um processo traumático, é certamente preferível a tanques nas ruas.»
Hélio Schwartsman em sua coluna da Folha de São Paulo, 6 fev° 2015.
Expurgo seletivo
José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 fev° 2015
A Batalha de Verdun, travada entre tropas francesas e alemãs, estendeu-se por dez meses. Enfrentamento mais sangrento e desastroso da Primeira Guerra, durou todo o ano de 1916 e deixou 700 mil vítimas. Ainda assim, alçou o nome do General Philippe Pétain ao panteão da história francesa. O líder tornou-se ícone. Nos anos que se seguiram, pencas de homenagens lhe foram prestadas. Por toda a França, edifícios e logradouros foram rebatizados com seu nome.
Um quarto de século mais tarde, quando estourou nova guerra, a França, de uma só voz, chamou de novo o herói para salvar a nação. Deu tudo errado. Pétain, já octogenário, determinou rendição incondicional e consentiu que o inimigo ocupasse o país.
Finda a guerra e expulsos os invasores, o velho general teve de prestar conta de seus atos. Foi julgado e condenado por traição. Ato contínuo, ruas e praças que tinham recebido seu nome foram desbatizadas. A história oficial preferiu apagar o herói e guardar o traidor. Não mais que três ou quatro povoados têm hoje alguma ruela com o nome do militar.
E nós com isso? Pois temos, nós também, figura similar: Getúlio Vargas. Num primeiro momento, tomou o país de golpe e fez carreira de ditador impiedoso e longevo. Mais tarde, foi presidente eleito democraticamente e incensado por meio Brasil.
É justamente a cronologia dos fatos que diferencia Vargas de Pétain. O general francês primeiro foi herói, em seguida traidor. Já nosso Vargas nacional usurpou primeiro, para terminar como presidente bem-amado. Em casos assim, a ordem dos fatores altera o produto. O Getúlio democrático redimiu o ditador ilegítimo. Sua memória é perpetuada em ruas, praças, avenidas, edifícios, escolas.
Entre as recomendações preconizadas pelo relatório final da Comissão Nacional da Verdade, está o banimento de tudo que faça alusão à memória de personagens ligados ao regime instaurado em 1964. Considerando – com acerto – que o golpe militar tomou de assalto e desmantelou a ordem então vigente, a comissão aconselha que se altere a «denominação de logradouros, vias de transporte, edifícios e instituições públicas de qualquer natureza» que lembrem todo indivíduo acumpliciado ou comprometido com a ruptura.
Se posta em prática, a obra será monumental. De fato, entre generais presidentes, governadores nomeados, senadores biônicos, empresários coniventes e que tais, há muita placa de rua a ser trocada. Mas sejamos complacentes. Admitamos a justeza da recomendação. Vamos abraçar a ideia de que não cai bem homenagear indivíduos que tenham participado de infração à legalidade de seu tempo.
Façamos um rapidíssimo sobrevoo da história do Brasil. Para não complicar, passemos por cima do fato de o Estado português ter-se apoderado de um território que não lhe pertencia. Como hipótese de trabalho, consideremos que, a partir de 1500, Lisboa era proprietária destas terras.
Um belo dia, trezentos anos depois da descoberta, um grupo de súditos descontentes urdiu golpe contra a coroa. Pretendiam subverter a ordem legítima e mandar o dono da terra às favas. Fracassada, a tentativa deixou uma vítima: o Tiradentes.
Trinta anos depois, num obscuro cenário de briga em família, um fogoso jovem de 23 anos renegou pai e mãe e atropelou o ordenamento em vigor havia já três séculos. Seria o futuro Dom Pedro I. Apoderou-se do imenso território e, julgando-se imortal, autonomeou-se defensor perpétuo do Brasil. Quanta imodéstia!
Quase sete décadas mais tarde, numa manhã nevoenta, um general cometeu a afronta de anunciar ao imperador que o regime estava derrubado. Agindo como porta-voz de fardados amotinados, injungiu o monarca a abandonar trono e pátria. Deodoro da Fonseca era o nome do homem.
Houve outras tentativas de derrubada do regime e de reviravolta da ordem vigente – todas malsucedidas.
Se é justo que se purifiquem ruas e praças expurgando o nome daqueles que embarcaram no golpe de 64 ou dele se beneficiaram, justo também será aplicar o princípio a todos os que atentaram contra a ordem vigente. Seja em que tempo for.
Que nossas ruas e praças sejam, pois, depuradas do nome de Tiradentes, de Dom Pedro I, do Marechal Deodoro da Fonseca. Que seja desnomeado todo logradouro que lembre gente ligada ao golpe de 1822 ou ao de 1889. Pau que dá em Chico também dá em Francisco – é questão de coerência.
Em seguida, como solução para erradicar o problema, que se proíba dar nome de gente a logradouros. Que se organize concurso nacional para escolher nomes novos. Há trabalho pela frente.
Cachorros e seus símbolos
Myrthes Suplicy Vieira (*)
O que seu cachorro representa para você? Como você explica para outras pessoas o afeto que os une? Ele é como um filho, uma paixão, parte da família, seu melhor amigo, seu companheiro de todas as horas, seu divertimento preferido, seu anjo da guarda, sua sombra, um estorvo, uma ameaça à sua segurança ou à de sua família, ou até, quem sabe, mais um ítem “fashion” que você incorporou ao seu repertório?
Pois é, cachorros podem ser enquadrados em todas essas categorias e em muitas outras mais. Já há algum tempo eles se transformaram numa espécie de ‘commodity’ que é negociada habilmente, com base na estratégia de quanto mais rara, diferenciada ou exótica a raça, maior o preço. Há raças “da moda”, cuja cotação sobe proporcionalmente ao encanto exercido por alguma celebridade que a possua. O apego demonstrado aos cães é tamanho que, hoje em dia, casais em processo de divórcio discutem angustiadamente perante o juiz quem vai ficar com o cachorro e, como a conciliação nem sempre é possível, já há casos de decretação de guarda compartilhada.
Mais recentemente, algumas campanhas publicitárias passaram a divulgar a tese de que é “out” adquirir um cão de raça e a sinalizar que a adoção de companheiros peludos de quatro patas sem raça definida – o famoso vira-lata – é a atitude politicamente correta a ser tomada.
Seja como for, o envolvimento afetivo de brasileiros com seus cães é notório, um fenômeno tão difundido que já coloca o país nas primeiras colocações em termos de número de cachorros por habitante. Símbolo de fidelidade, lealdade, amor incondicional, capacidade de entrega, integridade e devoção perpétua, os cachorros continuam sendo os animais de estimação preferidos entre nós, desbancando não só os gatos, companheiros mais silenciosos e independentes, mas até “pets” mais exóticos como porcos, iguanas ou macacos.
Apesar de tudo isso, não há como esconder as estatísticas que apontam um crescente número de animais abandonados nas ruas e parques de nosso país, jogados pela janela de carros, espancados, envenenados ou simplesmente “esquecidos” na petshop depois de um banho. Quanto mais perto do final do ano e dos períodos de férias escolares, maior a incidência de abandonos. Não importa se o cão conviveu com a família por 5 anos ou mais, quando ele se torna inconveniente em função de seu tamanho ou de seu comportamento, a porta da rua é aberta num piscar de olhos.
Uma pergunta se faz obrigatória: quando é que um afeto extremado se transforma em desapego despudorado? Quando é que o encantamento se desfaz e determina que um bicho tão alardeado como amado se transforme em objeto incômodo? Será cansaço, desilusão ou, quem sabe, o desejo de escolher outros passatempos ou ainda outros “pets” da moda?
Um amigo meu usava sempre, brincando, uma frase de efeito para explicar o aumento nos casos de divórcio: “a convivência gera indiferença”. Embora ele se referisse aos humanos, acredito que essa triste possibilidade se aplica também à relação entre humanos e seus cães. Se os cães são sentidos mesmo pela maioria como filhos, como explicar a quebra da relação de amor e confiança mútuos? Você seria capaz de jogar seu próprio filho no meio da rua, virar as costas e ir embora sem olhar para trás?
Desde que adotei minha primeira cachorra, venho buscando dentro de mim as motivações humanas capazes de justificar a manutenção ou a interrupção dos laços afetivos que desenvolvemos com os cães. Cheguei à conclusão que esse é, sem dúvida, um quebra-cabeça emocional para lá de complexo.
Algumas ilusões parecem estar envolvidas no momento da introdução de um cachorro na família. A primeira, mais corriqueira, é a de que aquela bolinha encantadora de pelos nunca vai deixar de ser um filhotinho brincalhão, nunca vai crescer. A segunda, um pouco mais complicada, é a de que, ao contrário dos filhos humanos, o cachorro nunca vai abandonar sua “mãe”, nunca vai deixar de amá-la. Bem, isso é verdade mas apenas parcialmente. Os cães nunca abandonam seus donos mas, se forem abandonados e adotados por outra família, transferirão depois de um tempo todo seu afeto para os novos donos. Serão eles os novos líderes de matilha a serem admirados, seguidos e obedecidos.
Talvez seja por contarem com essa possibilidade que muitos donos abandonam seus cães. Não quero demonizar as pessoas que, num dado momento de suas vidas, decidem que não têm mais condições emocionais de cuidar de seus “pets”. A perversidade, a meu ver, não está nessa simples constatação. Está na indiferença daqueles que não buscam ativamente transferir a guarda de seu bicho de estimação para uma pessoa ou entidade que aceite se responsabilizar por ele. No desrespeito à natureza amorosa da relação, deixando de garantir que o animal encontre condições mínimas de alimentação, saúde e proteção.
Sem dúvida, há cães “difíceis”, assim como há filhos “difíceis”. Os cachorros, assim como as crianças, sabem testar os limites de autoridade da pessoa que cuida deles. Talvez a ilusão mais dolorida para quem tem um cão seja exatamente a de não se dar conta desde o início de que é preciso devolver toda a fidelidade, lealdade, integridade, amor incondicional, capacidade de entrega e devoção perpétua que receberam de seu animal de estimação. Melhor dizendo, a ilusão de não perceber que, nesse sentido, eles são nossos mestres e não nossos aprendizes.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
Corrupção à chinesa
José Horta Manzano
Tudo na China é superlativo. Um território mais extenso que o nosso, uma população pra lá de numerosa, o ar mais poluído do planeta, o maior número de usuários de internet, regiões de clima tropical contrastando com outras de temperatura siberiana.
Por lá também, a corrupção é praga nacional. Como a nossa, talvez até mais alastrada. A diferença fica por conta do tratamento que se dá aos corruptos – quando apanhados.
A agência de notícias oficial acaba de anunciar a condenação de um antigo dirigente do Banco Agrícola da China. O senhor Yang Kun, que exerceu a vice-presidência durante sete anos, foi acusado de ter recebido propina de empresas, por um total de 5 milhões de dólares.
Um tribunal de Nanquim sentenciou o executivo à prisão perpétua. Na China, prisão perpétua significa passar o resto da vida atrás das grades. Sem embargos infringentes e sem pizza.
A condenação ocorreu no âmbito da campanha anticorrupção lançada, já faz dois anos, pelo presidente Xi Jinping. Assim que assumiu o cargo, o senhor Xi garantiu que «varreria» o setor financeiro a fim de expurgá-lo dos elementos podres.
Um dos diretores do Banco de Pequim assim como o presidente do Banco Minsheng – maior estabelecimento de crédito do país – estão sendo interrogados, suspeitos de corrupção. Caso o tribunal os julgue culpados, devem seguir o mesmo destino do dirigente do Banco Agrícola: xilindró até o dia de São Nunca. Com direito a uma tigela de arroz diária naturalmente.
Se nosso legislador quisesse, realmente, acabar com a corrupção nas altas esferas brasileiras, bastaria adotar a solução chinesa. Acabava rapidinho. O aperto é que aqueles que fazem as leis são justamente os maiores infratores.
Ainda não chegou o dia em que veremos nossos corruptos e nossos corruptores passar o resto da vida no xadrez.
Outras máximas ― 11
RES NON VERBA
Fatos, não palavras.
máxima latina
Um pouco d’arte ― 32
Voto eletrônico
José Horta Manzano
Não é a primeira vez que escrevo sobre este assunto. Nem há de ser a última. Mecânica e eletricidade são noções antigas, princípios que a gente já teve tempo de assimilar. Quando nascemos, já fazia tempo que existiam.
Já no que se refere à eletrônica… nós, os mais antigos, ficamos com um pé atrás. Eletrônica é novidade. Claro está que ela tem seu lado bom – também não precisa ser chucro nem turrão. No entanto, ela guarda um lado meio arisco, sombrio, misterioso, insondável, impenetrável.
De repente, o computador que funcionava perfeitamente trava. É como burro quando empaca: não há meio de fazê-lo sair do lugar. A única saída é desligar, esperar um pouco, religar e torcer pra que dê certo. E não adianta perguntar ao especialista. Tampouco ele sabe o que aconteceu.
O mesmo drama se repete quando o mouse «encanta»; quando o teclado não responde mais; quando vírus escandaloso destrói a memória; quando vírus malicioso nos conduz a destinos que não estavam no programa.
Já disse e repito: desconfio da urna eletrônica. Pode ser modernosa, mas esconde perigos grandes. Se Mister Obama, de seu trono na Casa Branca, consegue ouvir as conversas de dona Dilma, em seu trono no Planalto, não me espantaria que algum enxerido mal-intencionado alterasse – à distância – o resultado de um voto. Nada nos garante que isso não esteja sendo feito.
Antes de entabular hipotética e complicada «reforma política», mais fácil seria começar pelo começo: instituir o voto seguro. A Europa inteira vota com o sistema tradicional: cabine com cortininha, cédula de papel, urna transparente, apuração pública e controlada por representantes de todos os partidos. Por que, diabos, nós temos de fazer diferente?
Não sei se o distinto leitor reparou na votação que elegeu o presidente do Senado Federal. É sintomático. Nada de maquininha de votar, de botão, de alavanca, de painel. Cédulas de papel foram depositadas na velha e boa urna de nossos avós. Ad majorem securitatem – para maior garantia.
Se eles, que são do ramo, desprezam o voto eletrônico, por que devemos nós, do andar de baixo, engolir sem reclamar?
Os frontaleiros
José Horta Manzano
Você sabia?
Frontaleiro é neologismo que acabo de inventar. Serve para designar pessoas que trabalham num país e residem noutro. Não é sinônimo perfeito de nossa palavra fronteiriço.
Em princípio, os frontaleiros cruzam a fronteira diariamente, ida e volta. Dependendo da distância entre o domicílio e o trabalho, há até quem faça o trajeto quatro vezes por dia. São os que têm tempo de almoçar em casa.
Embora frontaleiros existam em outros pontos do mundo, são fenômeno corriqueiro em certas regiões da Europa: na Suíça, por exemplo. A população economicamente ativa do país é de cerca de cinco milhões de indivíduos dos quais 300 mil são frontaleiros, contingente que atravessa a fronteira duas vezes por dia.
Duas razões principais fazem que a Suíça exerça forte atração sobre as regiões imediatamente vizinhas: os salários helvéticos são mais elevados e a oferta de empregos da vizinhança é baixa.
Durante os últimos anos, o Banco Nacional Suíço se empenhou em manter o valor do franco suíço artificialmente baixo a fim de socorrer exportadores e favorecer a vinda de turistas. Conseguiu seu intento à custa de comprar bilhões de euros. Mas tudo tem seu limite e a hora chegou de tomar outro rumo.
Vendo que não fazia mais sentido insistir nessa política de conter artificialmente a alta do franco, o banco central deixou de comprar euros e abandonou a moeda nacional duas semanas atrás. Permitiu, assim, que a flutuação siga as leis do mercado. A consequência foi imediata: o franco suíço valorizou-se 20% com relação ao euro e a todas as outras moedas. Subiu às alturas e lá ficou.
Nossos 300 mil frontaleiros, que recebem em franco e gastam em euro, abriram sorriso de orelha a orelha: da noite para o dia, tinham recebido 20% de aumento, presente do céu! O salário subiu enquanto as despesas domésticas continuam as mesmas. Maravilha!
Mas tem um porém. Algumas empresas suíças, especialmente as de setores voltados à exportação, passaram a enfrentar grande dificuldade em vender seus produtos que, em 24 horas, se tornaram vinte porcento mais caros.
Os funcionários frontaleiros, conscientes da ameaça que isso representa para seu próprio emprego, estão propondo a seus empregadores – espontaneamente! – uma diminuição de salário. Não fazem isso por compaixão, mas para salvaguardar o emprego.
Não há felicidade perfeita. Às vezes, há que saber entregar os anéis para salvar os dedos.
Dívidas, bolas & balas
Notícia boa não vende jornal – todo empresário da mídia e todo jornalista sabe disso. Nada como uma boa desgraça para atrair leitor. Quanto mais dramática for, maior será o interesse de quem lê.
Isso vale não só para o Brasil, mas para o mundo todo. Na falta de cataclismas, nosso país tem sido lembrado, estes últimos dias, por problemas crônicos: finanças públicas, clubes de futebol endividados e balas perdidas.
O conceituado jornal francês Le Monde constata que, francamente, a «magia brasileira» já não funciona. Informa a seus leitores que a sétima economia mundial terminou o ano de 2014 com um déficit primário – fato que ocorre pela primeira vez desde 2002.
O jornal considera que o déficit deverá compelir dona Dilma a primeiro implementar medidas de recuperação das finanças públicas para, só então, pensar em retomada do crescimento.
A versão francesa do portal esportivo Yahoo revela alguns problemas do futebol profissional brasileiro. Segundo o artigo, os principais clubes brasileiros estão mergulhados num oceano de dívidas.
Na origem do problema, estariam má gestão e o momento economicamente difícil que o país atravessa. O portal conta que os doze times principais devem ao governo, em conjunto, mais de 600 milhões de dólares em impostos – praticamente o valor investido na renovação do Maracanã.
Finalmente, a RFI – Radio France International volta a repisar assunto pra lá de espinhoso: as vítimas inocentes de balas perdidas. O problema é grave e sua solução, problemática. RFI relata que 16 pessoas foram atingidas, no Rio, neste primeiro mês do ano. Os franceses ficam sabendo que a audácia dos bandidos aumenta a cada dia e que malfeitores já não hesitam em atacar delegacias implantadas nas próprias favelas.
Revela-se também que uma bala perdida pode percorrer até três quilômetros antes de matar alguém. Para o público francês é inconcebível que, no coração da metrópole maravilhosa, cidadãos comuns possam diariamente ser vítimas de tiros.
Na Síria, no Iraque, no Afeganistão, ainda vá lá. Mas no Rio…
Missão de espionagem
Sebastião Nery (*)
Siqueira Campos, chefe da conspiração de 1930 em São Paulo, chamou Oscar Pedroso Horta, redator do Estado de São Paulo. Disse-lhe:
– Preciso renovar meus códigos de comunicação com Prestes, que está em Buenos Aires, levar uns mapas para ele organizar os planos do levante e trazer de lá um aparelho de rádio mais potente. Mas não esqueça: são mapas de guerra, privativos das Forças Armadas. Você vai cometer um crime de traição à Pátria. Topa?
Pedroso Horta topou. Pegou um avião da Nirba numa praia de Santos, dormiu em Porto Alegre, continuou para Montevidéu e voou para Buenos Aires, com aquele rolo enorme de mapas debaixo do braço. Foi para o hotel. De manhã, procuraria Prestes no endereço marcado.
De repente, batem à porta do quarto. Era um homenzinho muito magro, com botinas de elástico:
– Sou o comandante Luís Carlos Prestes. O senhor não é Oscar Pedroso Horta? Trouxe uma encomenda de São Paulo para mim?
– Não o conheço. Vim a negócios. Não trouxe nada para ninguém.
O homenzinho foi-se embora. Pedroso Horta trocou logo de hotel, pegou um táxi e foi ao endereço de Prestes. Bateu à porta. Alguém abriu. Era exatamente o homenzinho muito magro: Prestes.
(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.













