O voto imprudente

José Horta Manzano

Vamos examinar um aspecto que tem passado em branco no confuso panorama das eleições presidenciais brasileiras. Com o (tardio mas inexorável) banimento de Lula da Silva do quadro de candidatos, doutor Haddad deve assumir a vaga. Pelo ranger da carroça, o papel de candidata a vice-presidente deve ser atribuído a doutora Manuela d’Avila.

A moça é jovem, sorridente, simpática. Até aí, tudo são flores. Mas as flores murcham quando se toma conhecimento do ideário político dela. Basta lembrar que concorre pelo Partido Comunista. Como é que alguém ‒ e jovem ainda por cima ‒ pode ser comunista no século 21? É um pasmo.

Nos anos 1930, quando corria mundo a imagem beata de um Stalin pai dos pobres e de uma União Soviética paradisíaca, era compreensível que jovens desinformados botassem fé na quimera igualitária, que havia de trazer felicidade para a humanidade. Mas… hoje? Depois do desastre que o comunismo fez despencar sobre União Soviética, Cuba e Coreia do Norte, como pode alguém de bom senso continuar jurando de pés juntos por essa doutrina?

O eleitor brasileiro deve estar atento. Uma epidemia de impeachments assola o país. Em 25 anos, já tivemos dois. Um dispositivo que nos EUA, por exemplo, só foi brandido uma vez em quase 250 anos de democracia, aqui tornou-se habitual.

Vamos agora raciocinar por hipótese. Suponhamos que, numa chicotada do destino, doutor Haddad seja eleito. Não será nenhum espanto se, depois de algum tempo de gestão desastrosa, o moço for destituído do trono. Se assim ocorrer, quem é que assume as rédeas da nação?

Exatamente: doutora Manuela, a sorridente militante comunista. Dizem que desgraça pouca é bobagem, mas aí já é demais. Dose pra elefante. Depois de treze anos com Lula da Silva e doutora Dilma Rousseff, o país, alquebrado, está carente de cuidados suaves. Não resistiria ao ímpeto de uma governante comunista.

Chamamento
Eleitores tentados a dar seu voto a doutor Haddad: pensai duas vezes antes de cometer essa imprudência!

Afinal, o que perdemos no incêndio?

«O incêndio do Museu Nacional só veio comprovar o descaso dos governos federal e estadual com a ciência, história e cultura do Brasil, uma vez que, anualmente, ele custava aos cofres públicos menos do que se gasta com apenas um dos 18 mil juízes do país.

Assim como o Museu Nacional, milhares de outros museus do país ainda dependem de verbas públicas que, muitas vezes, são mal direcionadas. O Museu do Amanhã, por exemplo, não realiza pesquisas e, mesmo assim, recebe anualmente 24 vezes mais do que o Museu Nacional necessitava para a sua manutenção.»

Trecho de excelente artigo publicado no blogue Tunes Engenharia Ambiental, com o detalhe do que se perdeu no incêndio do Museu Nacional. Vale a pena dar uma olhada.

Eleições concentradas

José Horta Manzano

Em primeiríssimo lugar, quero expressar meu mais veemente repúdio ao chocante atentado de que foi vítima doutor Bolsonaro. O homicídio é a pior maneira de enfrentar um problema. Além de não resolvê-lo, cria outros mais graves. Assassinato é a marca do homem primitivo, daquele que não tem argumentos mais inteligentes.

Aproveito o portador pra declarar que doutor Bolsonaro não é meu candidato favorito. Considero que, depois de 13 anos de governantes toscos, o país merece outra coisa. De direita, de esquerda, de centro, de frente ou de fundos, pouco importa. Gostaria que o novo presidente fosse instruído e bem-intencionado. Doutor Bolsonaro me parece cru, cheio de rebarbas que ainda precisam ser desbastadas. Talvez possa recandidatar-se daqui a alguns anos. No intervalo, seria bom ele se jogar de cabeça num curso de Conhecimentos Gerais. Pelo menos.

Depois do atentado, a eleição deste ano, que já estava atípica e esquisita, ficou desnorteante. Tirando doutora Rousseff, que entrou pesado como elefante em loja de porcelana, os demais figurões estão cheios de dedos, sem saber direito o que declarar. Perderam todos a coragem de atacar o adversário ora acamado. Mas isso passa.

Mesmo antes do atentado, o clima de insegurança já estava instalado. Conforme vai-se aproximando o dia do voto, é normal, a adrenalina vai subindo e baralhando as cartas. Candidatos discursam com um olho na plateia e outro nas pesquisas. O teor dos pronunciamentos varia conforme o dia, o lugar e a última sondagem de opinião. Com razão, o eleitor se sente confuso.

Eleição é evento raro no país. E, quando vem, vem com uma fiada de cargos e uma baciada de candidatos. A propaganda eleitoral do rádio e da tevê mais faz amolar que esclarecer. Não me parece sensato exigir que o eleitor declare, de um só golpe, sua preferência para deputado estadual, deputado federal, governador, primeiro senador, segundo senador e ainda para presidente da República. Uma eleição acaba ocultando outra. A escolha do presidente ‒ importante por natureza ‒ encobre o voto para governador, que deita sombra sobre a escolha dos parlamentares.

O calendário tem de ser apurado. Seria muito mais ajuizado separar as eleições gerais em três blocos. No primeiro, os cidadãos escolheriam somente o presidente. A campanha não seria poluída por ruídos estranhos. Escolhido o presidente, viriam duas semanas de campanha e todos voltariam às urnas para eleger o governador. Após novo período de duas semanas de campanha, seria a vez de votar para deputado estadual, deputado federal e senador.

Se parece longo é porque não estamos habituados. Em outros países é assim. Faz mais sentido escolher os parlamentares federais quando já se sabe quem é o presidente. Faz mais sentido escolher os parlamentares estaduais quando já se sabe quem é o governador. A longa temporada de votação é o preço a pagar para aperfeiçoar a democracia. Do jeito que está, fica a impressão de que puseram tudo junto no mesmo dia só pra cumprir tabela e satisfazer exigências legais.

O museu e o organograma

José Horta Manzano

Estava lembrando hoje de como era quando não havia foto digital. A gente batia as chapas, mandava o rolo de filme para a revelação e só alguns dias depois é que descobria como tinham saído as fotografias. Havia surpresas. Uma foto saía tremida. Outra, esbranquiçada. Um personagem aparecia de olhos fechados e outro, com a boca torta. Uma vassoura, esquecida num canto, estragava uma chapa, enquanto o gato no peitoril da janela enfeitava uma outra. Era assim.

A tragédia que destruiu o Museu Nacional agiu como revelador. Trouxe à luz do dia uma impressionante situação de descalabro. O filme está chamuscado e muita gente saiu com a boca torta. Quase ninguém sabia que o museu dependia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e não do Ministério da Cultura. Muito raros tinham conhecimento de que a cúpula da universidade é composta de militantes do Psol, partido extremista cujo ideário excludente está a anos-luz do ideal universitário, abrangente por definição.

Arquivo Nacional, Rio de Janeiro

A relegação de uma das joias da coroa ‒ o Museu Nacional ‒ a uma posição humilde na estrutura hierárquica do Estado brasileiro mostra a pouca importância que se lhe atribuía. De fato, o museu dependia de uma universidade, que dependia de um ministério, que dependia do Executivo. No organograma das prioridades, o museu estava em posição subalterna. Deu no que deu.

Por desgraça, justamente o diamante da coroa se arruinou. É catastrófico, mas a vida tem de continuar. O diamante se foi, mas ainda restam rubis, safiras e esmeraldas. É importante que a tragédia do Museu Nacional sirva de lição e leve a enérgica tomada de decisões. Não é conveniente que instituições desse calibre sejam entregues a entidades instáveis.

Reitoria universitária não é estável. Está sujeita a sofrer as consequências do descontentamento de alunos. Protestos e greves podem provocar queda de dirigentes. Vira e mexe, isso acontece.

Ministério tampouco é estável. Durante um mandato presidencial, é comum ver ministro sendo substituído a toda hora, num rodopio vertiginoso e opaco. Cada novo ocupante traz as próprias ideias, que podem não ser compatíveis com o amparo que se deve oferecer a museus & similares.

No limite, a Presidência da República é orgão (relativamente) estável. Salvo em caso de impeachment, o titular permanece quatro anos, tempo razoavelmente longo. Uma opção seria amarrar as joias da coroa diretamente à Presidência. Pode não ser a melhor solução, mas já estará melhor que agora.

Museu Paulista (Museu do Ipiranga), São Paulo

O ideal mesmo será criar fundações de direito privado especificamente dedicadas ao cuidado de cada uma das joias. A Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, a Escola Nacional de Música, o Museu Paulista estão em primeiríssima linha. Sem contar as outras centenas de objetos que constituem nosso patrimônio arquitetônico e cultural. Somente uma gestão limpa e transparente poderá angariar apoio, popularidade e principalmente doações nacionais e estrangeiras.

Em resumo, algo tem de ser feito quanto à posição dessas instituições no organograma do Estado. Do jeito que está, não é possível continuar. Qual é o mecenas que ousaria abrir a bolsa pra pôr dinheiro numa instituição gerida por uma panelinha de extremistas?

Paço de São Cristóvão

José Horta Manzano

O Museu Nacional do Brasil e o Museu de História Natural do México formavam a primeira classe do panorama museológico latino-americano. As coleções de nosso Museu Nacional, no entanto, ultrapassavam em importância as do museu mexicano. O acervo acumulado no palácio da Quinta da Boa Vista ia além do universo tradicional da História Natural ‒ contava também com coleções arqueológicas, importante biblioteca, tesouros mineralógicos.

O Museu Nacional era destino de pesquisadores que vinham do outro lado do oceano apreciar e estudar objetos e espécimes que não se podiam encontrar em outro lugar. A tragédia comoveu o mundo da ciência. A França ofereceu assistência técnica. O Egito, que conta com grande experiência em restauração de obras de arte, também pôs seus especialistas à disposição.

Portugal sentiu o baque de maneira ainda mais especial. Além da destruição do acervo, a devastação do Paço de São Cristóvão foi um golpe duro. Esse edifício era o símbolo de um momento em que a História de Portugal e a do Brasil se roçam.

No Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional conta com acervo monumental.

Além de ter abrigado nossos dois imperadores, o prédio foi residência de nada menos que quatro gerações de monarcas portugueses. Viveram lá: D. Maria I (a Louca), seu filho D. João VI, seu neto D. Pedro I (que mais tarde reinaria como Pedro IV em Portugal) e ainda sua bisneta D. Maria da Glória (que viria a ser rainha de Portugal, com o nome de Maria II).

Esta última, D. Maria II, detém uma exclusividade não igualada até hoje: é a única monarca europeia nascida fora do continente europeu. Nasceu justamente no Palácio de São Cristóvão, em abril de 1819, quando D. João VI ainda residia no Rio de Janeiro.

Agora nos resta torcer pra que a súbita onda de interesse pelo panorama museológico brasileiro não morra na praia. Tomara que a desgraça de hoje sirva pra abrir os olhos de nossas autoridades. Sem um passado consistente, o futuro fica frouxo.

Dos personagens que presidiram nossa República nos últimos 50 anos, tem-se notícia de apenas dois que visitaram o Museu Nacional: Juscelino Kubitschek e Costa e Silva. Nenhum outro deixou registro de ter ensaiado alguns passos na Quinta da Boa Vista.

Se o próximo presidente fizer, logo no começo do mandato, uma visitinha, por exemplo, à fabulosa Biblioteca Nacional, já estará de bom tamanho. É bom ir antes que arda.

Missão Patrimônio

José Horta Manzano

Numa terrível coincidência, justamente no 3 de setembro em que o Brasil chorou a destruição do prédio do Museu Nacional e de tudo o que ele continha, o governo da França lançou um programa direcionado à salvaguarda de seu patrimônio histórico e cultural. Trata-se de uma loteria nacional.

O nome do jogo é «Mission Patrimoine» ‒ Missão Patrimônio. Tíquetes de raspadinha e bilhetes de loteria tradicional estão à disposição dos apostadores em todos os quisques e bancas do país. Durante algumas semanas, cada um poderá fazer sua fezinha. Ganhos de raspadinha são imediatos. Quem preferir comprar bilhete deverá esperar pelo sorteio final. Os prêmios milionários são extremamente atrativos.

Rio de Janeiro: Arcos da Lapa

Em loterias tradicionais, 1/3 do valor arrecadado vai para o erário e o resto é distribuído aos ganhadores. Nesta Missão Patrimônio, o terço que iria para o erário vai para um fundo exclusivamente destinado à conservação de monumentos, abadias, igrejas, prédios históricos, museus e outros marcos da história nacional. O Ministério da Cultura, depois de examinar dois mil imóveis que requerem cuidados especiais, identificou 269 que estão a perigo. Com a loteria, o governo conta arrecadar de 15 a 20 milhões de euros, que serão inteiramente destinados à manutenção desses objetos periclitantes. A intenção é repetir a operação todos os anos, no mês de setembro.

No Brasil, em que dezenas de milhões de cidadãos são incapazes de ler e de contar, e em que outros milhões dependem de um óbulo mensal pra poder comer, as prioridades são outras. Assim mesmo, a iniciativa francesa pode ser aplicada. Milhões de cidadãos estão em condições de arriscar num bilhete de loteria. Por que não lançar a ideia?

Todos saem ganhando.

• O governo estará cumprindo, sem desembolsar um centavo, sua missão no campo sócio-cultural.

• Os apostadores terão a chance de embolsar inúmeros prêmios, uns pequenos, outros fabulosos.

• O patrimônio histórico e cultural do Brasil agradecerá. Quantas igrejas serão salvas de desabamento causado por cupins! Quantos prédios históricos serão resguardados contra a degradação infligida pela passagem dos séculos! Quantos museus serão reformados e protegidos contra incêndio!

Taubaté: casa onde nasceu Monteiro Lobato

Para nosso Museu Nacional, é tarde. O que foi perdido, perdido foi. Não há nada mais a fazer. Mas a vida continua. Ainda há tempo de proteger outros bens de nosso patrimônio. Se o distinto leitor aderir a essa ideia, que tal propagá-la pelas redes sociais? Quem sabe o chamamento chega até as altas esferas que decidem nosso destino. Vamos cruzar os dedos.

Incendie à Rio

José Horta Manzano

Segunda metade dos anos 1960. Bem jovem, este blogueiro estava na Suécia para um trabalho de alguns meses. Por lá, conheci uma senhora brasileira que, casada com sueco, já vivia no país havia anos. Teria seus 40 e poucos anos. De boa cultura, falava várias línguas.

Na época, fazia sucesso no rádio uma música francesa muito animada, na voz de Sacha Distel, cantor simpático e sorridente. A canção tinha um ritmo meio desengonçado de «samba europeu». A música me agradou mas, à época, minha prática da língua francesa ainda não me permitia entender a letra.

Conversando com minha amiga, contei que gostava da canção, que me parecia muito alegre. Ela retrucou: «Se você entendesse a letra, apreciaria menos». Fiquei surpreso. Por que seria?

Depois fiquei sabendo. A letra conta a história de um incêndio no Rio. Ardia a “fábrica de café”. Os bombeiros foram chamados mas não puderam vir porque não encontravam a mangueira nem a escada. A noite avança. A fábrica queima, o fogo se alastra e destrói o quarteirão inteiro. De manhãzinha, quando não havia mais fogo a combater, os bombeiros avisam que encontraram a mangueira e a escada mas, infelizmente, ainda não podem intervir porque não conseguem dar partida no caminhão: falta a manivela.

Tinha razão minha amiga. A letra é cruel. É zombaria pura pra cima da república bananeira que se imaginava fosse o Brasil naquela época.

Hoje, ao tomar conhecimento da destruição do Museu Nacional por um incêndio, voltei a sentir a mesma vergonha ‘por procuração’ que me assaltou 50 anos atrás. Na rua, tenho a opressiva impressão de que todos me lançam um olhar de reprovação.

Para recuperar o país da corrupção generalizada, sempre há esperança. É permitido acreditar que amanhã as coisas vão melhorar. Já para recuperar a memória que virou fumaça, nada se pode fazer. Quando os bombeiros encontrarem a manivela, será tarde demais. Podem aposentar o caminhão.

Ninguém fala

José Horta Manzano

«A campanha eleitoral já está há duas semanas nas ruas do País, mas quase nenhum candidato a presidente foi capaz de abordar aquele que deveria ser um dos principais assuntos desta eleição: o terrível legado dos governos lulopetistas, especialmente o de Dilma Rousseff.

(…)

Esquecer o que Dilma fez – sob o patrocínio entusiasmado de Lula da Silva, o mesmo que, agora, promete fazer o Brasil “ser feliz de novo” – é condenar o País a um futuro sinistro.»

Trecho de editorial do Estadão de 31 ago 2018.

Acentuação gráfica

Dad Squarisi (*)

Por que todas as proparoxítonas são acentuadas?

Quando o português usava fraldas, era pra lá de difícil acertar a sílaba tônica dos vocábulos. Rubrica ou rúbrica? Nobel ou Nóbel? Que rolo! As palavras, então, se reuniram em conselho. Discute daqui, briga dali, firmaram este acordo:

Artigo 1°
As terminadas em a, e e o, seguidas ou não de s, são paroxítonas.

Artigo 2°
As terminadas em i e u, seguidas ou não de qualquer consoante, são oxítonas.

Artigo 3°
Quem se opuser ao acordo será punido com acento gráfico.

Conclusão: só se acentuam as palavras rebeldes.

As primeiras a reclamar foram as proparoxítonas. Se aderissem, desapareceriam da língua. É que não sobrou nenhuma vogal para elas. Por isso, todas são acentuadas: rítmico, álibi, satélite.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Carta de uma mulher a Jair Bolsonaro

Ruth Manus (*)

De uma mulher, de tantas mulheres

Caro candidato, esta é uma carta difícil de escrever. Não por medo, nem por me faltarem as palavras. Mas por não saber como devo abordar alguém com um comportamento como o seu. Na minha família fomos educados ‒ homens e mulheres ‒ para dizer as coisas de forma inteligente, sem truculência e sem agressividade barata, mas não sei se o senhor sabe ouvir algo dito nesse tom.

by Pietro Antonio Rotari (1707-1762), artista italiano

De toda forma, me nego ‒ como me neguei a vida inteira ‒ a jogar fora a boa educação que tive para me ver equiparada a pessoas que não tiveram a mesma sorte na construção do seu raciocínio e da sua índole, esperando que o senhor faça um esforço para entender que nem toda força deriva do grito.

Sou uma mulher. Uma típica mulher do século XXI, dessas que trabalha muito, que se esforça ao máximo, que tem consciência dos seus direitos e da sua voz. Sou uma mulher como todas as outras, que quer apenas se ver segura, respeitada e usufruindo de uma vida justa. Não me parece um grande luxo. Mas sei bem que o senhor não pensa dessa forma.

Sei que a noção de respeito é algo muito distorcido para o senhor. Na verdade, acho que o senhor não faz a menor ideia do que é respeito. Lamento, porque isso só pode ser fruto de graves falhas da educação de base. Quando a gente cresce sendo respeitado e vendo respeito dentro de casa, a gente não tem dúvida nenhuma acerca desse verbete. Lamento sinceramente que sua história não tenha sido assim.

by Pietro Antonio Rotari (1707-1762), artista italiano

Não vou listar aqui as inúmeras agressões que o senhor proferiu ao longo destes últimos anos. Agressões a mulheres, a negros, a judeus, a homossexuais, a indígenas, ao povo brasileiro como um todo. Me nego a propagar um discurso que eu poderia considerar inconsequente, infeliz ou antiquado, mas que a lei define como criminoso. Não se trata apenas de uma opinião equivocada, trata-se efetivamente de conduta criminosa. Talvez seja por isso que o senhor deseja armas com tanto fervor.

Me pergunto o que levou o senhor a ter essa vida toda guiada pelo ódio. Embora nós tenhamos consciência de que há uma série de temas que o senhor não domina, por exemplo dívida externa e taxa de juros, não temos dúvidas de que o senhor sabe muito bem que pena de morte e porte de arma não reduzem a violência em lugar nenhum. Vamos falar a verdade, vai. Suas propostas nunca visaram a redução da violência, não é mesmo? Trata-se mesmo de ódio, pura e simplesmente. E nós, mulheres, que buscamos segurança e igualdade, sabemos que armas e ódio são diametralmente opostos a esses objetivos.

by Pietro Antonio Rotari (1707-1762), artista italiano

Num documentário que eu imagino que o senhor não viu nem nunca vá ver, chamado Nanette, a protagonista diz que não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu. E me diga? Que mulher não é destruída quando ouve um candidato à Presidência fazendo apologia à violência sexual contra a mulher? Que mulher não é destruída pela apologia à discriminação contra a mulher no trabalho? Que mulher não é destruída pela penalização da sua gravidez ou pela ingerência em seu próprio corpo?

Mas eu vou te dizer, candidato, que nós, mulheres, para o seu azar, temos esse persistente hábito de nos reconstruirmos. Nos reconstruímos todos os dias de agressões como as suas. Você não é nenhuma novidade. E é com essa nossa força que nós, mulheres, não permitiremos que o senhor seja eleito, nem que seu discurso ganhe espaço, força ou suporte. Você nos despreza, mas seremos exatamente nós que te faremos permanecer tão pequeno quanto o senhor sempre foi. Pode escrever.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

País das maravilhas

José Horta Manzano

Crescer 50 pontos em 8 anos no Pisa ‒ exame internacional de avaliação do Ensino Médio.

Usar inteligência e tecnologia para combater o crime organizado.

Aprimorar o Bolsa Família, com adoção de medidas que garantam uma “porta de saída” efetiva, por meio de qualificação profissional e empreendedorismo.

Fazer o país crescer 4% ao ano.

Criar pelo menos 10 milhões de empregos.

Ampliar o espaço do Brasil nas negociações políticas e comerciais globais.

Os objetivos citados foram extraídos ipsis litteris do programa de alguns dos candidatos à Presidência. Dei uma olhada na carta de intenções de cada um deles. Tirando alguma proposta folclórica (vinda de concorrente nanico) ou de viés marcadamente ideológico (emanada de algum postulante situado na extremidade do espectro político), os programas são excelentes. Todos prometem dar o melhor de si para o bem do Brasil.

Há até pontos em que todos estão de acordo. Por exemplo, nenhum propõe incentivar a criminalidade, nem aumentar a pobreza, nem declarar guerra à Mongólia. Com maior ou menor ênfase, todos pregam o combate ao crime e o aprimoramento da Instrução Pública. Todos exaltam a inserção do Brasil no mercado mundial ‒ o detalhe curioso é que a extrema esquerda gostaria de restringir a abertura à América Latina, enquanto os demais concordam com expandi-la para todo o planeta, algo que parece lógico.

by Constantin Ciosu (1938-), desenhista romeno

Pouco importa, são detalhes. O principal é que, em teoria, todas as listas de intenções são excelentes. Nenhuma ‒ digo bem: nenhuma ‒ enaltece o apoio à corrupção nem o assalto ao erário. Embora não mencionem apoio à Operação Lava a Jato, transparece acordo implícito.

Aqui e ali, topa-se com um detalhe picante. Esquecido de que o mandato é de 4 anos, um dos candidatos promete fazer o Brasil crescer no Pisa nos próximos 8 anos. Sem cerimônia, está invadindo o mandato do sucessor. Mal-educado.

Não temei, brava gente! Votai em quem quiserdes, que todos os candidatos à Presidência são supimpas! Todos prometem conduzir-nos ao país das maravilhas ‒ no papel, pelo menos. Inxalá!

Inadequação vocabular ‒ 8

José Horta Manzano

E a febre do defender continua. Eta modismo persistente! Já me insurgi, em artigo de três anos atrás, contra o uso abusivo desse verbo. Mas não tem jeito. Defender virou ônibus: sempre cabe mais um.

O uso insistente de um único verbo para expressar situações diferentes é, no fundo, sintoma de pobreza vocabular. O natural de uma língua é enriquecer com o passar do tempo. Novos vocábulos vão-se juntando aos existentes até formar um léxico gigantesco. Estranhamente, a língua brasileira, em lugar de se tornar mais rica, empobrece. Para cada novo vocábulo que entra no circuito, uma dúzia dos antigos sai da boca do povo pra recolher-se na poeira dos dicionários. É pena.

Chamada Estadão 27 ago 2018

Volto a sugerir ao distinto leitor que, caso esteja pra cair na tentação de usar defender no sentido de preconizar, pense em substitui-lo por outro mais sugestivo.

Na chamada do Estadão, ficaria mais elegante dizer, por exemplo, que «Dallagnol propõe não votar em envolvidos…». Essa é apenas uma possibilidade. Há dezenas. Uma lista (não exaustiva) de verbos que podem ‒ nesse caso e com vantagem ‒ substituir defender está aqui:

Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

Cada um deles carrega nuance diferente. Na hora de usar, basta escolher o que melhor convier.

Ah! É bom ter sempre em mente o que doutor Dallagnol “defende”. Votar em corrupto? Só faltava.

A tropa em Roraima

José Horta Manzano

A última guerra travada em território nacional terminou há 150 anos. De lá pra cá, tem diminuído a importância do Exército como força de defesa do país em caso de ataque externo. No mundo globalizado em que vivemos, o risco de sermos agredidos militarmente por exército inimigo decresce a cada dia.

Para que, então, manter Exército, Marinha e Aeronáutica? Porque as Forças Armadas são o símbolo da soberania nacional. Têm efeito dissuasivo. Anunciam, a quem interessar possa, que esta terra tem dono e está preparada pra se defender caso seja atacada.

Persiste o fluxo contínuo de infelizes venezuelanos que escapam a um quotidiano de miséria e penetram no território nacional. Isso tem dado dores de cabeça às autoridades locais e federais. A presença de um grande número de estrangeiros do lado de cá de nossa fronteira vem sendo causa de atritos (equivocadamente) classificados de xenofóbicos. A chegada ininterrupta de refugiados periga atiçar as brasas do conflito.

Rio Branco, Roraima

Diante da ameaça de convulsão social, Brasília despachou o Exército a Roraima. Inúmeras vozes se alevantaram para condenar a decisão. Foi notícia até na imprensa internacional. Dizem que a tropa não tem nada que fazer nesse conflito e que, além do mais, não são treinados para lidar com esse tipo de situação.

Pode até ser que não sejam treinadas para isso, mas as tropas têm, sim, um papel nesse drama. Em qualidade de marca da soberania nacional, o Exército, com sua presença, deixa claro quem é que manda no pedaço.

Não estão lá pra combater inimigo nenhum. Caso tenham alguma tarefa pacífica e útil a cumprir, melhor ainda. Se não, basta que patrulhem as ruas, em rondas ostensivas.

Não se pode admitir que nem um centímetro quadrado do território nacional seja terra de ninguém, sem dono e sem lei. Nas zonas de fronteira, quem garante isso é o Exército. É sua função.

Observação para os mais jovens
Antes de ser Estado, Roraima era território federal não autônomo, administrado por um interventor nomeado pelo governo central. Naquela época, tinha o simpático nome de Território do Rio Branco, em alusão ao rio do mesmo nome, o principal curso d’água da região, que corta o Estado de Norte a Sul. Na hora de transformar o Território em Estado, trocaram nome de rio por nome de morro. Parece que foi pra evitar confusão com a cidade de Rio Branco, capital do (então) Território do Acre. Deve ser isso.

Plebiscitos & referendos

José Horta Manzano

Várias entidades andam promovendo debates, entrevistas e sabatinas com os candidatos à Presidência. É maneira interessante de conhecer melhor cada um deles. Mais vale ver um candidato responder diretamente do que ler breves tuítes caligrafados com o polegar.

Na série de entrevistas Estadão-Faap, doutor Álvaro Dias foi o entrevistado desta segunda-feira. Quando a conversa rodeou em torno da consulta ao povo, o candidato declarou que o recurso a referendos e plebiscitos «é um aprimoramento do sistema democrático».

Engana-se o doutor. A democracia direta, em que os eleitores são consultados toda vez que se tem de tomar uma decisão, não é aprimoramento, mas a expressão mais elementar desse tipo de organização da sociedade. Foi assim que a democracia nasceu, lá na Grécia antiga. Era um modo de consulta viável, dado o pequeno número de eleitores.

À medida que as cidades cresceram, o sistema se tornou inaplicável. No Brasil, por exemplo, não dá pra reunir 140 milhões de eleitores numa praça e pedir-lhes que votem, levantando o braço, cada projeto de lei.

Landsgemeinde: voto com braço levantado
A prática vigora em pequenas cidades da Suíça
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Eis por que já faz tempo que se inventou a democracia representativa. Dada a impossibilidade de reunir todos em praça pública, os eleitores elegem previamente seus representantes os quais, em seguida, se reúnem no Congresso onde deliberam em nome do povo. Diferentemente do que pensa doutor Dias, a representatividade é que é o verdadeiro aprimoramento do sistema democrático. Plebiscitos são úteis como instrumento auxiliar, a ser usado com moderação.

Nos momentos históricos em que o Congresso representa fielmente a vontade popular, plebiscitos se tornam desnecessários. Quando é preciso recorrer a eles a toda hora, é sinal de que o Parlamento já não reflete a vontade dos eleitores.

No Brasil vota-se com olhos vendados. O sistema proporcional faz que se vote no candidato A e se eleja o candidato B. Além disso, parlamentares que abandonam o mandato são substituídos por suplentes não eleitos. A acumulação dessas distorções resulta num Congresso dissonante, distante do povo e voltado para os interesses pessoais dos próprios integrantes.

No limite, quando o sistema funciona adequadamente, não há necessidade de recorrer a plebiscitos. Seja como for, eles não são um “aprimoramento”, mas uma volta às origens.

O salário do prefeito

José Horta Manzano

Levantamento do Estadão informa que um terço dos municípios brasileiros não gera receita suficiente para pagar o salário do prefeito e dos vereadores. E como sobrevive a administração dessas unidades? Ora, de repasses vindos da União.

Essa incapacidade de gerar receita atinge cidades pequenas, de menos de 20 mil habitantes. Muitas delas foram criadas nos últimos 30 anos, por desmembramento de municípios maiores.

A criação de municípios por fragmentação raramente responde a demanda social ou econômica. Os interesses em jogo costumam ser políticos. Novo município corresponde a novos cargos: prefeito, vereadores, secretários, pessoal administrativo. É o trenzinho da alegria que se põe em marcha. Se faltar dinheiro, não faz mal: Brasília manda. E nós todos pagamos a conta.

E assim segue a vida em nossa República de bananas e trenzinhos. Agora mesmo, está em tramitação no Congresso um projeto para criação de 400 municípios(!). O assunto tinha sido enterrado no governo Rousseff, mas voltou agora. E periga ser transformado em lei.

Câmara Municipal de Ouro Preto, vista por Carl Hermann Conrad Burmeister (1807-1892), multifacetado naturalista, viajante e desenhista alemão, que visitou o Brasil nos anos 1850.

Quanto à gestão dos municípios, seria boa ideia adotar, no Brasil, um preceito que vigora em outras terras. Parte-se do conceito de que as funções de prefeito e de vereador ‒ em municípios pequenos, naturalmente ‒ não são cargos de tempo integral. São tarefas de que se pode dar conta a tempo parcial. E sem remuneração.

Essas funções administrativas são exercidas por cidadãos de boa vontade, que desejam sinceramente doar parte de seu tempo à coletividade. Falo de voluntários dispostos a pôr-se a serviço dos comunícipes pelo prazer de servir.

Por um lado, tal sistema afasta cidadãos que buscassem somente um cabide de emprego; por outro, atrai gente bem-intencionada. O prefeito dá expediente durante um par de horas, duas ou três vezes por semana. A Câmara Municipal só se reúne à noite, depois que todos já terminaram a jornada de trabalho, com frequência de uma ou duas sessões por mês. Para gerir um pequeno município, esse ritmo é suficiente.

A adoção dessa prática permite que os repasses de Brasília, se ainda necessários, sejam dirigidos a cobrir as reais necessidades do município. É finalidade mais nobre do que engordar o bolso de suas excelências.