Desde criancinhas

José Horta Manzano

Em países organizados, partidos políticos costumam ser agremiações coerentes, com linha programática, objetivo claro, alinhamento ideológico, estratégia de conduta. Coligações contra a natureza são impensáveis. Por exemplo, um partido de esquerda jamais se juntará a um de direita, nem que a vaca tussa.

No Brasil, não é bem assim. Partido é um acrônimo de duas, três ou quatro letras, que poucos sabem o que significa. De todo modo, não é importante. O objetivo da maioria das agremiações se resume a desfrutar de um naco do generoso fundo partidário. Se der pra eleger dois ou três deputados, estamos no lucro. É mais fácil abrir um partido político que uma firma comercial ‒ pra você ver.

Nesse panorama desolador, não é espantoso que duvidosas alianças se formem. Estes dias, por exemplo, em estados do Nordeste, há coligações apoiando o candidato do partido comunista para governador e doutor Bolsonaro para presidente. E ninguém vê nenhuma incoerência nisso.

Ao perceber que, a cada dia, aumenta a possibilidade de doutor Bolsonaro se tornar nosso próximo presidente, analistas se alarmam. Dizem que o moço, filiado a um partido nanico e desprovido de todo apoio parlamentar, terá imensa dificuldade pra governar, que vai virar prisioneiro do Planalto. Isso é bobagem. Só se assusta quem não conhece a mecânica de nosso Parlamento.

Já estes dias, quando a vitória do militar reformado parece provável, tem-se visto pipocar aqui e ali novos aliados fervorosos. Políticos, deputados, candidatos a cargos eletivos têm um traço em comum: são todos amigos de doutor Bolsonaro desde criancinhas! Ao assumir, dia 1° de janeiro, o novo mandatário já terá maioria garantida no Congresso.

Assim, o novo presidente não terá dificuldade para formar ministério nem para conseguir aprovação de projetos que lhe são caros. Mas atenção: para funcionar, toda máquina tem de ser azeitada. O apoio do Congresso virá desde que se lhe dê a contrapartida exigida nesses casos. Podem ser cargos ou algum outro mimo, dependendo da importância do pedido.

Que não ouse o doutor fazer corpo duro e tentar enfrentar o Congresso! Se se arriscar numa loucura dessas, periga terminar destituído, igualzinho a doutor Collor.