Fake news ‒ 3

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, mentira era chamada de mentira, boato era chamado de boato, mexerico era chamado de mexerico. Mas isso foi nos tempos de antigamente. Hoje mudou. Na medida que são propagados pelas redes sociais, mentira, boato e mexerico têm nome novo, nome que engloba todas as modalidades de engodo: fake news.

Coisa curiosa, não? É proverbial nossa passividade diante de expressões importadas. Soam tããão chiques! Que fazer? Fake news vem fazer companhia a sale, off & alia.

Restaurante cinco estrelas sob direção da família Boato
À beira do Lago Maior, Brissago, Suíça

Na França, a Académie Française cuida da língua. Não chega a editar normas restritivas que engessam a fala e a escrita dos usuários, como faz nossa Academia. Limita-se a aconselhar usos preferenciais e a propor neologismos para traduzir expressões estrangeiras.

Estes dias, a Académie Française sugeriu que fake news seja substituída por expressão nacional. Propôs dois caminhos. O primeiro é falar em information fallacieuse ‒ informação falaciosa, expressão que me parece longa demais pra se tornar popular. O segundo caminho é traduzir pelo neologismo infox, uma colisão entre information e intoxication.

Achei a ideia de infox bem bolada. Na França, tem forte chance de pegar. No Brasil, não adianta nem propor. Não tenho nenhuma esperança de que o brasileiro abra mão de seu fake news, expressão com sabor de Primeiro Mundo.

Compliance & bullying

José Horta Manzano

Com curiosidade, tenho notado um fenômeno interessante na importação de palavras. Antigamente, palavras estrangeiras que aportavam na língua eram o mais das vezes traduzidas. Se a tradução ao pé da letra fosse impossível, criava-se expressão equivalente. De meio século pra cá, essa prática feneceu. Termos forasteiros são enfiados em nosso léxico tal e qual, com casca e tudo.

Um exemplo de como se fazia antigamente é aeromoça ‒ quer termo mais poético? Foi criação genial, que deixa no chinelo hospedeira e comissária de bordo. A expressão soa bem, é fácil de pronunciar e dá o recado direitinho.

Bem depois das primeiras aeromoças, quando grandes centros de compras apareceram no Brasil, a preguiça já estava instalada. O primeiro shopping center foi chamado de… shopping center. Em outras terras menos resignadas, a expressão inglesa foi adaptada. Poderíamos, nós também, ter firmado centro comercial, expressão simples, fácil de pronunciar e de sentido evidente. Preferimos guardar o original. Deve parecer mais chique.

Em nossa língua, os adjetivos costumam vir depois do substantivo. Dizemos homem rico e não rico homem, assim como criança inteligente e não inteligente criança. Poucas línguas no mundo seguem esse parâmetro. Possivelmente existam outras, mas só conheço as línguas latinas e o polonês.

Temos portanto por instinto tomar a primeira palavra de uma expressão como a mais importante. Quando expressões inglesas são introduzidas tal e qual em nosso falar, dão origem a reduções curiosas.

Para encurtar shopping center, dizemos shopping. “Vou passear no shopping” (ou no xópi, conforme o gosto). Só que, no original, a palavra importante é o substantivo center, não o adjetivo shopping. Dizer “Vou passear no shopping” é como se, para encurtar centro de compras, disséssemos “Vou passear no compras”. Peculiar, não? O fenômeno atinge outras expressões importadas com casca e caroço.

Há palavras que chegaram recentemente à língua. Seguindo a tendência atual, não foram traduzidas. O original soa tão chique, não é mesmo? Dependesse de mim, compliance viraria conformidade, que é sua tradução perfeita. Bullying, esse fenômeno que sempre existiu apesar de não ter nome específico, dispõe de duas expressões capazes de traduzi-lo. Pode-se tanto usar assédio escolar, quanto acosso escolar.

Mas é verdade que expressão vernácula é meio chué. Que vivam os estrangeirismos!

A internet é inocente

Dad Squarisi (*)

Internet 1Mais de meio milhão de zeros no Enem? A notícia surpreendeu. Não pela nota mas pela quantidade de reprovados. Explicações caíram do céu e saltaram do inferno. Entre elas, a falta de familiaridade com o tema, a fuga do tema, a incompreensão do tema. Muitos responsabilizaram a internet pela calamidade. A rede teria o poder de deseducar. Quem escrevia deixou de escrever. Será?

Jornais, revistas, sites, blogues estão ao alcance de um toque. Ninguém precisa ir à banca comprar a informação. Cartas viraram lembranças de tempos idos e vividos. Deram vez a mensagens eletrônicas que vão e vêm em segundos. O Google relegou ao esquecimento enciclopédias que até há pouco enchiam as estantes de orgulho.

Internet 2Em bom português: mudamos o suporte, mas continuamos a ler e a escrever. Em vez de papel, a tela. Culpar o suporte pelo fracasso da moçada é baratear o problema. O buraco é mais embaixo. Lê mal e escreve mal quem nunca aprendeu a ler bem e a escrever bem. O retrato exibido pelo Enem é obra da escola. Não entender o tema constitui problema de leitura. Não conseguir desenvolvê-lo, de escrita.

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Criança é curiosa. Adora aprender. Estimula-se com desafios. Enfrenta embates. Mas… cadê? Encontra salas de aula do século 19, professores sem compromisso, material didático modernoso que, sem foco e não raras vezes com erros grosseiros, confunde em vez de ensinar. Com internet ou sem internet, o resultado não muda. Sem o domínio das habilidades de leitura e escrita – fruto de estudo, disciplina e treino – esperar nota azul nesse cenário é ignorância, má-fé ou ingenuidade.

Somos poliglotas na nossa língua. “Não falamos português”, ensinou Saramago. “Falamos línguas em português.” A mãe de todas elas – a norma culta – abre o caminho da liberdade. Com trânsito nas possibilidades do idioma, torna-se possível escolher. Gírias, regionalismos, estrangeirismos, abreviaturas, internetês & cia. ilimitada têm vez no universo da comunicação. Usá-los no contexto correto pressupõe conhecimento – o saber que a escola sonega aos brasileiros.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Turminha antenada

Dad Squarisi (*)

Computador enfezado

Computador enfezado

É um susto atrás do outro. Mães e pais se surpreendem com a língua da meninada. No telefone, usam código próprio. É um tal de tô gudi pra cá, tá numa bad pra lá, se pá pracolá. No computador, o sobressalto não é diferente: abreviaturas estranhas, palavras inventadas — tudo aos pedaços, sem começo nem fim, sem pé nem cabeça. Bicho vira bx. Você, vc. Beijo, bj. Aqui, aki.

O que fazer? Nada. Somos poliglotas na nossa língua. «Não falamos português. Falamos línguas em português», repetia José Saramago. Gíria, internetês, estrangeirismos, norma culta convivem com harmonia. Garotos e garotas são safos. Transitam com desenvoltura em todas. Melhor: dispensam professor pra lhes dizer quando recorrer a esta ou àquela modalidade. Proibi-los de usar uma ou outra? É excluí-los. Deus castiga.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.