Os equilibristas

José Horta Manzano

A cada vez que uma disputa eleitoral vai para o segundo turno, reaparecem os políticos indecisos. Este blogueiro é do tempo em que os que se recusavam a se decidir por um lado ou por outro eram ‘afinados’. Hoje, é costume dizer que ‘ficam em cima do muro’.

A meu ver, homem político que assim se posiciona é fortemente suspeito. Duas razões, ambas negativas, podem estar na origem dessa tomada de posição. Pode ser que o figurão, vacilante, não consiga realmente se decidir, o que é péssimo sinal para um eleito do povo. Ou então pode ser que ele esteja se resguardando e esperando baixar a poeira para pular do lado certo do muro. Esta última possibilidade é ainda pior que a primeira, por mostrar venalidade e oportunismo.

Político honrado tem de se molhar. Ou pende para um lado, ou pende para o outro. Não é aceitável fincar os pés em canoas diferentes. É até perigoso, que os barcos podem se afastar, e o incauto acabar dando um mergulho.

Se político dissimulado já é ruim, partido indeciso é pior ainda. O próprio de um partido é justamente… tomar partido, cáspite! Estes dias, à espera do segundo turno, vários partidos «liberaram» seus aderentes pra votarem como quiserem. É o fim da picada. Até parece que os simpatizantes estavam esperando a orientação do partido. Qual nada! Cada eleitor já tinha tomado decisão por sua conta.

Se, em tempos normais, pega mal quando um político ou um partido fica em cima do muro, neste momento será pecado capital. O momento é crítico e a equação, simples. Quem quer a volta do PT ao comando da nação, que vote para doutor Haddad. Quem não quer, que vote para doutor Bolsonaro. Só a neutralidade não vale. Os que se abstiverem estarão deixando a decisão nas mãos de outros. Bobeiam. Quem se equilibra na corda bamba é andorinha.

A confirmação da picaretagem

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Num tempo em que era principiante na política e suas bravatas ainda encantavam, o Lula chegou a dizer que havia «300 picaretas» na Câmara. O tempo passou, o antigo metalúrgico foi eleito à presidência da República e passou a acreditar que tinha alcançado o poder eterno, total e inamovível.

Surpreendentemente, no lugar de batalhar para limpar a Câmara dos elementos indignos que havia denunciado, preferiu aliar-se a eles para sustentar sua vaidade e sua sede de perenidade.

Não deu certo, como hoje sabemos. A soberba cegou nosso guia e não lhe permitiu enxergar que não se constrói edifício sem alicerces. O prédio ruiu. Humilhado, o taumaturgo hoje foge da Justiça e teme a prisão. Para escapar, empenha-se em aliciar aqueles mesmos que um dia chamou picaretas.

A crer no Placar do Impeachment, publicado pelo Estadão e atualizado continuamente, os parasitas oportunistas que se abrigam sob a cúpula da Casa do Povo não são tão numerosos como imaginava o líder hoje caído.

No momento em que escrevo, o inventário de votos declarados é o seguinte:

285 votos a favor da destituição da presidente
114 votos contra a destituição da presidente
114 em cima do muro

No total, chega-se aos 513 deputados. Em seu falatório peculiar e ambíguo, o Lula nunca explicou com clareza o que entendia por “picareta”. É lícito supor que se referisse à pouca honestidade e à falta de seriedade de parlamentares.

PicaretaO placar do Estadão parece indicar que os “picaretas” são muito menos numerosos do que apregoava o antigo presidente. Afinal, no momento grave que vive nosso país, é primordial que cada um se defina. Que sejam pelo sim, que sejam pelo não, o importante é que façam conhecer sua posição. Afinal, cada um deles está lá representando um naco da população.

Os que querem ver dona Dilma pelas costas são já 285 (55.5% do total). Os que preferem que tudo continue como está são 114 (22% do total). E o resto? Por incrível que possa parecer, 114 representantes do povo estão em cima do muro. São quase um em cada quatro! Estão aí os picaretas comprovados. Nesta altura dos acontecimentos, não ter definido seu voto é confissão de estar à venda, à disposição de quem der mais.

Indecisão 1Embora eu não compartilhe a visão dos que preferem que a senhora Rousseff continue presidente, respeito a opinião dos que se solidarizam com ela. Naturalmente, respeito também a posição dos que desejam que a quadrilha se vá. É inadmissível, no entanto, que um quarto dos deputados ainda esteja participando desse leilão indecente.

Até o Maluf já abriu seu voto! Que estão esperando os deputados Fufuca (MA), Salame (PA), Brasileiro (MG), Marreca (MA), Cabuçu (AP), Maniçoba (PE), Tiririca (SP), Garçon (RO), Tibé (MG)? Queiram ou não, terão de se exprimir. Ou faltar à sessão solene, atitude que lhes vai pespegar indelével etiqueta de fujões. Além de picaretas, naturalmente.

Frase do dia — 157

«Num surto provocado por mistura tóxica de oportunismo (…) e conhecido vezo autoritário, Dilma falou como quem quer cassar o direito constitucional dos brasileiros de ir e vir (…), como se o Brasil fosse uma Cuba ou uma Coreia do Norte.»

Editorial do Estadão de 12 jul° 2014, numa análise da entrevista em que nossa presidente declarou que «o Brasil não pode mais continuar exportando jogador».

Frase do dia — 148

«Lula e Xuxa têm algo em comum além das vogais. Ambos foram personagens com apelidos incorporados a seus nomes, utilizados na construção de um império de entretenimento. O oportunismo nas alianças e na exposição. A ascensão e a riqueza estonteante, a carreira e os vínculos internacionais, a campanha irônica na gangorra real brasileira entre violência e educação.»

Genilson Albuquerque Percinotto, in Tribuna da Internet 12 jun° 2014.