Desejo de emancipação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

‒ Minha filha, ouça sua mãe. Aceite logo o pedido de casamento do Jair e esqueça essa loucura de se jogar no mundo por conta própria. Ponha um pouco de juízo nessa sua cabeça, meu bem. Já está mais do que na hora. Até suas amigas estão comentando que você está se fazendo de difícil só para valorizar seu passe…

‒ O que os outros pensam de mim não é meu problema. Falta de juízo eu teria se aceitasse atrelar minha vida a um homem que me trata como se eu fosse só mais uma das suas propriedades, mãe. Além disso, não estou embarcando numa aventura maluca. Estou criando meu próprio projeto de vida, de felicidade e de futuro.

‒ Mas, filha, pense bem. Sonhar é bom, necessário até, mas um dia a gente tem de encarar a realidade. O mundo é machista, cruel, não vai facilitar nada para uma mulher que não tem quem a defenda. Você vai ter de enfrentar toda espécie de dificuldade, de falta de dinheiro a falta de respeito. E o Jair tem todas as condições para lhe dar estabilidade, segurança, conforto e uma vida respeitável na sociedade.

‒ Pode ser, mãe. Mas não estou procurando um pai substituto. Já estou bastante crescidinha para continuar sentada no colo de alguém e gostar de ser chamada de princesinha. Não quero ser sustentada, quero aprender a me sustentar. E o Jair não aceita nem sequer pensar na possibilidade de eu continuar trabalhando. Não respeita minhas ideias, acha que pode me convencer aos gritos. É ciumento, possessivo, chega a ficar violento quando acha que minha saia está curta demais. Meu fígado não suportaria a convivência com ele por mais de uma semana…

‒ Meu bem, você já tem maturidade suficiente para saber como contornar essas inseguranças bobas de todo homem. Engula seu orgulho por um tempinho, revele-se uma boa administradora de um lar, dê um filho a ele e, pode apostar, ele vai comer na sua mão o resto da vida. Se um dia não suportar mais, peça o divórcio. Com o dinheiro da pensão polpuda que você vai receber, vai poder retomar esses seus projetos românticos de ajudar os necessitados lá fora…

‒ Minha consciência e minha independência não estão à venda, minha mãe. Não há dinheiro no mundo que me faça querer trocar minha paz de espírito por esse estilo de vida de dondoca que eu desprezo tanto…

‒ Bom, se você pensa assim, então se case com o Fernando. Ele também é um sonhador que aposta que a felicidade é uma equação que envolve só um amor e uma cabana. Sofro só de imaginar como será sua vida quando as primeiras contas chegarem e ele não tiver nem como botar comida na mesa.

‒ Mãe, não entendo porque você acha que minha única chance de realização na vida é me casando com um dos dois. Sabe, eu já cheguei a pensar que o Fernando era um companheiro leal de viagem, mas me decepcionei muito. Imagine que ele me pediu para ser avalista num empréstimo para a compra da casa da mãe dele e até hoje não me pagou. Depois veio com aquela desculpa esfarrapada de que, assim que a economia se estabilizar de novo, ele vai me devolver tudo, que nós vamos voltar a ser felizes. Pior, até hoje nunca me pediu desculpas por ter feito tanta cortesia com chapéu alheio.

‒ Pra você ver que não dá para confiar em quem não tem os pés firmemente plantados na realidade…

‒ Há mais opções entre o céu e a terra do que sonha sua vã filosofia casamenteira, mãe. Não me sinto obrigada a amarrar meu destino a ninguém para ser feliz. O que me encanta é exatamente a possibilidade de escolher novos parceiros sempre que eu sentir que é necessário.

‒ Tudo bem, minha filha, não quero aborrecer mais você com a ótica conservadora de toda velha mãe. Mas preste atenção: não é só casar que dá sentido à vida de uma mulher, é também ter filhos. Eu só queria que você não esquecesse que vai precisar ser amparada na velhice, seja por quem for.

‒ Não esqueci, não, mãe. Acho que é a senhora que esquece que eu posso ser minha própria provedora de amparo. Depois, não acredito que a felicidade só virá se eu me dobrar às conveniências de outras pessoas. Tem mais: os únicos filhos que eu sempre quis ter são os de quatro patas, rabo e latidos… E eles me ensinaram que o único jeito de se sentir pleno é se jogando de cabeça, sem rede de proteção, no abismo do aqui e agora…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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