Maragancalha

José Horta Manzano

Que presidente esquisito, gente! Acabo de ver a foto do desfile do 7 de setembro. Abrindo o cortejo, vem o Rolls Royce presidencial, aquele que o Brasil recebeu de presente do Reino Unido 65 anos atrás. (Em matéria de antiguidade, o veículo está em competição com a carruagem da rainha.)

Para acompanhá-lo, doutor Bolsonaro não levou o vice-presidente, como seria de se esperar. Tampouco levou a esposa, cuja presença seria simpática e aceitável. Levou um dos filhos, aquele que é vereador e que o pai chama de pit bull, apelido que dá uma pista sobre os bons modos do moço.

Bolsonaro e seu ‘pit bull’ no carro oficial da Presidência

Freud deve poder explicar essa fixação do presidente em fazer-se respaldar pelo filho, como se a Presidência fosse negócio familiar onde gente de fora não é bem-vinda. O filho no lugar da esposa mostra que o negócio, além de familiar, tem de ser tratado entre homens. É clube onde mulher não entra, no mais puro estilo das máfias de cinema e da vida real.

Se eu estivesse no Brasil e quisesse sair à rua hoje, não saberia como me vestir. As cores foram todas acaparadas. Quem sair de verde, amarelo ou azul, cores da bandeira, será visto como bolsonarista. Quem preferir o vermelho será tachado de petista. Se usar preto, todos o tomarão por antibolsonarista. Pra não dar bandeira nem levar pedrada, sobrou o branco. Com o perdão de Iemanjá.

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de ‘liforme’ branco, eu vou
Eu vou de chapéu de palha, eu vou
Eu vou convidar Anália, eu vou.

Versos do samba Maracangalha, que Dorival Caymmi lançou em 1956. A gravação original, na voz do autor, está aqui.

L’État c’est moi

José Horta Manzano

Monsieur Jean-Luc Mélenchon é um político francês. Candidato às últimas eleições presidenciais, seus 19,6% de votos não foram suficientes pra impedir que Emmanuel Macron (24%) e Marine Le Pen (21,3%) fossem alavancados ao segundo turno e o deixassem a comer poeira.

Suas origens espanholas vêm à tona no verbo inflamado. O homem tem cultura sólida, atestada por dois diplomas: Letras e Filosofia. Excelente orador, sua aparição em debates é garantia de animação. Ninguém cochila enquanto ele discursa. Desde a adolescência sua simpatia foi para a esquerda. Milita desde os tempos de estudante.

Faz alguns anos, fundou partido próprio: La France Insoumise – A França Insubmissa, situado à extrema-esquerda do espectro político. Entre os seguidores, muitos são jovens que cuidam de defender a classe trabalhadora. Na realidade, em virtude da acentuada desindustrialização, o operariado tradicional anda rarefeito, em via de extinção. Mas o dom de oratória de Monsieur Mélenchon é magnético. Seu discurso é tão persuasivo que a gente fica com a impressão de que tudo o que ele diz há de ser verdade.

Mélenchon em Curitiba – 5 set° 2019

A justiça francesa não é necessariamente da mesma opinião. Desconfiada de irregularidades cometidas pelo partido dele na prestação de contas da última campanha presidencial, mandou uma equipe em missão de busca e apreensão na sede do partido. Aos berros, um furioso Mélenchon resistiu à ação de procuradores e policiais. Gesticulou, insultou, tentou arrombar uma porta, empurrou gente e até derrubou dois agentes. A um dado momento, em meio a impropérios, lançou: «La République c’est moi! – A República sou eu!».

Pegou mal. Principalmente porque evocou a frase «L’État c’est moi! – O Estado sou eu!», que o rei Luís XIV teria pronunciado faz quase 400 anos. O monarca tinha direito a dizer o que dizem que disse. Afinal, reinava absoluto, e sua palavra era a lei. Quanto a Mélenchon, a tirada soou um tanto grotesca. É muita pretensão pretender encarnar a República.

Ontem, 5 de setembro, o político francês esteve de visita a Curitiba. Foi tomar a bênção de Lula da Silva, político brasileiro que muita gente fina acredita ser de esquerda. Ao sair da sede da PF, onde o ex-presidente está instalado, Mélenchon revelou ter vindo «tomar forças» com o encarcerado.

Embora remota, a possibilidade existe de o tribuno francês ir parar na cadeia, o que explica ter vindo aconselhar-se com o Lula, mestre na matéria.

O barraco armado por Mélenchon quando da chegada dos policiais em missão de busca e apreensão está aqui.

As declarações do francês à saída da PF de Curitiba estão aqui e também aqui.

Bolsonaro e a alta-comissária

José Horta Manzano

Nosso presidente fez mais uma das suas. Mais uma vez, lançou mão de expediente que, embora pra lá de batido, nunca falha. Não sei se foi ideia dele mesmo – afinal, o homem não é exatamente uma fonte de ideias luminosas. É possível que ele esteja sendo teleguiado. Seja como for, tem sempre atingido o objetivo.

A alta-comissária da ONU para os direitos humanos denunciou «estreitamento democrático» que, a seus olhos, estaria ocorrendo no Brasil. A acusação é grave, principalmente vindo de quem vem. Não chega ao cargo de alto-comissário quem quer. Michelle Bachelet é médica pediatra com estudos na Alemanha e no Chile. Tem também especialização em saúde pública. Foi ministra da Saúde do Chile e, não bastasse, foi eleita para a Presidência do país. Exerceu dois mandatos de quatro anos.

Doutor Bolsonaro sentiu-se diretamente visado pela fala da alta-comissária. A partir daí, tinha duas opções. A primeira era calar-se e fazer cara de paisagem – as palavras da alta-comissária não teriam ido além de nota de rodapé. A segunda era contra-argumentar defendendo seu estilo de governar e demonstrando que, diferentemente do que imagina a ex-presidente, nossa democracia não padece de estreitamento algum. Desprezando esses dois caminhos, o presidente escolheu uma terceira via. É aí que eu me pergunto se a ideia é dele mesmo ou se lhe foi soprada por algum assessor.

ONU ‒ sede de Genebra

Partiu para o ataque pessoal. Como já tinha feito no episódio Macron e no caso envolvendo o presidente da OAB, comportou-se de modo descortês, baixo, repulsivo, indigno de presidente de país civilizado. Como resultado, um caso que nem potencial tinha pra sair no jornal acabou sendo comentado pela mídia de todo o planeta.

Áulicos aplaudem. Os demais ficam de queixo caído com a insensatez presidencial. E, no estrangeiro, a imagem de nosso país vai sofrendo seu enésimo arranhão. Nossa imagem, sim. Afinal, doutor Bolsonaro não tomou a cadeira presidencial à força – foi eleito pelo povo brasileiro. Se há culpados nessa história, somos nós. Coletivamente.

Agora vem o principal: entre aplausos e vaias, o objeto em discussão sumiu. Ninguém analisa as palavras da alta-comissária. Afinal, a democracia estaria realmente encolhendo no Brasil? Ou é boato? O que é que leva Michelle Bachelet a essa conclusão? Não saberemos jamais. O assunto ficou enterrado pela repercussão da violenta reação de Jair Messias. A reação foi manchete, a denúncia ficou ocultada.

Se ele age assim, não é porque seja um malcriado de raiz. Ele é malcriado, sim, mas esses ataques abaixo da cintura não são feitos por acaso, por ímpeto. Têm o propósito de «afogar o peixe», como dizem os franceses. O objetivo de doutor Bolsonaro é fugir à questão. E funciona. Assim como ele fugiu aos debates quando da campanha presidencial, continua fugindo sempre que o assunto o incomoda. É sua maneira de varrer problemas para debaixo do tapete.

Todos os que ousarem criticar ações dele serão tratados da mesma maneira: bombardeados com artilharia pesada. No entanto, se ele imagina que esse tipo de comportamento impede críticas futuras, está enganado. A meu ver, não as evita. Atiça-as.

Acôrdo ortographico

Eduardo Affonso (*)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z. Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial. Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana. Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal. Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

A multa

José Horta Manzano

La Chaux de Fonds é uma cidadezinha suíça situada num planalto a 1000m de altitude, nos Montes Jura. Desde o século 18, tem-se distinguido como centro relojoeiro. Naquele clima rude de altitude, a agricultura é problemática, daí a especialização em fabricação de relógios, atividade que se exerce em ambiente fechado e aquecido. Dois personagens de renome internacional fazem o orgulho da cidade.

Um deles é o arquiteto e urbanista Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), mais conhecido como Le Corbusier. Muitos de seus trabalhos estão na Suíça e na França, mas há realizações suas também em outros continentes. Sua obra está inscrita no patrimônio mundial da Unesco. Um exemplo é a Maison du Brésil, residência destinada a acolher estudantes e pesquisadores brasileiros, situada na Cidade Universitária de Paris. É obra conjunta do brasileiro Lúcio Costa e do suíço Le Corbusier.

1km/h acima do permitido

A outra glória de La Chaux de Fonds é Louis-Joseph Chevrolet (1878-1941), mecânico, piloto de corrida e empresário. Ainda jovem, emigrou para os EUA. Tinha raro pendor para a mecânica. Depois de trabalhar para algumas fábricas de automóvel – naquele tempo, eram numerosas –, fundou sua própria marca. Em 1911 abriu pequena montadora à qual deu seu sobrenome. É justamente a marca Chevrolet, famosa até hoje.

Estou pra lhes contar esta historinha faz tempo. Ela andou esquecida, mas hoje lembrei. Vamos lá. Ocorreu já faz uns anos. Eu estava circulando de automóvel por uma avenida do centro de La Chaux de Fonds, num trecho em que a velocidade é limitada a 50km/h. Distraído, não me dei conta de que estava rodando ligeiramente mais rápido que o permitido. O radar, no entanto, não estava distraído e me pegou.

Dias depois, recebi a multa por correio. No documento, explicavam bem que, numa via onde a velocidade autorizada era de 50km/h, eu estava circulando a 56km/h. A regra manda deduzir 5km/h como ‘margem de segurança’ – que, na minha juventude, se chamava ‘de lambuja’.

Na avenida Chevrolet

Contas feitas, 56 menos 5 = 51. Portanto, o excesso de velocidade era de 1km/h. Unzinho só. Geralmente, quando a infração é tão pequena, a direção do tráfego deixa pra lá. Nesse caso não deixaram. Fiquei surpreso e me perguntei qual poderia ser a razão desse excesso de zelo, que mais parecia pirraça. Multar alguém em 40 francos (170 reais) por um excesso de 1km/h? Dói.

Eis senão quando, descobri o nó. Eu estava na cidade natal de Louis-Joseph Chevrolet, na avenida Louis-Joseph Chevrolet, dirigindo um… Ford! Era afronta imperdoável. Onde já se viu?

Outubro de 2021

José Horta Manzano

Pelo sacolejar da carroça, Lula da Silva estará logo livre. Pra determinar a soltura, o STF terá de agir em três tempos: cassar o julgamento do ex-presidente, anular a confirmação da segunda instância e invalidar a reconfirmação do STJ. Dito assim, parece muita anulação de processo, mas nosso tribunal maior tem mostrado desenvoltura no trato de esquisitices.

Se esse for o figurino, o(s) processo(s) volta(m) para a primeira instância e o Lula volta pra casa. Como qualquer cidadão, terá o direito de concorrer a eleições. Não o imagino candidatando-se a prefeito de Garanhuns, sua terra natal. Acredito que vá direto registrar candidatura para a Presidência. Na época da eleição, em outubro de 2021, nosso guia já estará com 76 anos. Seu bom aspecto, no entanto, parece indicar que está em boa saúde. Idade, em si, não é doença.

Supondo que o presidente atual aguente de pé até o fim do mandato, teremos uma situação curiosa. De um lado estará doutor Bolsonaro, que já declarou intenção de candidatar-se à própria sucessão. Do outro, Lula da Silva, concorrendo pela sexta vez.

Vamos agora fazer continha de chegar. Suponhamos que tanto o Lula quanto doutor Bolsonaro contem, cada um, com o apoio de um terço do eleitorado. São os ‘ultras’, os incondicionais, os devotos. Se meus números não estiverem muito longe da verdade, pode-se apostar que ambos têm lugar garantido no segundo turno. É aí que começa o dilema para o último terço do eleitorado, aquele que não reza pela cartilha de nenhum dos dois, mas cujo voto vai decidir a eleição. Que rolo, coronel!

Da última vez, ocorreu algo semelhante. Lula da Silva, retido por compromissos inadiáveis em Curitiba, nomeou procurador pra representá-lo. As pesquisas apresentaram doutor Bolsonaro como o único Quixote capaz de vencer o lulopetismo.

Do Lula, sabíamos que havia permitido o assalto aos cofres da nação. Desgostosa, a maioria do eleitorado não queria um repeteco. De doutor Bolsonaro, não se sabia grande coisa. Seus apoiadores ‘de raiz’, somados aos eleitores que não queriam o lulopetismo de volta, formaram maioria. Vai daí, venceu Bolsonaro.

Desta vez, o nó será bem mais apertado. O Lula continua o mesmo, não mudou nem um nadinha. Persiste em negar beatamente a feia realidade que todos conhecemos. Seus protestos de pureza soam falso. De doutor Bolsonaro – a incógnita da última eleição –,temos agora um balaio de informação. Se ainda estamos procurando suas qualidades, conhecemos bem seus abundantes defeitos.

O dilema, portanto, será pontudo. Todos os que não forem lulistas de carteirinha nem bolsonaristas de coração estarão numa sinuca complicada. Não queremos que nenhum deles seja presidente do país. Mas teremos de escolher ‘entre a peste e a cólera’, como dizem os franceses. Não vai ser fácil. Preparem-se.

Qui se ressemble – 4

José Horta Manzano

Doutor Weintraub, atual titular do Ministério da Educação, tem mostrado que, além de ser o mais mal-educado dos ministros, é também o que mais comete erros de grafia. Pra um homem pago justamente pra vigiar a educação dos brasileiros e pra cuidar dela, pega mal pra caramba.

Não faz quinze dias, atirou-se feito um rottweiler contra Monsieur Macron. Num piado lançado nas redes sociais, tratou o presidente da França de calhorda. Nada menos que isso. Não é espantoso, vindo de um ministro? Ministro da Educação, frise-se!

Passou. Na sexta-feira dia 30, nosso herói voltou suas baterias contra a ortografia. Espezinhou-a. Não satisfeito com ter escrito no tuíter, algum tempo atrás, incitar com s (insitar), reincidiu. Pra mostrar que sua falta de familiaridade com a língua é ampla e abrangente, mandou novas palavras para o cadafalso.

Desta feita, o megaescorregão foi perpetrado num texto de apenas 8 páginas. A primeira vítima foi paralisação, escrita duas vezes com z (paralização). Destemido, o ministro se esbaldou. Mais adiante, no mesmo documento, escreveu suspensão com ç (suspenção).

Este último erro é mais grave que os outros. Dado que suspensão é palavra corriqueira, dessas que se encontram a cada esquina, a grafia deveria estar fixada na cabeça de todos os alfabetizados. Escorregar aqui significa absoluta falta de intimidade com a escrita. Errar assim já é embaraçoso para o cidadão comum; para o ministro da Educação, é imperdoável. É verdadeiro crime de responsabilidade, a ser punido não com “suspenção”, mas com destituição do cargo.

Diferentemente do tuíter, onde Sua Excelência pia e comete deslizes com os próprios dedinhos, o documento de oito páginas há de ter sido datilografado(*) por um assessor. Das duas, uma: ou o ministro assina sem ler, ou é conivente com a fragilidade ortográfica do datilógrafo(*).

A meu ver, nem ele nem o assessor estão em condições de continuar no cargo. Ambos são caso de pessoa errada no lugar errado.

«Qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem».

(*) Datilografar é verbo arcaico, hoje desaparecido e substituído por digitar.

A floresta e os netinhos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 agosto 2019.

Quando o Congresso de Viena se reuniu, duzentos anos atrás, o mundo era bem diferente. No Extremo Oriente, China e Japão ainda viviam sua Idade Média. A Índia, pobre e desunida, estava prestes a sucumbir à mão de ferro do Império Britânico. Na África, fora raras exceções, os povos ainda não estavam organizados; Estados, na acepção atual, não haviam se formado. Nas Américas em pleno processo de emancipação, os países independentes eram frágeis demais para atuar na cena mundial. Restava a Europa.

Reinos e impérios europeus constituíam as potências da época. Foram eles que se reuniram em congresso para redistribuir as cartas que Napoleão havia embaralhado. Naquele tempo, um encontro desse tipo fazia sentido. As decisões tomadas no clube dos donos do mundo não eram passíveis de contestação. Entravam em vigor, ponto e basta. E olhe que não eram resoluções de pouca importância: com as fronteiras europeias sendo redesenhadas, cada pedaço de terra era cobiçado. Doze eram as potências reunidas. Tivesse ocorrido hoje, o Congresso de Viena ganharia o apelido familiar de G12.

Dois séculos – e muitas guerras – se passaram. Foi-se o tempo em que um fosso separava as regiões periféricas das potências dominantes. Acabou-se a era em que só um punhado de gigantes comandava. O mundo hoje é matizado. O dégradé começa da potência maior e vai deslizando, em declive suave e contínuo, até o mais deserdado dos países. Já não vigora a divisão rigorosa entre países ricos e países pobres. Há nações de «classe média» ascendente.

Reuniões do G7, como a organizada no passado fim de semana, têm ares anacrônicos e cheiram a naftalina. Desse tipo de encontro, raramente brotam soluções para os problemas da humanidade. Numa mostra explícita de hipocrisia, o clube exclui a China, hoje segunda potência do planeta – um disparate! A Rússia, dona de importante economia e terrível potencial bélico, tampouco faz parte do convescote. Foi posta de castigo, como se isso fosse benéfico para a convivência entre nações. Não há que se diga: essas reuniões de gente fina que arremedam o venerável Congresso de Viena já não impõem. Pálidas imitações do original, só servem para gastar dinheiro público.

Se Monsieur Macron incluiu as queimadas da Amazônia brasileira na pauta de discussões, não terá sido exatamente por ser ecologista de carteirinha. De olho em 2022, ele está mesmo é preparando a reeleição. Pra chegar lá, tem de passar aos eleitores imagem de líder forte, combativo e, acima de tudo, empenhado na defesa do planeta, como manda o figurino atual. A luta pela preservação dos recursos naturais é legítima e louvável, mas a súbita profissão de fé do líder francês cheira a oportunismo.

Semana passada, doutor Bolsonaro se encrespou com o colega francês. Foi quando Macron, ao se referir à selva equatorial sul-americana, chamou-a de «nossa Amazônia». Bolsonaro inferiu que a França está interessada «em ter um dia um espaço aqui, na região amazônica». Enfurecido e sem se aconselhar, soltou a insinuação. Quanta tolice, capitão!

A França já tem «um espaço aqui». Fosse menos precipitado, doutor Bolsonaro teria evitado essa gafe. A Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, é território francês e tem 97% da superfície coberta pela floresta amazônica. Isso dá a Macron o direito de dizer o que disse. Um exame de conhecimentos gerais deveria ser exigido dos pré-candidatos ao Planalto. Só quem passasse poderia registrar candidatura. No dia em que um filtro desse tipo for instalado, passaremos menos vergonha. A marca deste peculiar começo de século é a subida ao trono de indivíduos de poucas luzes. Eles tocam desafinado, e quem troca os pés somos nós.

Enquanto isso, senhores, a mata está queimando. Árvores e bichos vão desaparecendo. Se alguém pode tomar atitude eficiente, não será o G7. Muito menos Monsieur Macron. A salvação da lavoura repousa nas mãos firmes de nosso presidente. Cabe a ele decidir se, um dia, diremos a nossos netos: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, esta floresta era bem mais extensa». Ou se seremos obrigados a confessar: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, aqui havia uma floresta».

Erros de português

Sérgio Rodrigues (*)

O perfil do presidente da República no Twitter inventa a grafia “fácelmente”, mais original que o plural “cidadões” do encarregado do Enem. Para não ficar atrás, seus filhos criam o plural de raiz em “raises” e o ponto mais baixo possível como “fundo do posso”.

Deixemos de lado o potencial poético de “fundo do posso”, com sua insinuação de um limite último e inapelável para toda forma de poder. Por critérios escolares muito valorizados pelas multidões conservadoras que apoiam os personagens acima, todos são erros feios de português.

“Ah, e o Lula? Errava pouco?” Chegaremos lá. Primeiro vamos combinar que “erro de português” não é um tema simples. Julgamos merecedoras de enfática correção e até de escárnio grafias baseadas na fala (“fugiro”) e construções da gramática popular que ignoram a culta concordância (“os preso fugiro”), mas toleramos palavras sem sentido algum numa petição judicial.

Num país em que a desigualdade social é um aleijão, a linguística tem denunciado a carga de discriminação socioeconômica – o que, no caso do Brasil, significa dizer também racial – embutida na caça agressiva a manifestações de português “errado”.

É por isso que, para o senso comum, sociolinguistas pregam o vale-tudo, como se o erro não existisse. Errado. Eles sabem que a língua de documentos, leis, literatura e outros discursos de prestígio é de importância vital, e universalizar seu ensino, tarefa de qualquer Estado democrático. Nesse âmbito, o erro não só existe como pode custar caro.

Seja como for, apontar o dedo para a língua dos outros foi deixando de ser diversão garantida, ainda bem. (Por outro lado, a escola continua a valorizar um ensino rico em decoreba e pobre de leitura, com provas cheias de pegadinhas tolas – mas esta é outra coluna.)

Um exemplo da mudança de ares: a imprensa rolou de rir com o “imexível” do então ministro Antonio Magri. Era 1990. Poucos anos depois, as bicudas de Lula na gramática culta teriam recepção bem diferente.

Sim, a depreciação continuava lá. As lulices eram comentadas privadamente ou por alusões. Ria-se delas, mas sua tematização pública aberta, restrita a opositores mais duros, tendia a ser considerada no mínimo de mau gosto.

Na minha opinião, era. Lula fez um grande mal à educação brasileira quando a declarou perfeitamente dispensável, autonomeando-se a maior prova desse fato, mas seus desvios do português padrão – que foram escasseando com o passar do tempo – nunca me pareceram um problema.

No entanto, hoje eu vejo um claro problema cultural, quem sabe até cívico, nos fartos sinais de falta de intimidade com a língua culta espalhados pelo presidente e seu séquito. Se algo de absoluto pode ser dito dos erros de português, é que seu peso é sempre relativo.

Quanto mais chance de estudar a pessoa tiver, quanto maior for seu poder, quanto mais ela pregar a obediência à tradição, quanto mais transformar professores em bodes expiatórios e cultivar em área tão crítica marquetices politiqueiras como a “Lava-Jato da educação” – tanto mais justo será medi-la pela régua com que mede o mundo.

Do contrário, a impressão que ficaria é que o analfabetismo funcional crônico, essa praga brasileira, está tão impregnado no sistema que agora tanto faz. Seria trágico: a língua não precisa de lei para ser um símbolo nacional muito mais importante do que todos os hinos da República.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Sanção econômica

José Horta Manzano

Antigamente, a gente dizia bloqueio ou embargo. Hoje, a expressão é mais sexy: ‘sanções econômicas internacionais’. Trocado em miúdos, dá na mesma: é chantagem que não diz seu nome. Manda quem pode; quem não pode, obedece. Quando um país não se comporta como manda o figurino, está se arriscando a sofrer sanções econômicas, que durarão enquanto o malcomportado não se emendar.

O mundo se acostumou a ver esse tipo de arma ser sacada principalmente por razões políticas. É o caso de Cuba, que está sob embargo americano há quase sessenta anos. Coreia do Norte e Irã também estão na berlinda, só que por outra razão: a comunidade internacional não quer que eles continuem fabricando as armas nucleares que eles insistem em desenvolver.

A Rússia é outra que enfrenta sanções por se ter apoderado da Crimeia. O território anexado por Moscou é uma península populada por russos, que foi tradicionalmente russa por séculos. Aquela terra só se tornou ucraniana nos anos 1950, quando o líder soviético Kruchev – um ucraniano – a entregou de mão beijada à Ucrânia.

Todos esses países cometeram algum pecado que a sociedade não está disposta a aceitar. Sanção econômica é medida vistosa, de efeito psicológico garantido, mas de pouca eficácia na resolução dos problemas. Haja vista a gerontoditadura cubana que, apesar de mais de meio século de embargo, continua de pé. O mesmo se pode dizer do Irã dos aiatolás e da Coreia do Norte. Da Rússia, então, nem se fala. Sanção costuma doer no bolso, mas não é garantia de acabar com os males que pretende combater.

Noruega: criação de salmão

Um grande fabricante de calçados, dono de marcas como Timberland e outras, anunciou a suspensão de compra de couro brasileiro. A regra permanecerá em vigor até que haja razoável certeza de que o couro utilizado não está contribuindo para o agravamento do dano ambiental ao país. É notícia da pesada! O comunicado da empresa abalou ânimos em Brasília e chegou ao Planalto. A partir daí, não está claro o que aconteceu, o que se sabe é que o anúncio de suspensão foi… suspenso. Algo do tipo ‘desculpem a nossa falha’.

Sente-se que, por detrás, pressão forte há de ter sido exercida. Daí o recuo do fabricante de calçados. Mas deixe estar que o problema continua a se alastrar. Por sua vez, o maior produtor mundial de salmão, uma firma norueguesa, fez uma ameaça. Anunciou que cogita suspender compra de soja do Brasil. Sabendo que esse produto é amplamente utilizado nas ‘fazendas’ de criação de salmão, a suspensão de compra periga fazer estrago grande. Como no caso da Timberland, o reclamo da norueguesa liga-se ao desleixo do Brasil com a preservação da natureza.

Se doutor Bolsonaro persistir em ofender, insultar e dar trombada em líderes mundiais e, ainda por cima, a se lixar para a preservação ambiental, é provável que, dentro de muito pouco tempo, o Brasil se torne um grande Irã, sancionado economicamente pelos compradores mais importantes. A perda pode ser duradoura: quando um cliente deixa de comprar nossos produtos e vai se abastecer em outra fonte, surge o risco de ele nunca mais voltar.

Se o distinto leitor tem o número de telefone de doutor Bolsonaro, seu dever patriótico é alertá-lo do perigo.

O Brasil à beira de sofrer sanções econômicas! Quem diria…

Qui se ressemble – 3

José Horta Manzano

Já tivemos pencas de ministros desonestos. Já tivemos profusão de ministros corruptos. Já houve até ministros que acabaram na cadeia. Ao final do ciclo lulopetista, achamos que já tínhamos visto tudo o que tinha pra ser visto em matéria de folclore ministerial. Assustados, nos damos ora conta de que não era bem assim. Há pior.

Quando doutor Bolsonaro anunciou que não lotearia seu ministério entre partidos e apoiadores, a imensa maioria dos brasileiros aplaudiu de pé. Agora, vai! – pensamos.

Todo o mundo acreditou no que disse o novíssimo presidente. Só que ninguém se preocupou em perguntar quem ocuparia as vagas. De onde viriam esse ministros que o presidente ia tirar do chapéu? Todos esperavam que, no lugar dos velhos políticos bichados, viria gente fina, instruída, competente e capaz. Em algum ponto, por desgraça, a receita desandou. O ministério inclui figuras maléficas.

O caso de dona Damares é mais folclórico do que perigoso. Mas dois colegas dela estão causando estrago. São o ministro da Educação e o do Meio Ambiente. Ambos são caso típico de pessoa errada no lugar errado.

Emmanuel Macron insultado via Twitter por um ministro brasileiro
Chamada do jornal Le Temps, Genebra

O ministro do Meio Ambiente age como ministro do Desflorestamento, uma contradição nociva ao país. Comporta-se como lobista dos inimigos da natureza. Um disparate.

De todos, o ministro da Educação é o mais sem educação. Insultou o presidente da França outro dia, com palavras pesadas. Fez isso gratuitamente, sem nem ter sido provocado. Agiu conforme a receita do integrante de clã fechado e agressivo: assim que o chefe abre as hostilidades, o resto da turma entra pela brecha, armas na mão. Doutor Bolsonaro endossou comentário injurioso sobre a aparência física da esposa de Monsieur Macron. Foi a conta. Numa reação de agressividade grupal, o resto da patota se sentiu livre pra xingar.

São ministros, minha gente! Estamos falando do presidente da República brasileira, senhores! Como é que pode? Será que já vimos tudo ou será que ainda vem por aí coisa pior? Isso ainda vai acabar mal. Valei-nos, São Benedito!

«Qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem».

No friends

José Horta Manzano

No original, a frase era Nations have no permanent friends or allies, they only have permanent interests – As nações não têm amigos ou aliados permanentes, têm somente interesses permanentes”. O autor é Henry John Temple (1784-1865), aristocrata e político britânico que passou à história como Lord Palmerston. A frase foi forjada numa época guerreira, em que as alianças entre nações eram de suprema importância. Por isso o termo ‘aliados’ aparece. Hoje, alianças não têm o mesmo peso.

Cem anos depois de Lord Palmerston, o general De Gaulle tomou emprestada a frase e desempoeirou: “La France n’a pas d’amis, elle n’a que des intérêts – A França não tem amigos, ela só tem interesses”. Desapareceram os aliados, mas ficou o que era importante. Aproveitando a deixa, podemos generalizar: “Países não têm amigos, só tem interesses”. Dito assim, o raciocínio serve para todos os países, Brasil incluído. Então, vamos lá: “O Brasil não têm amigos, só tem interesses”.

Algo me diz que doutor Bolsonaro não entendeu o recado. Faltou base cultural. Pior: por ter escolhido assessores que lhe são semelhantes, não conta com ninguém que lhe abra os olhos para o perigo que esse escandaloso namoro com os EUA representa. Entrega total é conceito válido pra um casal de humanos; subserviência entre nações não faz sentido.

Nosso presidente está jogando esforço fora. Ele ainda não verbalizou, mas fica a impressão de que seu sonho é transformar o Brasil num imenso Porto Rico, um Estado ‘associado’ aos EUA. Isso é puro delírio. Bolsonaro não está sendo fiel à Constituição que jurou cumprir. Está abrindo mão de importantes interesses do Estado brasileiro. Amizades passam, assim como Trump e Bolsonaro passarão. Interesses são permanentes.

A argúcia não é a qualidade maior de nosso presidente. Ele não se deu conta de que o ‘amigo’ Trump é homem duro, inflexível, ferrenho, espinhoso, implacável, de trato difícil. Não é o tipo de pessoa que se derrete com um sorriso e um tapinha nas costas. Ainda ontem, Trump tratou o dirigente-mor chinês, Xi Jinping, de “great leader – grande líder”. O chinês conduz seu país com mão de ferro. Trump respeita gente forte e despreza fracotes. Não é lambendo-lhe as botas que Bolsonaro se tornará simpático. Isso vale também para os bolsonarinhos.

Nestas últimas semanas, doutor Bolsonaro conseguiu arrumar briga com a França, a Argentina, a Noruega, a Alemanha, a Dinamarca. Os interesses do Estado brasileiro estão sendo pisoteados pra ceder lugar à paranoia presidencial. Não pode. Isso ainda vai acabar mal.

O Brasil não têm amigos, só tem interesses. Que têm de ser respeitados pelo presidente!

Bolsonaro, o insulto e a Macedônia

José Horta Manzano

Se o distinto leitor não sabe muito sobre a Macedônia do Norte, não há por que ficar encabulado: quase ninguém sabe nada. O minúsculo país, com dois milhões de habitantes e superfície menor que a do estado de Alagoas, é produto da explosão da antiga Iugoslávia. Sem saída para o mar, está encravado entre Grécia, Bulgária, Sérvia e Kosovo. Como se dizia antigamente, fica pra lá do fim do mundo.

Em média, doutor Bolsonaro costuma protagonizar um escândalo por dia. A maioria é para uso interno e não atravessa fronteiras. Alguns, no entanto, são de alcance internacional. O deste fim de semana, produzido sábado passado, é tipo exportação. Repercutiu forte na mídia europeia. Chegou até à longínqua Macedônia – uma façanha!

Reporter – Jornal online da Macedônia
Tradução da manchete: “Macron tem inveja de eu ter mulher melhor que a dele”- Bolsonaro insulta Brigitte por causa da aparência física

Aos que ainda não sabem e quiserem conhecer os detalhes sórdidos da história, aconselho consultar a mídia ou as redes. Aqui ou também aqui, por exemplo. Resumo: doutor Bolsonaro endossou um comentário, postado numa rede social, que zombava da aparência física de Madame Brigitte Macron, mulher do presidente da França. Se o pecado já é repugnante em si, é surrealista que um chefe de Estado tenha ousado cometê-lo. E é desesperador que esse chefe de Estado seja o presidente de nosso país.

Na França é, compreensivelmente, o assunto do dia. No resto da Europa, idem. Ai, senhor, que vergonha! Já tirei, faz anos, a bandeirinha verde-amarela que estava grudada no porta-malas do carro. Não são as molecagens desse presidente ignorante e malcriado que me farão içar de novo o pavilhão.

Ofensas como essa não se esquecem facilmente. Guerras já estouraram por menos que isso. Um dia, os brasileiros, mesmo não sendo diretamente culpados, acabarão pagando a conta. A não ser que se redimam destituindo o presidente. Porquoi pas? – por que não? De todo modo, o próximo não poderá ser pior. Ou?

Arroba

Dad Squarisi (*)

José Sarney lançou a moda. “Brasileiras e brasileiros”, saudava ele. As mulheres acharam a novidade simpática. O SBT aproveitou a onda. Pôs no ar a novela com o mesmo bordão. A partir daí, distinguir o gênero deixou de ser gesto de simpatia. Virou obrigação. “Meus amigos e minhas amigas”, dizia FHC. “Senhoras deputadas e senhores deputados”, cumprimentam Suas Excelências.

De obrigação, passou a obsessão. “Convidamos os presentes e as presentes para o coquetel”, dizem os mestres de cerimônia. “Os estudantes e as estudantes devem usar uniforme”, avisa a escola. “Senhor Paulo Silva e senhora Maria Silva”, substituiu nos convites a consagrada fórmula “Senhor e senhora Paulo Silva”.

Inovações correm soltas. “Car@s amig@s” escrevem enlouquecidos que decretaram o fim do gênero na língua. “Pessoas e pessoos”, escreveu o Millôr. “Povo e pova”, conclamou o Verissimo. “Humanidade e mulheridade”, ironizou um gaiato. “Seres humano e mulherano”, completou outro. “Mulher sapiens”, lançou Dilma.

Vamos combinar? Nesta alegre Pindorama, distinguir o feminino e o masculino não é questão de correção gramatical. Brasileiros, por exemplo, engloba homens e mulheres. Meus filhos, filhas e filhos. Os funcionários, funcionárias e funcionários. Gramaticalmente recebe nota 10. Mas, segundo as feministas, torna a mulher invisível. Com o feminino explícito, marca-se a igualdade dos dois gêneros. É questão de poder. Quem pode… aparece. Mas o exagero cansa. Ou não?

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Triste fim

José Horta Manzano

Este fim de semana, aqui na Europa, os incêndios da floresta amazônica aparecem em toda a mídia: jornais impressos, veículos online, noticiário do rádio e jornais da tevê. Mesas-redondas são organizadas, com políticos, climatologistas, sociólogos, demógrafos, jornalistas. Cada um tem sua opinião sobre o problema. De onde vem? Por que ocorre? A extinção do fogo interessa a alguém? São perguntas que, muitas vezes, não têm resposta.

Das discussões a que assisti, nenhuma mencionou a matança de animais. Há tanto bicho por ali, que os estudos não chegam à quantidade exata. As contas dão sempre números redondos.

Filhote de bicho-preguiça

Numa pesquisazinha rápida, fiquei sabendo que a região abriga mais de 400 espécies de mamíferos. As espécies de répteis são outro tanto. Esse é o número de espécies, não de animais!

Há onças-pintadas, micos-leão-dourados e outros macacos, bichos-preguiça, tatus, antas, sapos. Fico imaginando o triste e doído fim dessas infelizes criaturas. São milhões, zilhões.

Já que essa carnificina comove tão pouca gente, deixo aqui minha lágrima.

Policial suíço

José Horta Manzano

Você sabia?

As práticas de outros países são à vezes tão diferentes das nossas que é difícil acreditar. Vou contar um pouco sobre a profissão de agente de polícia na Suíça.

Ressalvadas pequenas diferenças entre regiões, os requisitos básicos para se candidatar são:

• ter idade entre 20 e 35 anos

• ter nacionalidade suíça ou, para um estrangeiro, ter tempo de residência suficiente que permita requerer naturalização até o fim do curso preparatório

• além de falar perfeitamente a língua local, ter conhecimento de pelo menos uma língua estrangeira

• ter completado uma formação profissional de pelo menos 3 anos depois da escola média. Pouco importa a profissão.

• não ter antecedentes criminais

• ter feito o serviço militar

• não ter tatuagem nem piercing

• estar em perfeita saúde e em excelentes condições físicas

• ser titular de carteira de motorista

Se for aceito, o candidato poderá prestar o exame de admissão. Parece que não é moleza. Há até cursinhos preparatórios para as provas. Conseguindo vencer essa etapa, o postulante seguirá um curso de um ano em período integral. Durante esse ano, dado que não poderá trabalhar, receberá pequeno salário que lhe permitirá viver em condições modestas. Essa remuneração correspondente ao grau de aspirante.

As matérias do curso preparatório são:

    • Direito penal e Código de processo penal
    • Código de processo civil
    • Defesa pessoal
    • Policiamento de proximidade
    • Psicologia
    • Ética profissional e Direitos Humanos
    • Lutas marciais, corrida a pé, natação, esportes
    • Conhecimentos gerais

Terminado o curso, o aspirante ainda tem de ser aprovado no exame final. Se passar, aí sim, se tornará policial e terá direito às regalias do cargo. O salário inicial será em torno de 6 mil francos (= 25 mil reais). De 5 em 5 anos receberá aumento por tempo de serviço. A partir do vigésimo ano, chegará ao topo da carreira e atingirá salário de 9 mil francos (= 37 mil reais). O 13° salário não é obrigatório na Suíça. Algumas empresas o adotaram; outras, não. A Polícia, generosa, paga esse benefício a seus membros.

Na Suíça, nem sonhe em oferecer «um cafezinho» a um policial para se livrar de uma multa. Não vai funcionar e você certamente vai se estrepar.

No Brasil, para combater a praga da corrupção policial, não há outro meio: o salário tem de ser pra lá de atraente. O maior receio de todo policial tem de ser o de perder o emprego. E ele tem de estar ciente de que um cafezinho ou uma cervejinha podem render expulsão sumária da corporação. E instauração de processo, se for o caso.

Com políticos, é um pouco mais complicado.

As pizza

José Horta Manzano

«Vou botar um petista na PGR?» – foi a pergunta retórica feita por um desabusado bolsonarinho, aquele que é senador. O moço é um dos integrantes do quarteto que nos governa. Os maiorais da República, como todos sabem, são doutor Bolsonaro mais os três rebentos mais velhos.

Antes de qualquer outra consideração, é de sublinhar que o senador usou o verbo na primeira pessoa. «Eu vou botar», é assim que vai a frase. Ainda que pareça irreal, dá pra sentir que não se trata de bravata. O topo do governo está loteado entre os quatro elementos mais preeminentes do clã. A nomeação do novo procurador-geral da República é atribuição pessoal do zero-um.

A fala do bolsonarinho me fez lembrar Mrs. Theresa May, aquela que, ao assumir o posto de primeira-ministra do Reino Unido, disse alto e bom som: ‘Brexit means Brexit (=Brexit quer dizer Brexit). Se o senador disse ‘eu vou botar’, é porque quis dizer ‘eu vou botar’. Não é força de expressão.

Voltando às qualidades exigidas do novo titular da PGR, o pronunciamento do senador é sintomático de uma surpreendente mudança nas relações entre brasileiros. Essa guinada não começou agora, nem é obra do atual governo. Eu a situaria no ponto em que o mensalão começou a pegar fogo, por volta de 2014 ou 2015.

De lá pra cá, novo ingrediente foi adicionado ao balaio de contradições que alimentam nossos fantasmas. Além das oposições tradicionais – pobres x ricos, pretos x brancos, nortistas x sulistas – novo antagonismo veio apimentar o tabuleiro social do Brasil. O fato de ser (ou não ser) petista passou a pesar na balança. Mais do que devia.

As famílias de antigamente eram numerosas. Tive muitos tios, tias, primos próximos, primos distantes, outros parentes e agregados. Este era janista. Aquele, adhemarista. Havia os juscelinistas. Me lembro de um tio getulista roxo, como se dizia. E assim por diante, cada um tinha suas simpatias e suas ojerizas. Por que falo nisso? Pra contar que, naqueles tempos concordes, podiam todos sentar-se em volta da mesa de almoço de domingo e, em seguida, papear no terraço diante de uma xícara de café. Não havia o menor risco de preferência política terminar em discussão, briga ou contrariedade.

Hoje em dia, é mais problemático. Juntar, em volta da mesma mesa, petistas e não petistas é arriscado. Uma ousadia dessas podia até terminar como no Samba do Bexiga, de Adoniran Barbosa, com “uma baita duma briga” e as “pizza que avoava”.