Panem et circenses

José Horta Manzano

Truques para acariciar a alma de um povo sofrido não são invenção moderna. Dois mil anos atrás, os dirigentes romanos já se tinham dado conta de que um agradozinho ao povão pode fazer milagres.

Der Spiegel 1Como marca da época, restou a expressão Panem et circenses, em geral traduzida como Pão e circo (por Pão e jogos circenses). Adaptada aos tempos modernos, a máxima fica assim: «Para acalmar o povão, nada melhor que comida e diversão».

Com bolsas várias, o governo federal brasileiro tem reavivado o tradicional viés paternalista de nossa sociedade. Pouco preocupados com os alicerces bambos sobre os quais se está construindo o futuro dos brasileiros, os atuais medalhões estão mais é interessados nos dividendos imediatos que possam colher. Sob forma de votos preferivelmente.

O truque da distribuição de pão vem funcionando. Faltava o circo. O campeonato mundial de futebol veio a calhar, verdadeira mão na roda. Pouco importou que os bilhões pudessem vir a ser mais bem empregados: o que interessava era encher os olhos do povo ignaro com os paetês e as lantejoulas do imenso circo futebolístico.

Assim foi feito. No entanto, como já berrava o outro numa passeata, o povo não é bobo. Ninguém aprecia ver a própria inteligência insultada. De um ano para cá, o paciente tem recusado a anestesia. Está de olhão aberto. E o pior é que o mundo inteiro está-se dando conta da real situação do País. Uma humilhação.

Interligne 18h

Fundada logo após o término da Segunda Guerra, a revista semanal Der Spiegel (O Espelho) é a maior e mais influente publicação investigativa da Alemanha.

Sua edição datada de 12 maio 2014 traz uma reportagem de capa sobre a «Copa das copas». O título Tod und Spiele (Morte e jogos) faz alusão à expressão Brot und Spiele, tradução alemã da original latina. Sutilmente, a revista substituiu o pão (Brot) pela morte (Tod). A rima e o ritmo permanecem, mas o sentido muda drasticamente.

Está aí a demonstração de que o nome do Brasil está, como se diz, na boca do povo. Infelizmente, o mundo está descobrindo justamente o lado que gostaríamos de esconder.Der Spiegel 2

Eigentor Brasilien
Ausgerechnet im Land des Fussballs könnte die Weltmeisterschaft zum Fiasko werden: Demonstrationen, Streiks und Schiessereien statt Party. Die Bürger sind wütend über teure Stadien und korrupte Politiker – und sie leiden unter den stagnierenden Wirtschaft.

Brasil: gol contra
Justamente no país do futebol, a Copa do Mundo poderia ser um fiasco: manifestações, greves e tiroteios em vez de festa. Os cidadãos estão furiosos por causa dos estádios caros e dos políticos corruptos. Ademais, sofrem com a estagnação da economia.

Exportando desleixo

José Horta Manzano

Sabemos todos que a Vale é importante multinacional de origem brasileira. Implantada nos cinco continentes, explora minas em mais de 30 países. Dá emprego a perto de 200 mil funcionários e integra o seleto cartel mundial das produtoras de matérias-primas.

O que nem todos sabem é que, em 2012, Greenpeace lhe atribuiu o pouco invejável Public Eye Award, o «prêmio da vergonha», concedido à pior empresa do planeta. Desde então, ela figura na Galeria dos Horrores.

Quarta-feira passada, a mina de níquel explorada pela Vale na Nova Caledônia ― território francês do Oceano Pacífico ― registrou seu sétimo acidente industrial desde 2009. Desta vez, foi um vazamento de ácido da unidade metalúrgica.

Vale: exploração de níquel Nova Caledônia

Vale: exploração de níquel
Nova Caledônia

Assustada, a população da vizinhança está à beira de uma explosão de nervos. Tendo em vista a repetição desses incidentes e a falta de comunicação por parte da empresa, a presidente da província tomou a decisão de suspender imediatamente as atividades da usina metalúrgica. Madame Ligeart, a presidente, instaurou um comitê de crise.

Vale 1Pelas primeiras informações, 96 mil litros de ácido clorídrico contendo forte concentração de metais foram despejados. O vazamento poluiu um riacho acabando com os peixes. Do jeito que as coisas vão, a empresa continua forte candidata ao prêmio da vergonha 2015. And the winner is…

Obs:
A informação foi difundida por um site neo-caledoniano de nome altamente sugestivo e perfeitamente adequado às circunstâncias: www.cagou.com.
Isso não é lorota.

Campeã da poluição

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz décadas que a corrente ecologista alemã é influente. Uma de suas bandeiras tem sido a erradicação da energia nuclear. O desastre de Fukushima acelerou dramaticamente o movimento.

Central atômica 1Para fugir da insegurança nuclear, os alemães têm aumentado a produção de eletricidade a partir de matéria fóssil: petróleo, gás, carvão. Mas nada sai de graça. Afastam-se os riscos ligados a um acidente nuclear, é verdade, mas surgem os inconvenientes da queima de combustível fóssil.

Despacho da AFP repercutido pelo jornal francês Les Echos nos dá conta de que a Alemanha, com 760 milhões de toneladas emitidas em 2013, é o maior produtor de CO2 da Europa. Pior que isso, é um dos cinco países da União Europeia onde a produção de gases com efeito de estufa está aumentando em vez de diminuir. Em 2013, foram 2% a mais que no ano anterior.

O abandono da produção de energia atômica afasta o perigo imediato de um acidente grave. Sua substituição pela queima de matéria fóssil, no entanto, aumenta o risco de mudanças climáticas de consequências catastróficas.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

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PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

O voto e a roda

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 maio 2014

Naquele tempo, ainda havia trem. Na estação da estrada de ferro, o jovem aprendiz, ansioso, apresentou-se logo de manhãzinha para seu primeiro dia de trabalho no serviço de manutenção. O chefe do setor apresentou-o ao funcionário mais antigo e recomendou a este último que se encarregasse de transmitir, pouco a pouco, todo o seu saber ao novato.

Após rápida consulta ao relógio, o veterano conduziu o recém-chegado à beira de um trem que estava para partir dali a meia hora. Pediu ao jovem que observasse atentamente o que ele ia fazer. Tomou uma marreta e deu três pancadinhas numa roda do primeiro vagão. Em seguida, passou à segunda roda e repetiu o movimento. E assim por diante, roda por roda, vagão por vagão, deu a volta ao trem.

Train 5Terminado o peculiar balé, o aprendiz perguntou timidamente qual era a serventia daquela tarefa. O velho funcionário disse que não fazia a menor ideia, mas repetia esse movimento diariamente fazia 35 anos. Porque lhe tinham ensinado no seu primeiro dia de trabalho.

Essa fábula ilustra a força inercial de certos fatos e atos que se transmitem de geração em geração e varam os séculos sem que ninguém saiba ao certo por quê. A obrigatoriedade do voto é um bom exemplo.

Pelo ordenamento constitucional do Brasil imperial, o voto era obrigatório. Fazia sentido. No imenso território que ensaiava seus primeiros passos como nação independente, os alfabetizados eram poucos. O legislador brasileiro decidiu manter distância da visão democrática e universalista que Rousseau lançava sobre a política. Preferiu outra abordagem: o voto censitário.

Considerando que a massa não estava apta a escolher seus próprios representantes, confiou o encargo a cidadãos selecionados. Para fazer parte do colégio de eleitores, havia que preencher alguns requisitos: ser homem livre com mais de 25 anos e, sobretudo, dispor de determinada renda.

Essa seleção, ressentida como se honraria fosse, instituía a «função» de eleitor. Por esse entendimento, o voto «pertencia» à nação, cabendo a ela designar aqueles que estavam aptos a desempenhar a tarefa. Era natural, portanto, que os eleitores, uma vez convocados pelo Estado, tivessem a obrigação de votar. Em caso de impedimento, era até autorizado o voto por procuração – o eleitor transferia o encargo a um representante.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista Correio Braziliense

by Fernando de Castro Lopes, desenhista
Correio Braziliense

O método de escolha dos representantes do povo sofreu transformação radical de lá para cá. Tivesse essa mudança ocorrido de golpe, talvez a estrutura tivesse sido integralmente repensada e fosse, hoje, harmoniosa. Não foi o que aconteceu. Quis o destino que a evolução do sistema eleitoral se estendesse, gradual, por decênios ‒ um conserto aqui, um remendo ali. O resultado carece de coerência.

A sequência de modificações transfigurou o modelo originário. O caráter censitário do colégio eleitoral foi-se esgarçando à medida que novas categorias de cidadãos eram autorizadas a votar. A idade mínima do eleitor foi baixando, degrau após degrau, dos 25 para os atuais 16 anos. A participação foi aos poucos franqueada a um número crescente de cidadãos: mulheres, militares, analfabetos. A exigência de renda mínima foi abolida.

O sistema atual, após todas essas mudanças, nem de longe lembra o modelo de 200 anos atrás. A «função» de eleitor cedeu lugar ao direito de ser eleitor. À primeira vista pode não parecer, mas tivemos aí profunda guinada conceitual. O voto não mais «pertence» à nação, mas a cada eleitor. A escolha dos dirigentes deixou de ser feita por cidadãos aos quais o Estado atribuiu uma tarefa. Passou a ser feita, em tese, por todos os cidadãos.

Urna 5O «eleitorado de função» era obrigado a exercer seu papel, exatamente como conscritos têm de servir nalguma das Armas. A obrigatoriedade do voto estava, assim, justificada. O atual «eleitorado de direito» tem a faculdade de escolher seus representantes. Quem diz faculdade não diz obrigação. Se obrigação for, não será mais um direito.

No contexto atual, o voto obrigatório é contrassenso. Cidadão constrangido a praticar um ato qualquer não estará exercendo seu direito, mas cumprindo obrigação.

Muita atenção: que ninguém acuse os atuais inquilinos do andar de cima por essa incoerência. Ela lhes foi legada pelos antecessores que, por sua vez, já a tinham herdado dos respectivos predecessores. O descuido do legislador vem de longe, mas nunca é tarde para consertar.

E então? Varremos essa relíquia anacrônica ou continuamos a dar marretadas na roda?

Muy amigo

José Horta Manzano

O semanário uruguaio Búsqueda publicou ― e o site informativo Espectador repercutiu ― uma pesquisa levada a cabo entre os dias 13 e 26 de março. Um universo de 1013 pessoas representativas da população do país declararam qual dos países sul-americanos lhes parecia ser o mais amigo do Uruguai.

GauchoAdivinhem quem foi o feliz ganhador? Pois foi o Brasil. Nada menos que 42% dos entrevistados (quase a metade!) considera que, na América do Sul, o Brasil é o melhor amigo do Uruguai. Bem lá atrás, vem a Argentina com 15%, seguida pela Venezuela com 8%. O Chile e o Paraguai recolheram apenas 3% de opiniões cada um.

E tem mais. A pesquisa quis saber também qual era, na opinião dos entrevistados, o país menos amigo do Uruguai. Pois 61% ― 6 entre 10 cidadãos! ― deram a palma à Argentina. Nesse quesito, o Brasil recolheu nada mais que 2% das opiniões. Para nós, é notícia reconfortante: 98% da população do país vizinho não nos vê como o menos amigo do bairro.

E tem mais ainda. Indagados sobre o país em que gostariam de morar, 38% apontaram o Brasil. Em segundo lugar na preferência dos entrevistados, vem o Chile, com 17%. A Argentina aparece bem atrás, com 12%.

É verdade que a grama do vizinho sempre parece mais verde. Assim mesmo, a notícia é como um bálsamo nestes tempos pra lá de bicudos.

O Terceiro Estado

José Horta Manzano

«Fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós»
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-geral da presidência da República.

«Le Brésil! Faites un effort pendant un mois, calmez-vous! (…) Eh bien, les Brésiliens, il faut qu’ils se mettent dans l’idée de recevoir les touristes du monde entier et que pendant un mois, ils fassent une trêve. (…) S’ils peuvent attendre au moins un mois avant de faire des éclats sociaux, ça serait bien pour l’ensemble du Brésil et la planète football».(*)
Michel Platini, presidente da Uefa.

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Manif 2As falas reproduzidas aí acima foram pronunciadas por duas personalidades que, em princípio, nada têm em comum tirando fora o fato de pertencerem à mesma geração.

Um é figura política, ministro da República brasileira. Sua frase foi dita faz alguns meses. O figurão se referia à conflagração popular de junho 2013.

O outro é figura do esporte, antigo profissional de futebol, há anos reciclado e transformado em presidente da União das associações europeias de futebol. Sua frase foi pronunciada faz alguns dias.

O que é que terá levado ambos a ousarem pronunciamento tão desastrado? Não vejo conotação política nem intenção oculta em nenhuma das falas. Antes, parecem desabafo sincero, suspiro de desalento.

Mas há um denominador comum aos dois pronunciamentos, ambos emitidos por pessoas que vivem num mundo de fantasia, longe da fria realidade em que vivemos mergulhados nós outros.

Salário elevado, facilidades mil, bajuladores em roda, a turma do “sim,senhor” sempre pronta a curvar-se ― esses medalhões que perderam o hábito de abrir uma porta com as próprias mãos vão, pouco a pouco, se desconectando do mundo real.

Para escapar a essa armadilha, seria preciso ter um espírito crítico ultradesenvolvido, o que, fica claro, não é o caso de nossos dois figurões.

Do senhor Platini, que vive a dez mil quilômetros do território brasileiro, ainda se pode admitir que ignore, até certo ponto, a realidade nacional. Além de viver dentro de uma redoma, convive com os clichês que lhe foram incutidos desde a infância. Continua enxergando o Brasil como o país do futebol, das mulatas sambando, do fio dental, das praias preguiçosas, da caipiriña(sic), da alegria onipresente. Assim mesmo, o desprezo embutido em sua fala incomoda um bocado.

Manif 3Já a alienação do senhor Carvalho, que vive “no coração do Brasil”, é assombrosa. “Fizemos tanto por essa gente”… mas quanta arrogância em cinco palavras!

Estamos habituados ao sectarismo do discurso oficial do atual governo federal, aquela retórica que procura dividir a população em dois campos antagônicos: “nós” e “eles”. O desabafo do ministro-chefe, no entanto, contradiz a filosofia oficial. Os campos não são dois, mas três: nós, eles e a populaça.

Fica claro que tanto o discurso de Platini quanto o de Carvalho se referiam a essa nebulosa terceira entidade, a ralé.

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(*) «Ô, Brasil! Façam um esforço durante um mês, acalmem-se! (…) Veja só, os brasileiros têm de botar na cabeça a ideia de que vão receber os turistas do mundo inteiro e que, durante um mês, têm de fazer uma trégua. (…) Se eles puderem segurar o estouro de seus conflitos sociais durante um mês, será excelente para o Brasil e para o futebol planetário.»

Dá-me tua mão

José Horta Manzano

Você sabia?

Fredrik Leifland, estudante da Universidade de Lund (Suécia), estava uma vez numa fila de supermercado. Tinha pressa, mas a fila não andava. Irritado, respirou fundo e decidiu gastar o tempo de espera de maneira útil: imaginando uma solução para acelerar pagamento de compras.

Considerou desenvolver um novo tipo de cartão de crédito. Cogitou utilizar o telefone celular. Imaginou, por fim, dispensar todo objeto intermediário e utilizar a própria mão. Esta última solução pareceu-lhe a melhor. Pôs «mãos à obra» ― sem trocadilhos…

Mão escaneada

Mão escaneada

Um ano mais tarde, segundo noticiou o jornal sueco Sydsvenskan Dagbladet, o sistema estava pronto para os primeiros testes. Apresenta-se em forma de pequeno escâner que varre a palma da mão e analisa a disposição e as características dos vasos sanguíneos.

O desenho formado por veias e capilares de cada indivíduo é pessoal e único, exatamente como a impressão digital. Assim sendo, a maquineta consegue identificar a pessoa e autenticar o pagamento. Uma dúvida surgiu: e se me cortarem a mão e a levarem para fazer um pagamento?

O inventor assegura que, para funcionar, o sistema exige que os vasos sanguíneos pulsem, mostrando que o sangue circula. Portanto, mão morta não serve nem de quebra-galho.

Por enquanto, o uso do novo sistema se restringe à cidade de Lund, na Suécia. Seus utilizadores são principalmente estudantes da universidade local. Não vai ser fácil expandir o negócio. As quatro ou cinco gigantes do ramo de cartões de crédito ― Visa, Mastercard, Amexco ― não hão de estar vendo com bons olhos essa incursão impertinente em seu quintal.

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Quem quiser assistir a um filminho de 2 minutos mostrando o funcionamento da engenhoca deve clicar aqui. (A propaganda que precede o filme dura 15 segundos).

De nomes infelizes

José Horta Manzano

Quem tem nome ridículo ― como Rolando Escada Abaixo, Um Dois Três de Oliveira Quatro, Adolf Hitler da Silva ― já está preparado para situações engraçadas. Faz parte do jogo.

Já quem tem nome apenas exótico não imagina que vá passar apuro. No entanto, foi o que aconteceu dia 23 de abril com uma jovem francesa. A espantosa notícia nos vem pelo jornal Le Dauphiné Libéré.

A jovem estava sonhando com aquela viagem fazia tempo. Seriam as primeiras férias com a família nos EUA. Afiveladas as malas, dirigiram-se os quatro ― casal mais dois filhos ― ao Aeroporto de Genebra (Suíça), o mais à mão para quem vive na Savoia francesa.

Avião 3Na hora do registro no balcão, o atendente comunicou à moça que ela estava na lista negra das autoridades americanas e que, por isso, não poderia embarcar. Sem maiores explicações. Não adiantava chorar nem bater o pé. Quando se trata de segurança nacional, os americanos não brincam em serviço. Preferem exagerar pra mais que pra menos.

Decepcionados, os quatro ex-futuros viajantes voltaram para casa. As férias estavam estragadas. Mas… qual a razão dessa surpreendente proibição? A francesa imagina que só pode ter sido por causa de seu nome. De origem iugoslava, seu nome de solteira é Alic Aida. Nos escaninhos dos computadores, algum algoritmo há-de ter associado Alic Aida a… Al-Qaeda!

A moça garante que, no original, Alić se pronuncia Alitch. Não adiantou. Computadores não estão nem aí para a pronúncia.

Produto de exportação

José Horta Manzano

Surf trem 2A estupidez humana não tem limites. A informação que nos traz o Kvällsposten ― do grupo editorial sueco Expressen ― é de cair da cadeira. Na Suécia também há jovens suficientemente insanos para surfar no teto de trem em movimento. Lá como cá, é inevitável, acidentes graves acontecem.

A reportagem conta o caso de um certo Axel Schylström, que teve a destrambelhada ideia de bancar o equilibrista em cima de um vagão de trem lançado a 100 km/h.

O que tinha de acontecer aconteceu. De pé em cima do vagão, o jovem nem chegou a roçar o cabo de alimentação, mas seu corpo passou perto demais. Um arco elétrico se formou e mandou-lhe uma descarga de 16 mil volts.

Navegue na internet, não no trem

Navegue na internet, não no trem

Isso foi dois anos atrás, quando o rapaz tinha 19 anos e era jogador de futebol num time sueco. As queimaduras, além de cobrir 70% de seu corpo, penetraram até ramificações nervosas. Faz dois anos que o infeliz tenta consertar o estrago com operações e terapia. Dizem os médicos que nunca voltará ao que era. Ficou marcado para a vida. E ainda deve se alegrar por estar vivo.

O artigo conta que esse «esporte» imbecil teve origem na América do Sul, especialmente no Brasil, onde, de 1989 pra cá, 150 casos mortais já foram registrados.

Termina com um sábio conselho: para qualquer atividade, é sempre mais conveniente comprar um bilhete. É mais seguro.

Retorno de investimento

José Horta Manzano

Universidade de Salamanca

Universidade de Salamanca

A participação americana na Primeira Guerra marcou o début do país na cena internacional, até então dominada pelos grandes impérios europeus com destaque para Reino Unido e França.

Com sua intervenção decisiva na Segunda Guerra, os EUA reafirmaram sua preeminência bélica, econômica e política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca ― assim funciona o mundo. À ascensão dos Estados Unidos, correspondeu forte degradação da influência dos impérios.

Como corolário ao aumento do prestígio dos EUA, a língua inglesa cresceu em importância. A projeção da língua francesa, que reinava solitária nos contactos diplomáticos e comerciais até o início do século XX, começou a definhar. E o inglês foi, pouco a pouco, tomando seu lugar.

Universidad Salamanca 1Os anos 1960 ― e a descolonização da África ― cuidaram de dar o golpe de graça na antiga preferência pelo francês. De lá pra cá, a língua inglesa se firmou como veículo de comunicação internacional em todas as áreas. Até no campo diplomático, onde, durante séculos, teria sido inimaginável exprimir-se em idioma que não fosse o francês. Nosso passaporte é um bom exemplo. Até os anos 1970, vinha escrito em português e em francês. Em seguida, o inglês forçou passagem.

Hoje em dia, o inglês é de facto a língua internacional. Quando duas pessoas não se entendem, é com naturalidade que recorrem ao inglês. No mundo atual, quem não conhece a língua dominante está arriscado a passar ao largo de muita coisa interessante. De tanto perder capítulos, periga não entender mais a novela.

Tudo o que eu disse aqui acima parece uma evidência, não é mesmo? Não para todos. Alguns anos atrás, a estreita franja ideológica ― um dos componentes da constelação de quereres que nos governa ― «detectou» declínio da potência americana.

Chapéu acadêmico

Chapéu acadêmico

Cheios de satisfação, nossos gurus profetizaram então que a língua inglesa sairia logo de cena. Era tremendo erro estratégico, mas a ignorância disseminada entre os medalhões do andar de cima fez que todos dessem de ombros e acatassem o raciocínio.

Ato contínuo, nosso messias anunciou que, daquele momento em diante, o ensino da língua espanhola seria privilegiado em detrimento do inglês. Quanta ingenuidade! Não se deram conta de que a potência americana não é o único sustentáculo da popularidade mundial da língua de Shakespeare. A simplicidade da gramática, a singeleza da conjugação verbal, a riqueza do vocabulário contam tanto (ou mais) que a força dos EUA para garantir ao inglês um longo reinado.

Equivocou-se quem apostou na derrocada da língua inglesa. Daqui a alguns anos, a juventude brasileira vai-se dar conta do logro. Mas nem tudo é perdido. Tem quem lucrou com essa trapalhada.

A Universidade de Salamanca (Espanha), uma das mais antigas do planeta, acaba de outorgar título de doutor honoris causa a nosso messias. Essa honraria é conferida por merecimento. A nosso antigo presidente, o colegiado de doutores de Salamanca atribuiu o mérito de ter contribuído para a educação da população brasileira(!). Em particular, foi levado em conta que, sob sua égide, foi implantado o ensino obrigatório da língua espanhola.

Interligne vertical 5Quod natura non dat, Salamantica non præstat.

O que a natureza não dá, Salamanca não empresta.

Refrão enunciado em latim. Sugere que, sem o talento natural, o estudo não tem nenhuma serventia. Quanto a mim, continuo acreditando que estudo faz muita falta.

Simplificação

José Horta Manzano

Você sabia?

Burocracia 2A burocracia ― maliciosamente chamada por alguns «burrocracia» ― tem mais ou menos a idade do mundo. É praga que atravanca a humanidade desde tempos bíblicos.

Todos hão de se lembrar das aulas de catecismo. Lá nos ensinavam ― quem sabe ainda ensinam ― a razão pela qual Jesus nasceu num estábulo. Era porque seus pais estavam de viagem. Segundo nos disseram, José tinha de comparecer pessoalmente em seu vilarejo de origem por motivo de recenseamento ordenado pela administração romana. Como se pode depreender, não é de hoje que essas obrigações sem sentido nos aporrinham a existência.

No Brasil, nos últimos anos do governo militar, foi até criado um Ministério da Desburocratização, cujo primeiro e mais longevo titular foi Hélio Beltrão. Como? Se adiantou? Bem, julgue você mesmo, distinto leitor.

Burocracia 4Alguns países, talvez por terem tido a sorte de contar com dirigentes mais esclarecidos e mais persistentes, reduziram procedimentos administrativos ao mínimo rigorosamente necessário. Outros, porém, não tiveram a mesma felicidade.

O Brasil, sabemos todos, está entre os mais bem aquinhoados numa hipotética escala de empecilhos oficiais. Mas não estamos sozinhos lá no topo. A França, surpreendentemente, também sobressai nessa classificação. É impressionante o volume de papelada que se costuma exigir dos que necessitam autorização para o que for.

Ciente de que o dinheiro, o tempo e o esforço despendidos em procedimentos desse tipo são um desperdício e um atraso de vida, o atual governo central nomeou uma comissão de cidadãos de bom-senso com o objetivo específico de se debruçar sobre o problema e propor soluções.

A incumbência do comitê é de selecionar 50 gargalos. Em seguida, os sábios disporão de seis meses para esmiuçá-los e apresentar soluções. A partir daí, tudo recomeça: mais 50 casos espinhosos serão estudados. A ideia está sendo posta em prática agora, portanto, não se sabe ainda quais serão os resultados práticos.

Burocracia 3Um dos grandes estorvos ― e não só na França ― é a lentidão das diferentes repartições. Quando uma empresa tem alguma dúvida sobre o procedimento a adotar em determinada situação, é natural que faça uma consulta ao órgão adequado. Atualmente, não há legislação sobre essa matéria. A repartição pode levar meses para responder. Pode até nem responder, o que deixa o consulente em situação delicada.

Pois uma das primeiras propostas será instituir o «princípio de resposta garantida». Protocolada a consulta, o órgão terá um prazo para responder. Caso não o faça, seu silêncio será considerado consentimento. Afinal, quem cala, consente.

Outro ponto, inimaginável em outros países, é a Declaração dos Padeiros. Sabem o que é? Explico. No ano de 1790, em plena Revolução Francesa, o governo provisório tratou de garantir o fornecimento do pão, principal alimento da população. Para ter certeza de que não faltaria, ordenou que os padeiros informassem à administração, com antecedência, os dias em que, por algum motivo, tencionavam não trabalhar.

Nos primeiros anos, isso não teve grande impacto, dado que ninguém saía de férias. Nos últimos 80 anos, o panorama mudou: agora todos tiram seu mês de folga a cada ano. Como o decreto ainda está em vigor, cada pequena padaria francesa é obrigada a avisar as autoridades municipais sobre o fechamento anual por motivo de férias.

BaguetteSabem o que a autoridade faz, uma vez que toma conhecimento das férias de cada padeiro? Nada, absolutamente nada. A declaração vai parar numa caixa de papelão e terminará seus dias no porão da prefeitura. Essa ordenança do tempo da carochinha será, sem dúvida, uma das primeiras a desaparecer.

Mas que não se assustem os que planejam uma viagem a Paris. Com Declaração dos Padeiros ou sem ela, sempre haverá uma baguette fresquinha à espera.

Parlez-vous portugais?

José Horta Manzano

Você sabia?

Carlos Ghosn, Renault

Carlos Ghosn, Renault

Em 1903, a indústria francesa respondeu pela metade da produção mundial de automóveis. Naquele mesmo ano, os EUA produziram 18% do total mundial. Os britânicos foram responsáveis por 15%, e os alemães, por 11%. A Itália e a Bélgica fechavam a fila. E era só. Ninguém mais construía automóvel naquele tempo.

Em 1914, havia 155 fabricantes de automóvel na França. O tempo se encarregou de eliminar excedentes, cortar sobras, limar beiradas. Atualmente ― exceptuado algum montador artesanal ― sobraram apenas dois grandes grupos: Peugeot e Renault.

Longe da antiga glória, a Peugeot ocupou um modesto 10° lugar na classificação global 2013 das montadoras, pelo critério de volume de vendas. A Renault, então, nem aparece na lista das dez mais. Assim mesmo, são dois grandes grupos industriais.

As duas empresas apresentam uma curiosa particularidade: têm ambas um presidente estrangeiro. Ambos se chamam Carlos e nasceram fora do território nacional.

Carlos Tavares, Peugeot

Carlos Tavares, Peugeot

O Grupo Renault é presidido por Carlos Ghosn. Neto de libaneses, nasceu em 1954 em Guajará-Mirim, no então Território do Guaporé ― hoje Rondônia. Quando o senhor Ghosn era ainda menino, sua família se transferiu a Beirute, onde ele foi escolarizado num liceu jesuíta. Ele detém três nacionalidades: a brasileira (pela lei do solo), a libanesa (pela lei do sangue) e a francesa (por naturalização).

O Grupo Peugeot tem como presidente o senhor Carlos Tavares, nascido em Lisboa em 1958. Seu pai trabalhava para uma firma francesa e sua mãe ensinava a língua de Molière. O menino cursou o Liceu Francês de Lisboa. Optou por não se naturalizar. Conserva sua nacionalidade portuguesa.

Em resumo, por um capricho do destino, cada um dos dois grupos automobilísticos franceses é comandado por um lusófono.

Democracia direta

José Horta Manzano

Mês que vem, os cidadãos suíços serão chamados a se pronunciar sobre quatro matérias de âmbito nacional. Como de costume, cada cantão vai aproveitar a ocasião para incluir alguma consulta regional.

Dentre os assuntos federais, três são particularmente interessantes.

Lembrete aos eleitores: Vota-se hoje

Lembrete aos eleitores:
Vota-se hoje

Pedofilia
Ainda que pareça desconcertante, indivíduos condenados por atos pedófilos ― e que já tenham cumprido a respectiva pena ― estão liberados para voltar a exercer atividade profissional em contacto com menores.

Uma iniciativa popular recolheu o número de assinaturas suficiente para que seja organizado um plebiscito sobre o assunto. A petição exige que tais indivíduos sejam proibidos de trabalhar junto a menores de idade. O parlamento não deu nenhuma recomendação de voto. O povo decidirá.

Salário mínimo
Diferentemente de muitos outros países, a Suíça nunca estabeleceu um salário mínimo nacional. Alguns sindicatos mais poderosos já conseguiram, por meio de acordos setoriais, instituir uma paga mínima para seus afiliados. No entanto, grande parte dos assalariados continua sem garantia salarial.

O plebiscito convocado para 18 de maio solicita à população que se pronuncie sobre a instituição de um salário mínimo de 22 francos por hora, equivalente a 58 reais. Por grande maioria, o parlamento rejeitou essa proposta. O voto popular dará a palavra final.

Avião 5Aviões de combate
Faz anos que 54 aviões Tiger F5 obsoletos da Força Aérea Helvética adquiriram direito à aposentadoria por tempo de serviço. Depois de profundos estudos técnicos e longas negociações, a Aeronáutica decidiu substituí-los por 22 modernos caças Gripen. O distinto leitor já deve ter ouvido falar dessa joia da indústria sueca, não é mesmo?

É. Mas acontece que, na Suíça, decisão de tamanha importância não costuma ser sacramentada por uma simples canetada palaciana. Uma petição exigindo referendo popular contra a decisão de compra foi lançada e alcançou o número de assinaturas regulamentar.

No dia 18 de maio à noite, computado o último voto, saberemos se o povo terá dado seu acordo ao desembolso de 3 bilhões de francos (8 bilhões de reais).

Parece salgado demais para ser aceito. Quem viver, verá.

Clique aqui quem quiser consultar a convocação oficial do governo suíço

A rainhazinha

José Horta Manzano

Bicicleta 2

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a rainhazinha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de magrelinhas. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril. A edição 2014 tem lugar neste 13 de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a partida é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é cognominada Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

Campeão Paris-Roubaix 2013

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte do percurso se efetuar em estrada revestida de paralelepípedos. Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que isso representa de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga. Vamos ver quem será o primeiro a cumprir os 257km hoje.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

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Informação complementar:
Um ciclista holandês venceu a Paris-Roubaix 2014. E não deixou cair o paralelepípedo.

Amazônia britânica

José Horta Manzano

Fish & chips no cartucho

Fish & chips no cartucho

Do site francês de notícias esportivas Le Buzz, nos chega informação transcendental. Ficamos sabendo que, até no coração da Amazônia, os turistas ingleses poderão comer fish & chips, especialidade tão apreciada em Londres quanto é o pastel de feira entre nós.

Segundo a reportagem, nosso país pode não estar pronto para acolher o monumental evento, mas os torcedores britânicos não foram esquecidos.

Pela módica quantia de duas libras, os 42 mil espectadores do jogo Inglaterra x Itália, previsto para dia 14 de junho em Manaus, poderão degustar uma porção da iguaria. Naturalmente, regada a vinagre.

A reportagem não diz se virá servida em cartucho de papel-jornal.

Cariocas ladrões

José Horta Manzano

Ladrão

O site da italiana TM News, no qual a TIM detém participação acionária de 40%, traz artigo que, para os sofridos cariocas, cai como bálsamo.

O título já diz tudo quando põe na boca do papa a frase: «Os cariocas? São ladrões porque me roubaram o coração!»

O artigo traz o relato da audiência papal concedida a Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, e ao comitê que organizou a JMJ nove meses atrás.

Basta, por favor!

José Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal, daí ser relegada a rodapé de página. Notícia ruim faz a alegria de todo editor. Quanto pior, maior será a manchete. É da vida.

Esta semana, saiu o assustador resultado de uma pesquisa sobre a percepção que têm os brasileiros de mulher vestida com panos mais exíguos. Segundo o Ipea, 2 em cada 3 brasileiros, na impossibilidade de despachar as pecadoras para a fogueira, acham justo e correto que seu castigo seja o assédio sexual.

Para quem vive no exterior, é dose cavalar. É daquele tipo de notícia que você torce para o vizinho do lado não ter ficado sabendo. Dá vergonha de cumprimentá-lo no elevador no dia seguinte. É muito desagradável você ver seu país de origem nivelado a um Afeganistão qualquer.

Passados 2 ou 3 dias ― catapum! ― lá vem o desmentido. Não era bem isso, o resultado foi lido pelo avesso. Como é que é? Duas versões para a mesma pesquisa? Será que se pode acreditar nalguma delas?

Sondagens de intenção de voto se chocam às vezes com a realidade. Abertas as urnas, vem o desmentido. Embora irritante, é, até certo ponto, compreensível. Por alguma razão, os eleitores não terão sido sinceros em suas respostas ou, quem sabe, terão mudado de ideia na hora agá.

Crédito: Caio Leal, AFP

Crédito: Caio Leal, AFP

Já o presente caso é de outra safra. Os entrevistados não mudaram de ideia. Foram os pesquisadores que, incompetentes, se embananaram.

É inacreditável a leviandade, a displicência, a irresponsabilidade com que informações desse calibre são dadas a público. Dizer que «nove entre dez estrelas do cinema preferem tal sabonete» não traz consequências, é informação inócua. Agora, proclamar que 2/3 dos brasileiros ainda pensam como na Idade Média é muitíssimo mais grave, é constatação acachapante.

Uma informação dessa importância deveria ter passado por várias peneiras finas antes de vir a público. Com todas as notícias ruins ― mas verdadeiras ― que têm circulado fora do Brasil estas semanas que antecedem a «Copa das copas», não precisávamos de falsas informações. O que temos de ruim já basta, é favor não acrescentar mais uma camada.

É tarde demais para desmentir. O mal está feito. A notícia de que o povo brasileiro ainda vive nas trevas já deu a volta ao mundo.

Desgraçadamente, se todos publicaram a incrível informação, nem todos publicarão o desmentido. Melhor subir pela escada, que o risco de cruzar o vizinho é menor.

Interligne 23

Quem tiver tempo a perder vai encontrar aqui um flagrante do alastramento da espantosa notícia pela mídia internacional.

Interligne vertical 12Itália
França
Espanha
Suíça
EUA
Reino Unido
Alemanha
Suécia
Emirados Árabes

Pior do que se imaginava

José Horta Manzano

A aproximação da «Copa das copas» vai girando os holofotes em direção a nosso país. Artigos, comentários, reportagens, emissões de rádio e de tevê vão pipocando aqui e ali.

Diferentemente do que imaginavam nossos ingênuos e inexperientes figurões quando «conseguiram convencer» a Fifa a atribuir ao Brasil a realização da copa, o que menos chama a atenção dos estrangeiros são os estádios. De «arenas», o mundo está cheio. Disseminado desde o tempo dos romanos, esse tipo de construção já não deixa mais ninguém estupefacto.

Jornalistas, em princípio, são bisbilhoteiros. Fogem de lugares-comuns e partem à cata do que está por detrás do cenário. No Brasil, não precisa ir muito longe. A decepção mora ao lado.

Duas jornalistas belgas vieram ao «país do futebol» para fazer uma radiografia detalhada. Passaram 5 meses em solo tupiniquim. O resultado, que está começando a ser publicado agora, não traz a imagem cintilante com que nossos medalhões sonhavam.

A edição online do jornal L’Avenir (de Namur, Bélgica) mostra um esboço do que será o trabalho final. Cito, a seguir, alguns trechos do artigo.Copa 14 logo 2

Interligne vertical 11a«Naquele país paradoxal, em pleno crescimento econômico, mas que carrega o peso de grandes desigualdades sociais e de extrema pobreza, a grande festa está sendo preparada, mas a cólera cresce e ameaça.»

«Em junho passado, milhões de brasileiros berraram seu descontentamento nas ruas do país inteiro com o slogan “Copa para quem?”»

«Fortaleza se caracteriza pelo turismo sexual, por milhares de crianças de rua e pelas favelas. Uma realidade negra, que não corresponde à imagem que o Brasil quer vender à mídia internacional.»

«O Brasil aproveita a copa para limpar as cidades, mas sem dar solução aos problemas. A miséria é simplesmente afastada.»

«Vimos coisas que, aqui na Europa, ninguém pode imaginar. Uma das piores imagens foi a de uma menina de 10 anos, magrelinha e completamente drogada, que se prostituía.»

Prefiro parar por aqui. Se alguém quiser ler o original em francês, que clique aqui.

O respeito que um país inspira não provém da excelência de seus estádios, mas do grau de civilização de seu povo.

Empurrando a culpa

José Horta Manzano

Lado A
Dois anos atrás, François Hollande ganhou de Nicolas Sarkozy e foi eleito presidente da França. O sistema político francês ― a meio caminho entre o presidencialismo e o parlamentarismo ― dá grande poder ao presidente, mas impõe que ele nomeie um primeiro-ministro, que, por sua vez, deverá receber o voto de confiança da assembleia. É cargo que funciona como fusível: está na linha de frente para receber choques. Quando queima, é substituído.

Jean-Marc Ayrault

Jean-Marc Ayrault

Ao ser eleito, Hollande concedeu o posto de primeiro-ministro a um amigo de muitos anos, Monsieur Ayrault. Mas os tempos são difíceis, com estagnação econômica e taxa de desemprego nas alturas. Indústrias abandonam o território para se instalar em país de mão de obra barata. Como resultado, a popularidade de Hollande baixou a níveis jamais registrados para um presidente.

Faz poucos dias ― como lhes contei em post de 27 de março ― realizaram-se eleições para prefeito em todos os municípios do país. O povo não perdeu a ocasião de mostrar seu descontentamento: o partido do presidente levou uma surra nas urnas. Os socialistas perderam a prefeitura de dezenas de cidades importantes.

Em países civilizados, certas regras do jogo democrático, embora apenas consensuais e não escritas, costumam ser respeitadas. Quando um figurão não tem mais o apoio popular, melhor dizer adeus e ir-se embora. Foi o que fez Monsieur Ayrault, o primeiro-ministro. Fechadas as urnas, contados os votos e constatada a lavada, convocou a imprensa. Em breve discurso diante das câmeras, assumiu pessoalmente a inteira responsabilidade pelo insucesso. Dia seguinte, apresentou sua demissão ao presidente da República. E se foi.

Lado B
Estamos todos assistindo, estes dias, a espetáculo consternante proporcionado por dona Dilma. Diante da evidência de que houve «irregularidades» ― para usar palavra gentil ― nos negócios da Petrobras nos EUA durante sua gestão, vem ela com a versão 2.0 do conhecido «eu não sabia de nada».

Petrobras 3Não contente de confessar sua ignorância sobre o que se passava na empresa que estava sob sua guarda, vai mais longe: desce à baixaria de acusar um subordinado. «A culpa é daquele ali, ó! Eu sou boazinha, gentil, reta e proba ― jamais faria uma coisa dessas. Assinei sem ler! Fui traída!»

Para uma antiga revolucionária, que se vangloriou de jamais ter denunciado um companheiro, nem sob tortura, cai mal. Para quem ocupa o cargo maior da República, cai pior ainda. Um pouco de dignidade não lhe faria mal.

Não se exige a verdade integral, mesmo porque talvez nem ela a conheça. Que dê a desculpa que lhe parecer mais conveniente, mas que, pelo menos, não entregue o companheiro. Coisa feia.

Francamente, não se fazem mais revolucionários ― nem revolucionárias ― como antigamente.