O Terceiro Estado

José Horta Manzano

«Fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós»
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-geral da presidência da República.

«Le Brésil! Faites un effort pendant un mois, calmez-vous! (…) Eh bien, les Brésiliens, il faut qu’ils se mettent dans l’idée de recevoir les touristes du monde entier et que pendant un mois, ils fassent une trêve. (…) S’ils peuvent attendre au moins un mois avant de faire des éclats sociaux, ça serait bien pour l’ensemble du Brésil et la planète football».(*)
Michel Platini, presidente da Uefa.

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Manif 2As falas reproduzidas aí acima foram pronunciadas por duas personalidades que, em princípio, nada têm em comum tirando fora o fato de pertencerem à mesma geração.

Um é figura política, ministro da República brasileira. Sua frase foi dita faz alguns meses. O figurão se referia à conflagração popular de junho 2013.

O outro é figura do esporte, antigo profissional de futebol, há anos reciclado e transformado em presidente da União das associações europeias de futebol. Sua frase foi pronunciada faz alguns dias.

O que é que terá levado ambos a ousarem pronunciamento tão desastrado? Não vejo conotação política nem intenção oculta em nenhuma das falas. Antes, parecem desabafo sincero, suspiro de desalento.

Mas há um denominador comum aos dois pronunciamentos, ambos emitidos por pessoas que vivem num mundo de fantasia, longe da fria realidade em que vivemos mergulhados nós outros.

Salário elevado, facilidades mil, bajuladores em roda, a turma do “sim,senhor” sempre pronta a curvar-se ― esses medalhões que perderam o hábito de abrir uma porta com as próprias mãos vão, pouco a pouco, se desconectando do mundo real.

Para escapar a essa armadilha, seria preciso ter um espírito crítico ultradesenvolvido, o que, fica claro, não é o caso de nossos dois figurões.

Do senhor Platini, que vive a dez mil quilômetros do território brasileiro, ainda se pode admitir que ignore, até certo ponto, a realidade nacional. Além de viver dentro de uma redoma, convive com os clichês que lhe foram incutidos desde a infância. Continua enxergando o Brasil como o país do futebol, das mulatas sambando, do fio dental, das praias preguiçosas, da caipiriña(sic), da alegria onipresente. Assim mesmo, o desprezo embutido em sua fala incomoda um bocado.

Manif 3Já a alienação do senhor Carvalho, que vive “no coração do Brasil”, é assombrosa. “Fizemos tanto por essa gente”… mas quanta arrogância em cinco palavras!

Estamos habituados ao sectarismo do discurso oficial do atual governo federal, aquela retórica que procura dividir a população em dois campos antagônicos: “nós” e “eles”. O desabafo do ministro-chefe, no entanto, contradiz a filosofia oficial. Os campos não são dois, mas três: nós, eles e a populaça.

Fica claro que tanto o discurso de Platini quanto o de Carvalho se referiam a essa nebulosa terceira entidade, a ralé.

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(*) «Ô, Brasil! Façam um esforço durante um mês, acalmem-se! (…) Veja só, os brasileiros têm de botar na cabeça a ideia de que vão receber os turistas do mundo inteiro e que, durante um mês, têm de fazer uma trégua. (…) Se eles puderem segurar o estouro de seus conflitos sociais durante um mês, será excelente para o Brasil e para o futebol planetário.»

Dá-me tua mão

José Horta Manzano

Você sabia?

Fredrik Leifland, estudante da Universidade de Lund (Suécia), estava uma vez numa fila de supermercado. Tinha pressa, mas a fila não andava. Irritado, respirou fundo e decidiu gastar o tempo de espera de maneira útil: imaginando uma solução para acelerar pagamento de compras.

Considerou desenvolver um novo tipo de cartão de crédito. Cogitou utilizar o telefone celular. Imaginou, por fim, dispensar todo objeto intermediário e utilizar a própria mão. Esta última solução pareceu-lhe a melhor. Pôs «mãos à obra» ― sem trocadilhos…

Mão escaneada

Mão escaneada

Um ano mais tarde, segundo noticiou o jornal sueco Sydsvenskan Dagbladet, o sistema estava pronto para os primeiros testes. Apresenta-se em forma de pequeno escâner que varre a palma da mão e analisa a disposição e as características dos vasos sanguíneos.

O desenho formado por veias e capilares de cada indivíduo é pessoal e único, exatamente como a impressão digital. Assim sendo, a maquineta consegue identificar a pessoa e autenticar o pagamento. Uma dúvida surgiu: e se me cortarem a mão e a levarem para fazer um pagamento?

O inventor assegura que, para funcionar, o sistema exige que os vasos sanguíneos pulsem, mostrando que o sangue circula. Portanto, mão morta não serve nem de quebra-galho.

Por enquanto, o uso do novo sistema se restringe à cidade de Lund, na Suécia. Seus utilizadores são principalmente estudantes da universidade local. Não vai ser fácil expandir o negócio. As quatro ou cinco gigantes do ramo de cartões de crédito ― Visa, Mastercard, Amexco ― não hão de estar vendo com bons olhos essa incursão impertinente em seu quintal.

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Quem quiser assistir a um filminho de 2 minutos mostrando o funcionamento da engenhoca deve clicar aqui. (A propaganda que precede o filme dura 15 segundos).

De nomes infelizes

José Horta Manzano

Quem tem nome ridículo ― como Rolando Escada Abaixo, Um Dois Três de Oliveira Quatro, Adolf Hitler da Silva ― já está preparado para situações engraçadas. Faz parte do jogo.

Já quem tem nome apenas exótico não imagina que vá passar apuro. No entanto, foi o que aconteceu dia 23 de abril com uma jovem francesa. A espantosa notícia nos vem pelo jornal Le Dauphiné Libéré.

A jovem estava sonhando com aquela viagem fazia tempo. Seriam as primeiras férias com a família nos EUA. Afiveladas as malas, dirigiram-se os quatro ― casal mais dois filhos ― ao Aeroporto de Genebra (Suíça), o mais à mão para quem vive na Savoia francesa.

Avião 3Na hora do registro no balcão, o atendente comunicou à moça que ela estava na lista negra das autoridades americanas e que, por isso, não poderia embarcar. Sem maiores explicações. Não adiantava chorar nem bater o pé. Quando se trata de segurança nacional, os americanos não brincam em serviço. Preferem exagerar pra mais que pra menos.

Decepcionados, os quatro ex-futuros viajantes voltaram para casa. As férias estavam estragadas. Mas… qual a razão dessa surpreendente proibição? A francesa imagina que só pode ter sido por causa de seu nome. De origem iugoslava, seu nome de solteira é Alic Aida. Nos escaninhos dos computadores, algum algoritmo há-de ter associado Alic Aida a… Al-Qaeda!

A moça garante que, no original, Alić se pronuncia Alitch. Não adiantou. Computadores não estão nem aí para a pronúncia.

Produto de exportação

José Horta Manzano

Surf trem 2A estupidez humana não tem limites. A informação que nos traz o Kvällsposten ― do grupo editorial sueco Expressen ― é de cair da cadeira. Na Suécia também há jovens suficientemente insanos para surfar no teto de trem em movimento. Lá como cá, é inevitável, acidentes graves acontecem.

A reportagem conta o caso de um certo Axel Schylström, que teve a destrambelhada ideia de bancar o equilibrista em cima de um vagão de trem lançado a 100 km/h.

O que tinha de acontecer aconteceu. De pé em cima do vagão, o jovem nem chegou a roçar o cabo de alimentação, mas seu corpo passou perto demais. Um arco elétrico se formou e mandou-lhe uma descarga de 16 mil volts.

Navegue na internet, não no trem

Navegue na internet, não no trem

Isso foi dois anos atrás, quando o rapaz tinha 19 anos e era jogador de futebol num time sueco. As queimaduras, além de cobrir 70% de seu corpo, penetraram até ramificações nervosas. Faz dois anos que o infeliz tenta consertar o estrago com operações e terapia. Dizem os médicos que nunca voltará ao que era. Ficou marcado para a vida. E ainda deve se alegrar por estar vivo.

O artigo conta que esse «esporte» imbecil teve origem na América do Sul, especialmente no Brasil, onde, de 1989 pra cá, 150 casos mortais já foram registrados.

Termina com um sábio conselho: para qualquer atividade, é sempre mais conveniente comprar um bilhete. É mais seguro.

Retorno de investimento

José Horta Manzano

Universidade de Salamanca

Universidade de Salamanca

A participação americana na Primeira Guerra marcou o début do país na cena internacional, até então dominada pelos grandes impérios europeus com destaque para Reino Unido e França.

Com sua intervenção decisiva na Segunda Guerra, os EUA reafirmaram sua preeminência bélica, econômica e política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca ― assim funciona o mundo. À ascensão dos Estados Unidos, correspondeu forte degradação da influência dos impérios.

Como corolário ao aumento do prestígio dos EUA, a língua inglesa cresceu em importância. A projeção da língua francesa, que reinava solitária nos contactos diplomáticos e comerciais até o início do século XX, começou a definhar. E o inglês foi, pouco a pouco, tomando seu lugar.

Universidad Salamanca 1Os anos 1960 ― e a descolonização da África ― cuidaram de dar o golpe de graça na antiga preferência pelo francês. De lá pra cá, a língua inglesa se firmou como veículo de comunicação internacional em todas as áreas. Até no campo diplomático, onde, durante séculos, teria sido inimaginável exprimir-se em idioma que não fosse o francês. Nosso passaporte é um bom exemplo. Até os anos 1970, vinha escrito em português e em francês. Em seguida, o inglês forçou passagem.

Hoje em dia, o inglês é de facto a língua internacional. Quando duas pessoas não se entendem, é com naturalidade que recorrem ao inglês. No mundo atual, quem não conhece a língua dominante está arriscado a passar ao largo de muita coisa interessante. De tanto perder capítulos, periga não entender mais a novela.

Tudo o que eu disse aqui acima parece uma evidência, não é mesmo? Não para todos. Alguns anos atrás, a estreita franja ideológica ― um dos componentes da constelação de quereres que nos governa ― «detectou» declínio da potência americana.

Chapéu acadêmico

Chapéu acadêmico

Cheios de satisfação, nossos gurus profetizaram então que a língua inglesa sairia logo de cena. Era tremendo erro estratégico, mas a ignorância disseminada entre os medalhões do andar de cima fez que todos dessem de ombros e acatassem o raciocínio.

Ato contínuo, nosso messias anunciou que, daquele momento em diante, o ensino da língua espanhola seria privilegiado em detrimento do inglês. Quanta ingenuidade! Não se deram conta de que a potência americana não é o único sustentáculo da popularidade mundial da língua de Shakespeare. A simplicidade da gramática, a singeleza da conjugação verbal, a riqueza do vocabulário contam tanto (ou mais) que a força dos EUA para garantir ao inglês um longo reinado.

Equivocou-se quem apostou na derrocada da língua inglesa. Daqui a alguns anos, a juventude brasileira vai-se dar conta do logro. Mas nem tudo é perdido. Tem quem lucrou com essa trapalhada.

A Universidade de Salamanca (Espanha), uma das mais antigas do planeta, acaba de outorgar título de doutor honoris causa a nosso messias. Essa honraria é conferida por merecimento. A nosso antigo presidente, o colegiado de doutores de Salamanca atribuiu o mérito de ter contribuído para a educação da população brasileira(!). Em particular, foi levado em conta que, sob sua égide, foi implantado o ensino obrigatório da língua espanhola.

Interligne vertical 5Quod natura non dat, Salamantica non præstat.

O que a natureza não dá, Salamanca não empresta.

Refrão enunciado em latim. Sugere que, sem o talento natural, o estudo não tem nenhuma serventia. Quanto a mim, continuo acreditando que estudo faz muita falta.

Simplificação

José Horta Manzano

Você sabia?

Burocracia 2A burocracia ― maliciosamente chamada por alguns «burrocracia» ― tem mais ou menos a idade do mundo. É praga que atravanca a humanidade desde tempos bíblicos.

Todos hão de se lembrar das aulas de catecismo. Lá nos ensinavam ― quem sabe ainda ensinam ― a razão pela qual Jesus nasceu num estábulo. Era porque seus pais estavam de viagem. Segundo nos disseram, José tinha de comparecer pessoalmente em seu vilarejo de origem por motivo de recenseamento ordenado pela administração romana. Como se pode depreender, não é de hoje que essas obrigações sem sentido nos aporrinham a existência.

No Brasil, nos últimos anos do governo militar, foi até criado um Ministério da Desburocratização, cujo primeiro e mais longevo titular foi Hélio Beltrão. Como? Se adiantou? Bem, julgue você mesmo, distinto leitor.

Burocracia 4Alguns países, talvez por terem tido a sorte de contar com dirigentes mais esclarecidos e mais persistentes, reduziram procedimentos administrativos ao mínimo rigorosamente necessário. Outros, porém, não tiveram a mesma felicidade.

O Brasil, sabemos todos, está entre os mais bem aquinhoados numa hipotética escala de empecilhos oficiais. Mas não estamos sozinhos lá no topo. A França, surpreendentemente, também sobressai nessa classificação. É impressionante o volume de papelada que se costuma exigir dos que necessitam autorização para o que for.

Ciente de que o dinheiro, o tempo e o esforço despendidos em procedimentos desse tipo são um desperdício e um atraso de vida, o atual governo central nomeou uma comissão de cidadãos de bom-senso com o objetivo específico de se debruçar sobre o problema e propor soluções.

A incumbência do comitê é de selecionar 50 gargalos. Em seguida, os sábios disporão de seis meses para esmiuçá-los e apresentar soluções. A partir daí, tudo recomeça: mais 50 casos espinhosos serão estudados. A ideia está sendo posta em prática agora, portanto, não se sabe ainda quais serão os resultados práticos.

Burocracia 3Um dos grandes estorvos ― e não só na França ― é a lentidão das diferentes repartições. Quando uma empresa tem alguma dúvida sobre o procedimento a adotar em determinada situação, é natural que faça uma consulta ao órgão adequado. Atualmente, não há legislação sobre essa matéria. A repartição pode levar meses para responder. Pode até nem responder, o que deixa o consulente em situação delicada.

Pois uma das primeiras propostas será instituir o «princípio de resposta garantida». Protocolada a consulta, o órgão terá um prazo para responder. Caso não o faça, seu silêncio será considerado consentimento. Afinal, quem cala, consente.

Outro ponto, inimaginável em outros países, é a Declaração dos Padeiros. Sabem o que é? Explico. No ano de 1790, em plena Revolução Francesa, o governo provisório tratou de garantir o fornecimento do pão, principal alimento da população. Para ter certeza de que não faltaria, ordenou que os padeiros informassem à administração, com antecedência, os dias em que, por algum motivo, tencionavam não trabalhar.

Nos primeiros anos, isso não teve grande impacto, dado que ninguém saía de férias. Nos últimos 80 anos, o panorama mudou: agora todos tiram seu mês de folga a cada ano. Como o decreto ainda está em vigor, cada pequena padaria francesa é obrigada a avisar as autoridades municipais sobre o fechamento anual por motivo de férias.

BaguetteSabem o que a autoridade faz, uma vez que toma conhecimento das férias de cada padeiro? Nada, absolutamente nada. A declaração vai parar numa caixa de papelão e terminará seus dias no porão da prefeitura. Essa ordenança do tempo da carochinha será, sem dúvida, uma das primeiras a desaparecer.

Mas que não se assustem os que planejam uma viagem a Paris. Com Declaração dos Padeiros ou sem ela, sempre haverá uma baguette fresquinha à espera.

Parlez-vous portugais?

José Horta Manzano

Você sabia?

Carlos Ghosn, Renault

Carlos Ghosn, Renault

Em 1903, a indústria francesa respondeu pela metade da produção mundial de automóveis. Naquele mesmo ano, os EUA produziram 18% do total mundial. Os britânicos foram responsáveis por 15%, e os alemães, por 11%. A Itália e a Bélgica fechavam a fila. E era só. Ninguém mais construía automóvel naquele tempo.

Em 1914, havia 155 fabricantes de automóvel na França. O tempo se encarregou de eliminar excedentes, cortar sobras, limar beiradas. Atualmente ― exceptuado algum montador artesanal ― sobraram apenas dois grandes grupos: Peugeot e Renault.

Longe da antiga glória, a Peugeot ocupou um modesto 10° lugar na classificação global 2013 das montadoras, pelo critério de volume de vendas. A Renault, então, nem aparece na lista das dez mais. Assim mesmo, são dois grandes grupos industriais.

As duas empresas apresentam uma curiosa particularidade: têm ambas um presidente estrangeiro. Ambos se chamam Carlos e nasceram fora do território nacional.

Carlos Tavares, Peugeot

Carlos Tavares, Peugeot

O Grupo Renault é presidido por Carlos Ghosn. Neto de libaneses, nasceu em 1954 em Guajará-Mirim, no então Território do Guaporé ― hoje Rondônia. Quando o senhor Ghosn era ainda menino, sua família se transferiu a Beirute, onde ele foi escolarizado num liceu jesuíta. Ele detém três nacionalidades: a brasileira (pela lei do solo), a libanesa (pela lei do sangue) e a francesa (por naturalização).

O Grupo Peugeot tem como presidente o senhor Carlos Tavares, nascido em Lisboa em 1958. Seu pai trabalhava para uma firma francesa e sua mãe ensinava a língua de Molière. O menino cursou o Liceu Francês de Lisboa. Optou por não se naturalizar. Conserva sua nacionalidade portuguesa.

Em resumo, por um capricho do destino, cada um dos dois grupos automobilísticos franceses é comandado por um lusófono.

Democracia direta

José Horta Manzano

Mês que vem, os cidadãos suíços serão chamados a se pronunciar sobre quatro matérias de âmbito nacional. Como de costume, cada cantão vai aproveitar a ocasião para incluir alguma consulta regional.

Dentre os assuntos federais, três são particularmente interessantes.

Lembrete aos eleitores: Vota-se hoje

Lembrete aos eleitores:
Vota-se hoje

Pedofilia
Ainda que pareça desconcertante, indivíduos condenados por atos pedófilos ― e que já tenham cumprido a respectiva pena ― estão liberados para voltar a exercer atividade profissional em contacto com menores.

Uma iniciativa popular recolheu o número de assinaturas suficiente para que seja organizado um plebiscito sobre o assunto. A petição exige que tais indivíduos sejam proibidos de trabalhar junto a menores de idade. O parlamento não deu nenhuma recomendação de voto. O povo decidirá.

Salário mínimo
Diferentemente de muitos outros países, a Suíça nunca estabeleceu um salário mínimo nacional. Alguns sindicatos mais poderosos já conseguiram, por meio de acordos setoriais, instituir uma paga mínima para seus afiliados. No entanto, grande parte dos assalariados continua sem garantia salarial.

O plebiscito convocado para 18 de maio solicita à população que se pronuncie sobre a instituição de um salário mínimo de 22 francos por hora, equivalente a 58 reais. Por grande maioria, o parlamento rejeitou essa proposta. O voto popular dará a palavra final.

Avião 5Aviões de combate
Faz anos que 54 aviões Tiger F5 obsoletos da Força Aérea Helvética adquiriram direito à aposentadoria por tempo de serviço. Depois de profundos estudos técnicos e longas negociações, a Aeronáutica decidiu substituí-los por 22 modernos caças Gripen. O distinto leitor já deve ter ouvido falar dessa joia da indústria sueca, não é mesmo?

É. Mas acontece que, na Suíça, decisão de tamanha importância não costuma ser sacramentada por uma simples canetada palaciana. Uma petição exigindo referendo popular contra a decisão de compra foi lançada e alcançou o número de assinaturas regulamentar.

No dia 18 de maio à noite, computado o último voto, saberemos se o povo terá dado seu acordo ao desembolso de 3 bilhões de francos (8 bilhões de reais).

Parece salgado demais para ser aceito. Quem viver, verá.

Clique aqui quem quiser consultar a convocação oficial do governo suíço

A rainhazinha

José Horta Manzano

Bicicleta 2

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a rainhazinha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de magrelinhas. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril. A edição 2014 tem lugar neste 13 de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a partida é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é cognominada Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

Campeão Paris-Roubaix 2013

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte do percurso se efetuar em estrada revestida de paralelepípedos. Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que isso representa de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga. Vamos ver quem será o primeiro a cumprir os 257km hoje.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

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Informação complementar:
Um ciclista holandês venceu a Paris-Roubaix 2014. E não deixou cair o paralelepípedo.

Amazônia britânica

José Horta Manzano

Fish & chips no cartucho

Fish & chips no cartucho

Do site francês de notícias esportivas Le Buzz, nos chega informação transcendental. Ficamos sabendo que, até no coração da Amazônia, os turistas ingleses poderão comer fish & chips, especialidade tão apreciada em Londres quanto é o pastel de feira entre nós.

Segundo a reportagem, nosso país pode não estar pronto para acolher o monumental evento, mas os torcedores britânicos não foram esquecidos.

Pela módica quantia de duas libras, os 42 mil espectadores do jogo Inglaterra x Itália, previsto para dia 14 de junho em Manaus, poderão degustar uma porção da iguaria. Naturalmente, regada a vinagre.

A reportagem não diz se virá servida em cartucho de papel-jornal.

Cariocas ladrões

José Horta Manzano

Ladrão

O site da italiana TM News, no qual a TIM detém participação acionária de 40%, traz artigo que, para os sofridos cariocas, cai como bálsamo.

O título já diz tudo quando põe na boca do papa a frase: «Os cariocas? São ladrões porque me roubaram o coração!»

O artigo traz o relato da audiência papal concedida a Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, e ao comitê que organizou a JMJ nove meses atrás.

Basta, por favor!

José Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal, daí ser relegada a rodapé de página. Notícia ruim faz a alegria de todo editor. Quanto pior, maior será a manchete. É da vida.

Esta semana, saiu o assustador resultado de uma pesquisa sobre a percepção que têm os brasileiros de mulher vestida com panos mais exíguos. Segundo o Ipea, 2 em cada 3 brasileiros, na impossibilidade de despachar as pecadoras para a fogueira, acham justo e correto que seu castigo seja o assédio sexual.

Para quem vive no exterior, é dose cavalar. É daquele tipo de notícia que você torce para o vizinho do lado não ter ficado sabendo. Dá vergonha de cumprimentá-lo no elevador no dia seguinte. É muito desagradável você ver seu país de origem nivelado a um Afeganistão qualquer.

Passados 2 ou 3 dias ― catapum! ― lá vem o desmentido. Não era bem isso, o resultado foi lido pelo avesso. Como é que é? Duas versões para a mesma pesquisa? Será que se pode acreditar nalguma delas?

Sondagens de intenção de voto se chocam às vezes com a realidade. Abertas as urnas, vem o desmentido. Embora irritante, é, até certo ponto, compreensível. Por alguma razão, os eleitores não terão sido sinceros em suas respostas ou, quem sabe, terão mudado de ideia na hora agá.

Crédito: Caio Leal, AFP

Crédito: Caio Leal, AFP

Já o presente caso é de outra safra. Os entrevistados não mudaram de ideia. Foram os pesquisadores que, incompetentes, se embananaram.

É inacreditável a leviandade, a displicência, a irresponsabilidade com que informações desse calibre são dadas a público. Dizer que «nove entre dez estrelas do cinema preferem tal sabonete» não traz consequências, é informação inócua. Agora, proclamar que 2/3 dos brasileiros ainda pensam como na Idade Média é muitíssimo mais grave, é constatação acachapante.

Uma informação dessa importância deveria ter passado por várias peneiras finas antes de vir a público. Com todas as notícias ruins ― mas verdadeiras ― que têm circulado fora do Brasil estas semanas que antecedem a «Copa das copas», não precisávamos de falsas informações. O que temos de ruim já basta, é favor não acrescentar mais uma camada.

É tarde demais para desmentir. O mal está feito. A notícia de que o povo brasileiro ainda vive nas trevas já deu a volta ao mundo.

Desgraçadamente, se todos publicaram a incrível informação, nem todos publicarão o desmentido. Melhor subir pela escada, que o risco de cruzar o vizinho é menor.

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Quem tiver tempo a perder vai encontrar aqui um flagrante do alastramento da espantosa notícia pela mídia internacional.

Interligne vertical 12Itália
França
Espanha
Suíça
EUA
Reino Unido
Alemanha
Suécia
Emirados Árabes

Pior do que se imaginava

José Horta Manzano

A aproximação da «Copa das copas» vai girando os holofotes em direção a nosso país. Artigos, comentários, reportagens, emissões de rádio e de tevê vão pipocando aqui e ali.

Diferentemente do que imaginavam nossos ingênuos e inexperientes figurões quando «conseguiram convencer» a Fifa a atribuir ao Brasil a realização da copa, o que menos chama a atenção dos estrangeiros são os estádios. De «arenas», o mundo está cheio. Disseminado desde o tempo dos romanos, esse tipo de construção já não deixa mais ninguém estupefacto.

Jornalistas, em princípio, são bisbilhoteiros. Fogem de lugares-comuns e partem à cata do que está por detrás do cenário. No Brasil, não precisa ir muito longe. A decepção mora ao lado.

Duas jornalistas belgas vieram ao «país do futebol» para fazer uma radiografia detalhada. Passaram 5 meses em solo tupiniquim. O resultado, que está começando a ser publicado agora, não traz a imagem cintilante com que nossos medalhões sonhavam.

A edição online do jornal L’Avenir (de Namur, Bélgica) mostra um esboço do que será o trabalho final. Cito, a seguir, alguns trechos do artigo.Copa 14 logo 2

Interligne vertical 11a«Naquele país paradoxal, em pleno crescimento econômico, mas que carrega o peso de grandes desigualdades sociais e de extrema pobreza, a grande festa está sendo preparada, mas a cólera cresce e ameaça.»

«Em junho passado, milhões de brasileiros berraram seu descontentamento nas ruas do país inteiro com o slogan “Copa para quem?”»

«Fortaleza se caracteriza pelo turismo sexual, por milhares de crianças de rua e pelas favelas. Uma realidade negra, que não corresponde à imagem que o Brasil quer vender à mídia internacional.»

«O Brasil aproveita a copa para limpar as cidades, mas sem dar solução aos problemas. A miséria é simplesmente afastada.»

«Vimos coisas que, aqui na Europa, ninguém pode imaginar. Uma das piores imagens foi a de uma menina de 10 anos, magrelinha e completamente drogada, que se prostituía.»

Prefiro parar por aqui. Se alguém quiser ler o original em francês, que clique aqui.

O respeito que um país inspira não provém da excelência de seus estádios, mas do grau de civilização de seu povo.

Empurrando a culpa

José Horta Manzano

Lado A
Dois anos atrás, François Hollande ganhou de Nicolas Sarkozy e foi eleito presidente da França. O sistema político francês ― a meio caminho entre o presidencialismo e o parlamentarismo ― dá grande poder ao presidente, mas impõe que ele nomeie um primeiro-ministro, que, por sua vez, deverá receber o voto de confiança da assembleia. É cargo que funciona como fusível: está na linha de frente para receber choques. Quando queima, é substituído.

Jean-Marc Ayrault

Jean-Marc Ayrault

Ao ser eleito, Hollande concedeu o posto de primeiro-ministro a um amigo de muitos anos, Monsieur Ayrault. Mas os tempos são difíceis, com estagnação econômica e taxa de desemprego nas alturas. Indústrias abandonam o território para se instalar em país de mão de obra barata. Como resultado, a popularidade de Hollande baixou a níveis jamais registrados para um presidente.

Faz poucos dias ― como lhes contei em post de 27 de março ― realizaram-se eleições para prefeito em todos os municípios do país. O povo não perdeu a ocasião de mostrar seu descontentamento: o partido do presidente levou uma surra nas urnas. Os socialistas perderam a prefeitura de dezenas de cidades importantes.

Em países civilizados, certas regras do jogo democrático, embora apenas consensuais e não escritas, costumam ser respeitadas. Quando um figurão não tem mais o apoio popular, melhor dizer adeus e ir-se embora. Foi o que fez Monsieur Ayrault, o primeiro-ministro. Fechadas as urnas, contados os votos e constatada a lavada, convocou a imprensa. Em breve discurso diante das câmeras, assumiu pessoalmente a inteira responsabilidade pelo insucesso. Dia seguinte, apresentou sua demissão ao presidente da República. E se foi.

Lado B
Estamos todos assistindo, estes dias, a espetáculo consternante proporcionado por dona Dilma. Diante da evidência de que houve «irregularidades» ― para usar palavra gentil ― nos negócios da Petrobras nos EUA durante sua gestão, vem ela com a versão 2.0 do conhecido «eu não sabia de nada».

Petrobras 3Não contente de confessar sua ignorância sobre o que se passava na empresa que estava sob sua guarda, vai mais longe: desce à baixaria de acusar um subordinado. «A culpa é daquele ali, ó! Eu sou boazinha, gentil, reta e proba ― jamais faria uma coisa dessas. Assinei sem ler! Fui traída!»

Para uma antiga revolucionária, que se vangloriou de jamais ter denunciado um companheiro, nem sob tortura, cai mal. Para quem ocupa o cargo maior da República, cai pior ainda. Um pouco de dignidade não lhe faria mal.

Não se exige a verdade integral, mesmo porque talvez nem ela a conheça. Que dê a desculpa que lhe parecer mais conveniente, mas que, pelo menos, não entregue o companheiro. Coisa feia.

Francamente, não se fazem mais revolucionários ― nem revolucionárias ― como antigamente.

Pânico no trem

José Horta Manzano

Na manhã desta quarta-feira 2 de abril, um trem inteiro teve de ser evacuado na estação de Berna (Suíça). Os 450 passageiros foram obrigados a se aglomerar na plataforma enquanto um grupo de intervenção especialmente treinado foi chamado a operar a bordo.

O motivo? Uma cobrinha de 50cm, fininha e não-venenosa. Apareceu de repente. Um primeiro viajante deu o alarme, e o corre-corre foi geral. Um tigre teria causado o mesmo efeito.

Foto: Polícia Cantonal de Berna

Crédito foto: Polícia Cantonal de Berna

O trem deveria ter partido às 7h34 com destino a Basileia. Teve um atraso de meia hora. Alguns passageiros que contavam apanhar um avião no aeroporto basileense perderam a conexão. Ficaram a dizer cobras, lagartos e cobrinhas suíças da companhia nacional de estrada de ferro.

Palavrão

José Horta Manzano

Rindfleischetikettierungsüberwachungsaufgabenübertragungsgesetz

Como sabem muito bem meus cultos leitores, as línguas anglo-germânicas não são muito chegadas ao uso de preposições. Não é que não as tenham, mas, econômicas, preferem justapor palavras sem necessariamente inserir um elemento de ligação entre elas.

O inglês dirá mais facilmente «theater entrance design ideas» do que o pesadão «ideas of design for the entrance of the theater» ― ideias de traçado para a entrada do teatro.

A língua alemã vai mais longe ainda. Além de dispensar preposições, costuma aglutinar palavras. Sem a menor cerimônia, vai colando umas nas outras. Para quem não está habituado, fica esquisitíssimo. Já os alemães, acostumados com essa prática, não veem problema nenhum em destrinchar os diversos elementos de um palavrão. Questão de hábito.

Clique na foto para ver o vídeo

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É esporte nacional na Alemanha criar a palavra mais longa. Nome de molécula química não vale. Volta e meia, aparece alguém com um achado. O último que vi foi esse monstrinho de 63 letras que está lá no começo do post. O que significa? É isto aqui:

Lei de aplicação da tarefa de supervisão da etiquetagem da carne de vaca

A palavra é tão longa que chega a confundir algum alemão. Clique no vídeo para assisir a dois minutos de pesquisa de rua.

Frase do dia — 124

«É sabido que os americanos vivem em estado de alerta contra doenças transmitidas por bichos. Lá, as vacinas antirrábicas de cachorros valem por três anos. No Brasil, valem só por um ano. Ou os cachorros brasileiros são viciados em vacinas ou o vício é outro.»

Elio Gaspari, em sua coluna in Folha de São Paulo, 30 mar 2014.

Uns de menos, outros de mais

José Horta Manzano

Os brasileiros de boa vontade se comoveram com a triste sorte dos médicos cubanos arrolados no programa Mais Médicos ― aquele que visa a aumentar o número de profissionais sem lhes garantir o apoio de infraestrutura condizente.

Os infelizes caribenhos são tratados como raça à parte, tratamento que combina com o regime de apartheid, de divisão do povo em estratos, que nossas autoridades vêm tentando nos impingir. A distorção entre a remuneração dos médicos comuns e a dos cubanos é chocante. Enquanto os comuns recebem remuneração decente, os cubanos, encurralados em regime de pão e água, têm de resignar-se a sofrer confisco de 80% a 90% do salário.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Mas toda moeda tem duas faces. De um lado, estão os cubanos, desapossados, por seu próprio governo, do fruto de trabalho suado. No outro extremo, estão alguns espertinhos que descobriram caminho pouco ortodoxo para engordar seus ganhos. Explico.

A província argentina de Misiones, cuja capital é Posadas, faz fronteira com o Paraná e com Santa Catarina. O lado brasileiro é mais densamente povoado que a província vizinha. Uma vez anunciado, o Mais Médicos despertou interesse em bom número de profissionais argentinos. Muitos se apresentaram e estão hoje empregados no Brasil, onde recebem os 10 mil reais como todos os outros ― à exceção dos azarados cubanos.

Até aí, nada de excepcional. O caldo começa a engrossar agora. Maurice Closs, governador da Província de Misiones, acaba de vir a público denunciar uma fraude perpetrada por uma vintena de médicos argentinos.Mais médicos

São profissionais que, contratados pelo Brasil no bojo do Mais Médicos, encontraram um jeito original de continuar a receber salário de médico contratado pela Saúde Pública argentina. Conseguiram falso atestado médico e pediram a seu governo licença para tratamento de saúde. Conseguiram. Além do salário brasileiro, recebem, sem trabalhar, mais o equivalente a 5 mil reais.

Das duas dezenas de profissionais argentinos contratados pelo Brasil naquela região, dezesseis estão-se valendo do mesmo estratagema. Os problemas de saúde alegados são, em maioria, de ordem psíquica. A constatação de que, numa pequena província, tantos médicos estavam com problemas mentais despertou a curiosidade das autoridades. E a tramoia foi descoberta.

O ministro argentino da Saúde Pública, indignado com essa mostra de desonestidade e de falta de ética, promete tomar providências.

O relógio mais caro

José Horta Manzano

Para o mundo da relojoaria e da joalheria, a Feira de Basileia ― que ultimamente ostenta o nome de «Baselworld», mais adaptado a nossos tempos ― é a referência maior. Expositores e visitantes acorrem do mundo inteiro.

A edição 2014 abriu as portas neste 27 de março para uma semana de frenesi. Para lhes dar uma ideia da grandiosidade do show, aqui vão alguns números da safra 2013:

      • 1460 expositores provenientes de 40 países
      • 122 mil visitantes de 100 países
      • 25 mil funcionários a serviço dos visitantes
      • Extensão de todas as alas somadas: 30km
      • 3600 jornalistas de 70 países
      • 1300 estandes
      • Superfície do maior estande: 1625m2
      • 6 milhões de cartões de visita trocados

The Graff Hallucination

The Graff Hallucination

Este ano, a grande atração da Feira ficou por conta de um relógio pra lá de exclusivo. Peça única. Está sendo apresentado pela britânica maison Graff Diamonds ― referência no mundo dos diamantistas desde 1960.

O relógio, chamado Hallucination, é pequenino. O que chama a atenção é a pulseira que lhe está em roda. É um tapete de pequenos diamantes lapidados, de cores variadas.

Se é bonito? Há gosto pra tudo. Observe a foto e julgue você mesmo. Pode deixar, que qualquer hora vai aparecer alguém disposto a arrematá-lo. Seu valor? Uma bagatela: 55 milhões de dólares. Brincadeira! Coisa pra novo-rico.

A joia não é lá nenhuma Pasadena, mas seu valor daria pra enxugar uma parte do prejuízo causado pela trapalhada. Eu disse trapalhada? Será?

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Fonte em inglês
Fonte em francês
A Feira de Basileia

Quem quer ser prefeito?

José Horta Manzano

Você sabia?

Estes dias, a França está elegendo prefeitos e vereadores (chamados conselheiros municipais). São dois turnos de votação espaçados por uma semana. Os candidatos que obtiverem pelo menos 10% dos votos passam ao segundo turno.

São muitas prefeituras. Em consequência do lento crescimento populacional ao longo dos séculos, o país conta com quase 37 mil municípios, a grande maioria com menos de 1000 habitantes.

Esses pequenos municípios são constituídos por casarios que datam da Idade Média, época em que cada povoado se bastava a si mesmo. Cada um sobrevivia com o que produzia. Eventos importantes eram as feiras, momento em que mercadorias eram trocadas ― cada vilarejo vinha vender seu excedente e buscar aquilo que não tinha condições de produzir.

Só para efeito de comparação, o Brasil, com 200 milhões de habitantes, está composto por menos de 5600 municípios. Isso indica a existência de ilhas densamente povoadas cercadas por desertos populacionais. Na Europa, diferentemente, a ocupação do solo é pulverizada.Prefeito francês

Estas eleições francesas trouxeram uma curiosidade dificilmente imaginável no Brasil. Alguns pequenos municípios não têm nenhum candidato disposto a assumir a prefeitura. São 64 vilarejos onde está claro que ninguém quer saber de encrenca.

Cargo de prefeito de vilazinha dá muito trabalho. Além disso, o rendimento é pequeno demais. O eleito terá de cuidar de tudo, ouvir reclamações, servir de árbitro em conflitos de vizinhança, tudo isso sem deixar de exercer sua profissão, que seu ordenado não será suficiente para sobreviver.

Salário de chefe do executivo municipal na França é fixado por lei nacional e varia conforme o número de habitantes do lugar. Num vilarejo de 500 habitantes, o salário bruto será de 646 euros. Se o município abrigar entre 500 e 1000 habitantes, passa a 1178 euros.

Levando em conta que o salário mínimo nacional é de 1445 euros brutos, ordenado de prefeito de cidadezinha é realmente uma merreca. Por sinal, nem a paga de prefeito de cidade grande ― de mais de 100 mil habitantes ― é fabulosa: não chega a 4 salários mínimos.

Passada a votação, os municípios que ficarem órfãos de prefeito serão governados por um interventor nomeado pelo poder central. Até a próxima eleição.