Natureza humana e cultura

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Viajando de ônibus para São Lourenço. O ônibus faz uma parada curta numa cidadezinha à beira da estrada para apanhar mais passageiros. Proibida de descer, contento-me em olhar ao redor. Há uma praça ao lado, chão de terra batida, ainda sem grama. Nela, alguns cachorros perambulam ou dormitam ao sol. Acompanho-os com os olhos um tanto entediada.

Aos poucos me dou conta de que a cachorra de pequeno porte que está deitada no centro da praça está no cio. Ela é cercada por uns sete ou oito cachorros que a cheiram e tentam copular com ela. Começo a me angustiar, dado que a desproporção de tamanho entre eles é grande. O maior macho aproxima-se dela por trás e a empurra com o focinho, como se quisesse levantá-la. A cachorra resiste e permanece deitada – um indicativo claro de que não está receptiva.

Minha angústia cresce. Depois de várias tentativas, o macho consegue penetrá-la e, com a força de seu impulso para a frente, acaba por levantar a cachorra. Ela gira no ar, em pânico. Olho em volta, desesperada, procurando alguém que pudesse me ajudar a interferir. Na tarde modorrenta, apenas alguns homens conversam em pé na frente de uma loja e limitam-se a rir quando percebem o que está acontecendo.

Cachorro 30Levanto num pulo, me perguntando se teria coragem suficiente para enfrentar tantos machos ensandecidos. Caminho hesitante até a frente do ônibus, mas o motorista volta, fecha a porta e dá a partida, ignorando meus apelos para aguardar mais alguns instantes. Volto a meu assento desolada. A imagem não sai mais da minha cabeça.

Solidariedade de gênero? Não sei. Instinto maternal? Talvez. Senso de justiça? Provável. Uma coisa é certa, porém, na minha cabeça: não sei lidar com o sentimento de impotência diante da selvageria. Não suporto nem mesmo assistir a documentários sobre a vida natural das espécies, fecho os olhos para não testemunhar cenas de predadores estraçalhando corpos.

A violência no mundo animal só não me desestrutura mais do que a bestialidade humana. A recente notícia do estupro coletivo de uma jovem me faz reviver o pesadelo. Não vi as cenas, a simples menção ao fato me devolveu ao olho do furacão. Surpreendo-me com a declaração da garota de não sentir dor no útero, mas sim na alma. Soa como tradução perfeita do meu mal-estar. Mais do que violência física, sinto que o que está em jogo é a negação da alma feminina, do direito que toda mulher tem de decidir autonomamente o que pode ou não ser feito com seu corpo, seja por iniciativa dela mesma ou de terceiros.

Coreto 1Reflito por alguns instantes sobre a expressão inglesa ‘son-of-a-bitch’ – literalmente, ‘filho de uma cadela’. Certamente, penso, inventada por um homem, como forma de afirmar que a mulher pode ser objeto de prazer, mas nunca sujeito de seu próprio prazer. Deixa implícito que o desejo e a excitação masculina são irrefreáveis, capazes de despertar por si o desejo na mulher e que, portanto, não faz sentido esperar por seu consentimento. Mais precisamente, um jeito de interpretar a recusa feminina como ilógica, já que pressupõe que, em condições naturais “normais”, a mulher reagiria como uma cadela no cio, encontrando prazer em se submeter ‒ o que a cena que presenciei deixa claro que não acontece nem mesmo entre animais.

Penso depois em Rousseau e em sua tese de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Relembro minhas aulas de Filosofia e a obra de tantos pensadores da cultura e da civilização. Ah, meu caro Rousseau, os teóricos que o sucederam demonstraram que as coisas não são bem assim, infelizmente. O que eles nos ensinaram é que as pulsões humanas estão em permanente conflito com a cultura e com os valores que cada uma prioriza para compor seu ideal de moralidade sexual.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo, escritor e compositor Nascido na então República de Genebra, hoje cantão suíço

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo, escritor e compositor
Nascido na então República de Genebra, hoje cantão suíço

Ao contrário de sua hipótese romântica, os casos de irrupção de barbárie na cultura – seja os de estupro, genocídio ou terrorismo – desnudam o fracasso da civilização em conter em definitivo impulsos perversos que, para nosso pesar, são parte constituinte da natureza humana. A psicanálise dá a isso o nome de “retorno do reprimido” e explica: quanto maior a repressão, maior a violência com que os impulsos reprimidos se manifestarão. A onda de indignação que varre a consciência de todos na sequência serve apenas para escancarar a extensão e a virulência com que a norma moral nos foi impingida. Faz-nos lembrar que, se deixados livres, seríamos provavelmente capazes de façanhas ainda piores.

O paradoxal nisso tudo é que, na ânsia de evitar a repetição desses eventos trágicos, se apele justamente para ações ainda mais repressoras e totalitárias. Queimem-se os livros, proíbam-se as músicas obscenas, condenem-se à morte os humoristas que ousarem ridicularizar formas religiosas de opressão, impeça-se que educadores disseminem conteúdos ideológicos em sala de aula.

Vale tudo para identificar os culpados e puni-los. O preocupante é que pouca gente se dê conta de que o culpado é sempre o outro. Ou que a justiça seja sempre colocada do lado de fora, aos cuidados de alguma instituição social. A responsabilidade nunca é assumida como nossa, pessoalmente.

Triste, mas já é tarde para um ‘mea culpa’ coletivo. Nossas consciências já foram estupradas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O voto e a roda

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 maio 2014

Naquele tempo, ainda havia trem. Na estação da estrada de ferro, o jovem aprendiz, ansioso, apresentou-se logo de manhãzinha para seu primeiro dia de trabalho no serviço de manutenção. O chefe do setor apresentou-o ao funcionário mais antigo e recomendou a este último que se encarregasse de transmitir, pouco a pouco, todo o seu saber ao novato.

Após rápida consulta ao relógio, o veterano conduziu o recém-chegado à beira de um trem que estava para partir dali a meia hora. Pediu ao jovem que observasse atentamente o que ele ia fazer. Tomou uma marreta e deu três pancadinhas numa roda do primeiro vagão. Em seguida, passou à segunda roda e repetiu o movimento. E assim por diante, roda por roda, vagão por vagão, deu a volta ao trem.

Train 5Terminado o peculiar balé, o aprendiz perguntou timidamente qual era a serventia daquela tarefa. O velho funcionário disse que não fazia a menor ideia, mas repetia esse movimento diariamente fazia 35 anos. Porque lhe tinham ensinado no seu primeiro dia de trabalho.

Essa fábula ilustra a força inercial de certos fatos e atos que se transmitem de geração em geração e varam os séculos sem que ninguém saiba ao certo por quê. A obrigatoriedade do voto é um bom exemplo.

Pelo ordenamento constitucional do Brasil imperial, o voto era obrigatório. Fazia sentido. No imenso território que ensaiava seus primeiros passos como nação independente, os alfabetizados eram poucos. O legislador brasileiro decidiu manter distância da visão democrática e universalista que Rousseau lançava sobre a política. Preferiu outra abordagem: o voto censitário.

Considerando que a massa não estava apta a escolher seus próprios representantes, confiou o encargo a cidadãos selecionados. Para fazer parte do colégio de eleitores, havia que preencher alguns requisitos: ser homem livre com mais de 25 anos e, sobretudo, dispor de determinada renda.

Essa seleção, ressentida como se honraria fosse, instituía a «função» de eleitor. Por esse entendimento, o voto «pertencia» à nação, cabendo a ela designar aqueles que estavam aptos a desempenhar a tarefa. Era natural, portanto, que os eleitores, uma vez convocados pelo Estado, tivessem a obrigação de votar. Em caso de impedimento, era até autorizado o voto por procuração – o eleitor transferia o encargo a um representante.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista Correio Braziliense

by Fernando de Castro Lopes, desenhista
Correio Braziliense

O método de escolha dos representantes do povo sofreu transformação radical de lá para cá. Tivesse essa mudança ocorrido de golpe, talvez a estrutura tivesse sido integralmente repensada e fosse, hoje, harmoniosa. Não foi o que aconteceu. Quis o destino que a evolução do sistema eleitoral se estendesse, gradual, por decênios ‒ um conserto aqui, um remendo ali. O resultado carece de coerência.

A sequência de modificações transfigurou o modelo originário. O caráter censitário do colégio eleitoral foi-se esgarçando à medida que novas categorias de cidadãos eram autorizadas a votar. A idade mínima do eleitor foi baixando, degrau após degrau, dos 25 para os atuais 16 anos. A participação foi aos poucos franqueada a um número crescente de cidadãos: mulheres, militares, analfabetos. A exigência de renda mínima foi abolida.

O sistema atual, após todas essas mudanças, nem de longe lembra o modelo de 200 anos atrás. A «função» de eleitor cedeu lugar ao direito de ser eleitor. À primeira vista pode não parecer, mas tivemos aí profunda guinada conceitual. O voto não mais «pertence» à nação, mas a cada eleitor. A escolha dos dirigentes deixou de ser feita por cidadãos aos quais o Estado atribuiu uma tarefa. Passou a ser feita, em tese, por todos os cidadãos.

Urna 5O «eleitorado de função» era obrigado a exercer seu papel, exatamente como conscritos têm de servir nalguma das Armas. A obrigatoriedade do voto estava, assim, justificada. O atual «eleitorado de direito» tem a faculdade de escolher seus representantes. Quem diz faculdade não diz obrigação. Se obrigação for, não será mais um direito.

No contexto atual, o voto obrigatório é contrassenso. Cidadão constrangido a praticar um ato qualquer não estará exercendo seu direito, mas cumprindo obrigação.

Muita atenção: que ninguém acuse os atuais inquilinos do andar de cima por essa incoerência. Ela lhes foi legada pelos antecessores que, por sua vez, já a tinham herdado dos respectivos predecessores. O descuido do legislador vem de longe, mas nunca é tarde para consertar.

E então? Varremos essa relíquia anacrônica ou continuamos a dar marretadas na roda?