A pequena rainha

Bicicleta 2

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José Horta Manzano

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a pequena rainha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de “magrelinhas”. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a largada é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é conhecida como Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

O troféu da corrida Paris-Roubaix

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte da corrida se efetuar em estrada de paralelepípedos (em geral úmidos, visto que a região é chuvosa). Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que esses 257 km representam de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

Publicado originalmente em 13 abril 2014.

Gente que virou coisa – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 2

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

 

Macadame
Na virada do século 18 para o 19, o engenheiro escocês John Loudon McAdam (1756-1836) ocupava o posto de administrador das estradas da Escócia.

Os meios de transporte não haviam evoluído muito desde o tempo dos romanos. Em muitos sentidos, haviam até involuído. Enquanto as estradas que partiam de Roma eram calçadas com paralelepípedos, nem todas as que saíam de Londres eram revestidas. Mas o revestimento de paralelepípedo apresentava o inconveniente de chacoalhar os veículos.

Mr. McAdam inventou então um meio bom e barato de calçar as estradas escocesas. Criou uma técnica inovadora que, assentando camadas de pedras de calibres diferentes, permitia revestimento sólido, firme e mais liso. As carroças e diligências podiam rodar sem chacoalhar tanto.

Na falta de nome, o novo revestimento foi chamado com o nome do inventor. McAdam era, e macadame ficou. Embora seja menos utilizado atualmente, o termo aparece em nossa língua desde os anos 1850.

Como curiosidade, note-se que o filme Midnight Cowboy (1969), estrelado por Dustin Hoffman e conhecido no Brasil com o título Perdidos na Noite, recebeu o nome de Macadam Cowboy nos países de língua francesa.

(continua)

Welcome to the club!

José Horta Manzano

Desta vez, é certeza: chegamos lá! Nosso barco está ancorado no cais do Primeiro Mundo. Alegria, minha gente! Bem-vindos ao clube!

Volta e meia, ouve-se notícia de que um cidadão americano (ou francês, ou britânico, ou alemão, ou japonês) foi sequestrado, em função de sua nacionalidade, por um grupo armado. Assim, de cabeça, não me ocorre nenhum caso em que o raptado tenha sido brasileiro.

Embaixada do Brasil em Berlim atacada com paus e pedras

Encapuzados lançaram cerca de 80 paralelepípedos contra a Embaixada do Brasil em Berlim

De tempos em tempos, fica-se sabendo que a bandeira americana (ou dinamarquesa, ou italiana, ou suíça) foi queimada e pisoteada com raiva por uma turba inflamada. Assim, de cabeça, não me vem nenhum episódio em que a vítima tenha sido nosso lábaro estrelado.

Com frequência, corre o relato de que uma representação diplomática americana (ou canadense, ou sueca, ou belga, ou espanhola) foi atacada ― com bazuca ou com paus e pedras. Assim, de cabeça, não me lembro de investida contra consulado ou embaixada nossa.

Isso agora é passado, caros amigos. É coisa antiga, é História. Nosso Brasil ― orgulhem-se! ― subiu um degrau na escala de importância dos países. Custou um dinheirão, mas… conseguimos.

Foi preciso investir bilhões, construir estádios, «convencer» a Fifa a acreditar em nós. Foi preciso torrar uma fortuna em Pasadena. Foi preciso meter o bedelho e dar vexame em Honduras. Foi preciso suportar durante doze anos o descalabro de governos incompetentes. Foi muito duro, mas o resultado é gratificante. De agora em diante, nossas embaixadas também estão sujeitas a ataques reivindicatórios. É a consagração!

Encapuzados alemães se esmeraram na noite de 11 a 12 de maio. Lançaram 80 paralelepípedos contra a Embaixada do Brasil em Berlim e conseguiram estilhaçar 31 vidraças (reparem na precisão da prestação de contas da polícia alemã).

Embaixada do Brasil em Berlim atacada com paus e pedras

Paralelepípedos em frente à Embaixada do Brasil em Berlim

Ok, ok, vidraça quebrada não é grande coisa. Concordo. Mas o que fica é o símbolo. O auê das manifestações de rua no Brasil já está gerando eco lá fora. A atenção que temos despertado no exterior confirma que estamos, de fato, adentrando o salão nobre reservado aos VIPs. Estamos entrando pela porta dos fundos, mas… que importa?

Falemos sério agora. Quem tem telhado de vidro deve tratar bem o vizinho. Quem tem embaixada com paredes de vidro deve evitar tratar seu próprio povo como um rebanho de imbecis.

Oxalá a moda de quebrar embaixadas brasileiras não pegue.

Interligne 18b

Entre outros veículos, a notícia apareceu nos seguintes:

Estadão
Folha de São Paulo
Bild (Alemanha)
Der Spiegel (Alemanha)

A rainhazinha

José Horta Manzano

Bicicleta 2

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a rainhazinha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de magrelinhas. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril. A edição 2014 tem lugar neste 13 de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a partida é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é cognominada Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

Campeão Paris-Roubaix 2013

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte do percurso se efetuar em estrada revestida de paralelepípedos. Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que isso representa de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga. Vamos ver quem será o primeiro a cumprir os 257km hoje.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

Interligne 18b

Informação complementar:
Um ciclista holandês venceu a Paris-Roubaix 2014. E não deixou cair o paralelepípedo.