Voo de galinha

José Horta Manzano

Você sabia?

Será que o distinto leitor sabe o que há de comum entre as cidades de Prêveza (Grécia), Friedrichshafen Alemanha) e Pula (a antiga italiana Pola, atualmente na Croácia)? Pois fique sabendo que fazem parte dos destinos da mesma companhia de aviação.

Friedrichshaven, Alemanha

Friedrichshafen, Alemanha

A People’s ViennaLine é herdeira de uma história acidentada, cheia de altos e baixos, que começa em 1914, quando o alemão Herr Dornier fundou uma fabriqueta de aviões. De lá pra cá, houve crise, nazismo, guerra, miséria, cortina de ferro, reconstrução, um banzé. A firma pioneira saiu de cena por um bom tempo mas acabou ressuscitando. Por um desses caminhos tortuosos que o destino constrói, um descendente longínquo da antiga empresa ressurgiu, já faz alguns anos, como linha aérea regional.

A frota de 3 aviões da companhia serve 13 destinos. A sede social é em Viena (Áustria), mas a base operacional está instalada de facto no pequeno aeroporto de Altenrhein, no nordeste da Suíça, perto da cidadezinha de Sankt Gallen. Diga-se de passagem que a People’s é a única companhia aérea regular a utilizar aquele aeroporto. Em termos práticos, é a dona do pedaço. Privilegia destinos turísticos como Ilhas Baleares, Sardenha, Nápoles, Grécia.

aviao-15O aeroporto suíço de Altenrhein oferece a vantagem de estar a poucos pares de quilômetros da Áustria e da Alemanha, situação que potencializa a bacia de clientes do transportador.

Duas peculiaridades da People’s ViennaLine merecem ser ressaltadas. A primeira é que a frota é constituída de aviões Embraer, todos «made in São José dos Campos»: dois Emb-170 e um Emb-145. A segunda é que mantêm a linha aérea (regular) mais curta do mundo. Linha internacional, faz favor!

Percurso do voo comercial mais curto do mundo Imagens: Google maps

Percurso do voo comercial mais curto do mundo: 20km em linha reta
Imagens: Google maps

De fato, dois voos diários ligam os aeroportos de Altenrhein (Suíça) ao de Friedrichshafen (Alemanha), separados por apenas 20 quilômetros em linha reta. As duas cidadezinhas ficam defronte uma da outra, separadas pelo Lago de Constança. Esse lago é alimentado pelo Rio Reno, que em seguida continua seu percurso até desembocar no Mar do Norte, 1500 quilômetros mais adiante.

Nunca percorri esse trecho de avião. Embora seja pouco mais que um voo de galinha, suponho que deva ser rentável, senão já teria sido suprimido.

Para o Dia da Bandeira

José Horta Manzano

Você sabia?

A bandeira ‒ em termos crus, um pedaço de pano amarrado num cabo ‒ é símbolo forte cuja origem se perde no passado. Desde a antiguidade, vem servindo como representação de um grupo ou de uma comunidade. Pode corresponder a um regimento, uma firma comercial, um território, uma cidade, uma nação.

No topo do mastro, a bandeira indica a vitória ou a predominância do grupo representado. Arriada ou, pior, destruída ou queimada, significa a perda de soberania, a derrocada. Em momentos violentos, tanto em batalha militar quanto em manifestação de rua, assiste-se por vezes ao triste espetáculo de queima da bandeira do adversário. É reminiscência de prática ancestral, embora os atores nem sempre se deem conta do significado do ato.

bandeira-2O que pode até ser compreensível num campo de batalha é desnorteante em manifestações populares. Em recentes passeatas no Brasil, bandos de ignorantes chegaram a queimar a bandeira do próprio país(!), numa atitude descabida. É como se se autodestruíssem e aniquilassem a própria identidade. Felizmente, demonstrações de estupidez desse jaez são raras em nossa terra.

A Europa medieval criou espetáculos festivos de homenagem à bandeira. Duas ou mais comunidades se afrontavam, numa espécie de concurso, onde cada participante agitava e atirava sua bandeira ao ar para recolhê-la antes que caísse ao chão. Há séculos, a Suíça importou essa prática de países meridionais. Os encontros em que a bandeira é personagem central sobrevivem em alguns poucos países. Na Suíça, no entanto, faz parte do folclore nacional. É tradição cultivada com carinho e renovada em momentos especiais a cada ano.

Festa de lançamento de bandeiras clique para ampliar

Festa de lançamento de bandeiras
clique para ampliar

A arte de atirar a bandeira ao ar chama-se «Fahnenschwingen» em alemão, «lancer de drapeau» em francês, «sbandieramento» em italiano. É exercício com regras rígidas. Não se joga de qualquer maneira. Consiste em agitar de um lado para outro uma bandeira de formato padronizado, em seguida lançá-la para cima e apanhá-la pelo cabo antes que caia ao chão. Parece simples, mas exige muito treino e técnica apurada.

O regulamento descreve 90 figuras, das quais cerca de 50 são executadas por ocasião de todo concurso. Frequentemente, os lançadores de bandeira são acompanhados por um conjunto de instrumentos de sopro típicos chamados trompa dos Alpes (Alphorn, cor des Alpes, corno alpino).

Corno dos Alpes clique para ampliar

Corno dos Alpes
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Nos tempos de antigamente, a trompa alpina ‒ cujo comprimento pode atingir 18 metros ‒ servia para comunicação à distância, num expediente análogo aos sinais de fumaça usado pelos índios de Hollywood. Nestes tempos de telefone celular, deixou de transmitir informações para dedicar-se unicamente a alegrar momentos festivos.

Ao vivo
O youtube traz alguns vídeos de arremesso de bandeira acompanhado por corno alpino. Quem estiver interessado pode dar uma espiada neste aqui (de 1min50) ou neste aqui (de 48 segundos).

Ferrovia bioceânica

Train 4José Horta Manzano

Nossos manuais de História ensinam que, em 1822, o Brasil se liberou do «jugo» do rei português D. João VI e o substituiu pela dominação do filho, o também português D. Pedro I.

Fomos todos ensinados a ver aí um marco divisório a assinalar a transição de um Brasil dependente a um Brasil novo, independente, dono de seu destino. Despachados os «opressores», tudo o que andava entravado havia enfim de prosperar.

Não sei se os poucos letrados da então Lusitânia tropical encararam o momento como linha de largada para progresso e desenvolvimento. Gostaria de imaginar que sim, mas tenho dúvidas. Posto a andar com as próprias pernas, o Brasil trilhou um caminho de progresso pra lá de lento. Enquanto outras antigas colônias americanas foram capazes de entender que o futuro exigia mangas arregaçadas e trabalho, nossa elite continuou adepta do ócio, amparada pelo cômodo sistema escravagista.

DiligenciaNos mesmos anos 1820 que viram a ascensão de Dom Pedro I, os brasileiros continuavam sacolejando em carro de boi enquanto os cidadãos das antigas colônias britânicas da América do Norte já inauguravam suas primeiras estradas de ferro. É que eles haviam entendido que a coesão nacional e o avanço têm de se assentar em rapidez e facilidade de comunicação ‒ noções que só chegaram a nosso país muitas décadas depois.

Depois de mil peripécias e muito trabalho, a estrada de ferro transcontinental norte-americana foi inaugurada em 1869. A distância de quase cinco mil quilômetros entre a costa Atlântica e o Pacífico, que se percorria em um mês em diligência, passou a ser coberta em uma semana. Ainda hoje, passado século e meio, essa espinha dorsal contribui para a integração daquela região.

As primeiras ferrovias dignas desse nome só foram inauguradas no Brasil nos anos 1860, quando a América do Norte já estava coalhada de linhas férreas. Foi preciso esperar até 1877 para ver o Rio de Janeiro, então capital do país, conectado à cidade de São Paulo.

Estes últimos tempos, está sendo ressuscitado velho projeto de ligação transcontinental, por estrada de ferro, na América do Sul. A intenção é unir a costa atlântica brasileira ao Pacífico, atravessando o Peru. A China, no intuito de encurtar o percurso de suas trocas comerciais com nossa região, está muito interessada em bancar a construção da que agora leva o nome de Ferrovia Bioceânica.

Crédito infografia: Folha de São Paulo

Crédito infografia: Folha de São Paulo

Dada a precariedade de nossa malha ferroviária, o trabalho será imenso. Pelos cálculos elaborados por um consórcio chinês, a estrada levará nove anos para ser construída. Começará em Goiás, atual ponto final das estradas de ferro brasileiras. Daí, cruzará o Mato Grosso, Rondônia, o Acre e ‒ trecho mais problemático ‒ os Andes peruanos. Cinco mil quilômetros deverão ser implantados, o que não é coisa pouca.

Quem conhece nosso país ‒ com sua instabilidade crônica, suas contradições, seus vaivéns ‒ sabe que nove anos é prazo tipo Papai Noel: só acredita quem quiser. Nossa Ferrovia Norte-Sul, um percurso bem mais modesto cuja construção começou trinta anos atrás, ainda está longe de ser terminada.

Se ‒ e insisto no se ‒ a construção dessa ‘bioceânica’ for realmente contratada, dificilmente o distinto leitor verá a estrada concluída.

A roca, o fuso e a liberação condicional

José Horta Manzano

«Na prática, a teoria é outra» é máxima que se comprova a cada santo dia. É sempre fácil dizer «eu faço, eu aconteço, eu arrebento». Chegada a hora do vamos ver, a coisa costuma mudar.

Nossa lei penal estipula penas severas de privação de liberdade. A pena capital, o degredo, a perda da nacionalidade, os trabalhos forçados e os castigos físicos, hoje inconcebíveis, são considerados medievais no mundo civilizado. Assim mesmo, comparado à legislação de outros países, nosso Código Penal tem a mão pesada. Essa é a teoria.

codigo-penal-1Na hora do vamos ver, porém, nossa prática se afasta um bocado do espírito do legislador. Tornozeleira eletrônica, delação premiada, prisão domiciliar, indulto de fim de ano, saída temporária, folga no Dia dos Pais, folga no Dia das Mães ‒ todos esses expedientes suavizam a aplicação da pena. A mão do legislador já perde muito do peso inicial.

O mais perturbador é o abuso da prática de encurtar a pena. Um criminoso, ao ser condenado a pesada pena de 12 anos de prisão, já vai fazendo as contas: se nenhuma catástrofe acontecer, dentro de 2 anos estará livre, leve e solto. De fato, é generalizado o entendimento de que, cumprido 1/6 da pena nominal, a prisão em regime semiaberto pode ser solicitada. Para entender a extensão da pena de prisão no Brasil, um estudioso estrangeiro tem de percorrer o Código Penal com a calculadora na mão. Precisa dividir a pena por seis para encontrar o tempo de encarceramento efetivo. Essa discrepância entre teoria e prática lança discrédito sobre todo o sistema.

Suíça: concessão de liberdade condicional

Suíça: concessão de liberdade condicional

Em outras terras, não funciona assim. Na Suíça, na França e em grande parte dos países europeus, o condenado tem de cumprir pelo menos 2/3 da pena em regime fechado sem sonhar em deixar a prisão ‒ esse é ponto pacífico. Somente a partir daí, pode pleitear liberação condicional. O juiz de aplicação de penas aprecia caso a caso e é soberano para conceder ou não o benefício.

Estes dias, a televisão suíça mostrou uma disparidade de apreciação entre juízes de diferentes regiões do país. Cumpridos os 2/3 da pena, todo prisioneiro costuma pedir liberação condicional. A Justiça da parte oriental do país (germanofalante), mais condescendente, costuma deferir 83% dos pedidos. Já no oeste (francofalante), apenas 57% dos condenados são autorizados a progredir para o regime semiaberto ‒ os demais continuam atrás das grades.

A roca

A roca

Razões diversas explicam essa disparidade, desde fatores culturais até o fato de determinadas regiões se encontrarem mais próximas das fronteiras e assim mais expostas a criminosos «de passagem». Conceder semiliberdade a não-residentes equivale a soltá-los na natureza e deixar que cruzem a fronteira para não mais voltar.

O que impressiona na maneira brasileira de aplicar a lei é o divórcio entre pena nominal e prisão efetiva. Temos visto gente fina que, condenada a longos anos de prisão no âmbito da Operação Lava a Jato, é autorizada a voltar pra casa imediatamente como prêmio por ter delatado cúmplices. Outro fato que não deixa de surpreender é o daquela moça que, ainda que condenada por ter mandado matar pai e mãe, tenha tido direito a liberdade temporária no… Dia das Mães.

Fuso de roca

O fuso

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Mas há fusos que picam mais que outros.

O Toblerone adaptado

José Horta Manzano

Você sabia?

Curiosamente, o pai do Toblerone não chegou a ver nascer o filho. Jean Tobler (1830-1905), nascido Johan Jakob Tobler, confeiteiro de profissão, abriu uma chocolataria em Berna, Suíça em 1867. Nos primeiros anos, Herr Tobler preparava seus confeitos com chocolate bruto comprado fora. Lentamente, conforme os negócios foram progredindo, veio a ideia de produzir seu próprio chocolate a partir de cacau importado. A fábrica Tobler foi inaugurada em 1899, fruto da associação entre o confeiteiro, seu filho Theodor e o sobrinho Emil Baumann. Mas o Toblerone ainda não havia sido inventado.

toblerone-6Após a morte do patriarca, os negócios da chocolataria continuaram. Por ocasião de uma viagem ao sul da França em 1908, Theodor Tobler provou o que os franceses chamam nougat, conhecido como torrone na Itália e turrón na Espanha. É um puxa-puxa à base de amêndoa, pasta de amêndoa e mel. Encantado, trouxe uma amostra para o primo experimentar. Foi amor à primeira vista.

Tiveram logo a ideia de acrescentar chocolate à receita pra ver no que dava. O resultado foi além de toda expectativa: de-li-ci-o-so. Veio aí a sacada de mestre. Em vez de apresentar a novidade em formato tradicional, escolheram moldá-la como barra comprida, com perfil alternando altos e baixos, de maneira a não encarecer demasiadamente o produto e a torná-lo mais fácil de partir em pedaços. É o primeiro chocolate em barra de que se tem notícia.

toblerone-5A fama do novo produto cresceu lentamente. A partir dos anos 60, com a fábrica já comandada pela terceira geração, novidades começaram a ser introduzidas. Veio primeiro o Toblerone amargo, em seguida o branco, o recheado, o de formato miniatura. Hoje, há mais de uma dezena de variedades, umas com isto, outras com aquilo.

Ao atingir certa massa crítica, toda empresa tende a ser passada adiante. Raras são as firmas colossais que permanecem sob controle familiar. A Tobler não escapou. Faz alguns anos, foi vendida a uma gigantesca multinacional americana. No entanto, ninguém mexe em time que está ganhando. Embora exportadas em mais de cem países, as barras continuam a ser fabricadas em Berna. Os novos donos compreenderam a importância que o carimbo «Made in Switzerland» acrescenta à imagem do produto.

toblerone-7Estas últimas semanas, o Toblerone voltou às manchetes no Reino Unido. A decisão de abandonar a União Europeia teve, como consequência imediata, forte desvalorização da libra esterlina. Tudo o que é importado ‒ como o chocolate Tobler ‒ ficou mais caro. Para contornar o problema, o fabricante passou a produzir, especialmente para o mercado britânico, um formato modificado. Cada barra contém menos chocolate, mas o preço antigo permanece. Os ingleses não apreciaram a mudança, mas… que fazer?

suisse-27-bern

Brasão de Berna

A origem do nome
Toblerone é resultado da junção do sobrenome Tobler com o final da palavra italiana torrone.

toblerone-4O urso
O símbolo de Berna é o urso, cujo nome em alemão é bär (pronúncia: bér). O logotipo do Toblerone mostra a imagem estilizada do monte Matterhorn (= Cervin ou Cervino). Escondido no claro-escuro do desenho, percebe-se um urso. Além disso, as cinco letras que formam o nome Berne estão incluídas na palavra Toblerone ‒ na ordem correta. Estão lá para lembrar ao consumidor a origem do produto.

Atirando no escuro

José Horta Manzano

Umas profissões são arriscadas; outras, mais tranquilas. Um policial, um acróbata, um alpinista, um repórter de guerra correm perigo maior do que um contador, um agrimensor, um pizzaiolo ou um técnico em informática.

Assim mesmo, arriscada ou não, toda profissão pode dar a quem a exerce momentos de júbilo ou de frustração grande. Tomemos, por exemplo, a advocacia penal. Pode ser fonte de alegria e satisfação para o profissional quando o veredicto é favorável a seu cliente. Caso contrário, traz decepção, chateação e aflição.

escrita-7O ofício de articulista e o de analista ‒ falo desses que escrevem artigos para a grande mídia ‒ pode às vezes dar motivo a desapontamento. Quando algum acontecimento se está inexoravelmente aproximando, artigos costumam ser escritos antecipadamente. À medida que personalidades conhecidas vão envelhecendo, necrológios já vão sendo preparados. Dormem na gaveta das redações. (Hoje é mais adequado dizer que ficam armazenados em pastas de computador, mas dá no mesmo.) Assim que chega a notícia do falecimento, não precisa correr à Wikipédia à cata de pormenores da vida e do instinto do distinto extinto. Basta acrescentar algumas linhas ao esboço para dar o fecho. Não é cinismo, que a vida é assim mesmo.

Passadas as eleições americanas, pelas quais todo o planeta se interessou, chegou o tempo das análises. Todas as previsões e palpites davam como certo o final. Seria o relato da história, da glória e da vitória de Hillary Clinton. É de imaginar que, previdente, a maioria dos comentaristas já houvesse preparado artigos, às vezes com semanas de antecedência. Estavam os papéis prontos para publicação quando… paf! Contra todos os prognósticos, venceu Trump.

escrita-6Fico imaginando as resmas de papel atiradas ao lixo. Tiveram todos de costurar à pressa artigo novinho. Saíram no encalço do vencedor pra relembrar excesso, progresso e sucesso do inconfundível, irascível e imprevisível bilionário. As rimas são propositais, tanto o personagem é ativo, permissivo e agressivo.

Pensando bem, é mais cômodo escrever elogio fúnebre. A personalidade, seja ela quem for, acaba morrendo um dia, é certeza. Agora basta aos que escreveram sobre Mrs. Clinton guardar o material numa pasta. Um dia, é garantido que vai servir.

O onze de novembro

José Horta Manzano

Você sabia?

Hoje, 11 de novembro, comemora-se o armistício que pôs fim à carnificina que os franceses conhecem como «la Grande Guerre». Falo da Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918 e deixou 9 milhões de mortos e 8 milhões de inválidos. Dá uma média de seis mil mortos por dia ou 250 por hora.

Esses números não levam em conta 8 milhões de cavalos ‒ utilizados então como animais de guerra ‒ dos quais 1 milhão morreu, numa média de setecentos a cada dia.

Passados noventa e oito anos, não sobra mais nenhum dos antigos combatentes. Os últimos sobreviventes já se foram alguns anos atrás, todos com idade em torno dos 110. Acabou-se a guerra, foram-se os combatentes, não sobra quase nenhuma testemunha daquele tempo. Mas o perigo continua.

Obus da guerra 1914-1918 não-explodido

Obus da guerra 1914-1918 não-explodido

Calcula-se que 15 milhões de toneladas de projéteis (bombas, obus, granadas, foguetes, balas) tenham sido lançados durante os quatro anos de conflito. Boa parte dessa munição não explodiu. Fala-se em 15% de material não-deflagrado, parafernália que continua lá, enterrada a alguns metros ou a poucos centímetros da superfície.

No norte da França, na região onde se travaram batalhas importantes, agricultores e operários da construção ainda encontram, a cada ano, mil toneladas de explosivos que deram chabu. O perigo que essa munição representa é considerável. Explosão espontânea por ocasião de incêndio florestal ou de grande calor pode ocorrer. Risco de vazamento tóxico devido à corrosão do material é importante. O lençol freático periga ser contaminado.

Como pode o distinto leitor constatar, perigos permanecem latentes, como recordação sinistra de uma guerra absurda que terminou cem anos atrás. Aliás, toda guerra é absurda.

Quando os netos de nossos netos forem velhinhos, a humanidade ainda estará sob risco de ser vítima da munição que está sendo atirada hoje nalgum dos numerosos campos de batalha do planeta.

Bala perdida mata na hora. Bomba enterrada pode explodir o neto de quem a mandou lançar.

Uns que choram

José Horta Manzano

A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética provocaram uma onda de choque que varreu todo o leste europeu. Durante os anos que se seguiram, os países satélites da URSS sentiram que era chegado o momento de reaver a independência perdida no epílogo da Segunda Guerra.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Um a um, foram todos retomando a soberania que havia sido posta de molho durante mais de quarenta anos. A Iugoslávia, embora não sendo propriamente um «satélite», foi palco de processo mais traumático que os demais. Guerras fratricidas ensanguentaram a região durante anos. Ao final, a federação explodiu e deu lugar a meia dúzia de pequenos países independentes.

Entre eles, está a Eslovênia. Apesar do território exíguo e da população diminuta ‒ ou talvez por causa disso ‒, separou-se mais tranquilamente que os vizinhos. Quando, por plebiscito, os eslovenos optaram pela independência, o poder central iugoslavo fez menção de invadir o novo Estado. Mas o conflito durou pouco. Em poucos dias, sob pressão da Comunidade Europeia, um tratado selou a separação e pôs fim às hostilidades.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

O território esloveno é pouco menor que o de Sergipe. A população do país não passa de dois milhões de pessoas. Assim mesmo, o PIB por habitante é quase o dobro do brasileiro. O país é tranquilo, com paisagens muito bonitas, um daqueles lugares de que pouco se fala, onde raramente acontece algo importante.

Estes dias, enquanto eventual eleição de Donald Trump assustava muita gente, as expectativas na Eslovênia divergiam do resto do mundo. A razão é peculiar: a eslovena Melania Trump (nascida Melanija Knavs) será a nova primeira-dama americana pelos próximos quatro anos. A ex-modelo está casada há onze anos com o presidente eleito.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Ao falar de Trump, a mídia eslovena nunca perde a ocasião de dirigir os holofotes para Melania. Se os cidadãos do pequeno país pudessem ter votado, Trump teria sido eleito por maioria staliniana se não por unanimidade.

Uns que choram, outros que riem. E vamos em frente.

Les jeux sont faits

José Horta Manzano

Pelos próximos quatro anos, se o destino não bancar o desmancha-prazeres e não der uma foiçada, Donald Trump exercerá a presidência dos EUA. Assim que a notícia se espalhou, metade dos americanos abriu o champanhe enquanto os demais abriram o armarinho do banheiro à cata de aspirina.

Muita gente foi apanhada de calça curta. Como em outras votações polêmicas, todos os institutos de pesquisa se enganaram. Até mesmo sondagens de boca de urna ainda mantinham Hillary Clinton na dianteira. O resultado final deixou muita gente atordoada.

eleicao-3Independentemente de ter torcido para este ou para aquele candidato, o distinto leitor há de estar surpreso. Não se sinta solitário, que uma multidão está no mesmo caso. No entanto, pensando bem… sabe quem levou o susto maior? Pois foi exatamente Mister Trump. Ele também sabe ler pesquisas. Já tinha até dado sinais de estar-se preparado para atacar a lisura do processo de apuração.

Para o moço, o importante era ganhar. Governar não estava exatamente nos seus planos. Nascido em berço confortável, deu continuidade ‒ com sucesso ‒ ao espírito empreendedor dos antepassados. Venceu sempre. Desta vez, sua intenção era de mostrar que era o maior, que podia chegar ao posto máximo mesmo sendo absolutamente carente de experiência política. Conseguiu. E agora?

Agora é que são elas. Ataques de palanque, frases de efeito, atitudes ensaiadas, ameaças, xingamentos, invectivas e ofensas ficaram pra trás. Mister Trump terá de usar sua esperteza para cercar-se de gente competente. O maior risco que ele corre nesse sentido é deixar-se levar pelo orgulho e agir como nossa mais recente presidente destituída: só nomear assessores que lhe digam amém. Se fizer isso, será desastroso.

cassino-1Seja como for, no fim das contas, pouco deve mudar para quem vive fora dos EUA. Com ou sem Mister Trump, o país continuará sendo, por muito tempo ainda, a maior potência econômica e militar do planeta. O Reino Unido seguirá firme o caminho do Brexit. A Rússia não abrirá mão da Crimeia. Palestinos e israelenses não farão as pazes. Alguns latino-americanos continuarão a tentar a atravessar o Rio Grande na calada, enquanto outros continuarão a frequentar a Disneylândia.

No Brasil, a mudança será pouca, quase nada. Desde que o lulopetismo cortou o cordão umbilical que nos unia ao mundo dito «ocidental» para fazer ligação direta com a China, decisões tomadas em Pequim têm maior influência sobre nós do que as que são tomadas em Washington.

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Les jeux sont faits, rien ne va plus!
A expressão que usei como título do artigo é difícil de traduzir ao pé da letra. É repetida pelos crupiês, nos cassinos franceses, a cada vez que a roleta é posta a girar. Significa que quem jogou, jogou; não se aceitam mais apostas para esta rodada.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela

José Horta Manzano

Você sabia?

Todos já ouviram falar do cemitério parisiense Père-Lachaise, provavelmente o mais famoso do planeta. Turistas vêm do outro lado do mundo só para ver de perto as tumbas que guardam os despojos de gente famosa. É o lugar de repouso eterno mais visitado: três milhões e meio de curiosos acorrem a cada ano.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Também, pudera. Artistas do porte de Georges Bizet e Frédéric Chopin estão lá. Samuel Hahnemann, o inventor da homeopatia e a artista Sarah Bernhardt também. Allan Kardec, Edith Piaf e centenas de celebridades repousam no Père-Lachaise.

Genebra, cidade internacional mas relativamente pequena, não conta com o esplendor parisiense e nunca exerceu a atração planetária da Cidade-Luz. Assim mesmo, tem um cemitério singular: o Cimetière des Rois ‒ Cemitério dos Reis. Com 2,8 hectares, a necrópole suíça é bem mais modesta que sua equivalente francesa, que se espalha por 44 hectares.

O Cimetière des Rois fica no coração da cidade e, a um turista desavisado, pode até parecer um jardim público. Não é qualquer um que tem direito a eleger residência eterna ali. Todo pedido de concessão tem de ser feito ao Conselho Administrativo da cidade. Cada caso é estudado minuciosamente. Novas autorizações são raras.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Unicamente magistrados e personalidades marcantes ‒ nacionais ou estrangeiras ‒ que tiverem dado contribuição significativa à cidade serão admitidas. Essa política restritiva explica que as sepulturas cheguem hoje a pouco mais de trezentas.

Na maior parte delas, repousam celebridades locais, nem sempre conhecidas além-fronteiras. A tumba mais famosa e mais visitada é a de Jean Calvin (João Calvino), teólogo cristão de origem francesa cuja influência sobre a Reforma Protestante em Genebra, no século XVI, foi determinante. Suas ideias marcaram a implantação do protestantismo em outras terras, até no Reino Unido, na Holanda e nos EUA.

Ernest Ansermet, maestro suíço de renome internacional está enterrado lá. Dois argentinos famosos também: o compositor Alberto Ginastera e o escritor Jorge Luís Borges. O psicólogo suíço Jean Piaget é outro cujos restos repousam no cemitério genebrino.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Um único brasileiro faz parte do seleto clube dos que tiveram direito a sepultura no Cimetière des Rois. Trata-se do carioca Sérgio Vieira de Mello, alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, morto em 2003, aos 55 anos de idade, num atentado em Bagdá. Funcionário de carreira da ONU, era pressentido como possível futuro secretário-geral da organização. O destino tomou outra decisão.

Origem do nome
Nenhum rei está enterrado no cemitério de Genebra. A origem do nome é bem mais prosaica: está situado na Rue des Rois ‒ Rua dos Reis.

Controle canino

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, como nos países do norte da Europa, não há cães errantes. Todo cachorro tem dono. E não é só: todos têm de estar identificados por tatuagem ou chip sub-cutâneo e devidamente registrados na prefeitura, com nome e endereço. Para completar, todo proprietário paga uma taxa anual à prefeitura municipal, pelo direito de possuir um cachorro. É conhecido como imposto-cão, sem trocadilhos.

cachorro-35Embora fosse tão mais cômodo, cães não se resignam a fazer suas necessidades numa caixa de areia, como os gatos. Seria prático para o proprietário, mas não é assim. Cachorro tem de ser levado à rua. Regras existem também para passear com o bicho. Na entrada de cada parque, uma tabuleta indica se a entrada do animal é permitida ou não. Caso seja, a placa informa se ele pode andar solto ou se tem de ser preso pela coleirinha. Pelas ruas, estão espalhados distribuidores de sacos plásticos especiais para coletar cocô. Assim que o cão faz suas necessidades, o dono vem com o saco, apanha os dejetos e leva embora pra descartar no lugar apropriado.

Cada cantão tem liberdade para impor regras e fixar tarifas. Aqui estão alguns exemplos tomados ao acaso:

cachorro-34Cantão de Friburgo
Para ter mais de 2 cães, é necessário obter autorização

Cantão de Berna
Proibição de passear na rua com mais de 3 cães ao mesmo tempo

Cantão de Genebra
Taxa anual para o 1° cão: 50 francos (170 reais)
Para o 2° cão: 70 francos (240 reais)
Para o 3° cão: 100 francos (340 reais)

Todos os cantões
Todo futuro proprietário de cão é obrigado a seguir formação teórica e prática. O diploma lhe dará direito a ser dono de cão. Os cursos ‒ pagos, naturalmente ‒ são dados por monitores credenciados cujo título oficial é ‘educador comportamentalista canino’. O curso teórico deve ser completado antes da aquisição do animal. As aulas práticas devem ser tomadas no ano que se segue à chegada do bichinho.

Para dissuadir pessoas de possuírem mais de um animal, numerosos cantões estudam aumentar o valor da taxa anual, sobretudo a partir do segundo cão. A argumentação prende-se ao fato de que o melhor amigo do homem carrega reminiscências do instinto de malta. Ao avistar o que lhe parece ser uma presa ‒ criança pequena, animal menor ‒ um cão solitário não ousa atacar, ao passo que três ou quatro juntos se podem incentivar mutuamente e assumir comportamento bem mais agressivo.

cachorro-36Por enquanto, possuidores de gatos estão livres de cursos e de taxas. No entanto, em certos cantões já se cogita introduzir imposto (pesado) a ser cobrado dos que possuírem gato não-castrado. A motivação é evitar a proliferação de felinos que, na primavera, sobem às árvores e dizimam filhotes de pássaros.

Interligne 18cPasseando de fom-fom
Permite-se a entrada de cães em transporte público ‒ desde que estejam acompanhados pelo dono, naturalmente. Os bichinhos pagam passagem, como os humanos. Para evitar ter de comprar bilhete a cada vez, pode-se tomar assinatura. O documento, tamanho cartão de crédito, traz a foto do animal.

A companhia nacional de estradas de ferro transporta gratuitamente cães de até 30cm de altura, desde que estejam dentro de bolsa ou de jaula. Nesse caso, viajam de graça, como bagagem. É bom pra cachorro.

Clube do Bolinha

José Horta Manzano

Durante milênios, a dominação masculina sobre a sociedade foi incontestável e incontestada. Cabia ao homem prover ao sustento da família enquanto o papel da mulher era permanecer na sombra, em casa, a cuidar da prole ‒ isso era ponto pacífico. O costume continua valendo em países menos avançados, onde mulher não sai de casa sozinha, não dirige automóvel, não tem direito de votar. Em nossa terra, as coisas evoluíram.

No Brasil de cem anos atrás, mulher nem sempre tinha direito a escolher marido. Era habitual que casamentos fossem combinados entre o pai do noivo e o da noiva. O noivo, na melhor das hipóteses, podia dar opinião. Quanto à noiva, recebia o pacote pronto, sem direito a troca nem a reembolso. Minha avó, que não viveu ao tempo dos sumérios, sofreu essa imposição.

by Julia "Aleutie" Bolchakova, desenhista canadense

by Julia “Aleutie” Bolchakova, desenhista canadense

Em um século, pelo menos no mundo ocidental, os costumes evoluíram muito. Entre os anos 1920 e 1950, o voto feminino foi-se generalizando. Casamentos arranjados praticamente desapareceram. Profissões antes exclusivamente masculinas abriram-se à participação feminina. Até na América Latina, que não é propriamente locomotiva em matéria de igualdade de oportunidades, países como Brasil, Argentina, Chile e Nicarágua têm ou já tiveram mulher na presidência da República.

Hoje em dia, ao menos em teoria, a mulher é livre para escolher profissão e seguir o destino que melhor lhe aprouver. Por motivos que sociólogos, psicólogos e demógrafos devem poder explicar, certos campos de atividade continuam contando com participação majoritária de um ou de outro sexo. Professora primária, parteira e enfermeira, por exemplo, são profissões predominantemente femininas. Motorista de caminhão, encanador e pintor de paredes costumam ser homens.

Infográfico Estadão, 3 nov° 2016

Infográfico Estadão, 3 nov° 2016

Na política, em cargos eletivos, a participação masculina é esmagadora. Para constatar, basta dar uma olhada em roda. Fiquei surpreso ao encontrar, no Estadão de 3 de novembro, um alentado estudo sobre os eleitos nas eleições do mês passado, escrutados segundo critério de sexo. O trabalho, uma coleção de sofisticados infogramas, chega à conclusão de que as câmaras municipais do país são constituídas predominantemente por homens.

E pensar nas horas e horas de trabalho gastas por um grupo de profissionais para chegar a conclusão óbvia. Pouquíssimos são os municípios brasileiros que têm mais vereadoras que vereadores. A pergunta é incontornável: ‒ E daí?

Se os candidatos se tivessem repartido igualmente entre homens e mulheres e os eleitores, diante da urna, tivessem dado o voto aos homens em detrimento das mulheres, aí sim, o fenômeno mereceria estudo aprofundado. Dado que o artigo do Estadão não menciona tal particularidade, é lícito supor que a proporção de homens e mulheres eleitos corresponda à proporção de homens e mulheres que se candidataram. Portanto, o que merece ser estudado é o porquê de haver mais candidatos que candidatas.

Na minha opinião, pouca diferença faz que vereadores e prefeitos sejam homens ou mulheres. O que se espera dos eleitos é espírito público, dedicação ao trabalho, desprendimento, alguma cultura, boas intenções, abertura de espírito, disposição ao diálogo, percepção da realidade local, honestidade. Talvez seja pedir muito.

Corrupto importado

José Horta Manzano

Não é fácil explicar por que razão uns são senhores de fortunas bilionárias enquanto outros não têm o que comer. Pode parecer paradoxal, mas miséria extrema costuma ser mais fácil de explicar do que fortuna colossal.

Miséria é consequência da associação de múltiplas causas. Um coquetel que agrupe rudeza climática, ignorância, má gestão, ausência de Instrução Pública e corrupção tem cem por cento de risco de engendrar bolsões de miséria ‒ se não for miséria generalizada.

dinheiro-9Já fortunas descomunais são mais difíceis de explicar. O mais das vezes, são fortunas antigas, dessas que passam de pai para filho, geração após geração. Em casos assim, as origens do enriquecimento se perdem na poeira do passado. A coisa pode vir de séculos atrás e ser resultado de crescimento paulatino.

É ainda mais complexo desvendar os mistérios que se escondem por detrás de fortunas recentes, fermentadas subitamente. As eleições americanas, previstas para daqui a alguns dias, me fazem refletir sobre o assunto. De fato, Mister Trump, um dos candidatos, é podre de rico, como se costumava dizer. Segundo institutos especializados em medir riqueza alheia, é dono de quatro bilhões de dólares ‒ uma baciada de dinheiro pra ministro nenhum botar defeito.

Relatos biográficos do personagem pipocam aqui e lá. Pelo que se lê, o pai não era nenhum joão sem-terra, ainda que não chegasse a ser propriamente um nababo. O grosso da fortuna foi amealhado pelo atual candidato. Não se deve atirar pedra sem ter certeza, mas é permitido desconfiar que os bilhões de Mister Trump sejam em boa parte resultado de acertos, jeitinhos e truques pouco ortodoxos. Por mais que trabalhe direito, cumpra suas obrigações e pague seus impostos, dificilmente um cidadão comum chegará a poupar quatro bilhões de dólares.

trump-1Como se não nos bastassem nossos corruptos nacionais, que já são numerosos e bastante ativos, eis que nos surge um importado! Não acreditam? Pois doutor Anselmo Henrique Cordeiro Lopes(*), procurador da República, declarou estes dias o seguinte:

«A respeito do grupo econômico The Trump Organization, verificamos que este também foi beneficiado por meio de investimento do FI-FGTS no Fundo de Investimento Imobiliário (FII) PM (Porto Maravilha), que foi veículo de investimento para aporte de recursos na Trump Towers Rio, e que favoreceu, de forma suspeita, o grupo econômico The Trump Organization»

A sintaxe, mesmo tortuosa, deixa entrever um rasgo de verdade: o contribuinte brasileiro, além de ser esfolado pelos corruptos da terra, ainda leva uma bicada de populistas estrangeiros. Fico imaginando que seria cômico a Justiça brasileira se debruçar sobre medalhão americano. Normalmente ocorre o contrário: é a Justiça de lá que ajuda a encurralar os de cá.

Donald Trump - facsimile da assinatura

Donald Trump – facsimile da assinatura

Também, de um indivíduo cuja assinatura apresenta traços de confusão, de aspereza, de forte agressividade e até de tendência à perfídia, o que é que se poderia esperar?

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(*) O procurador Cordeiro Lopes é bacharel em Direito pela USP. É mestre e doutor em Direito Constitucional pela Universidade de Sevilha.

Por culpa do pastel

José Horta Manzano

Especialistas nas artes da mesa, os franceses são bastante rigorosos ao denominar as diversas variedades de alimentos. Cada tipo de comida tem seu nome e ai de quem confundir: simplesmente não será compreendido.

Produtos de boulangerie francesa

Produtos de boulangerie francesa

Meus distintos e cultos leitores certamente já ouviram falar de Marie-Antoinette, esposa de Luís XVI, a última e infeliz rainha da França. No auge da balbúrdia engendrada pela Revolução Francesa, ambos terminaram seus dias na guilhotina. Importada da Áustria, a desaventurada rainha nunca foi bem aceita pelos franceses. Carregava fama de frívola e era desdenhosamente conhecida como «a estrangeira». Não que ela fosse muito diferente da nobreza de sua época. Vivia e agia de acordo com os costumes vigentes. Naqueles tempos, não havia Constituição, o que tornava o poder do rei absoluto. Governar resumia-se a pouco mais que coletar impostos. Imerso em miséria feia, o povão se virava como podia.

Produtos de confiserie francesa

Produtos de confiserie francesa

Quando de uma manifestação de revolta popular causada pela fome, a rainha teria indagado o que é que estava acontecendo. Explicaram-lhe que o povo reclamava porque não tinha pão. Dizem as más línguas que Marie-Antoinette teria retrucado: «Não têm pão? Ora, que comam brioches!» Pessoalmente, não acredito que o diálogo tenha realmente ocorrido. Há de ser intriga da oposição. No entanto, dá bom exemplo do fosso profundo que separava o povão dos nobres. Estes últimos, todo-poderosos, eram de fato os donos do país.

Briche - produto de patisserie francesa

Brioche – produto de pâtisserie francesa

Voltando à culinária francesa, é bom explicar que as artes em que a farinha de trigo entra como ingrediente principal se subdividem em três ramos principais: a boulangerie (padaria), a confiserie (confeitaria) e a pâtisserie (pastelaria). Urge dizer que esta última especialidade, a pâtisserie, é de difícil tradução em português do Brasil. Na verdade, nosso pastel, especialidade desconhecida na França, ocupou o espaço semântico. No Brasil, pastelaria é comércio especializado em vender pastéis. Traduzir pâtisserie ficou complicado. Em Portugal, onde nosso pastel é apenas curiosidade exótica, as pastelarias são lojas que correspondem exatamente às pâtisseries francesas.

Qual a diferença entre os três ramos que utilizam a farinha como matéria-prima principal? O boulanger (=padeiro) faz pão. O produto pode ser pequenino, enorme, comprido, massudo, redondo, macio, cascudo, escuro, com cereais, quadrado, torcido, com isto, com aquilo. Cada padaria tem especialidades próprias.

Croissant - produto de pâtisserie francesa

Croissant – produto de pâtisserie francesa

O confisier (=confeiteiro) especializa-se em doce confeitado. É frequente o uso de chocolate nas composições. Bala, bombom, caramelo e puxa-puxa, embora não levem farinha, são especialidades de confeiteiro.

E o pâtissier (=pasteleiro) fabrica especialidades em que farinha e açúcar assumem papel importante. Bolo, croissant e brioche(*) são artigos emblemáticos. Tortas, roscas e pães doces também são produtos de pâtisserie. Muitas vezes, o profissional utiliza massa folhada.

Toucinho do céu - especialidade portuguesa

Toucinho do céu – especialidade portuguesa

Se estiver de visita a Portugal e vir uma pastelaria, não peça pastel de carne nem de pizza, que não vai encontrar. Opte por pastéis de nata, de Santa Clara ou de Belém. Pode também experimentar um toucinho do céu ‒ vai adorar.

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(*) Diferentemente do que acontece em português, brioche é palavra feminina em francês.

Placa de automóvel na Suíça

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça é um dos poucos países onde placa de automóvel não pertence ao veículo mas ao proprietário do veículo. E como é que funciona?

Suponhamos que o cidadão compre seu primeiro carro, novinho em folha, direto da concessionária. A própria loja se encarregará de cumprir as formalidades junto às autoridades. O feliz proprietário já receberá seu carro emplacado e pode sair por aí.

placa-24No dia em que quiser revender o carro, vai entregar os documentos ao comprador mas não a placa. Deve tirá-la do carro e guardá-la. Se tiver intenção de utilizar a placa em outro veículo (novo ou de segunda mão), basta avisar o Departamento de Tráfego, completar a papelada, pagar eventuais taxas e pronto: pode instalar sua placa no novo carro.

Caso tenha aderido à filosofia do ecologicamente correto e tiver desistido de possuir veículo próprio, basta devolver as placas ao Serviço dos Automóveis e não se fala mais nisso. Vai receber reembolso da taxa de circulação e do seguro pro rata temporis.

Se tiver intenção de dar um tempo antes de comprar novo veículo, o melhor será entregá-la ao Departamento de Tráfego para armazenagem. Por módica taxa, ela será conservada por até um ano, à disposição do proprietário a qualquer momento. A vantagem dessa devolução temporária é que, durante o período de armazenagem, o proprietário não terá de pagar taxa de circulação nem seguro. Passado um ano, o direito ao uso da placa prescreverá. Caso o cidadão compre novo veículo no futuro, receberá nova placa.

placa-23Nenhum veículo pode circular sem placa ‒ é o que diz a lei. Então como é que fica no caso do comprador de carro de segunda mão? Se o proprietário antigo retém a placa, o novo dono sai por aí sem placa? Não pode. Pra remediar, a administração já pensou nesse problema. Antes de concluir a transação, o comprador terá de passar pelo Departamento de Tráfego e solicitar uma autorização provisória de circulação. O papel lhe dá direito a deslocar-se ‒ uma vez só ‒ do lugar onde está o veículo até o posto de emplacamento mais próximo. Se for parado no meio do caminho, o documento o protegerá contra toda sanção.

A grande vantagem desse sistema é evitar que, depois de haver vendido um carro, o antigo proprietário continue a receber multas cujo culpado é um novo dono que, distraída ou dolosamente, se «esqueceu» de transferir a posse. No Brasil, isso já aconteceu comigo. Dá uma dor de cabeça dos diabos, porque nem sempre é fácil localizar o novo possuidor.

placa-25Tem mais uma particularidade suíça: a placa intercambiável. Suponhamos que o indivíduo tenha dois veículos que nunca são utilizados ao mesmo tempo. Digamos que usa um deles para o trabalho, durante a semana, reservando o outro para passear no fim de semana. É possível ter uma placa só, intercambiável entre os dois carros.

As condições são duas. Por um lado, os dois automóveis nunca poderão circular ao mesmo tempo. Por outro, aquele que estiver sem placa não pode ser estacionado em via pública ‒ terá de ser guardado em lugar particular, que seja garagem, jardim, terreno ou assemelhado.

A vantagem de ter uma placa só para dois veículos é que uma só taxa de circulação e um só seguro valem para os dois. São 50% de economia.

População urbana

José Horta Manzano

O Programa da ONU dedicado a assentamentos humanos estima que, daqui a pouco mais de uma década, 90% da população do Brasil será urbana, ou seja, nove em cada dez cidadãos viverá numa cidade. À primeira vista, parece um progresso, um avanço civilizatório. Será mesmo?

A resposta não é simples. Para início de conversa, seria preciso estabelecer critérios internacionalmente uniformes, o que não é o caso. Na Suíça, por exemplo, para ter direito a ser chamada de cidade, a aglomeração tem de contar com pelo menos dez mil habitantes. Na França, bastam dois mil. Em outros países, 500 habitantes já são suficientes para um povoado subir de categoria.

village-2O Brasil carece de critérios claros, o que impede uma estimação precisa. Aliás, nos primeiros séculos da colonização, quem decidia era o rei. Para ser «elevado» à categoria de vila, o povoado dependia de um decreto real, o que prova que não é de hoje que os amigos do rei são mais iguais que os outros. Seja como for, na falta de padrão internacional, temos de nos basear nos dados disponíveis.

É interessante notar que o Brasil contabiliza hoje cerca de 85% de sua população vivendo em cidades. É mais urbanizado que países como a Itália (69%), a Suíça (74%), a França (80%), a Alemanha (75%), a Áustria (66%) e até os EUA (82%). Logo, conclui-se que, em matéria avanço civilizatório, nosso país está à frente dos que mencionei. A pobre Itália, com quase trinta porcento de habitantes morando na zona rural, viveria ainda mergulhada na Idade Média, enquanto nós já estaríamos com um pé na modernidade. Será mesmo?

Não acredito. Esses números, pelo menos no que se refere ao Brasil, são mais preocupantes que auspiciosos. Eles atestam que a cidade, principalmente a cidade grande, exerce atração irresistível. Por que acontece isso? O bom povo de aglomerações pequenas corre atrás da poluição, do barulho, do tráfego infernal? O distinto leitor há de convir que não é esse o chamativo. O diagnóstico é menos charmoso.

by Paulo Talarico, pintor mineiro

by Paulo Talarico, pintor mineiro

Em decorrência de desleixo secular, a implantação da indústria, do comércio e dos serviços se fez na valentona, sem planejamento e sem diretivas. O resultado é um desastre: abundância de oferta em grandes aglomerações e carência gritante em localidades menores. Na Alemanha, na Suíça ou na Itália, país que não é tão medieval assim, vilarejos pequeninos dispõem de um leque satisfatório de serviços, o que inibe o êxodo rural.

Em nosso país, o comércio e os serviços disponíveis em cidades menores nem sempre estão à altura da demanda. Vai daí, muitos jovens partem e acabam se fixando em localidades maiores em busca de oferta mais afinada com suas necessidades.

Diferentemente do que se imagina, a estabilização ‒ ou até a diminuição ‒ da taxa de urbanização no Brasil seria sinal positivo. Demonstraria que necessidades e anseios da população das vilas estão sendo cuidados.

Juros negativos

José Horta Manzano

Você sabia?

Banco 3O chefe do Departamento Federal Suíço das Finanças é o diretor de erário mais feliz do planeta. Seu país é um dos raros a poder-se dar ao luxo de tomar empréstimo com juro negativo.

De fato, quem comprar obrigações emitidas pelo governo suíço pode esquecer o velho tempo em que o emprestador costumava receber juros sobre o capital empatado. Atualmente, cabe ao emprestador pagar dividendos, numa curiosa inversão do panorama habitual.

Por exemplo, em março 2016, a Confederação Helvética(1) tomou emprestados 330 milhões de francos (= 330 mi US dólares) à taxa negativa de 0,65%. Trocando em miúdos, os investidores terão de desembolsar 6,50 francos por ano para cada 1000 francos empatados.

Até mesmo tomadas de empréstimos com prazo de 50 anos para reembolso oferecem juros negativos. Assim mesmo, encontram investidores interessados. É estonteante.

Dinheiro 1Compreendo que juros possam estar muito baixos. Na Suíça, caderneta de poupança rende atualmente 0,01% de juros… ao ano(!), taxa meramente simbólica. Agora, emprestar ao governo e ainda ter de pagar ‒ isso supera meu entendimento.

Sei que a política monetária nacional baixou drasticamente os juros para evitar a entrada de capitais, protegendo assim a moeda contra uma supervalorização que prejudicaria turismo e exportações. Mas, disse e repito, ainda não consegui compreender por que razão alguém pagaria taxa anual para depositar seu dinheirinho no país(2).

Olhe, eu posso até não saber, mas há muita gente no Brasil que pode responder a essa pergunta.

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(1) Confederação Helvética é o nome oficial da Suíça.

(2) Felizmente, aos residentes no país, ainda é permitido manter conta no banco sem ter de pagar juros negativos. Não se recebe nada, mas tampouco se tem de pagar. Por enquanto.

O preço da vaidade

José Horta Manzano

Quatro anos atrás, quando foi eleito e assumiu a presidência da França, monsieur François Hollande se sentia como se estivesse sentado numa nuvem, pairando sobre a humanidade. Tinha chegado lá! Ele não é um caso especial. Todo figurão político, uma vez eleito para cargo importante, parece entrar num universo paralelo. É difícil escapar ao sentimento de superioridade, à impressão de invulnerabilidade daquele que já entrou para a História.

Por aqueles dias, dois jornalistas do jornal Le Monde pensaram em escrever um livro contando a história da presidência Hollande. Pediram entrevista ao presidente e apresentaram-lhe a ideia. Montar o livro era obra de paciência. Ficou combinado que, ao longo de três ou quatro anos, os dois escritores teriam encontros com o presidente para recolher suas confidências.

francois-hollande-10Agora, seis meses antes do fim do mandato de monsieur Hollande, o livro finalmente ficou pronto e acaba de ser posto à venda. Traz o resumo de mais de sessenta encontros, espalhados por quatro anos em cerca de 200 horas de conversa. Como se sabe, a desgraça atrai mais a atenção do que a felicidade. Todos os jornalistas do país leram rapidamente a obra a fim de descobrir as passagens mais picantes.

Os autores, por seu lado, não foram lá muito bonzinhos na hora de escolher título para o livro. Chamaram-no «’Un président ne devrait pas dire ça…’» ‒ ‘Um presidente não deveria dizer isso…’. Puseram entre aspas, dado que a frase foi realmente pronunciada pelo próprio presidente em algum momento das entrevistas. Com isso, evitaram toda acusação de traição e turbinaram a venda da obra. O livro se vende às pilhas em todas as livrarias e supermercados.

Em 200 horas de bate-papo, sai muita coisa boa, mas é inevitável que o gravador registre bobagens também. Saiu muita besteira, que incomodou muita gente. Uma delas, mais contundente, sacudiu o coreto. É o trecho em que o presidente qualifica os magistrados como «lâches», que equivale a covardes ou frouxos. Ai, ai, ai…

A magistratura se alevantou indignada. A grita foi tão estrondosa que obrigou o presidente a pedir desculpas públicas. Disse ele que o que disse não era bem o que disse, que a coisa não era bem assim, que havia sido mal compreendido. Soltou aquelas desculpas esfarrapadas de quem não tem como justificar um escorregão. Sua humilhação serviu para acalmar um pouco o escândalo. Ah, essa vaidade que acomete os poderosos… Imaginam-se todos acima do bem e do mal, sentimento ilusório.

francois-hollande-11O episódio me trouxe à lembrança certas falas do ex-presidente Lula. Também ele um dia imaginou-se inatingível. Disse cobras e lagartos. Com verbo tosco, agrediu a magistratura, numa tentativa desastrada de desqualificar justamente aqueles que, um dia, poderiam ser chamados a julgá-lo. Taí: o momento chegou.

Como o distinto leitor pode se dar conta, nosso guia não foi o único a cair na armadilha. É perigoso e contraproducente indispor-se contra a Justiça. Como se costuma dizer, não convém cuspir pra cima. O mundo dá voltas e a cusparada periga cair em cima do bravateiro. A coisa vai e a coisa vem ‒ ninguém revoga as leis da física.

Mercosul e hora de verão

José Horta Manzano

Até meados do século XIX, cada lugarejo era regido pela hora local. O campanário de cada igreja ritmava as idas e vindas da população. O advento do telégrafo e, principalmente, das ferrovias forçou a normatização. Com hora variando de uma cidade para outra, era virtualmente impossível estruturar o horário dos trens.

Depois de muita discussão e muita negociação, o planeta foi dividido em 24 fusos horários e cada país adotou o que lhe correspondia. Países mais extensos espalham-se por dois ou mais fusos ‒ como é o caso do Brasil.

Relógio moleA duração dos dias e das noites não é idêntica ao longo do ano. Quanto mais nos afastamos do Equador, maior é a diferença de duração entre os períodos de claridade e escuridão. Essa diferença se alterna durante do ano. No verão, os dias são mais longos que as noites ‒ no inverno, ocorre o inverso.

Para economizar energia elétrica, faz quase cem anos que se encontrou um paliativo: altera-se a hora oficial durante o verão; chegado o inverno, volta-se à hora tradicional. Isso resulta em um começo de noite ainda com céu claro, contribuindo para economizar eletricidade. Numerosos países adotam essa alternância.

Em 1985 ‒ 31 anos atrás ‒, a União Europeia decidiu adotar a hora de verão. Ela entra em vigor todos os anos, às 2h da manhã do último domingo de março e vai até as 2h da manhã do último domingo de outubro. Com exceção do Reino Unido, todos os países acertaram o passo e aderiram ao ritmo. Com o Brexit, a Grã-Bretanha continua seguindo o próprio caminho e a anomalia britânica deixa de ser exceção dentro da UE.

Nosso Mercosul, fundado 25 anos atrás, é constituído por apenas 4 países(1) contra 27 da UE. Pasme o distinto leitor: pelas bandas do Cone Sul ainda não se chegou a um acordo sobre o problema. Reuniões, cúpulas, tratados, convenções, pronunciamentos não faltaram. Cansamos de ver fotos de presidentes, mãos dadas ou braços erguidos numa enternecedora irmandade. Mas parece que a fraternidade começa e termina nas fotos, nunca chega à vida real. Vive-se num mundo de símbolos sem significado prático.

Relógio solarEm 2008, depois de agir erraticamente por mais de vinte anos por meio de decretos anuais, o Brasil finalmente regulamentou a hora de verão. É adotada anualmente nos Estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Vigora do 3° domingo de outubro ao 3° domingo de março. Nosso país agiu por conta própria, sem procurar harmonizar o calendário com o Paraguai, por exemplo, que também adota a prática mas faz a mudança em dias diferentes dos nossos. A Argentina(2) e o Uruguai, países cuja posição geográfica justificaria plenamente a mudança anual, não adotam a hora de verão.

O resultado dessa falta de coordenação atravanca ‒ ainda mais! ‒ as relações políticas e comerciais entre os membros do grupo. Se quatro gatos pingados não conseguiram acertar os ponteiros depois de 25 anos de casamento, fica no ar a pergunta: será que vale a pena continuar casados?

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(1) A Venezuela, dadas as circunstâncias irregulares de sua admissão, não vem sendo tratada como membro verdadeiro. Por enquanto, vive num limbo, como um ‘penetra’ que pulou a janela.

(2)Provavelmente no intuito de encaixar o país inteiro num fuso só, a Argentina optou por uma espécie de hora de verão permanente. A hora legal está adiantada em relação ao percurso do sol.

Nas regiões situadas mais a leste (Buenos Aires, Mar del Plata, Puerto Iguazu), a defasagem é de pouco mais de meia hora. Nessas cidades, quando os relógios marcam meio-dia, ainda falta mais de meia hora para o sol chegar ao ponto mais alto no céu.

Em certas localidades situadas mais a oeste (Bariloche, El Calafate), a defasagem entre hora oficial e hora solar chega a uma hora e meia. Nesses lugares, quando o relógio diz que é meio-dia, a hora solar não passa de 10h30.

Fifa-Mafia

José Horta Manzano

O alemão Thomas Kistner (1958-) é jornalista e escritor. Especializado em esportes, escreve para o quotidiano de Munique Süddeutsche Zeitung. Nos últimos anos, publicou meia dúzia de livros, os mais polêmicos dos quais mostram a promiscuidade entre esporte, dinheiro e dopagem. Naturalmente, seu cavalo de batalha é a Fifa, organização que coordena o esporte mais popular do mundo.

Seu penúltimo livro, lançado em 2014, chama-se FIFA-Mafia. Die schmutzigen Geschäfte mit dem Weltfußball ‒ Fifa-Mafia, os negócios sujos do futebol mundial. O nome já diz tudo. E olhe que foi escrito antes da espetaculosa ação da polícia suíça que mandou para o xilindró um certo senhor José Maria Marín acompanhado de meia dúzia de cartolas planetários.

blatter-2«A Fifa e a máfia se assemelham ao oferecer cargos e empregos a filhos, tios, sobrinhos, amigos próximos, que trabalham em empresas secretas mundo afora. Há uma enorme rede de negócios em torno da Fifa que inclui parentes de dirigentes.» Profundo conhecedor da cúpula futebolística, Kistner faz afirmações dessa magnitude.

No entanto, como se sabe, pau que nasce torto não tem jeito. Em que pese a prisão e a extradição para os EUA de figurões medalhados, a chefia do futebol mundial continua a dar mostras de compadrio e conivência com o crime. Proteger companheiros ainda é palavra de ordem.

O exemplo mais recente é o novo estatuto da Conmebol, o organismo que coordena o futebol sul-americano. Como é natural, encontros periódicos reúnem os presidentes das diversas confederações do subcontinente. Em geral, têm lugar no Paraguai, onde está a sede da entidade. Nada estava previsto para o caso de algum presidente faltar à reunião. Pois essa lacuna foi preenchida.

jornal-5Dado que senhor Del Nero, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) teme ser preso caso viaje ao exterior, o estatuto da Conmebol aceita, desde setembro último, que um substituto tome o lugar de qualquer presidente ausente. A medida, como se vê, tem beneficiário líquido e certo. O cartola que preside aos destinos do futebol pentacampeão não ousa pôr os pés além das fronteiras nacionais por medo de ser preso. A situação já dura mais de três anos. Charmoso, não?

Mas deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar. Enfronhado no assunto, o mencionado jornalista alemão avalia que as condenações e as multas bilionárias aplicadas pela Justiça americana devem ser anunciadas a qualquer momento e poderão significar o fim da Fifa. Não seria má notícia. Quando a maioria das laranjas está podre, mais vale jogar fora o cesto inteiro.