Mercosul e hora de verão

José Horta Manzano

Até meados do século XIX, cada lugarejo era regido pela hora local. O campanário de cada igreja ritmava as idas e vindas da população. O advento do telégrafo e, principalmente, das ferrovias forçou a normatização. Com hora variando de uma cidade para outra, era virtualmente impossível estruturar o horário dos trens.

Depois de muita discussão e muita negociação, o planeta foi dividido em 24 fusos horários e cada país adotou o que lhe correspondia. Países mais extensos espalham-se por dois ou mais fusos ‒ como é o caso do Brasil.

Relógio moleA duração dos dias e das noites não é idêntica ao longo do ano. Quanto mais nos afastamos do Equador, maior é a diferença de duração entre os períodos de claridade e escuridão. Essa diferença se alterna durante do ano. No verão, os dias são mais longos que as noites ‒ no inverno, ocorre o inverso.

Para economizar energia elétrica, faz quase cem anos que se encontrou um paliativo: altera-se a hora oficial durante o verão; chegado o inverno, volta-se à hora tradicional. Isso resulta em um começo de noite ainda com céu claro, contribuindo para economizar eletricidade. Numerosos países adotam essa alternância.

Em 1985 ‒ 31 anos atrás ‒, a União Europeia decidiu adotar a hora de verão. Ela entra em vigor todos os anos, às 2h da manhã do último domingo de março e vai até as 2h da manhã do último domingo de outubro. Com exceção do Reino Unido, todos os países acertaram o passo e aderiram ao ritmo. Com o Brexit, a Grã-Bretanha continua seguindo o próprio caminho e a anomalia britânica deixa de ser exceção dentro da UE.

Nosso Mercosul, fundado 25 anos atrás, é constituído por apenas 4 países(1) contra 27 da UE. Pasme o distinto leitor: pelas bandas do Cone Sul ainda não se chegou a um acordo sobre o problema. Reuniões, cúpulas, tratados, convenções, pronunciamentos não faltaram. Cansamos de ver fotos de presidentes, mãos dadas ou braços erguidos numa enternecedora irmandade. Mas parece que a fraternidade começa e termina nas fotos, nunca chega à vida real. Vive-se num mundo de símbolos sem significado prático.

Relógio solarEm 2008, depois de agir erraticamente por mais de vinte anos por meio de decretos anuais, o Brasil finalmente regulamentou a hora de verão. É adotada anualmente nos Estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Vigora do 3° domingo de outubro ao 3° domingo de março. Nosso país agiu por conta própria, sem procurar harmonizar o calendário com o Paraguai, por exemplo, que também adota a prática mas faz a mudança em dias diferentes dos nossos. A Argentina(2) e o Uruguai, países cuja posição geográfica justificaria plenamente a mudança anual, não adotam a hora de verão.

O resultado dessa falta de coordenação atravanca ‒ ainda mais! ‒ as relações políticas e comerciais entre os membros do grupo. Se quatro gatos pingados não conseguiram acertar os ponteiros depois de 25 anos de casamento, fica no ar a pergunta: será que vale a pena continuar casados?

Interligne 18h

(1) A Venezuela, dadas as circunstâncias irregulares de sua admissão, não vem sendo tratada como membro verdadeiro. Por enquanto, vive num limbo, como um ‘penetra’ que pulou a janela.

(2)Provavelmente no intuito de encaixar o país inteiro num fuso só, a Argentina optou por uma espécie de hora de verão permanente. A hora legal está adiantada em relação ao percurso do sol.

Nas regiões situadas mais a leste (Buenos Aires, Mar del Plata, Puerto Iguazu), a defasagem é de pouco mais de meia hora. Nessas cidades, quando os relógios marcam meio-dia, ainda falta mais de meia hora para o sol chegar ao ponto mais alto no céu.

Em certas localidades situadas mais a oeste (Bariloche, El Calafate), a defasagem entre hora oficial e hora solar chega a uma hora e meia. Nesses lugares, quando o relógio diz que é meio-dia, a hora solar não passa de 10h30.

Tresnoitados

José Horta Manzano

Relogio CFF

Hoje, que é domingo, ainda não está dando pra perceber, mas amanhã é que todos vão sentir na pele. Ou na pálpebra. Sentir o quê? A mudança de hora, ora! Todos os países europeus ‒ com exceção da Rússia e de dois ou três vizinhos ‒ entraram na hora de verão este fim de semana.

Como no resto do mundo, a justificativa para impor esse desagradável ritual bianual é poupar energia. Muitos contestam argumentando que os inconvenientes pesam mais que a diminuta economia. É discussão sem fim, que vem dando pano pra mangas e não vai se extinguir tão já.

A primeira experiência concreta de instaurar hora de verão teve lugar na Alemanha, em 1916, em plena guerra mundial. A ideia, considerada genial, foi adotada pelo Reino Unido e pela França naquele mesmo ano.

De lá pra cá, a adoção da mudança de hora foi esporádica. De quando em quando, um país decidia instaurá-la, enquanto vizinhos não tocavam no relógio. Nos tempos em que as comunicações internacionais em tempo real eram reduzidas, a discrepância não incomodava muito.

Mas os tempos mudaram, e a uniformização da prática foi-se fazendo necessária. A partir do início dos anos 80, um após o outro, todos os países europeus foram-se alinhando à rotina.

Relógio solar

Relógio solar

Nos primeiros anos, o Reino Unido, embora adotasse a hora de verão, não mexia em seus relógios ao mesmo tempo que os demais países europeus. A mudança entrava em vigor com defasagem de algumas semanas com relação aos vizinhos. Maldosos, os franceses aproveitavam para repetir que «os ingleses não conseguem mesmo fazer nada como os outros».

Essa excepcionalidade terminou em 1998. Naquele ano, a União Europeia normatizou a prática. Ficou combinado que a hora de verão passasse a vigorar da 1h (GMT) do último domingo de março até às 2h (GMT) do último domingo de outubro.

Relógio moleAgricultores e criadores de gado detestam a medida. Argumentam que vacas, que não usam relógio, devem ser ordenhadas sempre à mesma hora. É grita inútil. A norma que estabelece a dança das horas periga continuar ad vitam aeternam.

Anotemos pois: a partir deste 29 de março, Brasília está distante quatro horas de Lisboa, Dublin e Londres. E cinco horas dos outros países da Europa ocidental.

Falando nas agulhadas que ingleses e franceses adoram aplicar-se mutuamente, ocorre-me que nossa expressão sair de fininho se traduz assim:

Interligne vertical 13em inglês: «take a French leave» (sair à francesa)

em francês: «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa).

Mal-educados são sempre os outros, nunca nós mesmos. Interessante, não?

Vamos terminar parodiando o fecho com que Millôr Fernandes costumava encerrar suas historietas: pano rapidíssimo.