Atirando no escuro

José Horta Manzano

Umas profissões são arriscadas; outras, mais tranquilas. Um policial, um acróbata, um alpinista, um repórter de guerra correm perigo maior do que um contador, um agrimensor, um pizzaiolo ou um técnico em informática.

Assim mesmo, arriscada ou não, toda profissão pode dar a quem a exerce momentos de júbilo ou de frustração grande. Tomemos, por exemplo, a advocacia penal. Pode ser fonte de alegria e satisfação para o profissional quando o veredicto é favorável a seu cliente. Caso contrário, traz decepção, chateação e aflição.

escrita-7O ofício de articulista e o de analista ‒ falo desses que escrevem artigos para a grande mídia ‒ pode às vezes dar motivo a desapontamento. Quando algum acontecimento se está inexoravelmente aproximando, artigos costumam ser escritos antecipadamente. À medida que personalidades conhecidas vão envelhecendo, necrológios já vão sendo preparados. Dormem na gaveta das redações. (Hoje é mais adequado dizer que ficam armazenados em pastas de computador, mas dá no mesmo.) Assim que chega a notícia do falecimento, não precisa correr à Wikipédia à cata de pormenores da vida e do instinto do distinto extinto. Basta acrescentar algumas linhas ao esboço para dar o fecho. Não é cinismo, que a vida é assim mesmo.

Passadas as eleições americanas, pelas quais todo o planeta se interessou, chegou o tempo das análises. Todas as previsões e palpites davam como certo o final. Seria o relato da história, da glória e da vitória de Hillary Clinton. É de imaginar que, previdente, a maioria dos comentaristas já houvesse preparado artigos, às vezes com semanas de antecedência. Estavam os papéis prontos para publicação quando… paf! Contra todos os prognósticos, venceu Trump.

escrita-6Fico imaginando as resmas de papel atiradas ao lixo. Tiveram todos de costurar à pressa artigo novinho. Saíram no encalço do vencedor pra relembrar excesso, progresso e sucesso do inconfundível, irascível e imprevisível bilionário. As rimas são propositais, tanto o personagem é ativo, permissivo e agressivo.

Pensando bem, é mais cômodo escrever elogio fúnebre. A personalidade, seja ela quem for, acaba morrendo um dia, é certeza. Agora basta aos que escreveram sobre Mrs. Clinton guardar o material numa pasta. Um dia, é garantido que vai servir.