Abelhas de bicicleta

José Horta Manzano

Uma cena pouco comum se passou na tarde de sábado passado no centro da cidade de Paris. Um senhor chegou montado em sua bicicleta, que ele diz ser “quase centenária”, estacionou ao longo da mureta que cerca a escadaria que conduz a uma estação de Metro, na proximidade do Museu do Louvre. E afastou-se por alguns minutos.

Quando voltou, meia hora havia passado. Ficou surpreso quando viu, ainda de longe, um pequeno ajuntamento ao redor da bicicleta. “O que é que esse povo está fazendo em volta da minha centenária?” Ao aproximar-se entendeu o que era.

Naquele curto espaço de tempo, um enxame de abelhas, depois estimado entre 10 mil e 15 mil insetos, tinha se instalado debaixo do banco do veículo. Os bichinhos formavam um cacho escuro compacto, preso ao selim. Passado o primeiro momento de susto, o dono da bicicleta se perguntou “Como é que eu faço pra ir embora pra casa?”

Antes que ele tirasse o telefone do bolso, os encarregados da segurança do Metrô de Paris já tinham tomado providências. Faixas foram espichadas em volta do veículo para evitar que curiosos se aproximasse demais e levasse alguma picada. A melhor dica nessas circunstâncias é mandar vir um apicultor, dado que esses profissionais sabem como lidar com abelhas e estão sempre interessados em receber um novo enxame.

Pelas seis e meia da tarde, Monsieur Tanaci, apicultor urbano de provável origem romena, veio atender à ocorrência. Paramentado para enfrentar a colônia de abelhas, recolheu-as todas com o carinho peculiar a todo apicultor – ploft, pluft.

O enxame será instalado no teto de um dos prédios das redondezas, na proximidade de árvores que florescem nesta época do ano. Indagado, o apicultor explicou que daqui a um mês já será possível provar o mel que quase nasceu num selim de bicicleta.

Veja um enxame que se muda de casa.

O Toblerone adaptado

José Horta Manzano

Você sabia?

Curiosamente, o pai do Toblerone não chegou a ver nascer o filho. Jean Tobler (1830-1905), nascido Johan Jakob Tobler, confeiteiro de profissão, abriu uma chocolataria em Berna, Suíça em 1867. Nos primeiros anos, Herr Tobler preparava seus confeitos com chocolate bruto comprado fora. Lentamente, conforme os negócios foram progredindo, veio a ideia de produzir seu próprio chocolate a partir de cacau importado. A fábrica Tobler foi inaugurada em 1899, fruto da associação entre o confeiteiro, seu filho Theodor e o sobrinho Emil Baumann. Mas o Toblerone ainda não havia sido inventado.

toblerone-6Após a morte do patriarca, os negócios da chocolataria continuaram. Por ocasião de uma viagem ao sul da França em 1908, Theodor Tobler provou o que os franceses chamam nougat, conhecido como torrone na Itália e turrón na Espanha. É um puxa-puxa à base de amêndoa, pasta de amêndoa e mel. Encantado, trouxe uma amostra para o primo experimentar. Foi amor à primeira vista.

Tiveram logo a ideia de acrescentar chocolate à receita pra ver no que dava. O resultado foi além de toda expectativa: de-li-ci-o-so. Veio aí a sacada de mestre. Em vez de apresentar a novidade em formato tradicional, escolheram moldá-la como barra comprida, com perfil alternando altos e baixos, de maneira a não encarecer demasiadamente o produto e a torná-lo mais fácil de partir em pedaços. É o primeiro chocolate em barra de que se tem notícia.

toblerone-5A fama do novo produto cresceu lentamente. A partir dos anos 60, com a fábrica já comandada pela terceira geração, novidades começaram a ser introduzidas. Veio primeiro o Toblerone amargo, em seguida o branco, o recheado, o de formato miniatura. Hoje, há mais de uma dezena de variedades, umas com isto, outras com aquilo.

Ao atingir certa massa crítica, toda empresa tende a ser passada adiante. Raras são as firmas colossais que permanecem sob controle familiar. A Tobler não escapou. Faz alguns anos, foi vendida a uma gigantesca multinacional americana. No entanto, ninguém mexe em time que está ganhando. Embora exportadas em mais de cem países, as barras continuam a ser fabricadas em Berna. Os novos donos compreenderam a importância que o carimbo «Made in Switzerland» acrescenta à imagem do produto.

toblerone-7Estas últimas semanas, o Toblerone voltou às manchetes no Reino Unido. A decisão de abandonar a União Europeia teve, como consequência imediata, forte desvalorização da libra esterlina. Tudo o que é importado ‒ como o chocolate Tobler ‒ ficou mais caro. Para contornar o problema, o fabricante passou a produzir, especialmente para o mercado britânico, um formato modificado. Cada barra contém menos chocolate, mas o preço antigo permanece. Os ingleses não apreciaram a mudança, mas… que fazer?

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Brasão de Berna

A origem do nome
Toblerone é resultado da junção do sobrenome Tobler com o final da palavra italiana torrone.

toblerone-4O urso
O símbolo de Berna é o urso, cujo nome em alemão é bär (pronúncia: bér). O logotipo do Toblerone mostra a imagem estilizada do monte Matterhorn (= Cervin ou Cervino). Escondido no claro-escuro do desenho, percebe-se um urso. Além disso, as cinco letras que formam o nome Berne estão incluídas na palavra Toblerone ‒ na ordem correta. Estão lá para lembrar ao consumidor a origem do produto.