José Horta Manzano
Alguém disse um dia que brasileiro não sabe votar. Desde então, volta e meia a frase se repete. Será verdade?
O voto do último domingo deixou claro que nós, eleitores brasileiros, embora apáticos em tempos normais, sabemos, quando espicaçados, levantar de nosso berço esplêndido, sacudir a preguiça, arregaçar as mangas e, passo firme, parar de choramingar, e batalhar pela solução de nossos próprios problemas.
Dinheiro na mala, dólares na cueca, emendas parlamentares que vão encher bolsos amigos, orgias entre homens de bem e profissionais do sexo, palavrões pronunciados no seio de famílias cristãs – esses fatos já não escandalizam. Na hora de escolher candidato, o brasileiro hoje releva deslizes que, em outros tempos, trariam grande desonra pública a quem os cometesse.
Os resultados do primeiro turno de votação escancararam o tremendo risco de um miliciano (nas palavras do Lula) ser guindado à Presidência do país. Muitos eleitores não deram importância, mas o perigo deixou a maioria do eleitorado assustada. Diante do perigo, os “brasileiros que não sabem votar” animaram-se, arrebanharam amigos, vizinhos, parentes, avôs e avós, e acudiram às urnas a mostrar que conosco ninguém podosco.
Conseguiram o que ninguém imaginava possível: deram a Lula 10 milhões de votos a mais do que ele tinha recebido no primeiro turno. Coisa de louco. Com isso, Luiz Inácio deixou Bolsonaro jr comendo poeira. O crescimento do Lula foi tão grande, que deixa a impressão de ele ter recebido boa parte dos votos dos candidatos nanicos, mais os votos que correspondem à queda na abstenção, mais uma parte dos votos de Bolsonaro jr., dados por eleitores arrependidos.
Seja como for, foi um alívio e uma boa surpresa. Lula tem agora quatro anos para dourar sua biografia. Tem de fazer tudo para que seu último mandato corresponda à confiança que os eleitores depositaram nele.
E tem mais: chegou a hora de deixar o egoísmo de lado, afrouxar rédeas e permitir o surgimento de novas lideranças em seu entorno, pra evitar que seu partido desapareça junto com ele.



O ofício de articulista e o de analista ‒ falo desses que escrevem artigos para a grande mídia ‒ pode às vezes dar motivo a desapontamento. Quando algum acontecimento se está inexoravelmente aproximando, artigos costumam ser escritos antecipadamente. À medida que personalidades conhecidas vão envelhecendo, necrológios já vão sendo preparados. Dormem na gaveta das redações. (Hoje é mais adequado dizer que ficam armazenados em pastas de computador, mas dá no mesmo.) Assim que chega a notícia do falecimento, não precisa correr à Wikipédia à cata de pormenores da vida e do instinto do distinto extinto. Basta acrescentar algumas linhas ao esboço para dar o fecho. Não é cinismo, que a vida é assim mesmo.
Fico imaginando as resmas de papel atiradas ao lixo. Tiveram todos de costurar à pressa artigo novinho. Saíram no encalço do vencedor pra relembrar excesso, progresso e sucesso do inconfundível, irascível e imprevisível bilionário. As rimas são propositais, tanto o personagem é ativo, permissivo e agressivo.

