Três espantos

José Horta Manzano

Racismo
Um cavalheiro de nacionalidade chilena causou um bate-boca num voo da Latam de São Paulo a Frankfurt. Talvez imaginando que sobrevoava terra de ninguém, ofendeu um comissário chamando-o de “mono” (macaco) e emitindo ruídos que ele julga ser simiescos. Declarou ainda que se sente incomodado com o “odor de negros” ou “odor de brasileños”. Uma alma caridosa filmou a discussão surreal entre o cavalheiro e membros da tripulação – que não aparecem na imagem.

Acontece que o avião não é terra sem dono. Acontece também que o comissário, apesar da pele mais bronzeada, não é “mono” e encontra-se protegido por nossa legislação. Convenções aéreas estabelecem que o aparelho em voo é considerado extensão do país de origem da companhia, no caso, o Brasil. Assim, dentro do avião, vigoram as leis brasileiras. Sem se dar conta, o passageiro arrogante infringiu leis nossas que reprimem ofensas baseadas em cor da pele, raça, religião, orientação sexual.

Uma semana depois, o cavalheiro ofensor fez a viagem de volta de Frankfurt para Santiago, com escala em São Paulo. Devidamente informada, a polícia já estava no aguardo dele. Foi colhido em Guarulhos e enviado à detenção provisória. Vamos ver se aprende que conosco não tem podosco.

Nota 1
A discussão, mostrada em vídeo postado no Tweeter (hoje X), é prova incontestável da atitude do cavalheiro. Mostra também um despreparo do pessoal de bordo da Latam. Embora não apareçam na imagem, ouve-se gritarem todos ao mesmo tempo cortando a palavra ao passageiro, num comportamento de quebra-pau de boteco. A companhia aérea deveria treinar aeromoços e aeromoças a enfrentar casos como esse, com sangue-frio e disciplina.

Nota 2
A mídia deu a notícia dizendo que o chileno foi preso por racismo. Não está correto. Racismo é um “defeito”, se assim podemos nos exprimir, que algumas pessoas têm. É um sentimento de soberba de quem se considera pertencente a uma raça superior. Acontece que ninguém será preso por experimentar esse tipo de sentimento. Melhor dizer que o cavalheiro foi preso por agressão racista ou por ofensa racial.

Capanga
O mundo anda ficando cada dia menor. Já vão longe os dias em que, para desaparecer do mapa, bastava se mudar para o interior e, com uma gorjetinha, tirar nova carteira de identidade. Hoje vão te buscar onde você estiver, ainda que seja pra lá de onde o Judas perdeu as botas.

Um dos capangas do clã Vorcaro, sabendo que a PF estava em seu encalço, embarcou num voo para Dubai, que fica pertinho do País das 1001 noites. A história não diz se viajou de primeira classe. Acontece que a PF tomou conhecimento da fuga e entrou em contacto com a polícia de Dubai. Resultado: o capanga foi colhido no aeroporto de lá, nem precisou passar pela alfândega. Expulso sumariamente do país, foi devolvido à origem.

Espanto boquiaberto
Diálogo pra lá de comprometedor ocorreu entre o filho de Bolsonaro, aquele que gostaria de presidir o Brasil, e o estelionatário Vorcaro, ora preso. Na conversa, o Bolsonarinho faz juras de fraternidade eterna ao espertalhão, ao mesmo tempo que pede uma soma extravagante e multimilionária. Trata o trapaceiro por “irmão”, demonstrando proximidade realmente íntima e intrigante, que denota serem velhos parceiros de ‘negócios’. O diálogo ocorreu em novembro de 2025, ou seja, seis meses atrás.

Considerando que, quando o Bolsonarinho fez essas juras ao telefone, alguns grandes da República já haviam sido pegos – e encarcerados ou processados – justamente por causa do vazamento de conversas telefônicas, é absolutamente espantosa a maneira displicente com que ele deixou seu juramento gravado no éter, numa nuvem talvez, mas certamente na memória de dois aparelhos: o seu e o do interlocutor. É impossível imaginar que o filho do Bolsonaro ignorasse a perícia da PF em reaver dados escondidos ou apagados de telefone celular.

Dito e feito. O pretendente à Presidência caiu como um patinho. Agora todos esperam explicações. Na verdade, não precisa nem explicar, que todo o mundo já entendeu o que era pra entender.

Assembleia Francesa: convivência forçada

Nouveau Front populaire = Bloco de esquerda
Majorité présidentielle = Partido macronista
RN et alliés = Agrupamento Nacional (extrema direita)

José Horta Manzano

As eleições passaram mas o caldeirão continua fervendo na França. Por causa das surpresas que só o sistema eleitoral desse país permite, o resultado deixou a todos boquiabertos. Todos, sem exceção, foi espanto total. Até diretores de institutos de pesquisa sentiram o baque.

Até sexta-feira passada, último dia de campanha, o jovem Bardella, presidente do Agrupamento Nacional (extrema direita), já ensaiava o discurso de futuro primeiro-ministro. Imagino até que já tivesse encomendado o terno para a tomada de posse, tão convencido estava de chegar lá rapidinho. Também, os institutos de pesquisa lhe davam corda: todos indicavam que ele e seu partido atingiriam fácil fácil a marca dos 249 deputados, contingente suficiente para garantir-lhe maioria absoluta na Assemblée.

No entanto, particularidades do sistema eleitoral francês permitem, com certo malabarismo, o erguimento de um cordão sanitário em torno de um partido que não se quer que vença. É, até certo ponto, um desvio de finalidade: induz-se o eleitor a votar contra o partido indesejado em vez de votar a favor do partido preferido. No Brasil, as duas últimas eleições presidenciais já nos tornaram peritos nessa forma de desvirtuar o voto.

O fato é que, quando a boca de urna foi anunciada, o espanto foi geral. Em vez de partido dominante, o Agrupamento Nacional ficou em terceiro lugar. Não foi nenhuma débâcle mas, para quem visava o topo do pódio, foi uma lavada. Com água fria.

Esse foi o tipo de eleição em que ninguém ganhou. Por mais que os barulhentos eleitores da esquerda batam três vezes no peito, subam em monumentos, pichem edifícios públicos e clamem vitória, não ganharam. Ganhar, quando se elegem os deputados, é conseguir metade dos assentos mais um. Ficaram longe disso.

A mesma coisa se pode dizer dos centristas (macronistas) e dos Le Pen (extrema direita). Nenhum deles ganhou. Dos 577 assentos da Assembleia Nacional, o bloco de esquerda ficou com 180 e a “macronia” garantiu 163. Para os ultradireitistas, sobraram 143 assentos. O restante se distribui, picado miudinho, entre a direita moderada e os partidos menores. Como se vê,estão todos bem distante da marca dos 50% do parlamento (289 assentos).

Que vai acontecer agora? No momento em que escrevo, ninguém é capaz de dizer com certeza. O presidente Macron não aceitou a demissão do atual primeiro-ministro. Ao contrário, solicitou-lhe que segure as rédeas por enquanto, despachando as miudezas do expediente até que os parlamentares mostrem ter entrado em alguma espécie de acordo.

De fato, do jeito que está, sem um grupo majoritário, o país fica ingovernável. No Brasil, estamos hiperacostumados a isso. Nosso sistema, por falta de um ou dois partidos dominantes, sobrevive à custa de coalizões. Por um lado, é uma saída para destravar o parlamento; por outro, o risco é que os deputados se sintam suficientemente fortes a ponto de cobrar “pedágios” do governo – por meio de emendas, por exemplo. A longo prazo, isso pode custar caro à nação.

Bem, eles, que são eurodescendentes, que se entendam. A Constituição Francesa impõe prazo mínimo de um ano entre duas dissoluções da Assembleia. Portanto, por um ano, a Casa não será dissolvida e a composição vai ficar como está. Não há outra saída: eles vão ter de se entender e formar uma coalizão para formar maioria estável.

É a melhor maneira de evitar chantagem parlamentar à brasileira.

Atirando no escuro

José Horta Manzano

Umas profissões são arriscadas; outras, mais tranquilas. Um policial, um acróbata, um alpinista, um repórter de guerra correm perigo maior do que um contador, um agrimensor, um pizzaiolo ou um técnico em informática.

Assim mesmo, arriscada ou não, toda profissão pode dar a quem a exerce momentos de júbilo ou de frustração grande. Tomemos, por exemplo, a advocacia penal. Pode ser fonte de alegria e satisfação para o profissional quando o veredicto é favorável a seu cliente. Caso contrário, traz decepção, chateação e aflição.

escrita-7O ofício de articulista e o de analista ‒ falo desses que escrevem artigos para a grande mídia ‒ pode às vezes dar motivo a desapontamento. Quando algum acontecimento se está inexoravelmente aproximando, artigos costumam ser escritos antecipadamente. À medida que personalidades conhecidas vão envelhecendo, necrológios já vão sendo preparados. Dormem na gaveta das redações. (Hoje é mais adequado dizer que ficam armazenados em pastas de computador, mas dá no mesmo.) Assim que chega a notícia do falecimento, não precisa correr à Wikipédia à cata de pormenores da vida e do instinto do distinto extinto. Basta acrescentar algumas linhas ao esboço para dar o fecho. Não é cinismo, que a vida é assim mesmo.

Passadas as eleições americanas, pelas quais todo o planeta se interessou, chegou o tempo das análises. Todas as previsões e palpites davam como certo o final. Seria o relato da história, da glória e da vitória de Hillary Clinton. É de imaginar que, previdente, a maioria dos comentaristas já houvesse preparado artigos, às vezes com semanas de antecedência. Estavam os papéis prontos para publicação quando… paf! Contra todos os prognósticos, venceu Trump.

escrita-6Fico imaginando as resmas de papel atiradas ao lixo. Tiveram todos de costurar à pressa artigo novinho. Saíram no encalço do vencedor pra relembrar excesso, progresso e sucesso do inconfundível, irascível e imprevisível bilionário. As rimas são propositais, tanto o personagem é ativo, permissivo e agressivo.

Pensando bem, é mais cômodo escrever elogio fúnebre. A personalidade, seja ela quem for, acaba morrendo um dia, é certeza. Agora basta aos que escreveram sobre Mrs. Clinton guardar o material numa pasta. Um dia, é garantido que vai servir.

Les jeux sont faits

José Horta Manzano

Pelos próximos quatro anos, se o destino não bancar o desmancha-prazeres e não der uma foiçada, Donald Trump exercerá a presidência dos EUA. Assim que a notícia se espalhou, metade dos americanos abriu o champanhe enquanto os demais abriram o armarinho do banheiro à cata de aspirina.

Muita gente foi apanhada de calça curta. Como em outras votações polêmicas, todos os institutos de pesquisa se enganaram. Até mesmo sondagens de boca de urna ainda mantinham Hillary Clinton na dianteira. O resultado final deixou muita gente atordoada.

eleicao-3Independentemente de ter torcido para este ou para aquele candidato, o distinto leitor há de estar surpreso. Não se sinta solitário, que uma multidão está no mesmo caso. No entanto, pensando bem… sabe quem levou o susto maior? Pois foi exatamente Mister Trump. Ele também sabe ler pesquisas. Já tinha até dado sinais de estar-se preparado para atacar a lisura do processo de apuração.

Para o moço, o importante era ganhar. Governar não estava exatamente nos seus planos. Nascido em berço confortável, deu continuidade ‒ com sucesso ‒ ao espírito empreendedor dos antepassados. Venceu sempre. Desta vez, sua intenção era de mostrar que era o maior, que podia chegar ao posto máximo mesmo sendo absolutamente carente de experiência política. Conseguiu. E agora?

Agora é que são elas. Ataques de palanque, frases de efeito, atitudes ensaiadas, ameaças, xingamentos, invectivas e ofensas ficaram pra trás. Mister Trump terá de usar sua esperteza para cercar-se de gente competente. O maior risco que ele corre nesse sentido é deixar-se levar pelo orgulho e agir como nossa mais recente presidente destituída: só nomear assessores que lhe digam amém. Se fizer isso, será desastroso.

cassino-1Seja como for, no fim das contas, pouco deve mudar para quem vive fora dos EUA. Com ou sem Mister Trump, o país continuará sendo, por muito tempo ainda, a maior potência econômica e militar do planeta. O Reino Unido seguirá firme o caminho do Brexit. A Rússia não abrirá mão da Crimeia. Palestinos e israelenses não farão as pazes. Alguns latino-americanos continuarão a tentar a atravessar o Rio Grande na calada, enquanto outros continuarão a frequentar a Disneylândia.

No Brasil, a mudança será pouca, quase nada. Desde que o lulopetismo cortou o cordão umbilical que nos unia ao mundo dito «ocidental» para fazer ligação direta com a China, decisões tomadas em Pequim têm maior influência sobre nós do que as que são tomadas em Washington.

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Les jeux sont faits, rien ne va plus!
A expressão que usei como título do artigo é difícil de traduzir ao pé da letra. É repetida pelos crupiês, nos cassinos franceses, a cada vez que a roleta é posta a girar. Significa que quem jogou, jogou; não se aceitam mais apostas para esta rodada.