Picaretas ou covardes?

José Horta Manzano

Num tempo que hoje nos parece antediluviano, nosso messias, recém-eleito deputado federal, debochou da Câmara Federal dizendo que ela abrigava 300 picaretas. O passar do tempo cuidou de aparar as arestas. Bastou que a necessidade surgisse para que nosso pitoresco personagem fizesse as pazes com os parlamentares. Afagou a cabeça de todos e chegou até a beijar a mão de algum deles. Quem te viu, quem te vê! ― como diria o outro.

No fim de agosto 2013, os mesmos picaretas da mesma Câmara foram convocados a se exprimir, em votação secreta, sobre a cassação do mandato de um colega deputado. O homem tinha sido acusado, julgado e já condenado definitivamente. Estava preso por crime de peculato e formação de quadrilha.

São Judas Tadeu Padroeiro das causas perdidas

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas perdidas

Dos 513 deputados, 108 gazetearam ― simplesmente não compareceram à sessão. Dos 405 que votaram, 172 se posicionaram pela manutenção do mandato do deputado criminoso.

Somando-se os 172 que negaram a cassação aos 108 que se esgueiraram, chegamos ao total de 280. São os que não enxergam nenhum mal em continuar a ser colegas de um presidiário condenado a 13 anos de cárcere.

De lá para cá, o clamor popular cresceu. A Câmara foi pressionada a mudar as regras. Nunca mais ― prometem de pés juntos ― um caso de quebra de decoro será decidido pelo voto secreto.

O deputado que havia sido salvo pelo sigilo corporativo no ano passado voltou a passar pelo crivo de seus colegas. Desta vez, o voto foi aberto. Com exceção de um deputado ― unzinho só! ― os 280 que, escondidos atrás do voto anônimo, tinham votado pela manutenção do mandato do deputado criminoso, desapareceram. São todos pela cassação. Desde criancinhas, ora vejam só.

Interligne vertical 11O dicionário ensina:

Picareta = pessoa aproveitadora, que utiliza meios condenáveis para obter o que deseja.

Covarde = quem age com temor; quem não apresenta valentia.

A visão que nosso guia tinha da Câmara passou da data de validade, está vencida. É impensável que, depois de 8 anos de convivência amistosa com 3 em cada 4 parlamentares, ele repetisse hoje a bravata segundo a qual aquela Casa acolhe 300 picaretas.

Quanto a mim, ainda fico com a definição originária. A conta do antigo presidente da República não está nada exagerada. Pior ainda: os 300 indigitados, além de picaretas, são covardes.

Valei-nos São Judas Tadeu, o advogado das causas impossíveis!

Rapidinha 13

José Horta Manzano

No caso do infeliz jornalista assassinado no exercício de sua função, tenho observado o jogo de empurra.

Quem comprou o rojão? Quem o carregou até o local da arruaça? Quem pegou, quem tocou, quem relou nele? Quem acendeu o pavio? Quem o lançou?

Essa agitação pra jogar a batata quente no colo do outro me fez lembrar de velho (e sábio) ditado lusitano:

«Tanto é ladrão o que vai à vinha como o que fica à porta».

Permito-me incluir quem indicou o caminho da vinha, quem incentivou, quem forneceu a sacola, quem emprestou a tesoura, quem assistiu a tudo e nada disse, quem aplaudiu. E quem comeu as uvas. E, naturalmente, quem pagou os 150 reais.

Frase do dia — 104

«Brazil’s government has set the favelas and middle classes against each other»

«O governo do Brasil incentiva o enfrentamento entre favelas e classes médias»

Título de artigo publicado no jornal britânico The Guardian em 8 fev° 2014. Para ler o texto integral (em inglês), clique aqui.

«Mais médicos» ― enfim a hora da verdade

Percival Puggina (*)

Médico

Médico

O pedido de asilo da cubana Ramona Matos Rodriguez, que desertou do programa «Mais médicos», quebrou os ponteiros do relógio do governo petista em relação à sua tramóia com a empresa Castro & Castro Cia Ltda, com sede e foro na cidade de Havana. Chegou a hora da verdade.

Impõe-se, portanto, que eu escreva este artigo. Durante meses, os defensores do indefensável, com a fria determinação dos mentirosos contumazes, tentaram negar os fatos. Tentaram transformar esse negócio escandaloso em inaudita solidariedade do povo cubano para com os países necessitados. Também para eles acabou o tempo da mentira.

Não se trata, aqui, de mostrar o quanto sei sobre a realidade daquela ilha caribenha, mas de mostrar há quanto tempo tais fatos são bem conhecidos. Por isso, transcrevo a seguir um trecho do meu livro Cuba ― A Tragédia da Utopia, publicado em 2004. É o relato de uma informação que recebi na Embaixada de Cuba quando a visitei em 2001 e ainda sequer cogitava escrever o referido livro (pag. 113).

Interligne vertical 12«Em 2001 fui visitar a embaixada brasileira em Havana. Ela se situa no excelente prédio da Lonja de Comércio (Bolsa de Valores), uma edificação do século XIX, recentemente restaurada. (…) Durante a entrevista (com o secretário da embaixada), entrou na sala uma moça de cor negra que lhe dirigiu algumas palavras em espanhol e se retirou deixando expedientes sobre a mesa.

Quando ficamos novamente sós, ele explicou que a moça era cubana, excelente funcionária, contratada pela embaixada junto a uma das duas agências oficiais através das quais o governo cubano loca mão-de-obra a organizações estrangeiras que funcionam no país. A embaixada fornecera uma descrição do perfil da pessoa que procurava, a agência estabelecera o valor da remuneração em 200 dólares mensais, enviara algumas moças para serem entrevistadas e aquela havia sido escolhida.

Dos 200 dólares com que a embaixada remunerava a agência, a moça recebia em pesos o equivalente a 20 dólares. O restante ficava para seu generoso patrão, o Estado cubano. Diante dessa dura realidade a representação brasileira, incluíra a funcionária em sua folha de pagamentos e lhe repassava, por fora, 500 dólares mensais. É o que a maior parte das representações estrangeiras e empresas de fora fazem como forma de motivar seu pessoal.

Não é diferente o que acontece em relação aos muitos convênios que o governo cubano estimula que sejam firmados com países latino-americanos para fornecimento de pessoal médico, especialmente na área de medicina comunitária. Cuba não sabe o que fazer com os médicos que tem (um médico para cada cento e poucos habitantes!) e os médicos não sabem o que fazer com o que sabem. Acabam nas portas dos hotéis, oferecendo serviços como guias turísticos.

Através desses convênios e do mecanismo de apropriação do salário de seu pessoal nos tenebrosos níveis acima descritos, o governo consegue captar dólares no exterior. E ainda faz o seu «comercial» como um país solidário que presta importante ajuda à saúde pública das comunidades carentes do planeta.»

Há 13 anos, portanto, Cuba já adotava esse procedimento. De um lado, anuncia ao bom e generoso povo cubano que está prestando ajuda humanitária. De outro, apropria-se da renda produzida pelos recursos humanos que aloca, numa proporção jamais sonhada pelo mais porco dos «porcos capitalistas” dos quais tanto mal dizem. Pior ainda: nos tempos do patrocínio soviético, a paga cubana em recursos humanos consistia em enviar jovens para as guerrilhas comunistas nos conflitos da África subsaariana. Sangue cubano por rublos e petróleo, em nome da «unidade dos povos».

A bolsa...

A bolsa…

Agiu certíssimo a doutora Ramona. Quero ver a retirarem do gabinete da liderança do DEM. Pago para ver! Ronaldo Caiado é osso duro de roer. Quero ver, também, quem terá coragem de desmentir as informações que ela presta sobre o sinuoso percurso dos valores que o governo brasileiro paga, per capita, a Raúl Castro. E quero ver, por fim, o que dirá a Opas, a altissonante Organização Pan-americana de Saúde, intermediária oficial dessa operação, sobre o contrato dos médicos cubanos com a tal Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos SA que a contratou.

Outra coisa que ninguém conta, mas sobre a qual tenho informação de cocheira: faltam médicos em Cuba. Os negócios dessa empresa locadora de médicos(!) esvaziaram os serviços locais, que estão sendo prestados por estudantes latino-americanos de medicina. Repito: quebraram-se os ponteiros desse negócio. O que ainda existe de moralmente sadio na sociedade brasileira não pode conviver passivamente com um declarado e certificado regime de escravidão em território nacional. Com a palavra a Ministra Maria do Rosário.

Ou os cubanos não são humanos?

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Frase do dia — 103

«O cinegrafista Santiago Ilídio Andrade não foi vítima de um acidente. Morreu assassinado pelas mãos do mascarado que atirou um rojão a esmo incentivado pela glamourização dos atos de vandalismo, cuja repressão vem sendo sistematicamente condenada por uma parte da sociedade que enxerga na violência uma forma legítima de protesto e não reconhece que o uso da força é dever do Estado quando em risco está a ordem pública.

Se esse é um raciocínio tido como conservador, queira o bom senso que a banalização da vida não seja vista como um pensamento progressista.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão, 11 fev° 2014.

As flores do Itamaraty

José Horta Manzano

Artigo da Folha de São Paulo deste 12 fev° traz informação sobre o dinheiro gasto pelo Itamaraty com arranjos florais. Relata o edital lançado para aquisição de corbelhas e coroas destinadas a engalanar recepções a autoridades estrangeiras.

Até aí, nada demais. É função daquela Casa cuidar do trato de assuntos externos e de tudo o que lhes é correlato ― cerimonial e protocolo incluídos. O espanto vem da justificativa que o Ministério das Relações Exteriores houve por bem inserir no edital.

Para começo de conversa, não me parece que o Itamaraty deva «justificar» a compra de adornos para suas recepções. Flores em jantar de gala são tão indispensáveis como bolo em aniversário de criança.Banquete 2

A jornalista da Folha transcreve o trecho do edital em que nossas autoridades, numa inacreditável atitude de quem pede desculpas ao País, explicam tropegamente a razão da compra:

«As flores contribuem para que seja transmitida às autoridades estrangeiras uma melhor impressão do país anfitrião, o que se traduz por ganhos institucionais para o governo brasileiro.»

No gênero hipocrisia ingênua, a argumentação é imbatível. O uso do cachimbo ― eh, la vem o cachimbo de novo… ― faz a boca torta. Depois de anos de doutrinamento, o Itamaraty também acredita que a aparência externa impressiona visitantes e facilita o relacionamento.

Lendo com bastante atenção o palavrório empolado do edital, repara-se que o que se busca são ganhos institucionais para o governo. O País? O povo? Os interesses do Estado? Benefícios para a nação? Quéqué isso?

De você, de mim ― gente comum ―, pode-se admitir que não façamos distinção entre Estado, governo, país e nação. Dos doutores do Ministério das Relações Exteriores, é intolerável. Essa diferenciação faz parte intrínseca do manual diplomático. Portanto, quando dizem “governo”, querem dizer exatamente isso: governo. Referem-se aos governantes de turno, àqueles que ocupam momentaneamente o topo da pirâmide.

Banquete 1Francamente, os atuais inquilinos do andar de cima navegam em nuvens. Perderam de todo o contacto com a realidade nacional. Não conseguem mais esconder o verdadeiro escopo de todas as suas ações: incensar o governo e contribuir para sua eternização no poder.

Tu quoque, Itamaraty ― até tu, Itamaraty!

O último traço do antigo garbo da Casa de Rio Branco reside no ípsilon final: Itamaraty. Na geonimia ― a arte de nomear pontos geográficos ―, a muito poucos é concedida a licença de conservar marcas do que já foi. Paraty, Bahia, Itamaraty, não chegam a meia dúzia.

É bom saber que, junto ao raro e simpático ípsilon, estão também as flores. Um pouco murchas, é verdade, mas hão de resistir até que advenham tempos melhores.

Frase do dia — 102

«O bairro é seguro (sic). A incidência de roubos é muito pequena naquela região.»(*)

Marcio G. Murari, titular da DIG ― Delegacia de Investigações Gerais, ao relatar um assalto praticado na casa paroquial de Franca (SP), em que quatro padres foram rendidos por quatro assaltantes que lhes surrupiaram pertences, dinheiro, celulares e automóvel. As vítimas foram, ainda por cima, ameaçadas de morte pelo facínoras. In Folha de São Paulo, 11 fev° 2014.

(*) Fica-se aqui a imaginar como será viver num bairro inseguro.

A sabotagem e a vagabundagem

José Horta Manzano

A França foi ocupada por tropas alemãs em junho de 1940. A presença militar estrangeira duraria mais de quatro anos, até a reconquista do território, seguida pela derrota dos nazistas e pelo fim da Segunda Guerra na Europa.

A invasão alemã desbaratou o exército francês. Não foi senão a partir de 1941 que um esboço de resistência começou a se organizar. Resistir era atividade altamente perigosa. Ninguém sabia quem era quem, irmão desconhecia irmão, pai desconfiava de filho, amigo disfarçava na frente de amigo, um horror.

França: trem sabotado na Segunda Guerra

França: trem sabotado na Segunda Guerra

Aos poucos, atos de sabotagem começaram a pipocar aqui e ali. Uma ponte dinamitada, uma emboscada para dizimar um destacamento, um atentado contra algum militar inimigo de alta patente. Tudo isso hoje já faz parte da História e pode ser visto em filmes de guerra.

O ponto comum a todos os atos de resistência era claro: enfraquecer o inimigo. A destruição do bem público ou privado tinha um fim objetivo e preciso. Derrubava-se a ponte para estorvar a logística do invasor e impedi-lo de passar por ali. Incendiava-se um edificio público para evitar que fosse confiscado e utilizado pelo inimigo.

Leio que, no meu confuso País, incêndio de veículos automotores se está poniendo de moda. É «protesto», dizem. Protesto?

Protesto com P maiúsculo é demonstração sincera, é reclamação no duro que se faz com o sacrifício de si mesmo se necessário for. O bonzo que ateou fogo ao próprio corpo, o dissidente que fez greve de fome, o chinesinho franzino que se postou, sozinho, à frente de um tanque de guerra ― esses, sim, são protestatários genuínos, legítimos, plausíveis, corajosos e coerentes.

São Paulo: ônibus incendiado por retardados mentais

São Paulo: ônibus incendiado por retardados mentais

Apalermados que ateiam fogo a veículos que não lhes pertencem não passam de boçais. Protesto de verdade seria botar fogo em seu próprio carro. Mas essa coragem os mascarados não têm.

Esses fracos da cabeça são imbecis a ponto de serrarem o próprio galho onde estão sentados: despacham para o cemitério o ônibus que os poderia conduzir amanhã ao trabalho. Se trabalho tivessem, claro.

O tripé

José Horta Manzano

O senhor Pedro Passos, sócio fundador da empresa Natura e presidente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), concedeu entrevista a jornalistas do Estadão.

Entre suas considerações, a fala que transcrevo aqui adiante é especialmente alarmante: «O ambiente econômico está muito prejudicado no País. A taxa de investimento é muito baixa, o clima de confiança não existe, acabou. Falta direção. Não está claro para onde estamos indo, quais são os grandes compromissos. Isso cria instabilidade.»

Sabemos todos que nossos atuais mandachuvas se sustentam há mais de dez anos no poder. Sabemos também que essa longevidade ― incomum em nossa República ― está equilibrada num tripé: economia estável, grandes capitães da indústria satisfeitos, camadas populares felizes. Para parar em pé, uma mesa ― ou um palanque, como queiram ― precisa de três pés. Com dois, vai bambear.

Durante dez anos, a economia brasileira, estabilizada por medidas tomadas por governos anteriores, beneficiou-se do ambiente internacional de expansão. Conseguiu, assim, surfar na crista da onda. Estava armado o primeiro pilar.

Botte-cul artesanal

Botte-cul artesanal

Na esteira dessa expansão, os grandes grupos econômicos brasileiros ― aqueles que, no fundo, detêm o poder real ― não tiveram do que reclamar. Só pediam mais do mesmo. Coração leve, constituíram o segundo pilar.

Esse clima de euforia amplificado por bem orquestrada propaganda embalou as camadas menos favorecidas da população. Elas não relutaram em aplaudir e acompanhar a carruagem. Estava montado o tripé.

Numa análise ingênua e superficial, muitos medalhões acreditaram que o «sistema» duraria decênios. É verdade que ainda está de pé, pelo menos em aparência. Mas fendas, fissuras e rachaduras se alastram pelas paredes. Sapo que incha demais periga explodir.

O panorama da economia planetária já não se apresenta tão róseo para o Brasil. A primeira perna do tripé está bambeando. As considerações tecidas pelo presidente do Iedi deixam claro que os grandes empreendedores andam desanimados com as incertezas nacionais. Perigam expatriar seus capitais e investir em ambientes mais propícios. Se o fizerem, a segunda perna do tripé também vai bambear.

Botte-cul design

Botte-cul “design”

Resta um último ponto de apoio: o voto popular. Não há que esquecer que ele deriva, em grande parte, da dinâmica econômica do país. Baixos investimentos e altos gastos de manutenção da máquina governamental não são o melhor combustível para arribar o povão a um bem-estar duradouro. Propaganda ufanista não enche barriga.

Se o voto das camadas menos informadas também esmorecer, o palanque vai acabar desabando por mera falta de pontos de apoio. Saco vazio não para em pé. E tem mais: ainda que, por hipótese, o apoio dos estratos mais dependentes da população se mantivesse, as duas outras pernas continuariam faltando. Que eu saiba, o único banquinho de um pé só é aquele que pequenos camponeses utilizam para a ordenha. Em francês popular, o nome é botte-cul.

No entanto… vale lembrar que vaca mal alimentada dá pouco leite. Pode até secar de todo.

Frase do dia — 101

«O Brasil de hoje não é o mesmo de três anos atrás. Dilma Rousseff não tem nem de longe o carisma de seu antecessor ― embora desfrute de grande popularidade ― e enfrenta enormes dificuldades para administrar o insaciável apetite do PT pelo poder e a ganância por vantagens de uma base aliada tão ampla quanto infiel. (…) Isso tudo até a oposição já está conseguindo enxergar.»

Editorial do Estadão, 8 fev° 2014.

Cala a boca

José Horta Manzano

Ramona Rodríguez Crédito: José Cruz, ABr

Ramona Rodríguez
Crédito: José Cruz, ABr

Sonia Racy nos dá notícia, por seu blogue alojado no Estadão, das últimas peripécias da señora Rodríguez. Falo de dona Ramona, aquela sui-generis missionária cubana que, algum tempo depois de chegar ao Brasil no bojo da importação de pessoal médico de Cuba, renegou o trato e postulou asilo nos EUA.

O escândalo que se esboçava era grande demais. Não era caso pra ficar sentado esperando o que ia acontecer. Nossos governantes ― respeitados mestres na arte de amansar adversários, oponentes e inimigos ― agiram rápido. Deram-se conta de que um providencial emprego se encontrava justamente vago, na administração da Associação Médica Brasileira. Ora, veja você que feliz coincidência!

O posto foi imediatamente proposto a señora Rodríguez O salário? Pode ser que um dia o distinto público fique sabendo. O que não saberemos nunca é o valor que esse cala-boca terá custado ao bolso do contribuinte brasileiro. Não é com qualquer dez merréis que se faz alguém desistir de um asilo nos EUA.

Rastelo, rasto, rastilho

José Horta Manzano

Dona Dilma continua vociferando contra os raios que causam (ou não) apagões. Acidentes em «arenas» (=estádios) continuam ceifando gente. As várias máfias ligadas a obras públicas continuam dando que falar. Em resumo, a atualidade nacional continua firme no mais do mesmo.

Para quem espia tudo isso de longe, raios, arenas e roubalheiras não passam de barulho recuado, como aquelas trovoadas distantes e surdas. A gente nem presta atenção. Já um caso como o do signor Pizzolato é outra coisa. Esse nos toca de perto, dado que envolve a imagem que nosso país projeta.

Até alguns dias atrás, pouquíssimos europeus tinham ouvido falar da epidemia de corrupção que se tem agravado estes últimos anos no Brasil. Uma nota de pé de página aqui, outra ali, nada de muito significativo. A corrupção nas altas esferas russas, por exemplo, tem merecido olhares bem mais atentos. Tinha merecido, devo dizer.

As andanças espetaculosas de signor Pizzolato têm ocupado espaço. No dia 5 fev°, uns 4 ou 5 órgãos da imprensa italiana tinham noticiado alguma coisa. Hoje, 7 fev°, já passam de 40. Finalmente, o mensalão brasileiro está galgando os degraus da fama. De ocorrência terceiro-mundista mequetrefe, está-se tornando assunto de roda de amigos. É o caminho da glória.

Crédito: Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

Crédito: Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

E tudo isso se deve ao signor Pizzolato, aquele que se julgou mais esperto que os outros e… se estrepou. Os companheiros devem estar dando graças a Deus por terem permanecido no torpor tropical de Pindorama.

Chegou agora há pouco a notícia de que o ítalo-brasileiro vai continuar preso em regime fechado enquanto as autoridades não decidem o que fazer com ele. De qualquer maneira, infringiu leis brasileiras e italianas. Foi condenado em caráter definitivo no Brasil, tornou-se fugitivo da Justiça, piorou seu caso ao cometer crime de falsidade ideológica, entrou na Itália com papéis falsos. É difícil fazer pior.

Desafiou a capacidade de todas as polícias do mundo, em especial da brasileira e da italiana. Polícia costuma rastelar. Signor Pizzolato, inexperiente e ingênuo, deixou rasto. Foi apanhado. Acendeu o rastilho que se aproxima perigosamente do barril de pólvora sobre o qual estão assentados seus companheiros de partido.

PS: Rastelo, rasto e rastilho pertencem à mesma família etimológica. Rasteiro também.

Frase do dia — 100

«Há milhares de cubanos no Brasil com olhos, ouvidos e corações ligados nessa aventura, por ora solitária, de Ramona. Se ela tiver êxito ― e a condições são favoráveis ―, poderá servir de exemplo e criar uma legião de desertores do Mais Médicos. Uma tragédia política para o governo.»

Eliane Cantanhêde, jornalista, em sua coluna da Folha de São Paulo, 7 fev° 2014.

O aprendizado 2

A plataforma esqueceu de avisar, mas eu me encarrego. Tem artigo novo. O caminho é este aqui.

O aprendizado

José Horta Manzano

Signor Pizzolato pisou… na bola. Deu a confirmação de que o uso do cachimbo faz a boca torta. Acostumado com a impunidade, descuidou-se. Além disso, imaginou que a cidadania italiana lhe fornecia uma redoma protetora.

Na quase certeza de que o imbróglio do mensalão terminaria em torno de uma pizza regada a chianti, esperou até o último momento. Cometeu erros primários e preparou mal sua rota de fuga.

Aqui vão 10 conselhos para candidatos a escapar da Justiça. Para signor Pizzolato, já é tarde. Mas, sabe-se lá, pode até servir para outros.

Interligne vertical 81) O mundo encolheu. Não há mais espaço para aventuras do tipo daquela protagonizada por Ronald Biggs ― o assaltante do trem pagador. Big Brother is watching you everywhere, o Grande Irmão está de olho em você por toda parte.

2) Um passaporte estrangeiro não é garantia automática de proteção. Especialmente quando emitido por país civilizado.

3) Se a Justiça está aí para julgar, a polícia está aí para prender. É sua função. E policiais não apreciam passar por bobos. Não zombe deles, que a corda pode arrebentar do seu lado.

4) Não dê publicidade à sua fuga. Não deixe indícios, não faça nenhuma confidência, não contrate advogado, não nomeie porta-voz. Desapareça e pronto. Cabe aos outros cogitar. Quanto a você, boca calada.

5) Esqueça certas invenções da vida moderna: telefone, celular, email, facebook. Para se comunicar com aquelas duas ou três pessoas com quem mantém contacto esporádico, utilize o correio, mande recado ou escolha uma «caixa postal», quero dizer, um esconderijo discreto onde você pode deixar mensagem escrita que será recolhida mais tarde por um cúmplice.

6) Não leve sua esposa. Nem deixe que ela saiba onde você se esconde. Tenha em mente que seus familiares certamente serão vigiados e seguidos. São eles o elo fraco da corrente. Evite todo contacto com a família durante alguns anos. Deixe que a situação esfrie. É o preço a pagar, meu caro, não há outro meio. “On ne peut pas avoir le beurre et l’argent du beurre”, não se pode ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.

7) Nem por sonho abra conta em banco. Nem em pesadelo utilize cartão de crédito. Nem por delírio envie ou receba dinheiro por via bancária.

8) Não escolha como residência a casa de um parente. (Ô, signor Pizzolato, francamente!) Passe longe de todos os que conheceu antes. Se cruzar um deles na rua, finja que não viu.

9) Resida numa cidade grande. No caso do antigo diretor do BB, Milão ou Roma teriam sido mais indicadas. Fincar pé num vilarejo? Que cochilo!

10) Escolha um prédio grande para morar, com muitos andares e muitos apartamentos. No meio da multidão, você passará despercebido.

Conheço brasileiros que vivem clandestinamente na Europa há duas décadas. Seguiram os princípios básicos e nunca foram importunados pela polícia. Bem, a honestidade me obriga a dizer que nenhum deles está na lista da Interpol.

Signor Pizzolato foi confiado demais. Acreditou em promessas de solidariedade de companheiros, que lhe garantiram apoio até a última gota de sangue. Balela. Quem imaginaria que tudo houvesse de terminar num salve-se quem puder?

No Brasil, a tramitação do processo se arrastou por 7 anos, sem que fosse determinada a prisão preventiva de nenhum acusado. Na Itália, uma vez desmascarado, em meia hora signor Pizzolato foi mandado pra trás das grades da cadeia mais próxima.Interligne 18e

Mas não sejamos severos demais. É compreensível que signor Pizzolato tenha tentado escapar. O próprio Ron Biggs ― aquele do trem pagador ―, depois de passar décadas em Pindorama, pensou melhor e chegou à conclusão de que mais valia viver preso na Inglaterra do que solto no Brasil. Entregou-se.

Pra você ver.
Interligne 18e

Abaixo estão alguns recortes da imprensa italiana. A expressão «tangentopoli» foi inventada por jornalistas para designar uma sequência de escândalos financeiros ocorridos faz alguns anos no país. É um bom equivalente italiano para nosso “mensalão”.

Interligne 28a

Em Pozza di Maranello, veja como foi capturado o fugitivo brasileiro

Em Pozza di Maranello, veja como foi capturado o fugitivo brasileiro

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Preso banqueiro integrante do "mensalao" brasileiro

Preso banqueiro integrante do “mensalao” brasileiro

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Preso Pizzolato: o banqueiro brasileiro estava escondido em Portovenere

Preso Pizzolato: o banqueiro brasileiro estava escondido em Portovenere

Interligne 28a

Integrante do mensalão do Brasil de Lula, Pizzolato foi preso em Maranello

Integrante do mensalão do Brasil de Lula, Pizzolato foi preso em Maranello

O teste

José Horta Manzano

Os milhares de médicos importados de Cuba são, evidentemente, seres humanos como todos nós. Têm qualidades, defeitos, riem, choram, comem, dormem, exatamente como o resto da humanidade. Não são autômatos.

Para alcançar a graça de ser enviado ao estrangeiro por um período, o profissional cubano tem de dar a seu governo escravocrata alguma garantia de que vai cumprir a «missão» abnegadamente e, principalmente, de que vai voltar à miserável ilha. Em resumo, o missionário pode partir desde que um cordão umbilical o mantenha atado à terra de origem.

O espírito caritativo dos Castros é enorme, mas tem seus limites. Os bondosos irmãos estão de acordo em arrendar a países estrangeiros o serviço de seus cidadãos. Contudo, entregar seus profissionais assim, de mão beijada, ah, isso não!

Solidariedade mercantil à cubana é mais mercantil que solidária. Funciona assim: eu te empresto contra remuneração. De graça, não te dou nada. E não te esqueças de minha (polpuda) comissão.

Solidaridad... pero no mucho

Solidaridad… pero no mucho

Até que demorou, mas era inevitável: a primeira defecção acaba de acontecer. Trata-se de uma corajosa profissional despachada para exercer seu ofício no interior do Pará. Não há de ser uma adolescente descabeçada: exerce a medicina há 27 anos. Apesar de ter deixado uma filha na ilha-prisão, deu o passo arrojado: escapuliu de seu cativeiro amazônico e buscou refúgio em Brasília, junto a um dos (raros) partidos de oposição.

Pode até parecer estranho. Em princípio, pedidos de asilo costumam ser apresentados a autoridades alfandegárias ou policiais. Nossa valente profissional, que já deve ter-se dado conta de como as coisas funcionam no País, achou melhor evitar esse caminho. É possível que tenha tido notícia do caso dos esportistas desertores que foram despachados de volta a Cuba em 2007. Melhor evitar esse risco.

Fez bem a doutora. Cuba é um dos 58 membros fundadores da Organização das Nações Unidas. Em 1948, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, válida para todos os seus membros. O Parágrafo 2 do Artigo 13 do documento reza: «Toda pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar a seu país». Mais claro, impossível.

Essa primeira deserção ocorre num momento delicado e tem valor de teste. O momento é sensível porque, pouco a pouco, os olhos do planeta começam a se voltar para o Brasil por causa da copa que vem aí. O tratamento que for dado a esse primeiro pedido de asilo vai ter eco planetário.

Demorou, mas chegou a hora do vamos ver.

Tem bobo pra tudo

José Horta Manzano

Interligne vertical 14Tem alguém que é bobo de alguém, apesar do estudo
Está provado porque neste mundo tem bobo pra tudo.

Samba de Manoel Brigadeiro e João Correia da Silva, 1963

Não sei se terá saído de moda. É que as coisas andam mudando muito rápido. No meu tempo, se dizia bocó. Era quando a gente queria designar um bobão, daqueles que se dão ares de independência e superioridade ao mesmo tempo que seguem o rebanho. Aqueles que se acham o máximo, embora, sem se dar conta, ajam exatamente como os demais.

Tem bobo pra tudo

Tem bobo pra tudo

Assim como a fala e a escrita, o gestual deve primar pela clareza. O que é, é. O que não é, não é. Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo. Cada um de nós, quer nos expressemos falando, escrevendo ou gesticulando, devemos deixar claro o sentido da mensagem. Ou corremos o risco de ser mal interpretados, com todas as consequências que isso possa acarretar.

Já falei em post anterior sobre a simbologia múltipla de certos gestos, mormente da «saudação de Lênin», usada como pau pra toda obra. Ao longo dos últimos 120 anos, tem sido usada por esquerdistas, direitistas, anarquistas, constestadores, revolucionários, separatistas, feministas, terroristas, socialistas, trabalhistas y otros más. É gesto polivalente. Donde, dúbio. Portanto, perigoso. Não deixa clara a mensagem que o autor gostaria de transmitir.

Nesta terça-feira, quis o acaso que doutor Barbosa, o presidente do STF, tomasse assento ao lado do vice-presidente da Câmara dos Deputados. Este último ― personalidade pouco expressiva e pouco conhecida ― decidiu aproveitar o momento de glória e de exposição às câmeras que a proximidade do doutor lhe proporcionava.

Ingênuo, fez exatamente o que não devia. Ensaiou o gesto dúbio, aquele que, de tão batido, não transmite mais mensagem nenhuma. Primeiro, levantou o braço esquerdo com o punho cerrado. Em seguida, não satisfeito, refez o gesto, desta feita com o braço direito. Para coroar, pôs-se a enviar mensagem por seu telefone de bolso. Estou falando do vice-presidente da Câmara, minha gente. Desde os tempos da Alemanha hitleriana, não me ocorre algum outro caso de autoridade levantando punho cerrado em plena assembleia.

Decoro
Está lá no dicionário para quem quiser ver. São quatro as acepções principais:

Interligne vertical 111. Recato no comportamento; decência.
2. Acatamento das normas morais; dignidade, honradez, pundonor.
3. Seriedade nas maneiras; compostura.
4. Postura requerida para exercer qualquer cargo ou função, pública ou não.

O gesto do senhor vice-presidente da Câmara Federal da República, consumado no recinto do parlamento, responde às quatro acepções. Atropela o decoro parlamentar. Agride o decoro tout court. Um certo senhor de nome Severino, que um dia teve assento privilegiado naquele mesmo recinto, tinha muitos defeitos. Mas não descia ao ridículo. O atual vice-presidente é o que a gente chamava de bocó de mola.

Tem bobo pra tudo Crédito: Sérgio Lima, Folhapress

Tem bobo pra tudo
Crédito: Sérgio Lima, Folhapress

Num país civilizado, essa demonstração de baixo nível seria punida com o desprezo dos eleitores acompanhado da exclusão imediata do parlamentar. Se nossas excelências deixarem passar essa afronta sem denunciá-la ao Conselho de Ética, é sinal de que o vale-tudo vale tudo.

Que se libere o bermudão e o chinelo de dedo.Interligne 16

PS: Para recordar o samba Tem bobo pra tudo, na voz de Alcides Gerardi, clique aqui.

Eureca!

Dad Squarisi (*)

Desvendado o mistério. Agora sabemos por que a comitiva de Dilma mudou a rota. O plano era abastecer o avião nos States. Depois, seguir pra Cuba. Sem mais nem menos, o aerodilma pousou em Lisboa. A turma desembarcou na capital portuguesa e sonhou sonhos camonianos. O que aconteceu?

Havana & Lisboa

Havana & Lisboa

O Planalto tentou desconversar. Disse que a decisão fora de última hora. Não foi. Reservas haviam sido feitas bem antes. E daí? Pergunta daqui, investiga dali, eureca! O problema foi linguístico. A moçada tropeçou na concordância. Dizia “o Estados Unidos”, “no Estados Unidos”, “do Estados Unidos”. As autoridades americanas não gostaram. Exigiram correção. Orgulhosa, Dilma disse não. Bateu asas e voou. (…)

Para continuar a leitura (mais 131 palavras), clique aqui.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.

A cavala da Ilha Fiscal

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno apareceu bastante excitado hoje de manhã, com aquela cara de um Arquimedes que houvesse feito uma grande descoberta.

«Estive pensando no baile da Ilha Fiscal.» ― foi logo dizendo.

«E por que, caro amigo?» ― tentei mostrar paciência.

Pausadamente, ele foi desenrolando seu pensamento: «Como aprendemos no curso de História do Brasil, a última festa dada pelo imperador Pedro II foi na Ilha Fiscal, um baile em homenagem a militares chilenos de passagem pelo Rio. O banquete teve lugar menos de uma semana antes do 15 de novembro. Daí, veio aquele golpe militar ― que chamamos pudicamente de ‘proclamação‘. O imperador foi despachado para o desterro e a República se instalou.»

«Até aí, estou acompanhando, Sigismeno. Mas por que você está tão excitado com esse baile do tempo do Onça?»

«Mas você não percebe? Não vê que estamos vivendo tempos perigosamente semelhantes?»

«Tempos semelhantes? Acho bom você explicar melhor. Não vejo o que o baile tem que ver com a atualidade» ― cortei seco.

«Pois então, raciocine comigo. Faltando uma semana para o fim do regime, o imperador consentiu dar uma festa de arromba. Com a participação de seu entourage, da corte em peso. Nem de longe desconfiavam que nuvens negras anunciavam a tempestade. Não foi assim?» ― insistiu Sigismeno.

«Parece que sim. Pelo menos, é o que a História guardou.»

«Pois então» ― prosseguiu ele. «As ruas andam fervendo, os que sustentam o país com seus impostos estão descontentes. Andei lendo que, na Copa, o Brasil vai gastar quatro vezes mais do que gastou a África do Sul. Por um sim, por um não, torcedores se trucidam, invadem sede de clube, quebram tudo.»

«Mas isso não é de hoje. Ainda que a retórica oficial continue ensinando que brasileiro é povo pacífico, todos sabem que, no fundo, sempre fomos gente violenta. Não é novidade» ― retruquei eu, sem entender aonde Sigismeno queria chegar.

«É, mas a coisa anda mais feia do que de costume. Antes, cada um resmungava no seu canto. Hoje, as tais redes sociais amplificam o clamor. Os descontentes não se sentem mais como velhos rabugentos e solitários. Isso ainda vai acabar mal» ― sentenciou ele.

«Ainda não entendi onde é que a Ilha Fiscal entra nessa história.»

«Puxa, mas tenho de explicar tudo! Não lhe escapou a notícia de que nossa presidente tentou mandar a imprensa para escanteio enquanto levava a corte a Lisboa para comer cavala escondido, pois não?»

Cavala com aspargos Crédito: Paracozinhar.blogspot

Cavala com aspargos
Crédito: Paracozinhar.blogspot

«Cavala? De onde você tirou essa ideia fora de esquadro?» ― balbuciei abismado.

«Pois andei lendo que dona Dilma não foi comer bacalhau, que é prato muito chué. Foi comer cavala, aquele peixe que os ingleses chamam mackerel. Na França, é maquereau. A ciência conhece como acanthocybium solandri

E continuou: «Pois agora, imagine você: o país fervendo, as contas estourando, a economia à deriva, o povo ao deus-dará, e a corte se refugiando de sorrelfo para degustar cavala em restaurante estrelado.»

E foi adiante: «Se fosse inócuo e ético, não teriam feito isso escondido. Sabiam que nós, que sustentamos a turma, não havíamos de gostar.»

«Mas, Sigismeno, eles disseram que cada um pagou sua parte.»

«É» ― atalhou ele ― «mas esqueceram de acrescentar que altos funcionários, quando viajam, têm uma ajuda de custo de uns 400 dólares por dia. Podem até ter pago com cartão pessoal, mas essa despesa, ao fim e ao cabo, vai ser paga por nós.»Interligne 18b

Devo admitir que Sigismeno tem lá sua dose de razão. Pagar pela cavala de privilegiados é dose pra cavalo. Os medalhões devem ter faltado à escola no dia em que foi dada a lição sobre o baile da Ilha Fiscal.

Frase do dia — 99

«O Brasil só ganha de poucos países africanos e latino-americanos como o Haiti quando se trata de gerar mais produtos com a mesma quantidade de capital e trabalho. Nossa produtividade equivale a um quinto da norte-americana.»

Fernando Canzian, colunista da Folha de São Paulo, 3 fev° 2014.