Frase do dia — 98

«De um lado, estão os países que administram bem seus recursos naturais: Peru, Colômbia e, especialmente, Chile – que, quando o cobre dispara, deposita o lucro num fundo de estabilidade. Do outro lado, estão os países de abundância, gigantes pela própria natureza e apequenados pela cultura política nanica.»

Mac Margolis, em sua coluna publicada no Estadão, 2 fev° 2014.

Antigamente

Carlos Drummond de Andrade(*)

Drummond autocaricatura

Drummond
autocaricatura

Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir. Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo-d’água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de treteiro de topete: depois de fintar e engambelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco. O diacho eram os filhos da Candinha: quem somava a candongas acabava na rua da amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.

Bom era ter as costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia o doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor da mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está falando, o sangue-de-barata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras… Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou, simplesmente, a bota, sem saber como descalçá-la.

Mas até aí morreu Neves, e não foi no Dia de São Nunca de Tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu?

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In Quadrante (1962), obra coletiva reproduzida em Caminhos de João Brandão, Editora José Olympio, 1970

(*) Carlos Drummond de Andrade (1902―1987), mineiro de nascimento, foi escritor, contista e poeta de tendência modernista.

Nota: Foi mantida a grafia original, mormente no que concerne aos hifens, que atualmente caíram na dança-de-são-guido.

O trem das onze

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° fev° 2014

Desde que Nostradamus escreveu suas centúrias, faz meio milênio, profecias passaram de moda. Técnicas previsionais vêm evoluindo, mas ainda não são infalíveis. A curto prazo, é até fácil prever. A médio prazo, a margem de incerteza se amplia e a coisa se complica. A longo prazo, é missão quase impossível. Mais fácil tirar a sorte grande do que predizer a situação do planeta daqui a dez anos.

Em outubro de 2006, com a oportuna desistência da Argentina, do Chile e da Colômbia, a candidatura brasileira a sediar a Copa do Mundo de 2014 foi sacramentada pela Fifa. Faz mais de 7 anos. Pareceu a todos — por que negá-lo? — uma excelente perspectiva. O tempo era de vacas gordas, obesas até. Tudo era sorrisos. Nosso povo, embevecido, acreditava que o futuro tinha chegado, que estávamos no Primeiro Mundo, que a pobreza tinha desaparecido. Semicerrando os olhos, dava até para ouvir o silvo de trens-bala cortando montes e cerrados.

Trem da Cantareira Fonte: Expotremdasonze.blogspot

Trem da Cantareira
Fonte: Expotremdasonze.blogspot

A euforia era tamanha que nossos descuidados dirigentes sapecaram seu jamegão numa Lei Geral da Copa, demandada pela Fifa, em que abandonávamos parte de nossa soberania. Afinal, o privilégio de sediar o evento justificava um que outro arranhão em nossa legislação. Nossos mandachuvas já antegozavam a consagração suprema de seu peculiar modo de governar.

No entanto… a vida reserva surpresas. Nenhum guru foi capaz de prever que, um ano antes da copa, num certo junho, o gigante adormecido estremeceria e daria sinal de vida. Não vale a pena repisar aqui o susto que o Brasil e o mundo levaram. Aconteceu.

De lá para cá, um incômodo concurso de circunstâncias arrefeceu a euforia. Economia em perdição, corrupção às escâncaras, desmandos, volta da inflação trouxeram desalento. Black blocs, rolezinhos, acidentes em estádios, atraso nas construções, gente graúda na cadeia, nós logísticos encruados atiçaram o fogaréu. Parece que as coisas teimam em não dar certo. E essas redes sociais, então! Desprezando soberbamente o empenho do governo em manter discrição sobre fatos desagradáveis, botam a boca no trombone. Todo o mundo fica sabendo de tudo! Um desplante e uma dor de cabeça.

Uma semana atrás, o gigante mostrou que continua a se mexer na cama. Manifestações violentas voltaram. Nossa presidente, em viagem ao exterior na companhia de comitiva pletórica, teve de escafeder-se para evitar cobranças embaraçantes.

Os ventos estão soprando desnorteados. Promessas já não parecem mais surtir efeito. Um clima pré-anárquico se insinua. E pensar que, daqui a pouco mais de quatro meses, um pontapé marcará o início da «Copa das Copas». Que fazer? Como fugir ao vexame que se prenuncia — em transmissão direta a bilhões de telespectadores? Mais que isso: terminada a copa, como assegurar o apaziguamento dos ânimos?

À primeira vista, parece que não tem mais jeito. Mas sejamos otimistas. O que passou, passou — não dá para voltar atrás. Mas ainda resta uma esperança de evitar o pior. No apuro, é respirar fundo, arregaçar as mangas, fazer das tripas coração e dar ao povo o que ele reclama. Um Brasil esgarçado por anos de desleixo não se transfigurará em quatro meses. Mas resta um último recurso para acalmar o gigante.

Estação Jaçanã Fonte: Expotremdasonze.blogspot

Estação Jaçanã
Fonte: Expotremdasonze.blogspot

Todos sabem o que transtorna os brasileiros: corrupção, compadrio, malfeitos, promiscuidade entre o público e o privado, permissividade, fiscalidade extorsiva, desleixo no trato da coisa pública, nível de instrução cronicamente baixo. Discursos e palavrório não servem mais. Convocação de plebiscito tampouco. Mas os mesmos congressistas que foram capazes de costurar, tim-tim por tim-tim, os mais de 100 artigos da Lei Geral da Copa ainda têm tempo hábil para alinhavar uma Lei Geral do Brasil Decente — um elenco de normas apto a repor o país nos trilhos. E dentro do «padrão Fifa», faz favor!

As próximas semanas são cruciais e não podem, sob nenhum pretexto, ser descuradas. Uma legislação nova e rígida tem de ser preparada, discutida, votada, aprovada e sancionada dentro do mais curto prazo possível. Que respeitem a Constituição, mas que não nos venham com promessas. De pactos não cumpridos, estamos até aqui. E que trabalhem a toque de caixa, que faltam cinco para a meia-noite.

O momento é grave. Esta é a chance derradeira, senhoras e senhores do andar de cima! É o trem das onze — e já está apitando a partida. Se bobear, só amanhã de manhã. Se houver amanhã.

Castelos de cartas

Percival Puggina (*)

«Qualquer idiota com mãos firmes e um par de pulmões funcionando pode construir um castelo de cartas e depois soprar para derrubá-lo.»

O que aconteceu na Boate Kiss teve muito a ver com as afirmações dessa frase de Stephen King. Aquele local de lazer era um castelo de cartas à espera do sopro fatal.

Muitos brasileiros que emigram para o assim dito Primeiro Mundo passam por um período de adaptação. Para uns, é rápido. Para outros, porém, é um tempo de frustração que se encerra com a decisão de retornar às origens.

Na essência da adaptação ao cotidiano dos países mais bem organizados, marcando-a de modo decisivo, está a absorção da seguinte regra geral de convivência: as leis valem para todos e não são inconsequentemente desrespeitadas. Isso costuma ser um choque. A ordem que produz costuma ser vista como enfadonha. Para muitos de nós, o respeito às leis, às regras de condomínio, aos preceitos de um contrato, aos costumes locais, cria uma atmosfera irrespirável.

No entanto, o Primeiro Mundo é o que é, em grande parte, por causa disso. Em virtude de tão fundamental norma alguns países europeus estão fechando presídios. Há cada vez menos pessoas dispostas a aceitar os riscos inerentes à tentativa de prosperar no mundo agindo no submundo.

Em virtude dessa regra certos imigrantes preferem retornar à zorra nacional, aqui onde as leis são feitas para luzirem no papel e não para, de fato, sinalizarem as condutas.

No Brasil, o costumeiro desrespeito às leis, regras e costumes vai construindo castelos de carta em toda parte.

Interligne vertical 14Há castelos institucionais que vemos ser soprados pela falta de racionalidade, desde dentro e desde fora, comprometendo o funcionamento da República. Há castelos de carta estatísticos e contábeis, feitos para iludir, construídos por governos prestidigitadores.

Há castelos de carta empresariais, concebidos para encher o peito de vaidades, de dinheiro os bolsos de alguns, e de problemas a vida de muitos.

Há castelos de carta em políticas públicas, ineficientes ante a realidade para a qual foram concebidas.

E há castelos de carta como a Boate Kiss, à espera do sopro quente da morte, à espera da ignição lançada ao ar na madrugada de 27 de janeiro de 2013.

Irving D. Yalom, no livro “O dia em que Nietzsche chorou”, afirma que, se subirmos suficientemente alto, chegaremos a um nível a partir do qual as tragédias deixam de parecer trágicas. Ele estava errado.

Não há nível a partir do qual deixe de ser pungente o diuturno sacrifício humano nas estradas e ruas do país, nos becos das drogas, nos presídios que o Estado já delegou ao comando dos próprios reclusos, nas filas de espera do SUS, na indigente atenção à saúde pública, no mau agouro enfermiço da falta de saneamento básico. Não há altura nem distância a partir das quais o incêndio da Boate Kiss deixe de nos queimar a todos.

Ele é uma consequência doída, ardida na alma, de uma outra tragédia, que quase não vemos: nosso hábito de dar um jeitinho e driblar a lei. Até que o país nos caia na cabeça.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Frase do dia — 97

«Comerciantes deram um passa-fora em políticos que votaram a favor da im(p)unidade de um senador corrupto: afixaram cartazes avisando que eles não seriam bem-vindos e cumpriram a ameaça. Uma embaixatriz europeia viu quando sua cabeleireira botou uma parlamentar para correr.

Foi no Paraguai, mas vai que a moda pega por aqui?! Muita gente não poderia mais ir a bar, restaurante, posto de gasolina, shopping — nem cortar os novos cabelos implantados.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna na Folha de São Paulo, 28 jan° 2014.

Frase do dia — 96

«Suzane von Richthofen tenta obter na Justiça uma pensão de dois salários mínimos do espólio dos pais, que ela ajudou a assassinar em 2002. O pedido será analisado na próxima semana pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).»

Mônica Bergamo em sua coluna na Folha de São Paulo, 30 jan° 2014.

Frase do dia — 95

«Trata-se de uma inversão na prática da mendicância: é a primeira vez na História que quem dá a esmola agradece ao mendigo. Ao anunciar mais 2 mil [médicos] contratados em tais condições, a vendedora de peixe na Suíça comporta-se como receptadora de escravos no Caribe 125 anos após a Abolição.»

José Nêumanne Pinto, jornalista e escritor, referindo-se à visita que nossa presidente fez a Cuba para agradecer aos ditadores o envio de médicos. In Estadão, 29 jan° 2014. O texto integral está aqui: Da banca de peixes ao mercado de escravos.

Estrepolias: de lá e de cá

José Horta Manzano

Todos ficaram sabendo que François Hollande pagou suas estrepolias extraconjugais com moeda forte: sua companheira deixou-o falando sozinho.

Depois que todos se inteiraram de que o presidente costumava abandonar o Palácio do Eliseu numa garupa de moto para encontrar-se com uma jovem atriz 15 anos mais nova que ele, a companheira fixa foi-se embora. A França perdeu sua primeira-dama e ficou órfã de mãe.

Florent Pagny, cantor e figurinha carimbada da cena artística do país, é conhecido por não ter papas na língua. Provocado, botou fora, em linguagem chã, o que achava do acontecido.

«Para quem está num nível de responsabilidade tão elevado, das duas uma: ou tem a capacidade de se organizar para que ninguém fique sabendo ou tem de ter o poder de bloquear toda informação, como Mitterrand.»(*)

E disse mais: «Peraí, meu caro, presidente é presidente 24 horas por dia durante cinco anos. A vida privada, pode esquecer!»

AvestruzEstive pensando que, guardadas as devidas proporções, as mesmas reflexões se aplicam a nossa presidente. Haja vista a excursão gastronômica dela e de sua corte por terras lusitanas.

Quem não tem o poder de bloquear a informação tem de andar na linha ou se aplicar para que ninguém fique sabendo.

Quem é presidente tem de deixar de molho sua vida privada. Pelo menos, durante o mandato.

Taí um consolo para dona Dilma: ela não é a única a ter tido de aprender a lição na base da bordoada. Esperemos que tenham aprendido, tanto ela quanto ele.

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(*) Durante os 14 anos em que exerceu a função de presidente da França, François Mitterrand manteve duas famílias. A oficial (e conhecida por todos os cidadãos) residia no palácio presidencial. A oficiosa (conhecida pelos medalhões do regime e por praticamente todos os jornalistas) residia num apartamento parisiense. O presidente tinha dois filhos com a matriz e uma filha com a filial.

A verdade só veio à tona depois do falecimento do líder. Enquanto ele viveu, nenhum jornalista jamais ousou revelar a realidade, tamanho era o temor que o personagem infundia a todos.

Frase do dia — 94

«Brasil é o 8º país com mais adultos analfabetos, aponta Unesco»

Título de artigo de Flávia Foreque publicado na Folha de São Paulo, 29 jan° 2014.

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«O número de analfabetos funcionais é muito maior do que a taxa oficial de analfabetismo do IBGE usada nesse estudo da Unesco.»

Comentário de leitor publicado ao pé do artigo.

Gente fina é outra coisa ― 3

José Horta Manzano

O Brasil inteiro viu a foto que ilustra este artigo. Ela mostra o instante em que nossa simpática presidente deixava, pela porta da frente, o Restaurante Eleven, que está entre os três de Portugal a merecer uma estrela no Michelin, guia gastronômico mais respeitado do mundo. Só para lhes dar uma ideia, entre todos os restaurantes do país, só 3 merecem a cobiçada estrela.

Dona Dilma, que acredita estar cercada por uma equipe de assessores competentes, imaginou que passeava incógnita. Nunca supôs que pudesse vir a ser fotografada. O espocar do flash há de ter causado pânico em toda a equipe de festivos cortesãos.

Há coisas que se fazem, há coisas que não se devem fazer. No Brasil, ao deixar um restaurante, é comum pedir que embalem pra viagem o que sobrou de comida. Faz parte dos costumes nacionais, por isso não espanta ninguém. Na China acontece o mesmo —chamam lá doggy bag, pacote pro cachorrinho.

Já na Europa, essa prática não é comum. Digo que não é comum para ser delicado — na verdade, é impensável. Não passa pela cabeça de ninguém levar restos para casa. Seria ressentido como uma confissão de penúria.

Em restaurantes, tampouco se usa comprar bebida pra viagem. Lojas especializadas estão aí para essa função. É compreensível que essas sutilezas escapem à percepção de pessoas menos traquejadas.

Dona Dilma & cortesãos deixando restaurante lisboeta Crédito: Nuno Fox, Expresso

Dona Dilma & cortesãos deixando restaurante lisboeta
Crédito: Nuno Fox, Expresso

Reparem bem na foto. Integrantes do primeiro círculo de acompanhantes da presidente de nossa República carregam sacolas com garrafas de vinho. Tivessem comprado essas garrafas em loja apropriada, elas teriam sido envoltas em sacolas opacas. E repousariam no automóvel.

Portanto, a dedução se impõe: foram compradas no restaurante estrelado. A preço estrelado. Restaurante não é loja de bebidas. O preço de venda é, naturalmente, o mesmo que está no cardápio: de 3 a 8 vezes mais elevado que o valor que um comércio especializado cobraria.

Mas que importa? Quando se paga com dinheiro dos outros, todas as extravagâncias são permitidas, não é mesmo?

Gente fina é outra coisa: pode até tentar se esconder, mas sempre esquece o rabo de fora.

Não sabem nem mentir

José Horta Manzano

Um bando de trapalhões, é isso aí. O Brasil-potência está nas mãos de uma malta de trapalhões ignorantes e desonestos. Mas deixe estar — não passam de aprendizes.

Ainda não se deram conta de que o mundo mudou. Vivem ancorados nos anos 70, vociferam contra ditadores que já estão a sete palmos sob terra, desenterram esqueleto de presidente destituído, instauram comissões para investigar o lado da verdade que lhes interessa. Para essa gente cheia de mágoa e rancor, o passado parece mais importante que o futuro.

Insistem em seguir adiante de olhos vendados. Fazem como se o Brasil fosse povoado por jecas-tatus broncos, toscos, desdentados e ignorantes. Pois ignorantes são eles. Podem encher-se de botox, implantar fios de cabelo, tingir as melenas, mas não passam de gente tosca e primitiva. Civilização é artigo que não se vende em supermercado.

Dilma à saída do restaurante estrelado Crédito: Nuno Fox, Expresso

Dilma à saída do restaurante estrelado
Crédito: Nuno Fox, Expresso

Com o advento — e o contínuo aperfeiçoamento — dos modernos meios de comunicação, o sigilo tem encolhido. Fica cada dia mais difícil manter segredo sobre atos e fatos. Todos carregam no bolso máquina fotográfica, gravador, telefone, agenda e computador. Equipamento com que James Bond nem ousava sonhar cabe hoje num bloquinho de plástico de cento e poucos gramas, accessível a todos.

A última tentativa de trapaça de nossos medalhões foi desvendada no mesmo dia em que aconteceu. A presidente e sua alentada equipe de assessores e apaniguados planejavam, já há de fazer um bom tempo, desaparecer dos radares no fim de semana para gozar as delícias de uma gastronômica etapa lisboeta. Durante dois dias, atravessariam uma espécie de zona de sombra entre as neves suíças e o mormaço cubano.

Plano havia. Tanto é verdade que, já na quinta-feira, as reservas de hotel e alojamento já estavam feitas. A prova da exatidão dessa tese está na reportagem do brasileiro Estadão e na do lusitano Expresso. Nossos ingênuos dirigentes não imaginavam que alguém os pudesse surpreender durante a excursão clandestina. Realmente, é coisa de gente incompetente.

Dizem que dona Dilma, apanhada de calça curta, ficou furibunda. Note-se que, vindo dela, não é surpreendente. Para esquivar-se de interpelação embaraçosa, escapuliu do hotel pela porta de serviço e ordenou que seus cortesãos arrumassem uma explicação que satisfizesse a plebe.

Trocando os pés pelas mãos, os áulicos tentaram serzir, mas o buraco era grande demais. Não deu. Ficou pior a emenda que o soneto. Dá vergonha e nojo da mesquinhez dessa gente. Pior ainda é o medo que dá saber que nosso país está nas mãos de ineptos.

Se, até hoje, ainda não afundamos de todo é de crer que Deus é mesmo brasileiro.

Frase do dia — 93

«No Brasil, estamos assistindo à glorificação de pessoas condenadas por corrupção na medida que os jornais abrem suas páginas a essas pessoas como se fossem verdadeiros heróis»

Joaquim Barbosa, presidente do STF, em entrevista a Leandro Colon, da Folha de São Paulo.

Frase do dia — 92

«O Brasil já é o segundo maior exportador para Cuba, excluindo-se o petróleo venezuelano: China (42%), Brasil (16%) e Canadá (15%). Os principais produtos vendidos ao país são óleo de soja, milho, frango, arroz, carne e café.»

Patricia Campos Mello, enviada especial a Havana pela Folha de São Paulo.

Está aí a confirmação de que o Brasil voltou a ser exclusivamente exportador de matéria-prima. Nem a pobre e desindustrializada Cuba se interessa por nossos produtos industriais. A China — nosso “parceiro estratégico”(!) — nos deu um chega pra lá e tomou nosso lugar.

Dona Dilma foi a Cuba

José Horta Manzano

Depois de visitar a rica Suíça, dona Dilma dá mais uma prova de sua largueza de espírito. Antes de regressar ao Brasil remediado, passeia sua simpatia pela miserável ilha dos Castros. Vai inaugurar um porto marítimo.

A modernização do Puerto de Mariel, principal porta de escoamento da produção de Cuba, está sendo levada a cabo por uma grande empresa brasileira de construção pesada.

Do custo total de um bilhão de dólares(!), mais de 70% estão sendo financiados pelo BNDES, o brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Ao bancar essa obra de infraestrutura, a estratégia confessada do governo brasileiro é dotar Cuba de uma moderna porta de saída marítima de maneira a permitir que indústrias brasileiras se instalem na ilha e explorem o baixo custo da mão de obra local.

Enxergo, nesse empreendimento, três contradições e uma ilusão. Vamos por partes.

Dilma Rousseff & Raúl Castro Crédito: Reuters

Dilma Rousseff & Raúl Castro
Crédito: Reuters

Primeira contradição
O banco de fomento criado pelo governo brasileiro em 1952 nasceu como BNDE. Nos anos 70, suas atividades passaram a se preocupar com o social. E o S foi acrescentado.

Para um banco cujo objetivo declarado é promover o desenvolvimento econômico e social, financiar o «aproveitamento» de mão de obra semiescrava de infelizes cubanos é, no mínimo, vergonhoso. E contraditório.

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Segunda contradição
O BNDES é sustentado com nossos impostos. Espera-se que essa sacola comum reverta em benefício de nosso povo. Financiamento de projetos em solo estrangeiro são admissíveis desde que provoquem exportação de produtos brasileiros. Não é o caso do custeio do porto cubano. Não há, em princípio, exportação de produtos nossos. A mão de obra é local. O principal beneficiário — se não o único — é o empresário financiado com nosso pecúlio. É contraditório.

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Terceira contradição
É curioso financiar a contratação de mão de obra estrangeira para trabalhar fora do território nacional. E o trabalhador brasileiro como é que fica? Sem trabalho? Pendurado numa bolsa qualquer? Melhor seria utilizar esse bilhão de dólares para financiar nossa própria infraestrutura, que anda bem necessitada. Consertar o dos outros e deixar o nosso ao deus-dará é contraditório.

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A ilusão
Enganam-se aqueles que imaginam que o regime ditatorial cubano vai durar pela eternidade. Mais dia, menos dia, cai. Se a União Soviética desapareceu um dia, não é a ilha dos Castros que vai permanecer para mostrar ao mundo o caminho de um futuro radioso. Aí vai chegar a hora do vamos ver.

O povo cubano não há de guardar gratidão eterna àqueles que tiverem sustentado sua interminável ditadura. É mais que provável que Venezuela e Brasil não sejam idolatrados por aquelas bandas. Por outro lado, Cuba tem ligação visceral com seu vizinho de parede, os EUA. No dia em que a ditadura se for, vão-se jogar nos braços do grande irmão do Norte. Pode apostar.

Imaginar que o Brasil venha a ser benquisto por ter contribuído a manter em vida a dinastia dos revolucionários é tolice. Uma doce ilusão.

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E pensar que tudo isso está sendo feito com nosso dinheiro. Que desperdício!

Com olhos estrangeiros

José Horta Manzano

A cidade de São Paulo, um dos primeiros núcleos de povoamento estabelecidos pelos portugueses no Brasil, completou 460 anos este 25 de janeiro.

A Folha de São Paulo teve a boa ideia de entrevistar nove estrangeiros que lá vivem e de pedir-lhes suas impressões sobre a cidade. É interessante notar que olhos forasteiros enxergam o que autóctones já não notam mais.

Aqui vai um florilégio de fragmentos das entrevistas. Vale para todo o Brasil.

Bandeira chorando

Do lado negativo:

1) As pessoas falam muito alto, ouvem música alta e buzinam em túneis.

2) As crianças fazem o que querem aqui. Parece que os pais brasileiros têm problema em dizer não a seus filhos.

3) Quando recebo tailandeses, aviso que eles têm de tirar suas joias. Eles não entendem como é realmente perigoso.

4) A burocracia do meu país é bem louca, mas o Brasil fica em primeiro lugar. Tenho a impressão de ser o Asterix realizando um dos seus 12 trabalhos quando preciso de qualquer serviço administrativo.

5) Comer de maneira saudável é coisa de rico aqui.

6) O fato de as crianças fazerem bagunça me choca. Nos ônibus, é comum ver as mães em pé e as crianças sentadas nos lugares preferenciais.

7) Não é possível sobreviver no Brasil sem um CPF. Não dá para ter nem um número de celular sem isso.

8) Em São Paulo existem muitas invasões de prédios. Nunca tinha visto isso.

9) A educação nas escolas é ruim e os brasileiros não sabem dos direitos que têm.

10) No meu país, há uma guerra declarada. Aqui ela parece que acontece escondida.

11) Aqui as pessoas não respeitam fila. É normal ver alguém passando à frente e ninguém falar nada.

Bandeira sorrindo

Como toda moeda tem dois lados, aqui vai o positivo:

1) Aqui as pessoas se ajudam. Dão informações na rua ou no metrô, seguram sua bolsa no vagão e ajudam a carregar a mala.

2) O serviço nos restaurantes de São Paulo é excelente. Nunca vi tantos garçons gentis e sorridentes.

3) Os brasileiros adoram tomar banho.

4) Qualquer lugar no Brasil tem uma fila preferencial. As pessoas são muito atentas e educadas, sempre deixando passar à frente ou oferecendo um assento no metrô para quem está com um bebê no colo.

5) Aqui há muitas oportunidades de trabalho e de crescer na vida.

6) No futebol, as pessoas não se importam só com o seu time. Se há um jogo, elas sentam e assistem à partida inteira.

7) Dá para pagar com cartão de crédito ou de débito até em uma ilha.

8) Aqui existem sobremesas. Na África, comemos frutas.

9) O Brasil é mais bonito do que nos documentários, que só mostram a parte ruim do país.

10) No Brasil, a mulher participa das decisões da família. Na África, ela tem de ser só bonita e calada.

11) Aqui você aprende a respeitar as diferenças.

Frase do dia — 90

«Assistimos ontem, em Davos, a Dilma falando de um País que infelizmente não é o nosso. As palavras não têm o dom mágico de mudar a realidade.»

Aécio Neves, senador de nossa República, ao comentar a fala da presidente de nossa República. In Estadão, 25 jan° 2014.

Frase do dia — 89

«A desconfiança em relação ao Brasil é excessiva. Os críticos estão exagerando.
(…)
Mas hoje (…) estamos fazendo road-shows.»

Guido Mantega, ministro da Fazenda de nossa República, em entrevista concedida dia 25 jan° 2014 aos enviados do Estadão a Davos.

Frase do dia — 88

«O mau humor com Dilma hoje é tamanho que, durante sua fala, o dólar chegou a bater nos R$ 2,42. Logo depois, quando começaram em Davos os boatos de que Guido Mantega não mais ficaria no cargo, o real voltou a se valorizar.»

Sonia Racy comentando o discurso pronunciado por dona Dilma em Davos. In Estadão, 25 jan° 2014.

Frase do dia — 87

«Essas pessoas não foram julgadas pelo seu passado, mas por suas atitudes no presente. Foram julgadas, condenadas e presas. (…) Eu não participo e acho que não pode ser uma orientação partidária fazer isso»

Olívio Dutra (PT/RS), ex-governador do Rio Grande do Sul, ao se posicionar com relação às “vaquinhas” marquetadas por desenvoltos companheiros. In blog Rosane de Oliveira, alojado no jornal Zero Hora, 24 jan° 2014.

Tri ou penta, presidenta?

José Horta Manzano

Há fatos desagradáveis. Há acontecimentos inquietantes. Há casos surpreendentes. Há decisões assombrosas. Nossos governantes têm demonstrado nítida preferência por esta última categoria. As resoluções que emanam do Congresso e do próprio Executivo são muita vez espantosas. Assombrosas.

Afirmações fantasiosas costumam circular pela internet, com ênfase neste ou naquele ponto, conforme a cor política do autor do rumor. Na maior parte das vezes, correm informações truncadas, estropiadas, deformadas. Até falsas. Por isso, tenho o hábito de conferir a autenticidade dos dados antes de passá-los adiante.

Recebi hoje uma inacreditável informação. A enormidade era tamanha que, num primeiro momento, achei que era pura invenção. Assim mesmo, por desencargo de consciência, resolvi verificar. Tive de ler duas vezes: era verdadeira. De deixar de queixo caído. Explico.

Lei Geral da Copa, art° 37 e seguintes

Lei Geral da Copa, Art° 37 e seguintes

Está lá, pública e disponível, ao alcance de alguns cliques, mas poucos leram. É a Lei Geral da Copa, obra magistral assada em 2011 nos fornos obscuros de nosso bem-intencionado Congresso. E devidamente sancionada por dona Dilma naquele mesmo ano.

É documento longo e enfadonho de 114 artigos distribuídos por 152 páginas. Sou o primeiro a confessar que nunca a li por inteiro. Minha atenção foi hoje chamada para o Art° 37 e seguintes. Fui conferir. É verdade mesmo. A lei concede um prêmio de 100 mil reais(!) a cada um dos jogadores — titulares e reservas — da seleção brasileira de futebol que atuou na copa de 1958, na de 1962 e na de 1970.

E não é tudo. Cumulativamente, um «auxílio especial» (leia-se pensão vitalícia) é outorgada a esses mesmos atletas. Caso já façam jus a algum benefício, o generoso Estado brasileiro completará os ganhos do agraciado para que atinjam o valor máximo em vigor segundo a prática da Previdência Social.

Querem mais? Caso algum agraciado já tiver falecido, o prêmio de 100 mil reais será entregue a seus herdeiros. Mais ainda? Esse mimo estará isento de imposto de renda — entrará limpinho no bolso do veterano atleta ou de seus herdeiros. Mais um pouquinho? A pensão vitalícia é extensiva à esposa e aos filhos menores de cada jogador falecido.

Para coroar — não precisava nem dizer — essa largueza será custeada pelo Tesouro Nacional. Ou seja, pelo seu, pelo meu, pelo nosso dinheiro suado. Que tal?

Lei Geral da Copa - Art° 37 e seguintes

Lei Geral da Copa, Art° 37 e seguintes

Nossos governantes não costumam dar ponto sem nó. No entanto tenho dificuldade em descobrir o que se esconde por detrás desse estranho artigo de lei. Várias interrogações me vêm. Por enquanto, estão no ar, sem resposta. Dado o primarismo habitual naquelas esferas, o mais provável é que seja mais um ato míope de populismo rasteiro e irresponsável.

A montagem de uma seleção é trabalho de grupo. Por que razão somente as estrelas estão sendo agraciadas? E o resto da equipe? E os massagistas, os cararegadores de mala, os cozinheiros, os treinadores? Viúva de jogador ganha direito a pensão mas, ao treinador, nada. Que lhe parece?

O Brasil — todos sabemos disso — participou de todas as copas do mundo. O Artigo 37 dessa lei deixa claro que alguns merecem mais que outros. Por quê? Devemos entender que os demais são castigados por não terem feito direito a lição de casa?

O Brasil — e disso também sabemos todos — ganhou cinco vezes a copa do mundo. Por que, diabos, somente os que atuaram nas três primeiras ganham prêmio? E os outros?

Nenhum prêmio de consolação para os que perderam a copa de 1950 na reta de chegada — justamente os mais decepcionados. Nem para os de 1998. Por quê?

Há um tempo para tudo. Assim como iogurte tem prazo de vencimento e crimes prescrevem, prêmios e homenagens perdem seu alcance. Vencido o prazo, não fazem mais sentido.

Estes últimos anos, em nossas altas esferas, nota-se marcada tendência a ressuscitar episódios passados — selecionados segundo seu (deles) interesse. Assim como a exótica «anulação» da deposição de João Goulart atropela a lógica, o reconhecimento do mérito de jogadores que atuaram mais de 55 anos atrás não faz sentido. É tarde demais.

Ficam duas certezas:

Árbitro Crédito: Kopelnitsky, EUA

Mundo injusto
Crédito: Kopelnitsky, EUA

1) Está certa a sabedoria popular quando diz que é fácil dar esmola com o chapéu alheio. Usar o dinheiro do Tesouro Nacional — a caixa comum onde depositamos nossa poupança forçada — para mimar futebolistas em detrimento de atletas de outros esportes é escárnio. Nosso excelsos governantes, em ato de puro populismo, subestimam a inteligência dos brasileiros e dela zombam.

2) Aos olhos do governo, todos os atletas não são iguais. Alguns são mais iguais que outros. Futebolistas valem mais que praticantes de qualquer outro esporte. Selecionados para copa do mundo valem mais que outros futebolistas. Campeões do mundo valem mais que os que se esforçaram mas não tiveram sucesso. Campeões de 1958, 1962 e 1970 valem mais que campeões de 1994 e 2002.

Quero deixar aqui uma sugestão para dona Dilma. Para arrendondar o número de ministérios, que tal criar um quadragésimo: o Ministério da Igualdade entre Esportistas?

Afinal, o Brasil é tri ou penta, presidenta?