O limite da informação

José Horta Manzano

Não acredito num direito absoluto à informação. Assim como a liberdade de cada um termina onde esbarra na do próximo, o direito à informação cessa quando ameaça causar dano à sociedade. Difícil ‒ mas não impossível ‒ é determinar o ponto exato em que isso acontece. Há casos em que o risco salta aos olhos, facilitando o reconhecimento do limite.

Na periferia das grandes cidades francesas, bandos de adolescentes vadios têm curioso costume. Em ocasiões especiais, como a noite de ano-novo ou a véspera do maior feriado nacional, divertem-se ateando fogo a veículos escolhidos a esmo. O balanço desses autos de fé surreais é de monta. Através do país, centenas de automóveis são sacrificados.

Até poucos anos atrás, o ministério encarregado da segurança pública costumava divulgar o número de veículos destruídos. E a mídia adorava difundir a informação, aliás muito bem-vinda por cair em dias feriados e um tanto faltos de notícias.

Ao notar que o total de carros queimados não parava de aumentar e que os criminosos se empenhavam em bater o recorde a cada ano, o ministério mudou de tática. Passou a não mais divulgar o número de carros queimados. Embora a mídia continue a noticiar um incêndio aqui, outro ali, o assunto se esvaziou e perdeu a graça. É como transmitir uma corrida e não contar o nome do vencedor ‒ coisa mais sensabor!

No Brasil, tem-se alastrado o medonho costume de atear fogo a ônibus. Por um sim, por um não, meliantes destroem um objeto que vai acabar fazendo falta a usuários que não têm nada com o peixe e que dependem de transporte público pra ir trabalhar. Estes dias, jornais se delectaram: «Sobe para 55 o número de ônibus queimados!», «Passa de 61 o total de veículos incendiados!». Uma verdadeira corrida atrás de novo recorde.

O distinto leitor há de convir que esse tipo de informação, além de não acrescentar nada à bagagem cultural de cada um, acaba incitando malfeitores a «fazer mais e melhor» do que o bando rival. Mais benéfico será a autoridade abster-se de publicar cifras. Não convém dar ideia a criminoso.

A sabotagem e a vagabundagem

José Horta Manzano

A França foi ocupada por tropas alemãs em junho de 1940. A presença militar estrangeira duraria mais de quatro anos, até a reconquista do território, seguida pela derrota dos nazistas e pelo fim da Segunda Guerra na Europa.

A invasão alemã desbaratou o exército francês. Não foi senão a partir de 1941 que um esboço de resistência começou a se organizar. Resistir era atividade altamente perigosa. Ninguém sabia quem era quem, irmão desconhecia irmão, pai desconfiava de filho, amigo disfarçava na frente de amigo, um horror.

França: trem sabotado na Segunda Guerra

França: trem sabotado na Segunda Guerra

Aos poucos, atos de sabotagem começaram a pipocar aqui e ali. Uma ponte dinamitada, uma emboscada para dizimar um destacamento, um atentado contra algum militar inimigo de alta patente. Tudo isso hoje já faz parte da História e pode ser visto em filmes de guerra.

O ponto comum a todos os atos de resistência era claro: enfraquecer o inimigo. A destruição do bem público ou privado tinha um fim objetivo e preciso. Derrubava-se a ponte para estorvar a logística do invasor e impedi-lo de passar por ali. Incendiava-se um edificio público para evitar que fosse confiscado e utilizado pelo inimigo.

Leio que, no meu confuso País, incêndio de veículos automotores se está poniendo de moda. É «protesto», dizem. Protesto?

Protesto com P maiúsculo é demonstração sincera, é reclamação no duro que se faz com o sacrifício de si mesmo se necessário for. O bonzo que ateou fogo ao próprio corpo, o dissidente que fez greve de fome, o chinesinho franzino que se postou, sozinho, à frente de um tanque de guerra ― esses, sim, são protestatários genuínos, legítimos, plausíveis, corajosos e coerentes.

São Paulo: ônibus incendiado por retardados mentais

São Paulo: ônibus incendiado por retardados mentais

Apalermados que ateiam fogo a veículos que não lhes pertencem não passam de boçais. Protesto de verdade seria botar fogo em seu próprio carro. Mas essa coragem os mascarados não têm.

Esses fracos da cabeça são imbecis a ponto de serrarem o próprio galho onde estão sentados: despacham para o cemitério o ônibus que os poderia conduzir amanhã ao trabalho. Se trabalho tivessem, claro.