Golpe parlamentar e judicial

José Horta Manzano

Assim que senhor Temer assumiu o trono, correu a notícia de que o número de estrangeiros contratados pelo sistema Mais Médicos ia diminuir em prol do aumento da quantidade de médicos brasileiros. Foi a conta. O regime cubano, grande beneficiário do esquema, entrou em pânico. A gerontocracia caribenha teve chilique coletivo. Por intermédio de sua irrelevante diplomacia, Cuba entrou em guerra aberta contra o Brasil.

Para nós, que observamos de longe, as armações estão ficando cada dia mais claras. Os bondosos irmãos Castro e os áulicos que os rodeiam tinham sido premiados com a sorte grande nos anos em que o PT mandava. Tiraram a barriga da miséria com nosso dinheiro.

A modernização do porto de Mariel e a importação de multidões de médicos semiescravos são os pontos mais estridentes, mas ninguém pode garantir que o iceberg não seja mais profundo. Debaixo do angu, pode haver mais carne. A perspectiva de as torneirinhas brasileiras se fecharem angustia os donos de Cuba.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Rapidinho, Havana preparou indignada mensagem denunciando o «golpe de Estado parlamentar e judicial»(1) em curso no Brasil. Desajeitada e pouco afeita a sutilezas diplomáticas, a cúpula cubana despachou a mensagem a Deus e todo o mundo.

Todas as agências da ONU tiveram direito a um exemplar. A Cruz Vermelha, O Comissariado para Refugiados, a Organização Mundial da Saúde, O Programa da ONU para o Meio Ambiente, a Secretaria para Mudanças Climáticas ‒ todas essas organizações estão entre os destinatários. Até a Organização da Conferência Islâmica(!) e membros do alto escalão do governo suíço receberam o documento. Discreto como de costume, o Vaticano não confirma recebimento.

Ninguém acredita seriamente que o esperneio dê algum resultado prático. É verdade que admistração cubana anda se aproximando dos EUA. É de crer que as benesses oferecidas pelo império não chegam aos pés do que o Brasil petista costumava oferecer.

Interligne 18c

(1) A nota não deixa claro o que venha a ser um golpe adjetivado como parlamentar E judicial. Este blogueiro é do tempo em que golpes de Estado não costumavam ser previamente votados pelo Legislativo, muito menos autorizados pelo Judiciário. Os tempos mudam.

(2) Em tempos normais, o insulto orquestrado por Havana renderia imediato corte de relações diplomáticas entre o Brasil e Cuba. Mais uma vez, está dada a prova de que, decididamente, não vivemos tempos normais.

Que todos saibam

Marco Antonio Villa (*)

Temer deveria convocar rede nacional e apresentar a situação econômica ao país. É importante que o povo saiba o caos deixado pelo projeto criminoso.

A estratégia dos criminosos é imputar a crise ao novo governo – que não tem nem três dias! Só o rombo deste ano alcança R$ 125 bilhões. E alguns estimam que pode ser maior.

Tal rede nacional poderá mostrar também as iniciativas tomadas pelo novo governo e apontar um cenário previsível a curto prazo.

O governo não pode contemporizar, sob pena de desgastar seu capital político rapidamente.

(*) Marco Antonio Villa, escritor, historiador e comentarista político, edita o Blog do Villa.

Cauby

Cauby PeixotoJosé Horta Manzano

O timbre ímpar de Cauby Peixoto calou-se. Da época de ouro da música brasileira, era um dos remanescentes. Sua voz já vinha com soluço embutido, era daquelas que transpiram emoção.

Que siga em paz.

Warum einfach?

José Horta Manzano

«Warum einfach wenn es auch kompliziert geht?» ‒ Por que fazer simples, se complicado também funciona?

Os alemães recorrem a essa pergunta para denunciar toda complicação inútil. Lembrei disso outro dia, quando fiquei sabendo que, em São Paulo, todo comprador de carro novo pode agora escolher placa a seu gosto ‒ desde que disponível, evidentemente.

Placa 17Para satisfazer o capricho, o feliz proprietário terá de desembolsar exatos R$91,18. Você leu bem: 91 reais e 18 centavos. Pergunto eu: por que 18 centavos? Por que não 17 ou 19?

Francamente, em matéria de complicação inútil, é difícil ir mais longe. Números quebrados, como esse, dão margem maior a erro de digitação, problema de troco, dificuldade de fazer conta. Em resumo, isso não ajeita a vida de ninguém.

A ideia, em si, não é má. Aqui na Suíça, alguns cantões têm sistema análogo. No Cantão de Vaud, por exemplo, o valor de placa livremente escolhida pode variar de 300 francos (R$1100) a 2000 francos (R$7200). Vez por outra, placas cobiçadas são vendidas em leilão por internet. O leilão é organizado pelo Departamento de Tráfego. Placas chegam a ser arrematadas por preço astronômico. Vaidade tem seu preço, ora.

Tem um senão: para evitar que se instale uma bolsa paralela de placas, a revenda de particular a particular é rigorosamente proibida.

Placa 18Ignoro a razão de as autoridades paulistas terem fixado o valor com tamanha exatidão. Seja ela qual for, terá sido preciosa contribuição para acrescentar um grãozinho de areia à crônica complicação nacional. Tivessem fixado em, digamos, 90 reais ou 100 reais, a Terra não teria deixado de girar. E a vida teria seguido, sem mais atrapalhação.

«Warum einfach?»

Pecado original

José Horta Manzano

Os dois principais motivos que levaram o país à débâcle, provocando a destituição da presidente, foram a incapacidade administrativa e a corrupção. Incapazes pareciam ser todos, desde a presidente até o mais apagado aspone. Quanto à corrupção, era muito forte o sentimento de o país estar sendo governado por uma malta de corruptos.

Derrubado o bando aboletado há treze anos no Executivo, chegou a hora de mostrar serviço. O Brasil respira aliviado. O presidente em exercício (ou ex-vice-presidente, como querem alguns) leva jeito de pessoa séria. É discreto e fala uma língua que a gente entende. Formula frases com começo, meio e fim. De cara, inspira confiança.

Desgraçadamente, o ministério que deveria refletir a orientação do governo carrega pesado pecado de origem. Senão, vejamos. Se o governo anterior caiu por incapacidade e por corrupção, havia que cuidar ‒ em primeiríssimo lugar ‒ de afastar toda impressão de incapacidade e de corrupção. Parece lógico, não? Pois não foi assim que senhor Temer entendeu a realidade nacional.

by Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista italiano O pecado original e a queda (Capela Sistina)

by Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista italiano
O pecado original e a queda (Capela Sistina)

Capacidade
Segundo análise de especialistas, o ministério, no essencial, é constituído de elementos capazes. Serra, nas Relações Exteriores, é um achado. Meirelles, Padilha e os demais tampouco fazem feio.

Corrupção
É aí que a coisa pega. A própria OAB, em nota lançada ontem, mostrou-se desagradada com o fato de o primeiro ministério Temer incluir elementos envolvidos com a Lava a Jato. Tem razão, a Ordem. Não precisávamos disso. É pecado capital que podia ter sido evitado. Com tanta gente fina por aí, tinha de escolher justamente investigados ou até acusados? Francamente.

Interligne 18c

Compreendo que senhor Temer tenha procurado afagar grupos e partidos, na esperança de que digam amém às medidas que pretende tomar. Pareceu-lhe arriscado deixar de lado personagens influentes. Assim mesmo, era um risco a correr. Mais teria valido dar, logo de entrada, impressão forte de ter contratado colaboradores capazes e de ficha limpa.

Fidelidade não costuma ser eterna. Infidelidade, tampouco. Quem é que teria imaginado, seis meses atrás, que estaríamos vivendo a situação atual, com Dilma longe, PT em perdição e um Lula derrotado? Temer tem alguns meses pela frente. O risco que ele tentou evitar pode se voltar contra ele feito bumerangue.

Suponha o distinto leitor que o STF decida julgar, de verdade, um dos atuais ministros. Basta unzinho só e o gabinete inteiro estará comprometido e desacreditado, padecendo as consequências da imprudência.

Havia outras maneiras de garantir fidelidade sem deixar um flanco aberto. É complicado lutar contra pecado original.

Mesóclise

Temer promete implementar o programa
Mesóclise Para Todos

Enternecido por finalmente desfrutar da regência da Pátria, o ex-vice-presidente Michel Temer resgatou o espírito republicano de discursar na norma culta.

Recitou:

“Outrora sob a égide do laquê paralisante
Apaziguei águas turvas sibilantes.
Agora que provi a redistribuição dos louros
Procurar-me-ão os profetas dos bons agouros.”

Discurso 4Em seguida, com o intuito de provar que não abandonará os programas sociais, anunciou a criação do Mesóclise para Todos.

Antes que fosse interrompido por outrem, o ex-vice-presidente apresentou outras propostas: “Em vez de médicos cubanos, importarei 30 mil linguistas lusitanos especialistas em pentâmetros iâmbicos”.

Logo depois, vazou um novo áudio no WhatsApp em que promete implementar o programa Minha Trova, Minha Lida. A esse, seguir-se-á o Mais Sinédoques.

Para saciar a fome da base aliada, divulgou as matrizes do Bolsa Matilha.

(*) Do Piauí Herald, blogue do Estadão, 12 maio 2016

A ruivinha deles

José Horta Manzano

Anne Lauvergeon (1959-), dirigente francesa de alto nível, cursou escolas prestigiosas, passou por empresas renomadas e acabou se aproximando do mundo político. Chegou a funcionar como xerpa(*) do presidente François Mitterrand junto ao G7.

Em 1999, foi nomeada presidente da estatal Areva, que controla a indústria nuclear do país. O posto, pra lá de relevante, jamais tinha sido ocupado por mulher. Diga-se de passagem que, na França, 75% da energia elétrica é gerada por usinas nucleares. Nesse particular, o pais é, com folga, mais nuclearizado do que qualquer outro. Por aquelas bandas, a Areva é tão importante quanto é a Petrobrás para nós.

Anne Lauvergeon, a 'Anne Atomique'

Anne Lauvergeon, a ‘Anne Atomique’

Foi naquela época que ganhou o apelido de «Atomic Anne» ‒ Ana Atômica, trocadilho que conjuga o espírito empreendedor da moça com suas atividades nucleares. Boa adaptação francesa de nosso familiar termo gerentona.

Sob a presidência da gerentona, a Areva comprou em 2007, pela inacreditável quantia de 1,8 bilhões de euros (sete bilhões de reais), uma start-up canadense do ramo mineiro. Foi decisão temerária, dado que a companhia adquirida não passava de promessa: nunca havia extraído um grama sequer de minério(!).

O negócio revelou-se um fracasso. Enquanto ainda era presidente da estatal nuclear, madame Lauvergeon tratou de disfarçar o rombo. Para embelezar o balanço, promoveu «pedaladas», chamadas na França de maquiagem fiscal. Dá no mesmo. Apresentou balanço falsificado.

Localização das 58 usinas nucleares francesas

Localização das 58 usinas nucleares francesas

Seguiram-se anos de controvérsias, provas, contraprovas, testemunhos, investigações. Nada adiantou. Olhada com desconfiança pelas altas esferas, madame perdeu o cargo. A partir daí, foi levando a vida fora da esfera política, em postos menos prestigiosos. Mas suas «pedaladas» não saíram da mira das autoridades. Afinal, era muito dinheiro. Dinheiro do contribuinte, diga-se.

Finalmente, neste maio 2016, a Justiça acaba de aceitar formalmente as acusações de trambique nas contas. O futuro de madame está agora nas mãos do equivalente francês de nosso monsieur Moro. Lá como cá, a justiça pode tardar mas acaba alcançando o malfeitor.

Interligne 18h(*) Xerpa (aportuguesamento do inglês sherpa)
Os que se aventuram a escalar montanhas no Himalaia se fazem acompanhar por guias locais da etnia xerpa. Por extensão, o termo passou a designar todo guia tibetano de montanha. Anos atrás, por analogia, a revista The Economist foi a primeira a dar o nome de xerpa àquele que substitui o titular em reuniões preparatórias do G7 (que já foi G8 mas, com a exclusão da Rússia, voltou à configuração originária). Madame Lauvergeon não é especialista de escalada. Seu apelido vem do fato de ter sido chegada ao presidente da França.

Interligne 28aAdvertência
Qualquer semelhança com algum caso ocorrido no Brasil deve ser considerada involuntária e fortuita. O mesmo vale para o título deste artigo ‒ A ruivinha deles.

A intenção do autor jamais foi trazer ao distinto leitor a desagradável lembrança da compra, pela Petrobrás, da usina de Pasadena, a “ruivinha”. Faz alusão apenas à cor do cabelo de madame Lauvergeon. Que, aliás, lhe vai muito bem.

Com claque e sem vaia

José Horta Manzano

Vaia 1Na virada do século 19 para o 20, a ópera andava muito na moda. Antes do disco, da tevê, do rádio e do cinema, espetáculo musical ou teatral tinha de ser assistido ao vivo. Dado que conjugava música com teatro, ópera fazia sucesso e atraía plateias populares.

Para aparentar sucesso de arromba e assegurar artigos elogiosos nos jornais do dia seguinte, cantores costumavam contratar uma claque. Era um grupo de mercenários incumbidos de aplaudir estrepitosamente o desempenho do artista por conta do qual trabalhavam. A um sinal discreto do chefe da tropa, choviam aplausos fenomenais.

Ao final do espetáculo, dirigiam-se os componentes da claque a um lugar discreto onde, em fila, se preparavam para receber o pagamento combinado. Antes de embolsar os cobres, passavam pela inspeção. Suas mãos eram palpadas. Só fariam jus ao soldo se as palmas estivessem quentes, vermelhas, sinal evidente de que haviam aplaudido com vigor. Hoje em dia, espetáculos ao vivo dispensam claque. Fazem sucesso sem estímulos forçados.

Aplauso 1Ontem, no entanto, assistimos a uma emocionante viagem ao passado. Para amenizar a saída inglória ‒ por debaixo da rampa do Planalto, diga-se de passagem ‒, dona Dilma recorreu ao antigo truque. Pequena tropa estava ali, constituída em boa parte de mulheres devidamente paramentadas de vermelho. Palavras de ordem foram regularmente escandidas aos brados. Aplausos e gestos enérgicos não faltaram.

Foi uma comovente volta no tempo, o coroamento apoteótico de uma era de regressão. Esperamos todos que, daqui pra frente, o Brasil volte a funcionar. Esperamos todos que a simbólica ressurreição da claque tenha significado o enterro do retrocesso.

A mídia não registrou a fila da palpação das mãos.

Rei na barriga

José Horta Manzano

Você sabia?

Futebol ZlatanA imodéstia não é atributo privativo de figuras como nosso guia. Volta e meia, topa-se com um daqueles tipos que parecem ter o rei na barriga.

Contratado quatro anos atrás pelo Paris St-Germain, o futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic (de origem bósnio-croata) teve boa atuação. Aos 35 anos de idade, conhecido por sua imodéstia, o atleta já anunciou sua saída do clube ao final da temporada.

O passar dos anos não acalmou a soberba do rapaz. Às vésperas de pendurar as chuteiras, declarou no twitter: «My last game tomorrow at Parc des Princes. I came like a king, left like a legend.» ‒ “Meu último dia amanhã no Parc des Princes. Cheguei como um rei, vou-me embora como um mito”.

Haja modéstia! Nunca antes nesta arena se tinha visto tamanha empáfia. Ou o distinto leitor que coisas assim só acontecessem pelas bandas do Planalto?

Où sont les femmes?

José Horta Manzano

Patrick Juvet, cantor e compositor suíço, fez discreto sucesso nos anos 1970/1980. No Brasil, pouquíssima gente deve ter ouvido falar do moço. Na onda da música tipo ‘discoteca’, à moda na época, seu maior sucesso foi «Où sont les femmes?»Onde estão as mulheres?

Primeiro ministério Temer, 12 maio 2016

Primeiro ministério Temer, 12 maio 2016

Esquecido, o artista vive hoje no ostracismo. A foto do primeiro ministério Temer me levou de volta a 1977. Aquele monte de senhores, de terno escuro e gravata idem, parece um grupo sério. Esperamos todos que a impressão corresponda à verdade. Mas… où sont les femmes?

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Entendo que as qualidades do bom ministro não guardam correlação automática com sexo, cor de pele, crença religiosa, orientação sexual. Assim mesmo, francamente, qualquer psicólogo de botequim recomendaria a inclusão de uma ou duas mulheres, nem que fosse pela simbologia. Afinal, estamos falando da metade da população do Brasil.

Enfim, se der certo e, principalmente, se nos livrar da bandidagem grossa que nos dominava, fecharemos o olho.

Extorsão

José Horta Manzano

O verbo latino torquere deixou descendência abundante. Está na raiz de torcer, distorcer, contorcer, retorquir, torto, torso, entortar, tocha. Aparece também em derivados como torção, distorção, tortuoso, retorção (retorsão), tortilha, contorção, torta. Torcedor, tortura, tortellini e até torcicolo estão na mesma árvore genealógica.

Deixei fora da lista um filhote importante: extorquir. Nestes tempos violentos em que bandidos fazem a lei, o verbo anda muito na moda. O assaltante que, num sequestro relâmpago, obriga o infeliz cidadão a retirar dinheiro do caixa eletrônico está cometendo extorsão. O criminoso que chantageia alguém está tentando extorquir algo da vítima, geralmente dinheiro.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016 A moça não foi extorquida. Informações foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência)do telefone dela. Em seguida, o pirata tentou chantageá-la.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016
A moça não foi extorquida. Informações é que foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência) do telefone dela. Na sequência, o pirata tentou chantageá-la. Ficou na tentativa.

O conceito envolve sempre a violência, explícita ou velada. Extorquir é obter alguma coisa de alguém por meio violento ou ameaçador. Portanto, não se extorque uma pessoa, extorque-se algo dessa pessoa.

Embora seja corriqueiro dizer que «fulano foi extorquido», a boa língua recusa essa formação. Correto será dizer que dinheiro foi extorquido do indivíduo assaltado ou que a confissão foi extorquida por meio de pressão psicológica.

Em resumo, a coisa é que é extorquida, não a pessoa. Extorquir equivale a arrancar com violência. Portanto, arrancar algo de alguém.

Fiz um gato

José Horta Manzano

Gato escondido 2As coisas, às vezes, acontecem na hora errada. Aliás, para coisas indesejadas, nenhum momento é propício. Pelas 11 da noite de ontem, quando costumo dar uma espiadinha na internet pra saber das novidades, não consegui entrar no primeiro site. Tentei um segundo, e nada. Depois do terceiro site fora do ar, tive de reconhecer que o sinal estava interrompido.

Aqui em casa ‒ como é comum por estas bandas ‒, eletricidade, televisão, telefone e internet são fornecidos pela mesma empresa. Como é a fiação? Não sei. Talvez venha tudo pelo mesmo buraco. Técnica, física, matemática e mecânica celeste nunca foram meu ponto forte. Fato é que ontem, de golpe, perdemos internet e telefone fixo. Por sorte, a eletricidade e a tevê continuaram firmes e fortes.

Na Suíça, depois do horário comercial, assistência técnica é tão difícil de achar como agulha em palheiro. A melhor notícia que o «serviço de emergência» da fornecedora conseguiu me dar é que um técnico entraria em contacto comigo na manhã seguinte. Tá.

Gato 1Que fazer? Nada. Panes aqui são muito raras, o que faz que a gente não esteja preparado para elas. Só pra dar uma pequena ideia, nenhuma casa tem caixa d’água. Nunca se ouviu falar nesse apetrecho. Armazenar água em casa, para um suíço, soa tão fora de esquadro como instalar sistema de calefação em Manaus.

Eis senão quando me vem à memória que, anos atrás, por razão que ora me escapa, chegamos a utilizar, por curto período, o sistema wi-fi do vizinho de parede. Com anuência dele, evidentemente. Na época, ele gentilmente nos forneceu a senha de acesso.

Gato escondido 16Aquela situação excepcional durou pouco porque logo tomamos assinatura internet e nunca mais utilizamos o sem-fio do vizinho. Só ontem, no momento da pane, a coisa me voltou à lembrança. O velho laptop que usávamos na época, embora já aposentado, não foi jogado fora. Aqui em casa, ninguém se lembrava mais da senha do vizinho mas… o velho computador de colo, que bobo não é, não se esqueceu. Como o vizinho é assinante de outra empresa, seu sinal estava perfeito.

Retirada temporariamente da aposentadoria que gozava no porão, a maquineta ressuscitou. Aparentemente orgulhosa de voltar à ativa, mostrou seriedade ao captar sem problema o sinal do vizinho, armazenado em sua inesgotável memória. É verdade que a velha maquininha é de uma lentidão à qual não estamos mais acostumados. Mas é sempre melhor que nada.

Graças a ela, pudemos assistir, ao vivo, à destituição do Lula. Não foi um lapso. Para mim, dona Dilma não passou de comparsa desastrada. Os escorraçados foram Lula & caterva.

Fiz um gato que valeu a pena.

Interligne 18c

Observação
O vizinho de parede, a quem deixo aqui meu agradecimento, mantém o apartamento montado embora raramente esteja por aqui. Estes dias, por exemplo, está de viagem.

Só para terminar: depois de 12 horas, internet e telefone voltaram.

Pensamentos soltos ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma senadora petista tem repetido compulsivamente uma analogia para convencer seus colegas e a população de que o impeachment é golpe: “É como condenar à morte uma pessoa por ela ter cometido uma infração de trânsito”.

Golpe 1Data venia, Excelência, o que está acontecendo na minha visão é que a tal pessoa foi pega dirigindo embriagada e se recusa a aceitar perder a carteira, como prevê a lei, argumentando que só tomou cerveja – e que cerveja é sabidamente uma bebida não alcoólica!

Dilma está repetindo, sem querer e sem ter consciência disso, uma frase do famoso escritor português Luís Vaz de Camões: “Amei tanto minha pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela”.

Bebida 4Só que com uma diferença importante: enquanto o lusitano se desesperava com os rumos que maus governos haviam dado à sua pátria, a brasileira vem contribuindo com extremo empenho e eficácia para promover o fim trágico da nossa.

Sei não. Para mim, José Eduardo Cardozo quase conseguiu provar que uma decisão monocrática do presidente da Câmara dos Deputados pode ser danosa para todo o país e que constitui, sem dúvida, um golpe contra o Estado democrático de Direito.

Golpe 2Falhou no seu intento por apenas 72% do total da meta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dilma e o nicho 38

José Horta Manzano

Hoje, amanhã ou daqui a um par de dias, dependendo das surpresas que nos reservem as mambembes sumidades que ainda servem o Planalto, dona Dilma vai-se embora pra casa. E já vai tarde.

Afabilidade nunca foi o ponto forte da «presidenta». Orgulhosa e arrogante, já mandou avisar que não desce a rampa de jeito nenhum. Só cumpre ritos que lhe sejam favoráveis. Esse, naturalmente, não é. Donde recusar-se a segui-lo.

Há antecedentes. Ao terminar o mandato, João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente militar, recusou-se a passar a faixa a José Sarney, seu desafeto. Desatou o nó de maneira pouco cavalheiresca: escafedeu-se pela porta dos fundos.

Tivesse passado a faixa como manda o figurino, todos já se teriam esquecido. Como fez o que fez, deixou marca na história. Entre outros tropeços ‒ e foram muitos ‒, será lembrado por esse também. Para sempre.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Se dona Dilma já não é conhecida por qualidades de estadista, seus dons de visionária são ainda menos evidentes ‒ para não dizer nulos. O guru marqueteiro está fora do ar, atrás das grades. O padrinho, nosso guia, anda sumido, calado, apagado, torcendo pra passar despercebido.

Por tudo isso, é compreensível que dona Dilma tenha decidido sair pela porta dos fundos. Ela parece não ter consciência de estar acrescentando mais uma pincelada negativa ao próprio retrato. Como Figueiredo, será lembrada como «aquela que saiu pela porta da cozinha».

Temerário será acreditar que volte a subir a rampa um dia. Suas chances de voltar ao trono são quase iguais às de bolinha de roleta cair no nicho 38, aquele que não existe. No entanto ‒ nada é impossível ‒ a vida pode dar um boléu. A moça pode até estar de volta daqui a 6 meses.

Caso essa desgraça acontecesse, dá pra imaginar como seria o fim de mandato da petista? Dois anos de agonia interminável, discussões, discórdia, bate-boca, Parlamento paralisado, boicotes, bloqueios, enraizamento da cisão «nós x eles», greves, dólar nas alturas, capitais fugindo, nosso país rebaixado a nível bananeiro, descontentamento generalizado. Verdadeira guerra civil à brasileira.

Misericórdia, Senhor! Melhor nem imaginar. Não há de acontecer.

Visto de cá, visto de lá

José Horta Manzano

PoteauVisto de cá
Nossos conterrâneos roraimenses vivem no único Estado da Federação apartado da rede elétrica nacional. Por motivos que vêm de longe, um convênio entre Brasília e Caracas prevê que as necessidades elétricas de Roraima sejam supridas pela Venezuela.

O acerto funcionou enquanto certa normalidade reinava no país vizinho. As necessidades energéticas roraimenses não sendo enormes, o fornecimento não costumava gerar problema para os venezuelanos.

Desde que o viés populista ‒ dito «bolivarianismo» ‒ passou a dar as cartas no país caribenho, a situação começou a desandar. Desvios de recursos e sucateamento da infraestrutura provocaram desorganização geral. A energia elétrica destinada a Roraima não escapou dos efeitos do desmonte.

O portal Ecoamazônia nos informa sobre o aperto por que vem passando o meio milhão de habitantes do Estado do Norte brasileiro. Transformaram-se em reféns da crise venezuelana. Estão submetidos ao mesmo racionamento que castiga os hermanos.

Monte Roraima

Monte Roraima

Residências, escritórios, fábricas, cinemas, sorveterias, lavanderias e todos os que dependem da energia elétrica estão contabilizando dores de cabeça e perdas financeiras. Enquanto tudo funcionava, ninguém se preocupou. Agora que os apagões se multiplicam, fica evidente a falta de visão dos que tomaram a decisão de se submeter à dependência estrangeira.

Rede de distribuição não se constrói em 24 horas. Por um bom tempo, nossos conterrâneos ainda hão de sentir os efeitos daninhos de uma escolha pela qual não são responsáveis. Ainda que Roraima não seja um Estado de excepcional importância econômica na União, seus habitantes merecem, como todos os outros, ser bem tratados. Chegou a hora de investir na interligação com a rede nacional.

Interligne 18c

Roraima 2Visto de lá
Artigo deste 8 de maio do diário venezuelano El Impulso grita: «Venezuela regala a Brasil electricidad de venezolanos». Na visão de nossos vizinhos, a eletricidade que lhes falta está sendo «dada de presente» ao Brasil.

Reclamam que, enquanto vende energia ao Brasil por preço irrisório, a Venezuela compra eletricidade da Colômbia pelo dobro do valor. Não sou especialista no assunto. No entanto, entendo que trato é trato. Se o preço combinado foi esse, combinado está. Aliás, se alguém não está cumprindo a obrigação no presente caso é justamente a Venezuela.

Viva o bolivarianismo!

Frase do dia — 299

«Estamos em pleno séc. 21 sem sabermos o que é justiça verdadeira e o que significa a Constituição. Seguimos discutindo se bandido deve ser preso ou aposentado com os proventos integrais, pagos com nossos impostos, e se a divulgação de um homicídio é mais importante do que o próprio cadáver…»

Francisco Vieira, em artigo na Tribuna da Internet, 8 maio 2016.

Ai, que preguiça…

José Horta Manzano

Há de ser birra minha, porque errado não é. Assim mesmo, continuo pasmo com o fato de numerosos escrevinhadores ‒ falo de profissionais ‒ não se preocuparem em fugir da rotina e do ramerrão. Gente de jornal, cujo escrito atingirá milhares de leitores, parece não estar nem aí, como se usa dizer.

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Compreendo que dá menos trabalho copiar ‒ ou, digamos, reproduzir ‒ o que já vem pronto. Pra que fazer se é tão mais prático comprar feito, não é?

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

O Brasil viveu, neste 9 de maio, mais um dia de república bananeira. Confirmamos, a cada dia mais, a veracidade do conceito que imaginávamos definitivamente banido: «O Brasil não é um país sério». Não se sabe direito quem lançou essa desagradável expressão. Seja quem for, havemos de convir que não estava longe da verdade.

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Voltando à preguiça dos que escrevem, reparei na manchete principal da mídia na manhã desta terça-feira. Uma sensaboria. Quase tudo igual.

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

O Estadão (SP), a Folha (SP), O Tempo (BH) usaram os verbos recuar, revogar e anular. A Gazeta do Povo (PR) e Zero Hora (RS) contentaram-se com revogar e anular. Mais econômico, O Globo (RJ) limitou-se a anular.

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

O riquíssimo Dicionário Aulete online ‒ de acesso gratuito, aberto a todos ‒ propõe mais de 800 mil verbetes. A linguagem repetitiva não se deve, portanto, a eventual pobreza vocabular da língua. Continuo acreditando que o problema maior é a preguiça. De quem escreve e de quem supervisiona.

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Vários verbos podem substituir recuar(1): voltar atrás, retratar-se, reconsiderar, abandonar, retrogredir, retroceder, fugir, ceder, desistir, recolher-se, reverter, retroagir, retrogradar, rever, retrosseguir, retrair-se. Há outros, basta procurar.

O mesmo vale para revogar. Conforme o caso, pode ser substituído por: extinguir, cancelar, abolir, eliminar, anular, suprimir, afastar, proscrever, retirar, apagar, subtrair, remover, abandonar, abortar, revocar, cassar.

Interligne 18cCulotte 3Curiosidade etimológica
A gente nem sempre se dá conta, mas algumas palavras de uso corrente derivam de raiz tabuística, daquelas que a gente não pronuncia na frente de senhoras de fino trato.

Falo de recuar, acuar, cueca, cueiro, culatra, culote. São todas derivadas de cu. Surpreendente, não?

O verdadeiro golpe

José Horta Manzano

Em decisão monocrática, o deputado Maranhão, presidente interino da Câmara Federal, acaba de anular decisão tomada, semana passada, por seus pares. Foi aquela em que 367 dos 511 parlamentares presentes (72%) votaram pelo acolhimento do processo de destituição da presidente.

Fico com pena do deputado Maranhão. Ofendeu 72% de seus colegas. Irritou 90% de seus compatriotas. Importunou os 11 ministros do STF. Pra coroar, estimulou a turma de magistrados de Curitiba.

Senhor Maranhão dá mostra de falta de discernimento. Fez o que não devia. Ofender uns, irritar outros, importunar terceiros é perigoso.

Concordo que a turma de Curitiba não tem poder sobre deputados, dada a imunidade parlamentar. Mas cuidado, Maranhão, que eles podem transmitir sua folha corrida para o STF. Aí, a coisa vai ficar preta!

Agora güenta, Maranhão!

Dias certos para sentir

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sei que vou chocar muita gente com o que tenho a dizer, mas vou dizê-lo mesmo assim. Não sei explicar esse meu gosto mórbido em ser do contra, procurar o avesso de toda intenção, manifestar desconformidade com o clima geral de celebração.

Tudo que sei é que não gosto de sentimentos impostos com data marcada. Acordar num dia que, só por estar marcado em vermelho na folhinha, exige de mim todo um preparo emocional para oferecer risos, abraços e gestos de ternura. Manifestar, mesmo sem sentir o impulso vindo de dentro, alegria ou gratidão ou solidariedade ou generosidade.

Dia das maes 3Se é Natal, é preciso entrar no clima de confraternização em família. Se é Páscoa, é necessário lembrar que todo ciclo chega ao fim e acreditar na eterna possibilidade de recomeçar. Se é o Yom Kipur, é imprescindível destravar o peito, reafirmar que somos todos falíveis e perdoar quem não correspondeu às expectativas. Se, ao contrário, o dia é de tristeza compulsória, como o Dia de Finados, é praticamente impossível resistir à obrigação de fazer cara séria, deixar que uma lágrima furtiva escape ou rememorar as qualidades e os momentos felizes vividos junto à pessoa que sentimos como ausente.

Ontem foi o Dia das Mães. As redes sociais lotaram de postagens festivas dos que ainda têm a mãe por perto para abraçar e de declarações chorosas de quem já não tem mais essa oportunidade. Qual o problema? Em princípio, nenhum. Cada um é livre para expressar seus sentimentos pelo ângulo e da forma que desejar. O que me incomoda não é o desejo de homenagear, mesmo que comercialmente, uma pessoa que, bem ou mal, representa a âncora mais firme de que dispomos para nos lançarmos nas águas revoltas da vida.

Dia das maes 2O que me perturba desde sempre nessas ocasiões é a sensação de estar sendo forçada a aderir a um movimento de massa, que nem sequer se dá ao trabalho de auscultar a própria verdade interior. Não poder dissentir, não poder moderar, não poder temperar o caldo afetivo com sabores exóticos, não poder pintar o cenário com outras cores mais pessoais.

Falar das experiências dissonantes vividas nas relações familiares, amorosas, religiosas ou políticas tem o peso de um dedo rigidamente apontado contra todas as pessoas que se renderam ao clima de festa. Não se integrar de corpo e alma à paisagem emocional à sua volta é aceitar o risco de transmitir uma mensagem ambígua ou oposta: não acredito no Deus redivivo, não compartilho da crença de que o recomeço é possível, não consigo sufocar minhas mágoas, não amo minha mãe, não valorizo a vida eterna.

Dia das maes 4Lembro que um dia, durante uma sessão de psicodrama, o terapeuta me chamou ao palco e pediu que eu representasse o papel de uma histérica para contracenar com um homem que enfrentava conflitos com a esposa. Estranhamente, senti de imediato que meu corpo todo havia se paralisado. Não podia gritar, não podia chorar, não podia gesticular, por mais que minha cabeça assim o ordenasse. O terapeuta, então, aproximou-se devagar pelas minhas costas e prendeu com força meus braços para trás. A reação veio com fúria e de chofre: passei a me debater descontroladamente, a me descabelar, chorar e gritar a plenos pulmões. Só um pensamento ocupava minha mente: libertar-me de qualquer maneira daquela contenção indesejada. A crise só terminou quando, vencida pelo cansaço, me deixei desabar no chão, escapando do confronto pelo meio das pernas do terapeuta.

Dia das maes 6Talvez seja isso, afinal, o que se esconde por trás de todos os meus descompassos emocionais. É o que eu sinto por dentro que me move, não o que se espera de mim por fora. Sinto como agressão o desrespeito à espontaneidade do meu estado de humor. Minha paralisia denuncia então, mesmo a contragosto, o meu não-pertencimento, a vontade que não sinto como minha.

Compreendo, é claro, que minha verdade psicológica não é necessariamente a mesma da de outras pessoas, nem acontece forçosamente em sincronia com qualquer outra. Sei que é possível experimentar conforto mesmo quando a gente se deixa levar por uma onda de afeto programado.

Dia das maes 1O que me constrange é não ser capaz de expressar sem agressividade meu apreço pela liberdade interior que todo ser vivente tem – ou deveria ter – de manifestar suas emoções quando, onde e do jeito que quiser. Pela licença autoconcedida de sentir-se triste quando todos estão felizes. De se perdoar por não ser capaz de se enternecer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.